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Full text of "Da Asia de João de Barros e de Diogo de Couto"


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DA ÁSIA 

D E 

JOÃO DE BARROS 

DOS FEITOS, QUE OS PoRTUGUEZES FIZERAM. 

NO DESCUBRIMENTO , E CONQUISTA DOS 

MARES, E TERRAS DO ORIENTE. 

DÉCADA SEGUNDA. 

PARTE SEGUNDA. 




LISBOA 

Na Regia Officina Typografica* 
anno mdcclxxvii. 

Com Licença da Real Meza Cenforia , e Privilegio R«/> 





'7 






ÍNDICE 

DOS CAPÍTULOS , QUE SE CONTÉM 
NESTA PARTE II. 

DA DÉCADA II. 

LIVRO VI. 

^AP. I. Em que fe defcreve o fttio da 
Reyno de Malaca : e o fundamento 
da primeira povoação da Cidade 5 
e do trato , e coufas delia. Pag. 2. 

CAP. II. Do que Affonfo d ) Alboquerque paf 
fou no caminho que fez de Cochij té a 
Ilha Camatra , onde foi vifitado dos Reys 
de Pedir , e Pacem : e do que mais fez, 
té chegar a Malaca. 27. 

CAPC III. Como Affonfo d"* Alho quer que foi 
vifitado d'ElRey de Malaca : e das dif 
f crenças que per recados entre elles hou- 
ve fobre a entrega de Ruy d J Araújo , e 
dos outros cativos , té que vieram em 
rompimento de guerra. 40. 

CAP. IV. Como Affonfo d? Alboquerque fa- 
hio em terra , e d força de armas tomou 
a ponte com viShria que houve d^ElRey 
de Malaca : e depois fe tomou recolher 
as nãos , e as caufas porque. 55'. 

CAP. V. Como Affonfo d"Alboquerque por 
alguns impedimentos que teve , em quan- 
to a gente f arava do damno que recebeo 
* ii na> 



1 N D I C E 

na batalha , cfleve recolhei to em as nãos , 
té que feguncla vez tomou commetter a 
Cidade , e totalmente a tomou. 66. 

CAP. VI. Como depois que Affonfo d"Albo- 
quer que defpejou a Cidade Malaca , fa- 
bendo que o Príncipe Alodim fe fazia 
forte no lugar da Cidade Beitam , man- 
dou fobre elle , e o fez ir dalli : e do mais 
que fez pêra fegurança , e governo da 
Cidade. 8o. 

CAP. VII. ComoVtimutirãja por algumas 
coufas que commetteo , foi julgado d mor- 
te com feus filhos : e dos movimentos de 
guerra que os feus por ijjò fizeram té 
Affonfo cVAlboquerque fe partir pêra a 
índia : e de algumas embaixadas que lhe 
vieram , e mandou a diverfas partes an- 
te que fe partijfe , e ajfi huma Armada 
a defeubrir Maluco , e Banda. 92. 

CAP. VIII. Como os Mouros das terras 
firmes de Goa , partido ajfonfo d^/llbo- 
querque pêra Malaca , lhe vieram fazer 
guerra , té hum Capitão do Hidalcao en- 
trar na Ilha , em que o Capitão Rodri- 
go Rabello , e Manuel da Cunha foram 
mortos. 110. 

CAP. IX. Como o Hidalcao mandou outro 
Capitão fobre Goa , e o modo que teve 

I pêra com nojfa ajuda lançar Pulate Can 
da fortaleza que começou fazer : e o 

mais 



dos Capítulos 

■•mais que aconteceo no tempo que a Ci- 
dade efteve cercada , té fe nella lançar 
João Machado hum Portuguez que an- 
dava entre os Mouros. 126. 
CAP. X. Como depois da vinda de João 
Machado d Cidade Goa , e principalmen- 
te com a chegada de Manoel de la Cer- 
da , Diogo Fernandes , João Serrão que 
lá andavam , e depois com a chegada de 
Chrijiovão de Brito , que àejie Reym 
fartio com D. Aires da Gama , que eram 
da Armada de D. Garcia de Noronha > 
ella ficou livre dos grandes trabalhos 
que teve. 141. 

LIVRO VIL 

CAP, L Como Ajfonfo d? Alboquerque 
partido dia Cidade Malaca , fe veio 
perder em os baixos de Aru na cofia de 
Çamatra : e falva fua pejjòa , e gente , 
tornou a feu caminho , no qual tomou 
duas nãos té chegar a Cochij. Pag. 15*2. 
CAP. II. Da viagem , que D. Garcia de 
Noronha fez com as nãos com que par- 
tio defle Reyno o anno de quinhentos e 
onze: e do que também pajfaram Jorge 
de Mello Pereira , e Garcia de Soufa o 
anno de doze com outra Armada de do- 
ze náos 7 de que elles foram por Capi- 
tães 



Índice 

taes mores : e o que todos fizeram em 
Moçambique , onde Jè ajuntaram. 161. 

CA p/ III. Como Jorge de Mello , e Gar- 
cia de Soufa com D. Garcia partiram 
todos em con ferva pêra a índia , onde 
chegaram , e o que fizeram té fe ver com 
Afjonfo d Alboquerque : e de algumas cou- 
Jas que elle proveo ante de partir de 
Cochij pêra Goa. 170. 

CAP. IV. Como chegado Afforfo d? Alboquer- 
que á Cidade Goa , onde foi recebido com 
grande folemnidade , os Mouros do caf 
tello de Benejiarij lhe correram , e elle 
os foi encerrar no mefmo : e por caufa 
de querer commetter a entrada delia , 
morreram três Capitães , e outra gente 
da no ff a. 180. 

CAP. V. Como Affonfo ã 'Alboquerque , pro- 
vidas algumas coufas a ejla ida neceffa- 
rias , aífi pêra mar , como pêra terra , 
pnrtio de Goa a pôr cerco ao caflello , 
que os Mouros tinham feito no Pajfo de 
Benejiarij. 191. 

CAP. VI. De algumas coufas, que Affon- 
fo d? Alboqurrque paffou com Roztomocan , 
e affi da paz que affentou com o Çamo- 
rij de Calecut , e da vinda do Embaixa- 
dor do Prejle João , e do outro d^ElRey 
de Ormuz a efle Reyno na Armada que 
aquelle anno partia da Índia. 210» 

CAP. 



dos Capítulos 

CAP. VIL Do que Affonfo d? Alboquerque 
fez depois da tomada do Caftello Benef* 
tarij : e como , affentadas as coufas de 
Goa , partio pêra o ejlreito do mar Ro- 
xo com httma Armada de vinte velas : 
e o que pajfou té chegar d Cidade Adem > 
e je determinar de a tomar per força 
de armas. 220. 

CAP. VI II. Em que fe d efe revê o Jitio , e 
pojlura da Cidade Adem y e as coufas 
delia. 233. 

CAP. IX. Como AJfonfo cVAlboquer que com- 
inei teo tomar a Cidade Adem d efe ala 
vifia : e o que nifjò pajjou , per onde nao 
houve efeito tomalla de todo. 238. 

CAP. X. Como recolhido Affonfo cYAJboquer- 
qite ás nãos > por algumas razoes que 
importavam , lei x ou defegunda vez com- 
metter a Cidade > e dahi fe partio pêra 
as portas do ejlreito, onde chegou. 252. 

LIVRO VIII. 

CAP. I. Em que fe defereve o mar Ro- 
xo : e todalas povoações , e portos 
do marítimo de lie. Pag. 2 5 o. 

CAP. II. Como Affonfo d^Alboquerque en- 
trou dentro no ejlreito , e o que pajfou 
té invernar na Ilha C amaram, 278. 
Cx\P. III. Do que Affonfo d^Alboquerque 

paf 



Índice 

pajfou em quanto invernou na Ilha Ca- 
maram : e depois que fe partio delia té 
chegar á Cidade Adem. 286. 

•CAP. IV. Como chegado Ajfonfo cVAlbo- 
querque d Cidade Adem , efieve alguns 
dias fohre ella fazendo-lhe o damno que 
pode: e do mais que alli fez té fe par- 
tir. 294. 

CAP. V. Como Ajfonfo dSAlboquerque par- 
tio de Adem , e chegou ao porto da Ci- 
dade Dio , onde fe vi o com Melique Az 
fenhor delle : e dahi fe partio pêra Chaul y 
onde chegou 5 e achou Trifiao de Gd , que 
elle tinha mandado a EIRey de Cam- 
baya. 301. 

£AP- VI. Como Ajfonfo cV Alboquerque hou- 
ve certas nãos de Mouros , que com hum 
temporal carregadas de efpeciaria arri- 
baram d cofia da índia , indo pêra o ef- 
treito do mar Roxo : e partindo de Chaul , 
chegou a Goa , onde achou novas ferem 
vindas nãos defie Reyno . de que era Ca- 
pitão mor João de Soufa de Lima , e o 
mais que fez té o ãefp achar com cargz 
de efpeciaria. 310. 



LI- 



DOS C APITULOS 

LIVRO IX. 

CAP. I. Como o Jao Patê Quetir , que 
vivia na povoação Upi , depois que 
Affonfo d* Alb o quer que partio da Cidade 
Malaca , continuando a guerra 5 mandou 
tomar certa artilheria , onde mataram 
Affonfo Peffoa , que eftava em guarda da> 
tranqueira , donde fe caufou ir Fernão 
Peres d^ Andrade fobre elle , e lhe quei- 
mou a povoação. Pag. 321. 

CAP. II. Como Fernão Peres d' Andrade 
Capitão mor do mar foi commettcr a 
fortaleza de Patê Quetir ? e depois de 
ter vitoria delle , ao embarcar lhe ma- 
taram gente nobre : e do que pajjòu com 
La cf ama na Capitão mór do mar d' El- 
Rey Mahamud. 330. 

CAP. III. De algumas coufas que Fernão 
Peres fez , e pajfou : e da grande fome 
que houve em toda a terra : e como com 
ofoccorro que Affonfo d^Alboquerque man- 
dou da índia , Fernão Peres deftruio Patê 
Quetir ^ oqualfugiopera ajauha. 342. 

CAP. IV. Em que fe defcreve a Ilha Jau- 
ha: e como hum Príncipe delia chamado 
Patê Unuz fez huma mui groffa Arma- 
da pêra vir fobre Malaca : e o que os 
voffos fobre ifo fizeram. $$u 

CAP. 



Índice 

CAP. V. Como Patê Unuz imo oufandê 
commetter a noffà Armada , nem menos 
fahir em terra , por confelho que teve , 
fe pari to : e Fernão Peres foi trás elle , 
e o desbaratou. ^y. 

CAP. VI. Como a fortaleza de Malaca per 
aftucia de hum criado d^ElRey Ma baniu d 
ejieve em termo defer tomada : e do que 
fe mais paffou té chegada de Jorge ã*Al- 
boquerque , que foi fervir de Capitão 
delia. 374. 

CAP. VII. Como Jorge cVAlboquer qut * Ca- 
pitão de Malaca mandou per Abedeld 
Rey de Campar pêra fervir oficio de 
Benddra : e quanto EIRcy de Bintam tra- 
balhou polo elle fiao fer , té que foi cau- 
fa de fua morte. 385'. 

livro x. 

CAP. I. Como Affonfo d^Alboquerque 
por algumas coufas o anno de qua- 
torze efleve provendo as fortalezas \ no 
qual tempo mandou Pêro d"Alboquerque 
de Armada a Ormuz , e a Diogo Fer- 
nandes de Beja a EIRey de Cambaya y 
e a João Gonçalves de Caftello-branco ao 
Hidalcão : e da Armada que dejie Rey- 
tto partio , Capitão mór Chrifiovão de 
Brito y que chegou a Goa em Setem- 
bro* Pag. 396. 

CAP, 



dos Capítulos 

CAP. IT. Como o anno de quatorze parti- 
ram âejle Reyno cinco nãos , Capitão mor 
Chrijhvão de Brito , das quaes defpa- 
chaâas algumas , a que Affonfo d? Alho- 
querque mandou dar carga , elle fe par- 
tio com huma grojfa Armada pêra Or- 
muz , aonde chegou. 406. 

CAP, III. De algumas coufas que entre 
EIRey de Ormuz , e Affonfo d?Alboquer- 
que paffáram , té elle fer entregue da 
fortaleza , que tinha começado da pri- 
meira vez que alli veio. 415'. 

CAP. IV. Como Affonfo d?Alboquerque re- 
cebeo hum Embaixador do Xeque Ifmael 
com hum prefente que lhe trazia , c o 
defpacho que houve de fua Embaixa- 
da. 4 2 3« 

CAP. V. Em que fe diz que homem era 
Raez Hamed , que tinha fujeito a EI- 
Rey de Ormuz : e como Affonfo $ Albu- 
querque fe vio com EIRey , nas quaes 
viftas foi morto Raez Hamed tyranno , 
e Ormuz defpejado de todolos feus pa- 
rentes y e EIRey pofto em fua Uberda- 
de. 429. 

CAP. VI. Em que fe efcreve o fundamen- 
to da fe&a de Hamed , e a differença 
que tem os Mouros da Per/ia com os de 
Arábia acerca delia : e donde nafceo o 
principio das coufas dç Xeque Ifmael. 448. 



Índice 

CA?. VII. De algumas coufas que Affon- 
fo (V Alboquerque fez em Ormuz : e do 
rendimento , e eftado que tem efte Rey- 
no: e a defpeza que EIRey faz em fua 
pejfoa , e cafa. 474. 

CAP. VIII. Corno Affonfo d? Alboquerque 
defpachou D. Garcia de Noronha pêra 
fe vir pêra efte Reyno com a carga da 
efpeciaria 1 e depois de fua partida de 
Ormuz adoeceo Ajfonfo d? Alboquerque 
de enfermidade , que conveio partir-fe pê- 
ra a índia : e do que pajfou ito caminho 
té o porto de Goa , onde faleceo. 484. 



DE- 



DÉCADA SEGUNDA. 
LIVRO VI. 

Dos Feitos , que os Portuguezes fizeram 
no defcubrimento y e conquifta dos ma- 
res , e terras do Oriente : no qual fe 
contém a tomada do Reyno de Ma- 
laca j e o mais que Affonfo d' Al- 
boquerque fez nos annos 
de onze, e doze. 



CAPITULO L 

Em que fe defcreve ofitio do Reyno de Ma* 
laca: e o fundamento da primeira po- 
voação da Cidade , e do trato y 
e coufas delia. 




Vio como e 
Tom, II. P.il, 



M a defcripção geral que fíze- 
mos de toda a coita da índia , 
e fuás Comarcas , relatando to- 
dolos portos , e principaes po- 
voações do maritimo delia , fe 
a Cidade Malaca $ que AíFonfo 
A d 5 Al- 



i ÁSIA de João de Barros 

cPAlboquerquc hia conquiftar, eílava fitua- 
da naquella parte da terra , a que os Geó- 
grafos chamam Áurea Cherfonezo. E por- 
que em as taboas da nofla Geografia a olho 
íe pode ver a íituação deita Cidade Mala- 
ca 3 aqui fomente pêra entendimento da hif- 
toria trataremos da fundação, commercio, 
e coufas delia , té o citado cm que Áffoníò 
d'A!boquerque chegou a feu porto , o mais 
breve que em nós for. Porém primeiro que 
entremos na relação deitas coufas , porque 
como efta hiftoria vai em linguagem, e al- 
guns , que a lerem , per ventura não enten- 
derão cite termo Cherfonezo ufado entre 
os Geógrafos : devem faber que he palavra 
Grega , e propriamente fe toma per huma 
pequena partícula de terra pegada per tão 
delgada coufa , como he o pé da folha da 
figueira pegada no ramo delia ; a qual figu- 
ra tem a terra Peloponezo , a que ora cha- 
mamos Morea , que antigamente era a flor 
da Grécia , poíto que Plinio a quer compa- 
rar á folha do plátano por a muita feme- 
Ihança que tem com ella. Eíte nome Cher- 
fonezo , peró que feja nome commum de 
todalas terras que tem efta figura , pêra pró- 
pria denotação da terra , de que os Geó- 
grafos querem fallar , fempre lhe dam hum 
epitheto , affi como a efta de que falíamos 
Áurea , e a que faz o rio Tanais ; que divide 

a Eu- 



Década lí. Liv. VI. Cap. I. % 

a Europa da Afia , a que elles chamam Tau- 5 
rica Cheríònezo. Efta noffa de Malaca pa- 
rece que houve efte epitheto de Áurea por* 
razão do muito ouro que fe traz de Mo- 
nancabo , e Barros , que são duas Comarcas 
onde fe eile tira na Ilha Çamatra, que he 
a própria a que os antigos chamam Cher- 
íònezo , cuidando fer contínua a outra ter- 
ra firme , em que ora eftá íituada Malaca* 
O tempo certo em que fe fundou efta Ci- 
dade , acerca dos feus moradores não ha 
efcritura que vieíTe á noíTa noticia: fomen- 
te he fama commum entre elles que , ao 
tempo que nós entrámos na índia , haveria 
pouco mais de duzentos e cincoenta annos 
que era povoada , e que a caufa de ília fun- 
dação foi efta. Antigamente a mais célebre 
povoação que havia naquella terra de Ma- 
laca era huma chamada Cingapura , que em 
fua lingua quer dizer falia demora 9 a qual 
eftava íituada em huma ponta daquella ter- 
ra , que he a mais auftral da Afia íituada 
em altura de meio gráo da parte do Nor- 
te , fegundo noíla graduação. E fe nefta 
parte havemos de dar credito á taboa de 
Ptholomeu , deve fer aquella terra a que elle 
chama o grande promontório , onde fitua 
a Cidade Zába , em que faz tanta compu- 
tação de duas diftancias , como coufa mui 
célebre ; porque ante da fundação da Cida*» 

A ii de 



4 ÁSIA de João de Barros 

de Malaca neíía Cingapura , (que pelo fítio 
feria aquella Zába de Ptholomeu , ) concor- 
riam todolos navegantes dos mares Occi- 
dentaes da índia 5 e dos Orientaes a ella , 
que são as regiões de Sião , China , Choam- 
pá , Camboja , e de tantas mil Ilhas 5 como 
jazem naquelle Oriente. As quacs duas par- 
tes os naturaes da terra chamam Dybanan- 
guim 5 e Ataz , Anguim que quer dizer 
abaiio dos ventos , e acima dos ventos , 
abaixo Ponente , e acima Levante. Porque 
como os principaes , com que fe navegam 
aquellas partes , procedem de dous grandes 
golfãos , o de Bengala , e o outro que fe 
vai eftendendo contra as terras de China 3 
furtando-fe em grande altura do Norte , tem 
razão de chamar a eíla parte , acima , e a es- 
toutra , abaixo. E também porque quando 
o Sol lhe nafee , fe alevanta ; e quando fe 
põe , defee , que parece imitarem o noíTo 
modo , donde dizemos Levante , e Ponente j 
e quanto ao fitio deita grande Cidade Cin- 
gapura , onde todos vinham deferir como 
a hum geral empório , e feira , a huns fica- 
va hum mar Levante , e a outros Ponente. 
E fegundo os povos Malaios dizem , ( de 
quem nós recebemos eíla relação,) no tem- 
po que a Cidade Cingapura florecia , era 
Senhor delia hum Rey per nome Sangeíin- 
ga> eneíle meímo tempo faleceo outro Rey 

na 



Década II. Liv. VI. Cap. I. £ 

fia Ilha Jaoa feu vizinho chamado Pa rárifá> 
o qual leixou em tutoria dous filhos de mui 
pequena idade encommendados a hum feu 
irmão. Eíle tio dos moços , depois que co- 
meçou governar a Jauha , com cubica do 
Reyno matou o maior delles , que foi cau- 
fa de fe levantarem contra elle os Senhores 
da terra ; e como a Fortuna fempre favore- 
ce nos primeiros princípios a maldade , 
houve elle tantas vidtorias delles , que mui- 
tos com temor começaram de fe deílerrar, 
e bufcar novas povoações , entre os quaes 
foi hum per nome Paramiíbra. O qual vin- 
do fugido deite tyranno , que o queria ma- 
tar por elle defender a juftiça do feu Prín- 
cipe, e fendo recebido com amor, e gaza- 
lhado d'E!Rey Sangeíinga de Gingápura , 
que elle foi bufcar por amparo , e refugio 
de feu defterro ; commetteo contra elle ou- 
tra maior maldade , que aqueile de quem 
elle vinha fugindo , porque não tardou mui- 
to tempo que lhe não pagafle a honra , e 
gaza) liado que lhe fez, tendo modo como 
o matou , e fe fez íènhor da Cidade com 
o poder da gente Jauha que comíigo trouxe. 
Sabida efta maldade per EÍRey de Sião , Se- 
nhor , e fogro defte morto , mandou logo 
hum feu Capitão fobre Paramifóra ; mas 
aíli efte , como outros que depois vieram , 
todos foram com a cabeça quebrada , té que 

o mef- f 



6 ÁSIA de Joio de Barros 

o mefmo Rey de Sião per fi com grande 
exercito de Elefantes , e poder de gente per 
terra , e frota per mar veio fobre elle. Pa- 
ramifóra não oufando efperar a potencia 
d 5 ElRey , defpejada a Cidade Cingápura , 
com dous mil homens veio ter ao rio de 
Muar , que feria de Cingápura obra de qua- 
renta e cinco léguas , e cinco donde ora cf- 
tá íituada a Cidade Malaca , no qual rio 
em hum lugar per elle acima , a que cha- 
mam Pago , fez huma força de madeira , 
onde fe recolheo , temendo ainda o poder 
d'ElRey de Sião. Porque dado que fe elle 
tornafle , leixou naquella Cidade Cingápura 
hum Capitão feu por Governador , ao qual 
podia mandar que o vieífe alli bufear 5 pois 
ainda eftava em terras de feu eftado , e fe- 
nhorio , como era toda aquella coita. E 
porque ao tempo que Paramilora fugio , ef- 
te furor d^ElRey de Sião trouxe comíigo 
huma gente , a que elles chamam Celíates , 
homens que vivem no mar , cujo offieio he 
roubar 5 e pefear , com o favor, e ajuda 
dos quaes elle fe fez fenhor de Cingápu- 
ra , e fuíleve por elpaço de cinco annos , 
quando veio a fe recolher no rio Muar, 
como já eftava com menos poder , temen- 
do-fe delles , não os quiz receber em fua 
povoação de Pago j e dando a iíTo algumas 
razões íimuiadas, mandou que mais abaixo 



Década II. Liv. VI. Cap. I. 7 

fizeflem fua povoação. Os Cellates , poflo 
que fua vivenda he mais no mar , que na 
terra , e alii lhes nafcem os filhos, alli os 
criam fem fazerem aigum affento na terra ; 
todavia porque ficaram em ódio com os de 
Cingápura, e com todalas Ilhas de feu fe- 
nhorio , nãooufáram de tornar áquellas par- 
tes , e por então vieram fazer fua vivenda 
■á borda de hum rio , onde ora eftá íítuada 
Malaca , que fera cinco léguas do rio de 
Muar, onde Paramifóra fez feu aílento. E 
a primeira povoação que fizeram", foi em 
hum monte, que eftá lòbre a fortaleza que 
alli temos , no qual acharam alguma gente 
da própria terra quafi meios íal vages no 
modo de feu viver, cuja lingua era a pró- 
pria Malaia , de que toda aquella gente 
ufava , e com quem eftes Cellates fe enten- 
diam. Entre os quaes peró que logo no 
princípio huns fe eíquiváram dos outros po- 
la diíferença do viver , todavia per meio 
das mulheres 3 de. que os Cellates andavam 
desfalecidos , fe vieram todos ajuntar em 
huma povoação , confervando-fe entre íi 
com o exercicio a que eram coílumados , 
os Cellates trazendo do mar, e os Malaios 
dos frutos da terra. E como o lugar cm 
que eftavam por ferem já muitos era eftrci- 
to , mudáram-íè dalli obra de huma légua 
per o rio acima a hum monte de compri- 

men- 



8 ÁSIA de JoXo de Barros 

mento de meia légua , a que elles chama- 
ram Beitam ; na fralda do qual eftava hum 
campo , a que também deram efte nome, 
com o qual fitio , por fcr grande 3 e efpaço- 
fo , e faberem que Paramilõra vivia em lu- 
gar eftreito , o foram convidar , levando-lhe 
por moftra da fertilidade da terra algumas 
trutas. Entre as quaes foi huma , a que ora 
chamam duriões , coufa muieftimada, etão 
golofa , que contam os mercadores de Ma- 
laca vir já áquelle porto mercador com hu- 
ma náo carregada de muita fazenda , e có- 
rneo toda neftes durióes , e gaílou em amo- 
res das moças Malaias. Finalmente vifto e£ 
te lugar per Paramifóra , leixou a vivenda 
do Pago , e veio povoar naquelle campo 
Beitam , onde viveo muitos annos , fempre 
aíTombrado dos Governadores , que por El- 
Rey de Sião eítavam em Cingápura. Peró 
depois que efte cafo com o tempo foi es- 
quecido , e hum filho de Paramifóra cha- 
mado Xáquem Darxá governava aquelíe po- 
vo , por feu pai fermui velho, por fe apro- 
veitarem do mar, que era o principal fun- 
damento de que elle efperava vir ter a gran- 
de eftado , veio fazer povoação de Mala- 
ca , a que elle deo efte nome em memoria 
do defterro de íeu pai , porque em fua pró- 
pria língua quer dizer homem defterrado , 
donde os povos fe chamam Malaios. E o 

cam- 



Década II. Liv. VI. Cai». I. ç 

campo Beitam leixáram feito em pomares 
com algumas caías ao modo das noíTas 
quintas , ás quaes elles chamam duções , 
onde em certos tempos do anno coíiuma- 
vam levar fuás mulheres a folgar. E pofto 
que os povos Cellates era gente baixa , e 
vil , e os naturaes da terra meios falvages , 
Paramifóra , e feu filho Xaquem Darxá por 
os acharem fieis amigos em feus trabalhos , 
ou (por melhor dizer) nos males que com 
feu favor commettêram , e principalmente 
por fe aproveitar muito delles na povoa- 
ção , e nobrecimento de Malaca, lhe deram 
nobreza , caiando com os mais nobres dos 
Jaios queelle trouxe dajauha; e deíles Cel- 
lates , e Malaios naturaes vem todolos Man- 
darijs , que ora são os Fidalgos de Mala- 
ca , em modo de privilegio dos Reys que 
ao diante foram , corno a primeiros povoa- 
dores daquella Cidade , o qual titulo de Rey 
começou nefte Xaquem Darxá. Porque fa- 
lecido o Rey de Sião, que feu pai temia, 
com Armadas de navios de remo , a que os 
Celiates eram mui coftumados 5 começou de 
obrigar asnáos que navegavam 'per aquelle 
eftreito d'antre Malaca , e a Ilha Çamatra , 
que não foliem adiante a Cingápura , e as 
de Levante que vieííem alíi fazer com eftas 
de Ponente fuás comniutaçoes de mercado- 
rias, fegundo feu antigo ufo; com a qual 

for- 



tio ÁSIA de João de Bakros 

forca Cingápura começou de íe defpovoar 
de mercadores vindo habitar Malaca. El- 
Pvey de Sião fabendo parte do cafo , em 
que elle perdia grande rendimento , por 
aquella lua Cidade ler efcala geral de Le- 
vante > e Ponente , começou de mover guer- 
ra a eíle Xáquem Darxá. Finalmente vendo 
elle que pêra viver feguro lhe convinha fa- 
zer-fe vallallo d'EiPvey de Sião , e gover- 
nar a terra em feu nome, mandou-lhe fo- 
bre iílb feus Embaixadores , pedindo-lhe que 
por quanto toda aquella coita era herma , 
e fem povoações, e leu pai, e elle tinham 
povoada aquella Cidade , a qual ( fegundo 
a commum opinião) eílava íituada em me- 
lhor lugar pêra navegação de Levante a Po- 
nente , que a Cidade Cingápura , lhe aprou- 
veíte de o confirmar naquelle eílado , limi- 
tando-Ihe demarcação de terra , a qual elle 
queria governar em feu nome , e como vaf- 
lallo pagar-lhe outro tanto tributo como 
elle havia dos rendimentos de Cingápura. 
Acceitada eíh obediência per EIRey de Sião , 
Umitou-lhe por Comarca daquelle eirado em 
que o confutuio por Rey , começando do 
Oriente em Cingápura , entrando niíío as 
Ilhas de Sábam , e Bintam té huma Ilha 
chamada Pullocambilam , que lie ao Pcnen- 
te de Malaca obra de quarenta léguas, com 
a qual demarcação elle ficou fenhor por coi- 
ta 



Década II. Liv. VI. Cap. I. n 

ta do mar té noventa léguas , que ferão de 
Cingápura té Pullocambilam. E poílo que 
efte novo eftado de Malaca desfez o outro 
tão antigo de Cingápura , a principal cauía 
foram o curfo dos temporaes , com que to- 
talmente a Cidade fe defpovoou , porque do 
mez de Setembro em, diante té entrada de 
Dezembro curfam os ventos Ponentes , e 
Noroeíles , que entram per eíle canal que 
faz a Ilha Çamatra , e a cofta da terra fir- 
me de Malaca. Peró não paííam do mar 
do Ponente , a que Ptholomeu chama a en- 
feada Sabarica , á outra Perirnulica do Le- 
vante , mas moram os de cá obra de qua- 
renta léguas de Malaca junto de huma Ilha , 
a que os noífos chamam a Polvoreira , e os 
da terra Barala ? que quer dizer caía de 
Deos , por razão de hum antigo templo que 
alli eíleve. E com eíles taes tempos nave- 
gam pêra lá de toda a índia , e do Quelij , 
e ifto da fim de Agoíto té a fim de Oclu- 
bro , porque como vem Novembro , cor- 
rem Nortes , e Kordeftes té a entrada de 
Abril , com os quaes vam de Bengala , Pe- 
gu , Tanaçarij 3 e de toda aqueila coita , e 
fervem também áquelies que vem de Ma- 
laca pêra a índia. Com eíles niefmos tem- 
pos que curfam Dezembro , e Janeiro na 
outra coda da terra de Malaca da banda 
do Levante vem dos Reynos da China ,. 

Gho- 



12 ÁSIA de JoXo de Barros 

Choainpá , Camboja y Sião , e das Ilhas de 
Burneo , com os quaes chegam ao Canal 
de Malaca per tcdo Março , e Abril , mas 
não paliam de Cingápura por acalmarem 
alli, e com elles lahem de Malaca em mo- 
do de embate pêra toda a Jauha , Timor , 
Maluco. E de Maio té a fim de Agoílo , 
pela maior parte curfam os ventos Sul , 
Suefte , que fervem pêra vir de Çunda , e 
de tanto número de Ilhas como cílam na- 
quellas partes , com os quaes chegam té o 
canal de Polimbam , que he o derradeiro 
porto de Çamatra , quanto a nós os de Po- 
nente , e primeiro aos de Levante ; poílo 
que algumas vezes são tão tefos que che- 
gam quafi té Malaca , mas geralmente mor- 
rem neíte canal ante de chegar a cila. Po- 
rém fempre de Çamatra ? Ilhas de Bintam y 
e Sabam vizinhas a ella , per entre as quaes 
vem o canal da navegação da parte Orien- 
tal , ferve vento 3 e maré que leva os navios 
té Malaca. De maneira , que ambas eftas 
navegações , aíli da parte abaixo do vento a 
que elles chamam Ponente , como acima do 
vento , que he a de Levante , ainda que as 
monções geraes acalmem quarenta , c cin- 
coenta léguas ante de chegar á Cidade de 
Malaca , que eílá fituada no meio daquelle 
eftreito , baila pêra tomarem o feu porto 
marés , e ventos terrenhos diambas as ter- 
ras. 



Década II. Liv. VI. Cap. I. 13 

ras. E como eftes temporacs do anno não 
ferviam tanto a proveito dos navegantes 
quando Cingápura profperava , de duas fa- 
ziam huma , e eíla era a mais commum; 
todolos que navegavam da parte do Ponen- 
te , hiam per fora da Ilha Çamatra entran- 
do per o canal que fe faz entre ella , e a 
Jauha , ou entravam per entre ella , e a terra 
de Malaca. E por lhe os tempos não fer- 
virem todo aquelle eftreito té vafarem da 
outra parte em Cingápura > forçadamente 
invernavam no meio deíle ; e per qualquer 
maneira que foíTe , era eíla viagem aíii per 
fora , como per dentro da Ilha Çamatra tão 
vagarofa , que não tornavam a fuás terras 
çm menos tempo que dous annos. O qual 
efpaço de tempo também haviam mifter os 
que navegavam o mar de Levante , porque 
haviam de efperar em Cingápura que fol- 
iem os de Ponente com fuás mercadorias 
pêra fazerem fuás mutações. E porque ge- 
ralmente todolos que navegavam per fóra 
da Ilha , por fer viagem mais fegura ainda 
que comprida , eftavam feguros de invernar , 
como indo por dentro , ao modo que ora 
vemos os noífos navegantes daqui pêra a 
índia , que quando partem tarde , vam per 
fora da Ilha de S. Lourenço por terem os 
tempos mais largos ; defte coftume com al- 
gumas fabulas P que a antiguidade fempre 

tem > 



14 ÁSIA de JoÃo de Barros 

tem , aíll como os perigos de Scylla , e 
Charybdes rib tranfito de Sicília , bancos 
de Flandes entre a terra firme , e a Ilha In- 
glaterra, ou os baixos de Ceilão entre efta 
Ilha • e a terra do Cabo Comorij , haveria 
opinião na índia não ter aquelle mar tran- 
fito de Ponente a Levante , donde os Gre- 
gos , e Ptholomeu chamariam áquella terra 
Gheríbnezo. Peró povoada a Cidade Mala- 
ca em meio daquelle eftreito , que pelas ra- 
zões acima deo fácil navegação pêra fe nel- 
la fazerem brevemente as commutações , e 
commercio dos de Ponente , e Levante ; fi- 
cou manifeílo eíle caminho , e havia a terra 
de Çamatra por Ilha , e não Cherfonezo. 
Com a facilidade das quaes navegações em 
breve tempo aíli engroíTou a Cidade Mala- 
ca em trato , e creíceo em povoação por fer 
efcala de Levante , e Ponente daquelle gran- 
de Mundo , que per commercio naquellas 
partes era a mais riquiílima. O fitio da qual 
fenao fora tão apaulado , e doentio aos es- 
trangeiros , e mais tão vizinha da linha Equi- 
nocial , que eftá delia pouco mais de dous 
grãos contra o Ncrte , fora huma das mais 
populolas , e de maior policia em edifícios 
de todo o Mundo. A grandeza da qual deo 
animo aos Reys que fuecedêram a efte Xá- 
quem Darxá , que pouco , e pouco começa- 
ram de levantar a obediência aos Reys de 

Sião, 



Década II. Liv. VI. Cap. I. ly 

Sião , principalmente depois que eíles de in- 
duzidos por os Mouros Parfcos , e Guza- 
rates , (quealii vieram reíidir por caufa do 
commercio , ) de Gentios os converteram á 
feita de Mahamed. Da qual conversão por 
alli concorrerem varias nações , começou 
lavrar cila infernal pefte pela vizinhança de 
Malaca , aífi como em Çamatra , Jauha , e 
outras Ilhas em torno deitas. Finalmente 
com a potencia de tanta riqueza , e favor 
dos Mouros , que eíles Reys de Malaca ti- 
nham , totalmente defobedccêram a EIRey 
de Sião j e ao tempo que Diogo Lopes de 
Sequeira , (como atrás efcrevemos , ) veio 
ter a efta Cidade, haveria nove annos que 
EIRey de Sião tinha mandado huma grof- 
fa Armada fobre ella , reinando Mahamed , 
o qual foi o derradeiro dos Reys daquella 
Cidade , que de todo lhe levantou a obediên- 
cia. EIRey de Sião viíta a defobediencia 
deite Mahamed , poíto que havia já annos 
que a diffimulava por andar occupado em 
guerra dos povos Gucos , que per cima do 
Norte vem cercando todo o feu Reyno , 
como fe vio defoccupado deita guerra , man- 
dou fazer huma Armada de té duzentas ve- 
las 3 quaíi todas lancharas , e calaluzes , que 
são navios de remo , em que diziam vir 
perto de féis mil homens , da qual Armada 
era Capitão mor oPoyoá da Cidade Lugor, 

que 



i6 ÁSIA de JoÃo de Barros 

que he como Vifo-Rey no modo do offi* 
cio , e governo. Ao qual Poyoá efte Rey 
de Malaca , e os Governadores de Patane , 
Calantam , Pam , e outros de toda aquella 
coita , eram obrigados acudir com os tribu- 
tos que cada anno davam aElRey de Sião, 
e a eile fe pedia conta deiles , e por eíla 
razão , como coufa da ília governança , vi- 
nha por Governador deíta Armada. Mas 
como da Cidade Lugor a Malaca he cami- 
nho de duzentas léguas , fempre ao longo 
da coita , a qual he mui íujeita a trovoadas , 
e temporaes , ante de chegar a Malaca lhe 
deo hum tempo , com que eíta frota fe der- 
ramou , vindo ter alguns navios delia a hu- 
ma Ilha chamada Puíloçapata três léguas de 
Malaca. EIRey Mahamed como foube que 
eítes navios eram alli chegados , mandou- 
lhe muito refrefeo , moítrando citar á obe- 
diência d'ElRey como eferavo que era feu : 
com as quaes fimulaçoes de palavras eítes 
Capitães dos navios, fem efperar feu Capi- 
tão mor , fe foram a Malaca em companhia 
dos que lhe trouxeram o refrefeo , efpedin- 
do primeiro dous Calaluzes com recado ao 
Poyoá, per que lhe faziam faber como Ma- 
hamed fomente da viíta deiles eítava fob- 
mettido a tudo o que elle mandaífe ; por 
tanto quevieífe devagar a feu prazer, que 
elles o hiam eíperar a Malaca. PcróElRey 

Ma-' 



Década II. Liv. VI. Cap. I. ty 

Mahamed os mandou hofpedar mui diíFe- 
rente do que eiies cuidavam , porque rece- 
bidos o dia de fua chegada com a face ale- 
gre , foram repartidos per todolos morado- 
res de Malaca com recado, que cada hum 
hofpedaíTe os que ihe coubeflem em forte , 
a qual forte foi não ficar aquella noite ne- 
nhum com vida. E como a couía eftava 
cuidada pêra aquelle fim , logo de noite, an- 
te que em os feus navios houveífe remor dei- 
te feito pêra irem avifar o Poyoá > ie met- 
teo muita gente veítida ao modo dos Sia- 
mês , indo ao encontro delíes : o qual como 
ainda não vinha com toda fua Armada jun- 
ta , e a íimulaçao deíles lhe fez parecer fe- 
rem os feus , em mui breve foi desbaratada 
fua frota , e elle efcapou á força de remo. 
Quando EIRey de vSião foube parte deita 
maldade de Mahamed , com grande indina- 
çao , e prefla mandou fazer preftes outra Ar- 
mada , e per terra grande exercito , em que 
entravam quatrocentos Elefantes , e aíli per 
mar , como na terra haveria trinta mil ho- 
mens. E porque na Cidade de Pam eftava 
por Governador hum primo deite Rey Ma- 
hamed , que com feu favor também fe ti- 
nha rebeilado a EIRey de Sião , mandou 
elie a efte Poyoá , que cie caminho com 
a Armada em qjae elle havia de vir , e per 
, terra o outro Capitão, tomaífem efte.revel, 
Tom. II. P. ú. B e lho 



18 ÁSIA de João DE Bakhos 

elholevaffem prezo, eem feu lugar puzef- 
fe o Capitão que melhor o fizcfle naquelle 
feito. O qual negocio o Poyoá commetteo 
mui bem com obra de três mil homens com 
que fe achou , apertando tanto o Governa- 
dor de Pam , que o tinha cercado em hu- 
ma fortaleza , donde elle movia alguns par- 
tidos pêra fe entregar , os quaes o Poyoá 
hia entretendo té chegar o exercito per ter- 
ra , ou a outra parte de fua frota ; mas pa- 
rece que ainda não era chegada a hora con- 
tra a d'E!Rey Mahamed , ou (por melhor 
dizer) tinha ordenado que o caftigo de fuás 
culpas folie dado per nós , e não pelos Sia- 
mês. Porque vindo o exercito per terra hum 
pouco derramado , como por fua própria 
terra , acertou de vir ter huma parte delle 
á Cidade Calantam , que eílá entre Patane , 
e Pam; e como a gente da guerra he def- 
mandada , e folta , e principalmente em au- 
fencia de feu Capitão mor , começou de fa- 
zer algumas forças em roubar , e forçar mu- 
lheres , entre as quaes foram duas mui no- 
bres cafadas com dous filhos do Governa- 
dor da Cidade. Os quaes como naquelle 
infknte da força feita a fuás mulheres não 
puderam acudir , diífimulada a injúria , fecre- 
tamente convocando mais de quinhentos ho- 
mens , a maior parte dos quaes também 
eram injuriados , deram de noite nos Sia- 
mês. 



Década II. Liv. VI. Cap. I. 19 

mes , em que mataram grande número dei"" 
les. Feito eiíe eítrago nos que acharam pe~ 
la Cidade ? feguindo o caminho de Pam em 
bufca do outro ramo de gente que hia já 
diante deita 3 foram matando neíies té che- 
gar á Cidade Pam ? onde o Governador ef- 
tava cercado doPoyoá deLugor, que (co- 
mo diílemos) eítava eíperando por eftes 
feus que ficavam mortos. Finalmente entra- 
dos cites de noite com o Governador 5 cer- 
cado a quem deram conta do que leixavam 
feito 3 íèm mais detença todos em hum cor- 
po , ante queoPoyoá foíTe avifado , deram 
nelle, com que o fizeram recolher aos na- 
vios , ficando-íhe em terra a maior parte da 
gente morta , e parte dos navios tomados. 
O qual com eíta tão grande perda , e mais 
com a nova da outra per terra , leixou a 
via de Malaca , tornando atrás per onde 
viera a recolher , e ordenar a gente que 
vinha per terra por fe não perder de <todo. 
EIRey de Sião , depois que per elle foube 
as caufas de tanto damno , e que a princi- 
pal cauía era Mahamed , mandou mais de 
vagar fazer dous exércitos , hum que havia 
de vir per eíte caminho de Calantam , e per 
mar Armada groíía , e outro per eítoutra 
coita de Tenaçarij , e Tavai , que he ao 
Ponente deite porto \ por toda aquella terra 
fer fua 3 e per mar também outra Armada 

B ii pe- 



20 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

pêra totalmente deílmir a eíle Rey Maha- 
med. Parte dos quaes apparatos viram em 
a Cidade Odiá metropoli deite Reyno de 
Sião , António de Miranda d ? Azevedo , c 
Duarte Coelho : quando AfFoníb d'Albo- 
querque , depois da tomada de Malaca fobre 
eíle negocio , os mandou com huma embai- 
xada a eíle Rey de Sião , que eílava neíla 
fua metropoli , ( como adiante fe verá , ) 
per onde celTáram eíles apparatos de vingan- 
ça. EIRey Mahamed de Malaca como ti- 
nha per efta via indinado EIRey de wSião , 
e a nós pelo modo que teve com Diogo 
Lopes de Sequeira , e ante diíío por reinar 
mortos a hum leu irmão , e hum primo , 
e também a fua própria mulher : com eíles , 
e outros males tinha a vida que os tyran- 
nos tem , andarem com alTombramentos , e 
fufpeitas , tudo temia , tudo receava , e fi- 
nalmente tudo eram cautelas 3 e refguardos , 
temendo o dia que fobre dle havia de vir 
o juizo de Deos. Com o qual temor ma- 
oihoíamente trazia enganados por fe ajudar 
delles em fua neceílidade a EIRey de Pam 
feu parente , e a EIRey de Linga , e a ou- 
tros Príncipes feus vizinhos com recados, e 
promeífas que lhe queria dar huma filha por 
mulher , fabendo que cada hum a defejava 
por razão do dote , e mais fer fua filha, 
4e maneira > que quando Affònfo d'Albo- 

quer-* 



Decadá II. Liv. VI. Cap. I. m 

querque chegou a Malaca , eftava nella El- 
Rey de Pam vindo a efte negocio do cafa- 
mento. Pêra o qual a&o tinha feita huma 
grande caía de madeira fobre trinta rodas . 
a qual toldada , e paramentada de pannos 
de feda , havia de fer levada per Elefantes 
pela Cidade com os noivos , e as principaes 
peífoas dentro por mais folemnizar efta fef- 
ta ; e porém elíe hia dilatando eftas vodas 
quanto podia a fim de ter comfigo muita 
gente , como homem a que o temor dava 
iufpeita , que mui cedo havia mifter todas 
eítas ajudas. Além deftes apparatos das vo- 
das 5 tinha dentro na Cidade oito mil pe- 
ças de artilheria ; porque como elia eftava 
toda ao longo do mar eftendida á maneira 
de huma touca per comprimento de légua , 
e era toda de madeira fem muro , nem ca- 
va , fomente a defensão dos homens , como 
geralmente fe vê nas grandes povoações : 
provia-fe defte grão número de peças de ar- 
tilheria pêra a pôr toda ao longo da ribei- 
ra, fe alguma Armada alli foíTe ter, prin- 
cipalmente a noífa que elíe mais temia que 
outra alguma , por as maravilhas que vira 
fazer a artilheria que Diogo Lopes de Se- 
queira levava. Porém a mais deita fua arti- 
lheria tinha em feus armazéns com grande 
cópia de munições , e a outra ordinariamen- 
te eftava em certos lugares , onde a povoa- 
ção 



22 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

çao da Cidade era mais baila , que os ca- 
bos delia ficavam em modo de arrabalde, 
A hum da parte de Levante chamavam 
Ilher , e a outro do Ponente , Upi 5 nos 
quaes viviam dous Jáos homens mui gri- 
fos em fazenda , trato , e grande familia , 
e tanta , que por razão de não poderem ca- 
ber no corpo da Cidade , acceitáram viver 
em baixo per íi. Per meio da qual , (como 
já eícrevemos , ) entrava hum rio á maneira 
de eíteiro de agua falgada , que lá bem den- 
tro recebia alguma agua doce que vinha 
dos alagadiços , e brejos do fertão , e quaíi 
onde eíle rio femettia no mar eílava huma 
ponte mui grande de groíTa madeira , per 
a qual fe fervia a Cidade do bairro onde 
EIRey vivia 5 que era contra Ilher, e alli 
eílava também fua mefquita de pedra , e 
cal , e per derredor algumas cafas de gente 
mais nobre. A caufa de a povoação deíla 
Cidade jazer toda ao longo do mar , era 
porque além de todos fe fervirem delle em 
feus tratos , e commercio pêra carregar 3 e 
defcarregar a menos cuílo fua fazenda : a 
mefma terra em íi era per dentro tão ala- 
gadiça , e cuberta de arvoredo , que quaíi 
com eíla efpeífura queria yir fechar com a 
ribeira do mar. E não fomente o fitio da 
Cidade em íi era alagadiço , mas ainda ro- 
dalas terras daquella região, por ferem vi- 

zi- 



Década II. Liv. VI. Cap. I. 23 

zinhas á Linha Equinocial , clima que na- 
turalmente he quente , e húmida , e tão fér- 
til na creação das coufas, que cauíava ler 
mui doentia , e mal povoada per dentro, 
lílo em tanta maneira , que começando da 
ponta de Cingápura té Pullocambilam , que 
lie o comprimento defte Reyno de Malaca , 
(que corno diífemos podem fer noventa lé- 
guas , ) não ha outra povoação que tenha 
nome fenão eíia Cidade Malaca , fomente 
alguns portos habitação de pefcadores , e 
per dentro mui poucas aldeãs. E ainda a 
mais deita mifera gente dorme em cima das 
mais altas arvores que acham , porque de 
altura de vinte palmos os preão de pulo os 
tigres j e fe alguma coufa falva a eíla po- 
bre gente delles , he fogueiras de fogo de 
noite que elles muito temem. Dos quaes ha 
tão grande número , que muitos entram de 
noite aprear na Cidade ; ejáaconteceo, de- 
pois que os noííos a tomaram, faltar hum 
tigre em hum quintal cercado de madeira 
bem alta , e levou hum tronco de madeira 
com trez efcravos que eftavam prezos nel- 
le , com os quaes faltou de claro em claro 
per cima da cerca. Aíli que eíles grandes 
arvoredos , na efpeflura dos quaes fe cria 
muita diveríidade de alimárias nocivas , faz 
que a terra feja mal povoada , e agriculta- 
da ' } fomente pegado com Malaca naquelle 

cam- 



34 ÁSIA de João de Barros 

campo Beitam tem os Mandarijs > e gente 
nobre as quintas de feu prazer , a que el- 
les chamam d uções , (como diíTemos.) Por- 
que efta gente Malaya , como toda vive de 
trato , e não de outro ufo , em o negocio 
de recrear a vida , he a gente mais mimofa 
daquellas partes , e a mais altiva em opi- 
nião : tudo he Fidalguia , e tão vã neíla 
parte , que fe não acha hum homem natu- 
ral Malayo , por pobre que íèja ? que quei- 
ra levar ás coitas coufa própria, ou alhea 3 
por muito que lhe dem por iflb , todo o 
lerviço delles he per efcravos. O exercicio 
em que gaitam a vida , e fazenda 5 são do- 
çuras , mufica , amores , veftidos , c trata- 
mento de ília pefíba , e fobre tudo grande 
opinião de cavalleiros , a qual os faz tão 
atrevidos em commetter , que não temem a 
morte por ficar delles memoria daquelle 
feito ; porém entre elles fe traz em provér- 
bio : Malayos namorados 3 Jdos cavallei- 
ros , e aífi he na verdade. As armas que 
ufam , são huns crifes de dous palmos e 
meio té três de comprido 3 direitos , de dous 
gumes , e com elles arcos de frechas , aza- 
gaias de arremeífo 5 a que chamam zargun- 
chos , zervatanas que lança huma frecha mui 
pequena ifcada com herva tão fina 3 que co- 
mo venta langue logo derriba ; porém fe 
primeiro paíTa per o veílido , parece que 

alim- 



Década II. Liv. VI. Cap. I. 15 

alimpa alli parte da peçonha , porque vai 
já mais branda 5 e eílas zervatanas tornaram 
dos Jáos. Tem dous modos de eícudos 
com que fe cobrem , hum que parece pa- 
vez 3 c outro mais pequeno , e fomente com 
eílas armas he gente mui determinada em 
commetrer 5 e mui ligeira no afto da pele- 
ja , e todos pelejam em magotes de capita- 
nias , cada Capitão per íi com ília bandei- 
ra , tudo de opinião por fe eftremãr 5 e que 
o vejam. Fora deite aélo de pelejar 5 tudo 
são ra bolarias , e opinião de íi 5 mui pou- 
co fieis huns aos outros acerca das mulhe- 
res 5 porque também ellas dão azo pêra if- 
fo , por os mimos , e doçuras com que fe 
tratam entre li. Acerca da mercadoria he 
gente mui experta , e artificiofa pêra feu pro- 
veito : cá ordinariamente tratam com eílas 
nações , Jáos , Siamês , Péguus , Bengalas , 
Quelijs , Malabares , Guzarates , Parfeos , 
Arábios , e outras muitas nações , que os 
tem feito muito fagazcs , por alli reíidirem , 
e a Cidade íer populofa com as náos que 
concorrem a eíla , em que também foem vir 
os povos Chijs , Lequios , Luções , e outros 
daquelle Oriente , trazendo todos tanta ri- 
queza Oriental , e Occidental , que parecia 
hum centro a que concorria todo o natural 
que a terra creava , e artificiai da mecâni- 
ca dos homens j de maneira, que fendo a 

ter- 



a6 ÁSIA de JoÃo de Barros 

terra em fi cíleril , per a commutaçao que 
fe alli fazia , era mais abaftada de todas , 
que as próprias regiões donde cilas vinham, 
E pofto que alli havia grande cópia de to- 
dolos metaes , affi como ouro de Çamatra 
íua vizinha , eítanho da mefma terra , pra- 
ta de Sião , cobre da China , e ferro de 
muitas partes derredor delia , por tudo fe alli 
ajuntar em modo de mercadoria ; e muitos 
em levar qualquer coufa deitas, por a não 
haver em lua terra y ganhavam regularmen- 
te a trinta 5 e quarenta por cento , ante fa- 
ziam feu emprego em efpeciaria , drogaria 
aromática , cheiros , feda , e mil géneros de 
policia por ganharem dobrado, A qual grof- 
fiira do trato durou mui corrente té a nof- 
ía entrada na índia , que os Mouros Ará- 
bios , Parfeos , e Guzarates temendo noíías 
Armadas , não oufavam tão geralmente com- 
metter efte caminho ; e fe alguma náo fua 
lá hia ter , era furtada da noíla vida , o que 
EUleyMahamed de Malaca logo começou 
fentir na perda dos direitos que levava dei- 
te commercio que fe alli fazia. O qual co- 
mo era coftumado com o grande número 
das náos ter cada anno grande rendimento , 
vendo quanto perdia por razão das poucas 
que já lá hiam com efte temor, parece que 
iieftas poucas queria recompenfar a perda , 
fazendo tantos roubos , e tyrannias aos mer- 
ca- 



Dec. II. Liy. VI. Cap. I. e II. 27 

cadores reildentes na Cidade , que começa- 
ram de a defpejar. Porque também fabendo 
elles o que era feito a Diogo Lopes de Se- 
queira , e que nós éramos íenhores do mar 5 
e não íbffriamos oíFenfa , receavam que al- 
guma Armada nofía lhe foífe pedir conta 
deite feito , a qual Affonfo d'Alboquerque 
lhe foi tomar com a frota em que partio 
de Cochij , como veremos neíle feguinte 
Capitulo. 

CAPITULO II. 

Do que Affonfo d?Álboquerque paffòu no ca- 
minho que fez de Cochij té a Ilha Ça~ 
'matra, onde foivifitado dosReys de 
Pedir , e Pacem : e do que mais 
fez té chegar a Malaca. 

AFfonfo d'Alboquerque partido de Co- 
chij com fua frota toda em hum cor- 
po , tanto que foi 110 golfão , que jaz en- 
tre a Ilha Ceilão , e as a que chamam cie 
Gamifpóla , deo-lhe hum temporal , com 
que o mar lhe comeo a galé Capitão Si- 
mão Martins ; mas aprouve a Deos que fe 
falvou toda a gente , por lhe logo acudir 
Fernão Peres. Em refeição da qual nefta 
travefla tomou cinco náos de Mouros Gu- 
zarates ? que faziam fua viagem a. Mala- 
ca , e a Çamatra P na qual Ilha foi o pri- 
mei- 



28 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

mciro porto que tomou em huma Cidade 
per nome Pedir , cabeça do Reyno aílí cha- 
mado y dos muitos que ha nefta grande Ilha 
Çamatra , dos quaes , e delia faremos re- 
lação em outra parte. Chegado Affonfo d'Al- 
boquerque a efte porto , por a Cidade fer 
per hum rio aílima , em que não podiam 
entrar náos groíías , veio a elle huma lan- 
chara remada , em que vinham féis Mou- 
ros honrados da terra , e hum Portuguez y 
per o qual o Rey delia o mandava vifitar 
com offertas do que houveííe mifter para 
provisão da frota , como quem entendia o 
fim daquelía fua viagem a Malaca. Do qual 
Portuguez , que fe chamava João Viegas , 
Affonfo d'Alboquerque foube fer elle hum 
dos vinte e quatro homens , que ficaram ca- 
tivos em Malaca do tempo de Diogo Lopes 
de Sequeira ; e que elle , e outros oito ho- 
mens houveram á mão huma lanchara ? e 
fe pairaram áquella Ilha com efperança de 
fe lalvar ; a qual foltura , e fugida fua fo- 
ra per induítria de huma filha do fenhor , 
em cujo poder elles eftavam , que trouxera 
comfigo. E vindo nefta lanchara defronte 
de Pacem , que he huma Cidade cabeça do 
Reyno aíli chamado , que eftava adiante, 
fahíram a elles certas manchuas , em que 
vinham Mouros da terra , com que hou- 
veram peleja, na qual foi morto hum João 

Dias 



Década II. Liv. VI. Cap. II. 29 

Dias criado de Diogo Lopes de Sequeira , 
e elle com os outros mal feridos vieram 
ter áquelle porto de Pedir , onde foram mui 
bem recebidos d'EiRey , e os mandou cu- 
rar. O qual gazalhado a elle parecia fer-lhe 
feito , por elles dizerem , que tanto que o 
Capitão mor da índia foubeíTe o que fe fi- 
zera em Malaca a Diogo Lopes, fem dú- 
vida não tardaria muito a vir tomar vin- 
gança daquella traição. AíFonfo cPAlboquer- 
que , depois que fe enformou mui particu- 
larmente de algumas coufas deite João Vie- 
gas 5 per elle refpondeo a EIRey, dando- 
Ihe agradecimentos de feus oíFerecimentos , 
e também do gazalhado que fez a elle João 
Viegas , e aos outros Portuguezes ; e em 
dous dias que alli cfteve, foiviíitado d'El- 
Rey com algumas coufas que lhe mandou 
de refrefco , e elle lhe concedeo a paz que 
Diogo Lopes tinha com elle aíTentada. E 
porque Affonfo d'Alboquerque foube per 
João Viegas , que eílava alli hum Mouro 
honrado de Malaca per nome Nehodá Be- 
guea j que fora hum dos principaes , que 
ordenaram a traição a Diogo Lopes , pe- 
dio elle a EIRey de Pedir que lho man- 
daíle entregar, o que EIRey concedeo de 
palavra ; mas per outra parte deo-ihe de 
mão em hum navio de remo , e que foííe 
levar recado a EIRey de Malaca da ida 

dei- 



30 ÁSIA de JoÃo de Barros 

delle Affoníò d'Alboquerque. O qual reca- 
do deo a efte Nehodá Beguea mais por 
lhe fazer bem pola amizade que com elle 
tinha, que por amor d'E!Rey ; mandando- 
lhe pedir per fua carta , que lhe perdoaíTe 
o elcandalo que delle tinha , porque não 
eftava em tempo pêra trazer feus vaíTallos 
fora da fua graça , e mais efte fendo pef- 
foa tão principal. A caufa do qual efean- 
dalo que EIRey tinha delle , era , porque 
havia pouco tempo que mandara matar o 
feu Governador Bendirá, por fe dizer que 
andava copilando huma traição pêra o ma- 
tar , e fe levantar com o Reyno , e que 
efte Nehodá era na traição ; e á força de 
remo veio fugindo da fúria dTElRey , e fe 
acolheo a efte de Pedir , por fer grande feu 
amigo. Vendo AíFonfo d'Alboquerque que 
EIRey lhe não entregava efte Mouro , pof- 
to que não foube logo deites feus artifícios , 
como era coftumado a dilTimular palavras 
de Mouros , não quiz efperar mais reca- 
dos , nem menos os partidos que lhe mo- 
via 5 promettendo de lhe dar vinte e cinco 
mil cruzados poías cinco náos que tomara 
dos Guzarates. Partido defte porto de Pe- 
dir , chegou ao de Pacem > onde também 
foi viíitado d'ElRey , mandando-fe defcul- 
par da culpa que lhe elle punha na morte 
do Portuguez , e ferimento dos outros da 

com- 



Década II. Liv. VI. Ca?. IL 31 

companhia de João Viegas ; o que elle re- 
cebeo brandamente , porque não fe queria 
ir detendo na fatisfaçao deitas couíás , ef- 
perandoque á tornada de Malaca peraquel- 
les portos faria hum a correição de fuás cul- 
pas- Eípedido d'ElRey de Pacem 5 peró 
que elle muito defejou de o ter alli hum 
par de dias com feitas , e refrefcos por cau- 
ia do que logo veremos ; como já come- 
çava entrar na paragem dos baixos 3 fegun- 
do lhe diziam os Mouros Pilotos que le- 
vava y mandou ir diante todoíos navios pe- 
quenos , huns ao longo da coita da Ilha, 
e outros mais ao mar por refguardo das 
outras náos de maior porte. Indo aíli neíta 
ordenança , foi Aires Pereira de Berredo 
Capitão de huma Taforea pequena dar com 
huma pangajóa , que fe hia furtando ao 
longo da terra com temor das náos , na 
qual hia Nehodá Beguea , o qual não fo- 
mente defendeo a entrada da fua pangajóa, 
mas ainda como homem de peííoa entrou 
á força da efpada no batel de Aires Perei- 
ra ; e affi apertou com elle , que não ficou 
algum do batel $ que não fofle bem fangra- 
do deíle , e elle não de algum \ té que mais 
canfado , que vencido , meio ataflalhado ca- 
hio , onde foi tomado ás mãos , fem haver 
remédio de morrer , nem de verter fangue 
per quantas feridas tinha. Alguns dos ma- 

ri- 



32 ÁSIA de João de Barros 

rinheiros , como elle vinha bem tratado no 
vcftido ? começando de o esbulhar , acerta- 
ram de lhe achar huma manilha de oíTo 
encaftoada em oaro da face de cima , e oílb 
da banda da carne do braço donde a elle 
trazia, tirada a qual, fe vaiou todo em fan- 
gue , e efpirou. Eípantados os noíTos de 
tão nova couía , fouberam dos Mouros que 
alli tomaram , que aquelle oíTo era de hu- 
ma alimária que havia na Jauha , a que el- 
Ies chamavam Cabal , coufa mui eílimada 
entre os Príncipes daquellas partes , o qual 
tinha virtude de reter o fangue da manei- 
ra que elles viam. Aires Pereira mais con- 
tente com a manilha que com a vicloria , 
a levou a Aflbníò d'Alboquerque , que el- 
le eítirnou em muito , e depois a perdeo 
com outras muitas jóias á tornada de Ma- 
laca em a náo Flor de la mar , como fe 
adiante verá. PaíTada efta afronta de Aires 
Pereira , que Affonfo d'Alboquerque tomou 
per final de viítoria que eíperava ter de 
Malaca , pois já de caminho per tal acerto 
tomava vingança daquelle Mouro aucílor do 
damno , que os noííòs nella receberam , foi 
com fua frota naquella ordem que dante 
levava ; té que fendo tanto avante como a 
Ilha , a que os noflbs chamam a Polvorei- 
T2i , e os da terra Ba rela , que fera de Ma- 
laca quarenta léguas , vefpera de S. João 

Ba- 



Década II. Liv. VI. Cav. II. 33 

Baptiíla , houveram vifta de hum junco , 
náo que feria de feiscentos toneis , ao qual 
logo foram demandar os bateis das náos 
de D. João de Lima , Diniz Fernandes , 
Nuno Vaz de Caftello-branco 3 e Affonfo 
Peííoa na fua fufta. O junco não fomente 
fez pouca canta dos requerimentos que Uiq 
elles faziam que amainaiTe a mas ainda de 
fe elles entremetterem a querer fubir aífima , 
efpedindo-os de íi com muito arremeífo que 
fizeram de cima , de que Affonfo Peffoa 
levou huma coixa atraveílada com hum zar- 
guncho. Pêro d'Alpoem , que hia na eílei- 
ra do junco , quando o vio efpedir de íi 
os bateis , quiz abalroar ; mas em prepaf- 
fando per eíle , tiveram os Mouros tanta 
induftria no marear das velas , que ficou 
Pêro d'Alpoem contravento fem poder tor- 
nar a elle. Affonfo d'Alboquerque , como 
ifto era fobre a noite , tanto que amanhe- 
ceo , por a fua náo Flor de la mar fer gran- 
de , quíz abalroar o junco ; na qual che- 
gada com aartilheria lhe fez tanto damno, 
que lhe matou quarenta homens de trezen- 
tos que trazia ; os quaes como eram in- 
duftriofos na peleja do mar , puzeram fogo 
ao junco, com que fizeram afaílar Affonfo 
d'Alboquerque , dafaferrando-fe delle a tem- 
po que já a labareda do fogo lambia pe- 
los caftellos da fua náo. Do qual perigo 
Tom. II. P.iL C Af- 



34 ÁSIA de JoÃo de Bàbros 

AíFonfo d'Alboquerque efcapou ; porque co- 
mo fabia que os Mouros naquellas partes 
ufavam deite artificio 5 levava o íeu batel 
eíquipado pêra iíío , e á força de remo íe 
afaítou. Os Mouros tanto que o viram afaf- 
tado j a grão piefía começaram apagar o fo- 
go 5 que ardia em hum certo óleo de ter- 
ra , de que em Pedir ha grande quantida- 
de , em huma fonte que mana, ao qual cleo 
os Mouros chamam Napta , coula acerca 
dos Médicos mui notável , por fer excel- 
lente pêra algumas enfermidades , de que 
nós houvemos algum , e temos experiência 
fer mui appropriado pcra coufas de frialda- 
de , e comprefsão de nervos. Finalmente 
por não gaitarmos tanto tempo , quanto o 
junco fe defendeo , elle deo que fazer dous 
dias aos noííos , dcnde depois entre clles 
íe chamava o junco bravo: e per derradei- 
ro mandou dizer per Fernão Peres ao. Ca-* 
pitão que lhe perdoaíTe , que não fabia fer 
elle a peííba contra quem fe defendia , e 
que lhe aprouvefTe de o receber não como 
imigo , mas como vaífallo d'E!Rey de Por- 
tugal , na efperança da protecção , e ampa- 
ro do qual elle fe entregava. Na qual ef- 
perança elle fe não enganou ; cá fabendo 
Affoniò d'Alboquerque fua fortuna , elle o 
confolou, ofFerecendo-fe ao reítituir em feu 
citado j e fegundo eíle Príncipe per nome 

Gei- 



Década II. Liv. VI. Cap. II. 35: 

Geinal lhe contou , elíe era o verdadeiro 
Rey de Pacem , e não aquelle , que eftava 
em poíTe do Reyno , mas feu parente , e 
fora Governador d'ElFvey feu pai delle Gei- * 
nal. No qual tempo por feu pai fer homem 
de muita idade, eíle Governador no modo 
do governo fe fez tyranno, e elle Geinal, 
em quanto foi moço, o foífreo : peró co- 
mo teve idade , e quiz entender em fuás 
coufas , eftava já o tyranno tão fenhor da 
terra , que em duas batalhas ficou elle Gei- 
nal desbaratado ; e vendo-fe fem favor dos 
naturaes , e fem forças pêra reííftir a efte 
tyranno , com alguns que o quizeram fe- 
guir hia á Jauha a alguns Principes da fua 
linhagem , que o quizeííem ajudar na refti- 
tuição de feu eítado. AíFonfo d'Alboquer- 
que tornando a feu caminho , não tardou 
muito que não tomaram dous juncos : o 
primeiro tomou D. João de Lima , Simão 
de Miranda , c Simão Aíronfo , por lhe 
cahirem naefteira em que elle hia pêra Ma- 
laca , onde fe houve mui groíTa preza ; e 
outro mais adiante tomou Nuno Vaz , a 
gente do qual que vinha de Malaca fe fal- 
vou em terra em hum batel por fer já de 
noite ; e como o mais que trazia era ouro , 
falváram quaíi todo ; fomente algum, que 
fe achou com outro esbulho de fazenda 
que traziam pêra Pacem. E de alguns Mou*- 
C ii ros 



36 ÁSIA de J0Ã0 de Barkos 

ros que fe tomaram nefte , íbube Aftbnfo 
d'Alboquerque comoRuy d' Araújo , e par- 
te dos cativos que ficaram com eile , eram 
vivos ; e aíTi o eítado da terra , c o gran- 
de temor que lá havia daquella fua Arma- 
da , poílo que á partida delles ainda não 
havia noticia delia. Affonfo dWIboquerque 
afli pelo que íbube deftes Mouros , como 
por começar já entrar nos termos de Ma- 
laca , e não fabia fe EIRey por andar te- 
morizado , fabendo da fua ida , mandaria 
ao caminho entre aquelles baixos ao rece- 
ber com algumas lancharas por lhe derra- 
bar alguns navios mancos da vela que le- 
vava , começou recolher , e ajuntar toda fua 
frota, enfiando as velas humas nas efteiras 
das outras por razão do canal , fem lhe 
acontecer algum daquelles grandes perigos , 
que os Mouros fabulavam haver naquelles 
baixos de Capaciá , como nos bancos do 
canal de Fraudes , ou perigos de Scyíla , 
eCharybd.es entre Sicília, e Nápoles, Com 
a qual frota toda em hum corpo ancorou 
no porto de Malaca o primeiro dia de Ju- 
lho do anno de quinhentos e onze , junto 
de huma ilheta, que era poufo das náos dos 
Chijs , onde achou três juncos delles. A 
Cidade , pofto que em as náos , que Diogo 
Lopes de Sequeira levou , tinham vifto a 
feição dos noífos , e a mareagem delias, 

to- 



Década II. Liv. VI. Ca?. II. 37 

todavia quando viram o grande numero de 
velas , as bandeiras , eftendartes , trombe- 
tas , e pompa da frota , e fobre tudo a tro- 
voada da anilheria , que durou per efpaço 
de meia hora , aífi como lhe foi trifte cou- 
fa a vifta das velas , aífi a fua mufica , e 
muito mais trifte a imaginação em que ha- 
via de parar aqueíle tão temerofo efpeéta- 
culo a elles. Os noífos também ainda que 
não viam grande mageííade de edifícios de 
pedra , e cal , muros , torres , ou alguma 
outra defensão , e formofura das Cidades 
de Hefpanha , viam huma povoação de com- 
primento de huma boa légua , coalhada a 
lua ribeira de muitas náos de carga , e ou- 
tras velas de carreto , e ferviço delia. E fé 
a povoação era quaíi toda de madeira 5 e 
as cafas cubertas de o.lla , (como geralmen- 
te fe ufa naquellas partes , ) também viam 
outras torres , muros ,. e arquitecturas de 
melhor parecer 3 e defensão , que era grof- 
fo povo, que enchia todolos lugares altos, 
e baixos \ que eftavam em vifta da ribei- 
ra. Aífi que fe elles em nos viam que te- 
mer, os noífos em ver a grandeza da Ci- 
dade, e o grande número de povo, a mul- 
tidão das náos , e navios , também tinham 
que cuidar , pofto que pela grão fama da 
fua riqueza tudo fe convertia em defejo de 
a conquiftar. Affonfo cTAlboquerque , de- 
pois 



38 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

pois que repoufou da fua primeira chega- 
da , notando o fitio , e poftura da Cidade , 
vio que entre aquelle grande número de 
náos 3 e navios , algumas que eram de car- 
ga , a que elles chamam juncos , íe orde- 
navam como quem fe queria partir , e lei- 
xaf- o porto , temendo poder receber algum 
damno delle. Pêra fegurar a qual fufpeita , 
e moílrar íèr fenhor do mar, fem temer o 
grande número delles , mandou correr per 
todos em alta voz hum mandado feu , que 
nenhuma náo de mercador eítrangeiro fe 
moveíTe , nem partifle fem fua licença : cá 
elle era Capitão mor d'Ellley de Portugal 
em todas aquellas partes da índia , e vinha 
áquella Cidade bufcar certos Portuguezes , 
que alli ficaram de humas náos d'outro feu 
Capitão , por tanto elles podiam eftar fcgu- 
ros té fe elle ver com EIRey daquella Ci- 
dade. Os Chijs , cujos eram os juncos , que 
eílavam junto da Ilha , onde elle Affbnfo 
d'Alboquerque foi furgir , quando ouviram 
efta notificação , pofto que não foliem dos 
que fizeram efte movimento pêra fe partir , 
como eílavam efcandalizados d'ElRey Ma- 
hamed em alguns máos pagamentos de fa- 
zenda que lhes tomou , vieram os principaes 
ver AíFonfo d'Alboquerque , por entende- 
rem que aquella fua vinda era a fim do 
eícandaío , que o mefmo Mahamed tinha 

fei- 



Década II. Liv. VI. Ca?. II. 39 

feito a Diogo Lopes , por fer já coufa mui 
notória entre todolos mercadores que de- 
pois alli vieram. Aos quaes Affbnfo d'Al- 
boquerque fez gazalhado , e folgou muito 
de praticar com elles pola fama que tinha 
da potencia do feu Rey , grandeza da ter- 
ra , policia , e riquezas delia , e no trata- 
mento das peffoas delles vio parte do que 
fe dizia. È por final do contentamento que 
tinha de os ver , mandou-lhes dar algumas 
peças , com que fe efpedíram delle mui ale- 
gres , principalmente polas oífertas que lhe 
AíFoníb d'Alboquerque fez pêra reftituiçao 
do que lhe EIRey não pagava , fegundo 
lhe elles contaram. Veio também a elle por 
caufa defta notificação hum Mouro Guza- 
rate de nação , que alli eftava com huma 
grande , e rica náo , que diíTe fer de Me- 
lique Gupij Senhor de Baroche , aquelle 
grande competidor de Melique Az ; ao qual 
Mouro Capitão , e Feitor da náo por ami- 
zade que Melique Gupij feu. fenhor moftra- 
va ter a noflas coulas , e feguro que AíFon- 
fo d'Alboquerque tinha dado pêra fuás náos 
navegarem , (como atrás efcrevemos , ) elle 
lhe fez honra , offe recendo- fe a tudo o que 
houveífe miíler delle. 



CA- 



40 ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO III. 

Como Affonfo d ' Alboquerque foi vijita- 
do dElRey de Malaca : e das diferenças 
que per recados entre elles houve fobre a 
entrega de Ruy d* Araújo , e dos outros ca- 
tivos , té que vieram em rompimento de 
guerra. 

AO feguinte dia , fendo já boa parte 
deJlepaflado , vieram ter ánáo de Af- 
fonfo d'Alboquerque duas inanchuas rema- 
das , em que vinha alguma gente luzida em 
companhia de hum Mouro dos principaes 
da terra chamado Tuam Bandam , que vi- 
nha ver Affonfo d'Alboquerque per hum 
modo íimulado. Ao qual Alouro elle man- 
dou receber a bordo da náo per alguns ca- 
valleiros , leixando-fe eftar aífentado em hu- 
ma cadeira deefpaldas guarnecida de feda, 
e ouro , e todolos Capitães da frota aífen- 
tados em bancos cubertos de alcatifas pof- 
tos per ordem , todos veftidos de paz , e 
de guerra 5 e outra gente dermas em pé 
em boa ordenança com veneração a peífoa 
delle Capitão mor, O qual como havia 
muito tempo que não fazia a barba , polo 
dito que elle trazia , que havia de ler em 
Ormuz fobre o corpo morto de Coge Atar , 
e por razão de fua idade, era muito alva, 

e el- 



Década II. Liv. VI. Cap, III. 41 

e elic neftes aítos por temorizar os Mou- 
ros moílrava-fe mui pompofo 110 trajo , no 
aflento , e nos aílos de fua peílba 5 leixou- 
fe eítar com aquelJa magefíade , ré que o 
Mouro fez lua cortezia 9 a que eJIes cha- 
mam çumbaia 9 zumbando todo o corpo té 
poerem o roílo nos giolbos , e fe tornam 
a endireitar. AíFonfo d' Alboquerque. erguido 
em pé o recebeo com gazalhado , e tornan- 
do- fe aífentar , lhe mandou pôr humas al- 
mofadas de feda , em que fe aíTentaíTe ; e 
dadas as faudaçoes que lhe EIRey de Ma- 
laca perelle mandava, começou Tu amBan- 
dam praticar com elie na difpoíição de fua 
peflba , e fe trouxera boa viagem , fem to- 
car na caula delia , nem perguntar a que 
era fua vinda. Vendo AíFonfo d'Alboquer- 
que palavras tão derramadas , e fora do feu 
intento , e a maneira das cautelas do Mou- 
ro com huma frieza da fua vinda , fallando 
■niflò como coafa menos principal , e dando 
ainda a entender que EIRey o não manda- 
va muito de propofito que o vieífe ver, 
fomente que elle como Ofticial feu vinha ía- 
ber deíle fe queria alguma mercadoria , a 
qual EIRey lhe mandaria logo dar 3 por elle 
ler Capitão mórd'ElRey de Portugal , com 
quem defejava ter amizade , refpondeo-lhe 
AíFonfo d 5 Alboquerque a eílas derradeiras 
palavras ? dizendo : -Que quanto ao que lhe 
\ per- 



42 ÁSIA de João dê Barbos 

perguntava , fe queria alguma mercadoria , 
ao prefente não queria outra fenão cer~ 
tos Portuguezes , que alli ficaram de hum 
Capitão cCElRey feu Senhor , que veio ter 
áquelle porto \ e havida ejla , que era a de 
maior preço , e que elle mais ejlimava , 
então lhe diria o mais que queria cTEl- 
Rey , e daquella fua Cidade. Efpedido 
TuamBandam , fem tirar outra palavra de 
Affonlb cTAlboquerque , não tardou muito 
com relpofta , na qual EIRey fe deículpava 
do feito que fe fez a Diogo Lopes , dando 
toda a culpa ao feu Governador Bendára , 
e que effa tora a principal caufa porque elle 
o mandou matar. Aiíònfo dWlboquerque , 
pofto que foubeífe que a morte 'do Bendá- 
ra fora per outro cafo , não refpondeo a 
iíTo , fomente ao que elle não fallava , que 
era na entrada de Ruy d' Araújo , e dos 
outros cativos, çarrando-fe de todo na prá- 
tica do Mouro , fem querer fallar em ou- 
tra coufa. Em o qual negocio por aquelle 
dia , nem per outros dous , em que houve 
muitos recados d'ambalas partes , não fe to- 
mou mais conclusão, que ao terceiro man- 
dar EIRey íahir fora do rio muitas lancha- 
ras , e pangajaos , que são navios de remo , 
(Armada com que fe elle fervia per toda 
aquella cofta , ) e deram huma moílra de íi 
em modo de efcaramuça de prazer , e per 

der- 



Década II. Liv. VI. Cap. III. 43 

derradeiro tornáram-fe recolher ao lugar 
donde fahíram. Com ido ao longo do mar 
em partes que elles temiam poder defem- 
barcar gente , tudo era fazer paliçadas , e 
repairos , aífeftando nelles artilheria , como 
quem moftrava querer-fe defender vindo o 
cafo pêra iflb , e também a fim de temori- 
zar os noífos neítes apercebimentos. AfFon- 
fo d'Alboquerque vendo eítas moftras , e re- 
bolarias , e que não lhe vinha recado dos 
cativos , que elle com tanta inftancia pedia ; 
mandou eftes quatro Capitães , Baítião de 
Miranda 5 Fernão Peres d' Andrade , Aires 
Pereira , e Jorge Nunes de Leão , que em 
bateis armados foífem dar huma vifta ao 
longo da Cidade , como que queriam no- 
tar alguma parte per onde pudeílem fahir 
em terra. Aos quaes bateis fahio a Armada 
d'ElRey de dentro do rio , e fobre ella 
AíFonfo d'Alboquerque dobrou outros ba- 
teis , mas não houve entre elles mais que 
moftrarem-fe huns aos outros ; ecom tudo 
obrou a vifta dos bateis tanto , que ao dia 
feguinte veio TuamBandam novamente per- 
guntar que era o que queria , que quanto 
aos Portuguezes fe leixáram de vir , era por 
lhe eftarem fazendo de veílir. O qual reca- 
do AíFonfo cPAlboquerque não quiz ouvir , 
nem menos ver Tuam Bandam , fomente 
lhe mandou dizer a bordo da náo , que os 

Por- 



44 ÁSIA de JoÃo de Barros 

Portuguezes não tinham mais que hum rof- 
tro , huma palavra , hum Rej , e hum Deos , 
e deita vez per artificio trouxe eíle Tuam 
Bandam hum moço chamado Baftiao , que 
eílava com Ruy d' Araújo , e era aquelle , 
que Diogo Lopes achou na Ilha de S.Lou- 
renço , como atrás fica. O qual moço eíle 
Mouro leixou em a náo de AíFonfo d* Al* 
boquerque , quaíi como que o moço fe vie- 
ra com elle , tudo a fim de contar os gran- 
des apparatos de guerra , e número de gen- 
te que havia dentro na Cidade , porque o 
temor deftas coufas lhe faria tomar outro 
confelho naquella vinda com algum bom 
concerto. Havia a' eíle tempo dentro na Ci- 
dade , além dos Mouros naturaes Malayos , 
como diiTemos , outros de mui varias na- 
ções , e entre os Guzarates , que eram os 
mais deites eftrangeiros , hum que fervia en- 
tre elles de Xabandar , officio como entre 
nós os Confules da nação. Eíle , como ho- 
mem principal , era prefente aos confelhos 
que EIRey tinha fobre a chegada daquella 
noífa frota , e na prática que fe teve fobre 
eíle derradeiro recado que levou Tuam Ban- 
dam , infiftio muito que não houveííe com- 
nofco concerto , e entre outras offertas , que 
fez por fua parte , e de todolos mercadores 
Guzarates que alli eítavam , aflí de fuás fa- 
zendas y como peífoas pêra defendimento 

da 



Década II. Liv.VI. Cap. III. 45- 

da Cidade , diííe , que Jogo mandava tirar 
toda a artilheria das nãos , e com ella feis- 
centos homens. Contra o voto do qual hou- 
ve outros , que eram remirem efte negocio 
por alguma boa fomma de dinheiro , dizen- 
do , que entregues os cativos com mais efte 
dinheiro em recompenía do damno que era 
feito ao primeiro Capitão que alii veio , fe- 
riamos fatisfeitos. Finalmente huns per hu- 
ma parte , outros per outra era repartido 
o parecer em hum género de confusão , 
fem laber tomar huma boa conclusão /com 
que a Cidade ardia , não fe íabendo deter- 
minar. Aíronío d'Alboquerque também per 
fua parte eftava confufo ; porque vindo em 
rompimento de guerra , podia perder aquel- 
les homens cativos , e principalmente Ruy 
d' Araújo, que particularmente deíejava muito 
tirar daquelle cativeiro , que recebeo por 
smordeíle ; porque, como atras vimos, o 
Vifo-Rey D. Franciíco nas difFerenças que 
teve com eile AíFonfo dVllboquerque , en- 
tregou a eíie Ruy d' Araújo prezo a Diogo 
Lopes de Sequeira em modo de degreda- 
do. Per outra parte havia já íeis , ou fete 
dias que não podia tomar conclusão algu- 
ma com EIRey , e diífímular tanto artificio , 
como com eile queria ter, pêra fua condi- 
ção era hum grave tormento , porém tudo 
íòffria por ver fe podia ter algum modo 

de 



j\6 ÁSIA de João de Barros 

de falvar Ruy d' Araújo. Elle também , fe* 
gundo lhe Affbnío d'AIboquerque efcrevia , 
vendo que a dilação deíle cafo era por amor 
delle , e de fetis companheiros , refpondeo- 
lhe, beijando-lhc as mãos pelo defejo que 
tinha de os falvar; mas porque fegundo o 
que via , e íentia nos apercebimentos , e for- 
tificação da Cidade , tudo havia de parar 
em rompimento de guerra , e que quanto 
mais tardaffe , tanto lugar dava a fe a Ci- 
dade mais fortalecer , e aquella fua frota 
começava já perder credito entre os Mou- 
ros nos motes que fobre iíío lhes davam , 
todos lhe pediam que por elles não leixaífe 
de fazer o que cumpria ao ferviço d'El- 
Rey , e á confervação do nome Portuguez , 
por quanto elles citavam offerecidos a Deos 
pêra receber martyrio de morte , fe cum- 
prifle. Havido eílc recado , e pofto em prá- 
tica com todolos Capitães , aífentou Affon- 
lo d\AIboquerque com elles, que primeiro 
quefahiílem em terra, irem ao leguinte dia, 
quando agua eííiveíle eílofa , dez bateis a 
queimar alguns bailéus , que são como va- 
randas fobre o mar , de algumas cafas no- 
bres que eftavam fobre elle , e aífi as três 
náos dos Guzarates , que deram a artilhe- 
ria a EIRey pêra defenía da Cidade ; e acu- 
dindo alguma gente , fizeílem quanto da- 
mno pudeífem. Oqualcommettimento apro- 
vei- 



Década II. Liv. VI. Cap. III. 47 

veitcu muito , porque com eíle damno que 
fizeram ás náos dos Guzarates , e afíi a al- 
gumas cafas , andando ainda os nolTos nef- 
le adio de por o fogo, mandou EIRcy ern 
huma lanchara a Ruy d'Araujo , e aos ou- 
tros com elle. Por honra da vinda dos quaes , 
eftcs Capitães que andavam neíla obra , não 
foram mais avante com ella , e vieram-íè 
com elles a AíFonfo d 5 Alboquerque , que os 
recebeo com grande prazer; e por feíla da 
fua vinda , mandou tirar toda a artilheria 
das náos , e que naquelle dia não fe fizeíTe 
mais damno na Cidade , porque todo fe ha- 
via mifter pêra ouvir a Ruy d 5 Araújo , e 
feus companheiros. Os quaes entre muitos 
trabalhos que contavam de íeu cativeiro , 
o maior era as tentações que tiveram , hu- 
mas por bem , e outras por mal , que fe fí- 
zeíTem Mouros, e que em nenhuma outra 
couíá acharam coníblação , e amparo , fenão 
em hum mercador Gentio , que alíi eílava 
de a {Tento , natural do Quclim , a que cha- 
mavam Nina Chetu , porque eíle mitigava 
com peitas os authores do mal que elles 
recebiam ? e affi lhe matava a fome , e foc- 
corria em quanto podia. A qual coufa lhe 
os Mouros foffriam ? por faberem que os 
Gentios por preceitos de caridade são ge- 
raes em fe condoer de qualquer mifero , em 
tanto que vem ufar eíta fua maneira de pie- 

da- 



48 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

dade té com os animaes ; e ora que cfta fua 
obra foífe por cila cauía , ora por aJgui .1 
efperança de galardão , que por iífo podia 
haver de nós , elle o fez íèmpre com que 
os cativos diziam delie muito bem. E ver- 
dadeiramente que na elperança , fe a elle 
teve de galardão , não lè enganou coinnof- 
co , porque tomada a Cidade , AíFonfo d'Al- 
boquerque lhe pagou cfta fua obra com hon- 
ra , e mercê que lhe fez, a qual foi cauía 
de fua morte voluntária , (como adiante ve- 
remos em feu lugar.) Eftando Affonfo d'AI- 
boquerque nefta prática com Ruy d' Araú- 
jo , ex-aqui Tuam Bandam a bordo da náo , 
dizendo que queria fallar ao Capitão mor. 
Affonfo d'Alboquerque , pofto que da outra 
vez o não quiz ouvir, deita o mandou en- 
trar , fazendo-lhe mais gazalhado que os 
dias paliados as vezes que ante elle foi. E 
per fim das deiculpas que deo , e coufas 
que difle da parte d'E!Rey 7 a conclusão 
da refpoíla de Affonfo d'Alboquerque foi, 
que EIRey pêra entre eiles haver paz , lhe 
havia de dar naquella Cidade lugar pêra fa- 
zer huma cala forte ao medo das que EI- 
Rey feu Senhor tinha na índia , pêra nella 
leixar gente com Feitor , e Officiaes pêra 
negocearem a fazenda do dito Senhor, que 
os Capitães mores da índia alli mandaífem 
-€m fuás náos. A qual caía logo havia de 

ler 



Década II. Liv. VI. Cap. III. 49 

fer feita ante que elle AíFoníb d'Alboquer- 
que fe partifle , e mais lhe havia de entre- 
gar toda a fazenda , que fora tomada aos 
Portugueses das náos de Diogo Lopes , ou 
fua juíta valia pelos preços da terra , a li- 
quidação da qual fe faria ao tempo da en- 
trega : e bem affi lhe havia de pagar toda 
a defpeza que era feita aííí na Armada de 
Diogo Lopes , como naquella fua , que paf- 
fava de trezentos mil cruzados. Porque a 
primeira fe fez por caula de o virem buí- 
car , e tratar amizade com elle ? e aquella 
não vinha amais que pedir os cativos, que 
forçofamente , e com máo tratamento havia 
tanto tempo que retinha , e aíli as outras 
coufas que naquelle infulto dos feus os Por- 
tuguezes perderam. E quanto ao máo tra- 
tamento , e outras coufas que fe fizeram a 
Diogo Lopes 3 ora foliem feitas per o feu 
Bendára morto , ( fegundo elle dizia , ) ora 
per qualquer outra peífoa, a elle pertencia 
a fatisfação , pois era Rey , e Senhor da 
terra ; e não querendo conceder eítas cou- 
fas , elle o havia por imigo de fogo , e fan- 
gue , iílo podia elle Tuam Bandam dizer a 
feu Rey. E a refpofta foífe logo , e qual 
deitas duas mais quizeffe acceitar 5 a paz com 
fatisfaçao do que dizia ? ou a guerra como 
a fortuna de cada hum ordenaííe , porque 
os Portuguezes nunca foram bufcar alguém 
Tom. II. P. il D que 



5*0 ÁSIA de JoXo de Bakros 

que fe lhe partiíTem dante a porta fenão 
com alguma peça na mão por fua honra , 
e por íèu trabalho, e mais tão longe da lua 
pátria ; com as quaes palavras , lém ouvir 
réplica a Tuam Bandam , o efpedio. O 
Mouro affombrado com efta refpolta , foi-íè 
a ElRey , e fegundo fe depois íbube no 
Conielho d'EÍRey , houve grande confusão , 
porque os homens , cuja vida era negocio , 
e trato , feu voto era o que lempre diíTe- 
ram , que fe remiíie tudo per qualquer fom- 
ma de dinheiro. O Príncipe herdeiro do 
Reyno chamado Alodim , c EIRey de Pam , 
que , ( como diífemos , ) era vindo pêra cafar 
com lua irmã , e outros da fua valia , repro- 
vavam eíle voto dos mercadores da terra , 
confiando no grande apparato que tinham pê- 
ra fe poder defender, que eram trinta mil 
homens , muita artilheria , Elefantes , e que 
hum homern em fua cafa valia por dez. 
Quanto mais que , fegundo o número das 
velas dos imigos , o mais que nellas pode- 
ria haver , feriam té mil homens , os quaes 
ante de dous mezes não tinham vida , por- 
que haviam de comer , e beber , e finalmen- 
te a doencia da terra , fegundo ella tratava 
os eílrangeiros , ante de poucos dias , ou os 
lançaria de íi , ou os confumiria de todo. 
Que entregar-fe a palavras de homem fo- 
berbo ; como parecia aquelle Capitão , íem 

ve- 



Década II. Liv. VI. Cap. III. 5-1 

verem que temer , era mais confelho > e te- 
mor de mulheres , que prudência de homens ; 
e mais que conta daria de íi a gente Ma- 
laya tão temida , e efíimada per cavalleiro- 
fa per todas aquelías partes , e que per tan- 
tas vezes reiiítio a potencia de tamanho Rey , 
como o de Sião , com quem havia tanto 
tempo que contendiam ? EIRey Mahamed , 
por não moftrar efpi.rito de homem fraco, 
peró que o feu animo eftava atribulado, pro- 
gnofticando-Ihe no temor do caio fua total 
deítruição , e também por comprazer a EI- 
Rey de Pam , que era vindo ás feitas das 
vodas , (como diffemos , ) o qual eílava na 
opinião do filho; determinou-fe em defen- 
der a Cidade , e quando o fucceíTò foíTe 
contra o que elle efperava , concederia algu- 
ma parte dos apontamentos de Affonfo d'AI- 
boquerque. Todavia em modo de amoef- 
taçao diíTe áquelles dous filhos , que elle lhe 
entregava a Cidade, que a defendeíTem co- 
mo diziam , porque elle não tinha já mais 
forças que as do confelho , e que eíte natu- 
ralmente nos homens de tanta idade, como 
elle era , fempre fe inclinava ao repouíb da 
paz ; e pois a eíles parecia melhor o eftado 
da guerra , que também podiam fazer con- 
ta que forças , e confelho tudo ficava neí- 
les , e que Deos os ajudafle. Porém por lhe 
não parecer que elle totalmente fe queria 

D ii lan- 



5*2 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

lançar de tudo , a elle lhe parecia que a 
defensão da Cidade fe havia de ordenar per 
tal , e tal maneira : então começou de a re- 
partir em quartos , e cílancias per os prin- 
cipaes. E pêra melhor entendimento do mo- 
do defta defensão da Cidade > he neceífario 
faber-fe que havia nella dous mercadores 
Jáos de nação , que vieram alli aíTentar vi- 
venda havia muitos annos , os quaes per 
trato fe tinham feito tão groífos em fazen- 
da , família , e náos , que de não haver já 
na Cidade onde fe pudeííem agazalhar , deo- 
Ihe EIRey a cada hum feu bairro nos ar- 
rabaldes delia. A hum per nome Utimuti- 
raja deo hum lugar da Cidade chamado 
Upi , o qual agazalhava naquella fua po- 
voação todolos Jáos , que alli concorriam 
deitas Cidades Tubam , Japara , Cunda , 
Polimbam , e de todas fuás Comarcas , por 
ferem encommendados a elle em modo de 
confulado da nação , e neíle tempo era já 
homem de oitenta annos , e depois d'El- 
Rey elle era a primeira peíToa em fubftan- 
cia de fazenda , família de eferavos de íeu 
ferviço : cá entre elle , e feus genros , e fi- 
lhos , aífi dos que traziam pelo mar em a 
navegação de fuás náos , como alli em Ma- 
laca teriam mais de dez mil , e a fua po- 
voação Upi em força, e tráfego era huma 
Villa muito nobre. Eíle porque no feu peito 

não 



Década II. Liv. VI. Cap. III. f% 

não tinha boa vontade a EIRey, como ho- 
mem fagaz , tanto que vio a nofía Armada 
no porto , e fentio que a fua vinda podia 
fer caufa da deílruiçao d'ElRey ? em quan- 
to AfFonfo d'Alboquerque não rompeo de 
todo com elie , fecretamente mandou-lhe pe- 
dir feguro pêra fua peflba , filhos , e gen- 
ros com fua família , o que lhe Affonfo 
d'Alboquerque concedeo fabendo fer elie 
Jáo , e não Malayo , e também por ter me- 
nos imigos , e mais eftc que era tão pode- 
rofo. Peró quando veio a eíla repartição , 
que EIRey fez da guarda , e defensão da 
Cidade , coube-lhe parte delia contra onde 
elie vivia , que era a mais povoada. Na ou- 
tra parte contra o Oriente, que era da ban- 
da onde EIRey vivia , no fim delia havia 
outro lugar chamado Ilher , que per efte 
mefmo modo de Utimutirája , deo EIRey 
a outro Jáo per nome Tuara Colafcar , ao 
qual concorriam os Jáos da Cidade Aga- 
cij , e fuás Comarcas , que era a fua pátria , 
e a elie entregou ElPvey a guarda , e de- 
fensão daquella parte peio modo de Utimu- 
tirája ; e afli como efte Senhor de Upi era 
mais poderofo que o outro, aífi tinham di£- 
ferença em o nome. Forque onde entra efta 
palavra Raja , que he derivado do nome 
Real j fica na peífoa a quem o Rey dá 3 co- 
mo acerca de nós o titulo de Conde, e cila 

de- 



5*4 ÁSIA de JoÃo de Barros 

denotação Tuam como cá dizemos Dom , 
e efte fe poe ante do nome próprio da pef- 
foa , e o outro no fim delle , fegundo ve- 
mos nefteè dousjáos UtimutiRaja , e Tuam 
Colafcar. Eíles cada hum em fua povoação 
tinha jurdição abíòluta íbbre aquelles que 
viviam nella , pofto que não foliem feus ef- 
cravos, femElRey niílb poder entender. A 
ponte do rio , que divide a Cidade em duas 
partes, por fer lugar mais fufpeitofo , onde 
os noffos podiam defembarcar , fez EIRey 
nella huma força de madeira com muita ar- 
tilheria em lugar de fortaleza > a capitania 
da qual deo a Tuam Bandam , que era o 
Mouro que andava nos recados entre elle , 
e Affonío d'Alboquerque , por fer peífoa 
principal. E ao longo do mar nos lugares 
de fufpeita poz outros Capitães com artilhe* 
ria neceíTaria , e o Príncipe fcu filho , e o 
genro , cada hum com feu corpo de gente 
haviam de acudir onde vifíem maior pref- 
fa , e elle ficava pêra quando o mal foíTe 
muito acudir com outro corpo de gente , 
que havia de eílat* com elle em guarda de 
fua peííoa com os Elefantes de feu eftado. 
E porque com efta determinação de pele- 
jar , os mercadores viram fuás fazendas pof- 
tas em ventura de as perder, pofto que EI- 
Rey mandou lançar pregoes , que ninguém 
tiraíle coufa alguma da Cidade j de noite 

fe- 



Dec. II. Liv. VI. Cap. IIL e IV. ff 

fecretamente vafavam feus gudoes 5 que são 
humas loges quall mettidas debaixo do chão 
por guarda do fogo ao longo da ribeira, 
onde tinham recolhido fuás fazendas, eper 
o rio acima , e efteiros recolhiam tudo no 
ferrão nas quintas , a que elles chamam du- 
coes. 

CAPITULO IV. 

Como Affonfo d?Alhoquerque fahio em ter- 
ra , e á força de armas tomou a ponte 
com viãoria que houve (TElRey de Ma- 
laca : e depois fe tornou recolher 
as nãos y e as caufas porque. 

EM quanto eílas coufas fe faziam em 
terra , no mar Aífonfo d'Alboquerque 
começou poer em ordem as fuás , repartin- 
do o combate da Cidade per eíla maneira. 
Depois que em confelho com os Capitães 
fe determinou fahir em terra , elie com hum 
corpo de gente havia de ir commetter a 
ponte com eíles Capitães , Duarte da Sil- 
va , Jorge Nunes de Leão , Simão d 5 An- 
drade , Aires Pereira 5 João de Soufa , An- 
tónio d' Abreu , Pêro d^Alpoem , Dinis Fer- 
nandes de Mello , Nuno Vaz de Caftello- 
branco , Simão Martins , e Simão Aífonfo. 
Em outro corpo de gente , que havia de 
tomar a parte da Cidade , onde eftava hu- 
ma mefquita grande, e era junto das caías 

<TE1- 



56 ÁSIA de João de Barros 

cPElRey , iriam D. João de Lima , Fernão 
Peres d*Andrade , Baítião de Miranda i Gaf- 
par de Paiva , Jemes Teixeira , com avifo 
que tomada terra , logo vieíTem bufcar a 
ponte per huma rua direita que vinha dar 
nella , pêra fe alli fazerem fortes ; por quan- 
to os bateis , que haviam de ficar debaixo 
da ponte , ficavam por fargentes do que 
houveflem miíter de huma , e de outra par- 
te , querendo entrar na Cidade a de den- 
tro da ponte. E também porque vinham 
abocar as principacs ruas naqueJla ponte, 
onde de força havia de concorrer o pezo 
da gente, dando-lhe N. Senhor poíTe deita 
ponte , alli fariam fua força pêra o mais 
que o tempo moflxaíTc de fi. Os Chijs , que 
Affonfo d'Alboquerque tinha por vizinhos , 
como todolos dias o vinham viíitar , ven- 
do fua determinação em querer entrar na 
Cidade , como homens cfcandalizados d 5 EI- 
Rey , offerecèram-fe a elle pêra fahir em 
terra em fua companhia , o que lhe elle agra- 
deceo , e não acceitou ; dizendo que os Por- 
tuguezes nunca contra Mouros coílumavam 
tomar ajudas , porque Deos lhas mandava 
pelo feu Apoííolo , cujo nome elíes invoca- 
vam ao tempo de dar a batalha , e cujo dia 
era dahi a dous , em que por reverencia 
delle havia de commetter a Cidade. Somen- 
te lhe pedia que por quanto elle não tinha 

tan- 



Década II. Liv. VL Cap. IV. 57 

tantos pêra poiar a gente em terra , que 
lhe empreftaílem os feus ; e também folga- 
ria que elles quizeííem ir com elle no íèíi 
batel pêra dalli verem como pelejavam os 
Portuguezes , e o dizerem ao feu Rey pêra 
folgar de os ter por amigos, do que aprou- 
ve aos Chijs , e affi fe fez. Quando veio 
a outro dia , que era vefpera de Sant-Iago , 
ante manhã ao tocar de huma trombeta , 
todos em feus bateis foram demandar a náo 
do Capitão mor; e recebida abfolviçao ge- 
ral do Vigário, puzeram o peito em terra, 
Affonfo d'Alboquerque abocando o rio por 
tomar a ponte , e os outros Capitães a par- 
te que lhes era limitada. Dado per Affon- 
fo cPAlboquerque Sant-Iago , que as trom- 
betas deram final de peleja , Jevantou-íe hu- 
ma grita entre os noflbs , refpondendo-lhe 
alguma artilheria que hia nos bateis , que 
varejou per cima da ponte , onde os Ma- 
layos citavam; a qual coufa aííi rompia os 
ares em confusão de vozes , que nem íe 
ouviam trombetas , nem grita , nem artilhe- 
ria, e tudo era ouvido fem diítinçao do que 
era , fendo nos ouvidos , e vifta de todos 
hum dia do juizo de terror , e efpanto. E 
começando a obra de vir roílo a rofto , em 
ambas as partes , aííi na ponte , como na 
outra encommendada a D. João de Lima , 
acudio aeíles dous lugares grande pezo de 



5*8 ÁSIA de João de Barros 

gente ; e não vinha tão furda , que os feus 
alaridos , atabaques, e outros inítrumentos 
de guerra a feu modo não eftrugiíTem as 
orelhas dos noííos , peró que já tiveíTem em 
coftume aquelle ufo dos Mouros. Finalmen- 
te paiTadas aquellas duas primeiras falvas, 
e eftrondo de vozes , que o negocio ficou 
na mão , e no ferro , Affonfo d'Alboquer- 
que, a pezar dos Mouros, tomou poíle da 
ponte, onde eftavaTuam Bandam, e a lan- 
ça tefa os levou pêra a rua larga , que hia 
contra a povoação Upi , onde era a maior 
povoação da Cidade. E pofto que elles fa- 
ziam largo campo a que Affonfo d'Albo- 
querque os feguiífe per aquella largura da 
rua , elle os não quiz feguir , porque não 
via ainda os outros Capitães , que foram 
com D. João , acudirem á ponte , como 
lhes tinha mandado ; e temendo que eíle 
alargar dos Mouros era querer mettello na 
Cidade , pêra que lhe tomaífem as coílas da 
ponte , eípedio de íi Aires Pereira , e An- 
tónio d 5 Abreu com hum garfo de gente , que 
foíTem fazer rofto aos Mouros , que come- 
çavam abocar a outra parte da ponte , e el- 
le ficou entretendo aquelles que levava dian- 
te fi. Os Mouros que vinham pêra tomar 
a ponte, a cujo encontro eftes dous Capi- 
tães acudiram , como vinham folgados , no 
primeiro Ímpeto de fua entrada os levaram 

dian- 



Década II. Liv. VI. Cap. IV. 57 

diante de íi , tomandolhes mais de dous 
terços da ponte ; com a qual fúria eram tan- 
tos huns íòbre outros , que atocharam a 
ponte fem pelejarem mais que os dianteiros. 
Aires Pereira , e António d'Abreu tornan- 
do fobre íi , começaram de efe alar neiles 
de maneira , que não lhes dando lugar os 
feus que os apertavam detrás pêra poderem 
arrecuar , víram-fe tão deíefperados , que 
começaram de fe lançar na agua da ponte 
abaixo com efperança de fe falvar a nado ; 
mas elles fugindo hum perigo , foram ca- 
hir nas mãos da gente do mar que eftavam 
debaixo nos bateis , que os alanceáram bem , 
levando a montante da agua feus corpos 
per o rio aífima. Ao qual tempo acudio 
AfFonfo d'Alboquerque por não perder poft 
fe da ponte , onde fe fez forte : por defen- 
der a qual , morreram três Capitães d'EI- 
Rey , e Tuam Bandam , a quem ella era 
encommendada , Bengala de nação , e ho- 
mem mais fagaz , e manhofo em malícias 
que cavalleiro. D. João de Lima, e os ou- 
tros Capitães também andavam em outro 
trabalho , e maior do que tiveram os que 
tomaram aponte; eleita foi a eaufa de lo- 
go não acudirem a ella , como lhe AíFon- 
10 dWiboquerque tinha mandado. Porque 
ao fahié em terra , acudio hum grande pe- 
zo de gente , em que entrava o Príncipe 

Aio- 



6o ÁSIA de João de Barros 

Alodim, e feu cunhado ; os quaes vendo 
que o roílo dos noflbs era ir demandar a 
ponte , como força que queriam tomar , met- 
têram-fe entre elles , e ella , onde houve 
huma peleja bem travada ; e encaminhando 
os noflbs com elles per huma rua , fahio- 
lhe EIRey per outra , como que lhe que- 
ria tomar as cofias. O qual vinha com hum 
efquadrão de gente de té fetecentos homens 
em cima de hum Elefante mui armado , e 
arraiado , e outros dous , que em modo 
de fua guarda vinham diante , a cujo am- 
paro alguns Mouros , que fugiam dos nof- 
lbs , fe acolhiam. Sobre os quaes dous Ele- 
fantes , além de andarem homens em fcus 
caílellos , de que pelejavam com frechas , 
trazia cada hum feu Governador 5 que o 
adeftrava a huma , e outra parte , fegundo 
a nçceflidade que tinham. Os noflbs vendo 
tão grande pezo da gente , e temendo mais 
tomarem-lhes as coitas que aquelles feras 
de peleja , repartíram-fe : huns ficando com 
a gente do Príncipe que levavam de venci- 
da , e outros acudiram a entreter á fúria 
deitas feras ; e os principaes que puzeram 
as lanças , foram D. João de Lima , Baf- 
tiao de Miranda , Fernão Peres d' Andra- 
de, Gafpar de Paiva, Jemes Teixeira. O 
ferro dos quaes aíli foi fentido dos Ele- 
fantes y que dando dous urros , fizeram vol- 
ta 



Década II. Liv. VI. Cap. IV. 6x 

ta em redondo ; e fem darem poios Go- 
vernadores que traziam em cima , foram 
efmagando quantos dos feus achavam \ com 
tamanho curfo de corrida , que pareciam 
ginetes, fendo tão pezados á vifta , de ma- 
neira que não os puderam os noífos feguir. 
EJRey com o feu Elefante , ao tempo que 
os outros voltaram em fugida , por fe guar- 
dar do impeto delles , tomou a boca dou- 
tra rua , afaftando-fe hum pouco do con- 
curfo dos noífos ; e tornando fobre elles , 
quaíl como que lhes queria tomar as coitas , 
veio dar de roílo com Fernão Gomes de 
Lemos , Vafco Fernandes Coutinho , Mar- 
tim Guedes 3 e outros que os coníeguiam. 
Os quaes vendo a fúria do Elefante , fur- 
tando o corpo , deram-lhe lugar ; e em per- 
paflando , puzeram-fe tão tefo ás lanças , que 
ellas mefmas , e a gente que fe afaftava por 
não ler trilhada do Elefante , deo com el- 
les arrimados a huma paliçada de madei- 
ra , que comella cahir por carregarem mui- 
ta fobre ella , paífou o Elefante fem deiie 
receberem damno. O qual pela maneira dos 
outros , como fe fentio ferido , também fez 
volta per hum tefo de huma rua aílima , 
que osnoíTos não quizeram feguir, porque 
tinham o fentido na ponte que lhe Affòn- 
fo d'Alboquerque mandou que tomaflem. 
Finalmente tanto que eííes Capitães fe vi- 
ram 



6z ÁSIA de JoÃo de Barros 

ram defapreflados dos Mouros , vieram-fe 
recolhendo per onde Affonfo cPAlboquer- 
que eftava , o qual como os teve comfigo , 
começou de fe fechar cPambalas parres da 
ponte com paliçadas de madeira da que os 
Mouros alli tinham. E como veio a vira- 
ção do mar , mandou a Gafpar de Paiva 
com cem homens per huma parte , e a Si- 
mão Martins com outro cento per outra , 
que foíTem queimar as cafas que eftavam 
mais vizinhas da ponte , por ficar mais des- 
abafada. Porque além de lhe fazerem pra- 
ça , dos eirados recebiam muito damno com 
as frechas , e zervatanas hervadas , que lhe 
os Mouros tiravam , onde fe não perdia 
tiro , por elles eftarem todos em pé fobre 
a ponte. O qual damno tanto que eftes Ca- 
pitães chegaram a ellas , logo ceifou ; por- 
que como eram de madeira , e cubertas da- 
quella fua olla , aífi aífoprou a viração no 
fogo , que em mui breve lavrou nellas , em 
que entraram alguns gudões , onde eftava 
muita mercadoria , e parte da Imefquita , 
e aquella nova caía armada fobre rodas , 
de que atrás fizemos menção , que eftava 
pêra celebrar as vodas da filha d'ElRey, 
Acabado efte feito ás duas horas depois de 
meio dia , acudindo fempre os noífos aos 
rebates de Mouros , que commettiam per 
ambalas partes da ponte, com que andavam 

bem 



Década II. Liv. VI. Caí. IV. 63 

bem canfados > fem lhes darem vagar a qu.ô- 
acabaflem de fe fechar nas tranqueiras que 
faziam , fufteve-fe Affonfo d'Alboquerque 
hum pouco em prática com os Capitães aífi 
em pé como efíavam , dando-lhe graças do 
que tinham feito , e também réprefentando- 
lhe algumas coufas que por então contra- 
riavam íuíter a poífe daquella ponte, Por- 
que vifto como a gente, depois que fe el- 
friou da fúria do pelejar 3 não fe chegava 
bem á obra daquellas tranqueiras que que- 
ria fazer , aíli por razão do trabalho fer 
mui grande 3 como o ardor do Sol , com 
que os que andavam em pé eram já no es- 
pirito tão decepados , e mortos como aquel- 
les que o foram naqueíla peleja , e fobre 
tudo nenhum tinha comido aquelle dia ; 
e viítos também outros inconvenientes pê- 
ra temer , que era poderem os Mouros por 
o rio a baixo de noite na ajufante da ma- 
ré lançar algumas balfas de fogo com que 
os queimaífe , e que neíle tempo poderia 
vir huma Armada groíla , que EIRey tinha 
mandado fora , fegundo dizia Ruy d ? Araújo , 
de que era Capitão mor hum valente ho- 
mem de fua peíToa chamado Lacfamana , 
o qual poderia queimar a noífa frota ; pof- 
tas todas eftas coufas em prática , aííentou 
com elles de ir dormir ás náos , por fer 
mais feguro eílado pêra tanta gente ferida, , 

e can- 



6j\ ÁSIA de João dé Barros 

e canfada como tinha , e affi fe fez. Porém 
primeiro que fe partiífe , porque a gente 
fe embarcava mal contente por irem com 
as mãos vazias , e mais tendo diante dos 
olhos dous gudões d^ElRey , os quaes fe 
dizia efíarem cheios de fazenda , e elle os 
não podia entreter neíle Ímpeto , deo-lhes 
trella té os gudóes , com que fe tornaram 
carregados do esbulho , que foi para elles 
leve : pofto que ao embarcar a alguns foi 
carga pezada por acudirem os Mouros , 
que lhes deram aílas trabalho, fendo já Sol 
pofto. E aííi neíle recolher, como na pe- 
leja do dia , dos noílbs foram feridos fe- 
tenta, os mais delles com herva de que os 
Mouros ufam muito naquella parte ; e por 
lhe ainda não faberem a cura , depois cm 
as náos faleceram dez , ou doze ; e ou- 
tros que houveram íaude delia , fempre fi- 
caram com aquella parte da ferida enfer- 
ma , e quafi hum tremor naquelle membro 
da maldade da peçonha. A qual tinha pro- 
priedade , que a hum certo tempo acudia 
á peíToa ferida delia huma raiva , morden- 
do a íl mefmo , como fe foífe mordido de 
cão damnado : o que fe vio em hum Caval- 
leiro da Villa Efíremoz chamado Lopo de 
Villalobos , e em outros que alli foram fe- 
ridos. A cura da qual herva quizeram al- 
guns fazer com theriaga ,• e não lhes apro- 
vei- 



Década IL Liv. VI. Cap. IV. 65- 

vcitou ; e outros mais á mingua de azeite 
que não tinham , que por faber que era an- 
tídoto daquelía peçonha , queimavam as fre- 
chadas com toucinho velho , que lhes deo 
faude. Peró depois pelo tempo em diante 
os meímos Malayos amoftráram aos nofíbs 
huma herva , que havia na terra contra ef- 
ta peçonha , com a qual , como o homem 
era ferido , bailava pêra fer feguro de mor- 
rer maftigar huma folha delia : tão mara- 
vilhofahe a Natureza na antipathia das cou- 
fas , que não leixou alguma fem remédio , 
nem o poz mui longe do feu contrato , fe 
o nós foubeflemos conhecer. Dizem os Ma- 
layos que a invenção defta peçonha he dos 
moradores da Ilha Camátra , a qual fe com- 
poe com a efpinha do peixe , a que nefte 
Reyno chamamos Bagre : e os Malayos 
ofticiaes deita compofiçáo foram os povos 
Cellares que vivem no mar , de que atrás 
falíamos. O número dos feridos entre os 
Mouros , por fer grande , não fe pode fa- 
ber , nem menos dos mortos : bafie que 
não houve cafa na Cidade fem lagrimas de 
morte de pai , filho , irmão , &c. EIRey 
dePam, que era vindo ás luas vodas , quan- 
do as vio celebradas com fangue de muita 
gente que lhe feriram 5 e mataram, e íb- 
bre tudo fer queimada a cafa pêra aqueile 
iòlemne dia delias y que elle tomou por 
Tom. II. P.iL E mui 



66 ÁSIA de João de Barkos 

mui mão prognoftico , recolheofe per ter- 
ra em feus Elefantes , dizendo que hia buf- 
car gente , e ajudas pêra vir com maior 
poder á defensão daquelia Cidade , a qual 
tornada elle não fez. 

CAPITULO V. 

Como Affbnfo d? Alboquerque por alguns 
impedimentos que teve , em quanto agente 
Jarava do dam no que recebe o na batalha , 
e/leve recolhei to em as nãos , té que fegun- 
da vez tornou commetter a Cidade > e to- 
talmente a tomou. 

REcolhido Affonfo d'Alboquerque ás 
náos, mandou logo EIRey Mahamed 
com grão diligencia reformar fuás cftancias , 
e dobrallas em artiíheria , e refíftcncia. E 
porque vio que no dia da entrada dos noí- 
íòs começaram leguir a rua larga, além de 
novamente fazer na boca delia huma tran- 
queira , mandou minar toda a rua , e enter- 
rar nella humas canas groflas cheas de pól- 
vora , e femealla de abrolhos de ferro com 
peçonha , e affi os lugares per onde podiam 
os noííos fazer entrada, pêra os encravar, 
e queimar. Fez também além deíla huma 
coufa mui nova , que em fua vida cm quan- 
tas guerras teve nunca fez , pagar íbldo 
aosjáos, porque lbube que naquella entra- 
da 



Década II. Liv. VI. Cap. V. 67 

da qiie os noíTos fizeram na Cidade , não 
pelejaram também como elles coftumam , e 
puderam fazer. Mas a cauía de não pele- 
jarem como deviam não foi por razão de 
ibldo , mas por cauíà de lhes ter mandado 
Utimutirája que não aventuraíTem a vida 
por defensão do alheio , o qual preceito 
que deo aos feus y foi pelos concertos em 
que andava com Affoníò d'Alboquerque ; 
e com tudo dle íè mandou queixar a ellc 
Utimutirája defta ajuda que deo a EIRey , 
fabendo que a fua gente fora no dia da en- 
trada. Ao que clle Utimutirája refpondeo 
que era verdade da ajuda que dizia, a qual 
foi mais . apparecer a fua gente no feito, 
que pelejar ; e efte pouco que fazia , não 
era por fua vontade , mas por fer homem 
eftrangeiro , e viver na terra alhea , que fe 
afli o não fizefle , não paliaria bem , e por 
iíío não lhe devia eftranhar o que tinha fei- 
to , que fora tão pouco que obrigara a El- 
Rey mandar dar foido a todolosjáos , ven- 
do que não fe chegavam bem a pelejar com 
a fua gente. A qual defculpa lhe AíFonfo 
dAJboquerque recebeo , por fer tempo pê- 
ra diffimuíar todos eftes artifícios que com 
elle efte Mouro ufava , té que vielTe fen 
tempo , e mais por faber fer verdade que 
a fua gente não íb chegava bem , não fa- 
bendo fe era preceito íèu, ou não. Neftes 

E ii dias 



68 ÁSIA de João de Barros 

dias mandou também AíFonfo cTAlboquer- 
que recado a todolos mercadores eftrangei- 
ros 3 por lhe ganhar a vontade , que por 
lua cauíã não queimou a Cidade, nem con- 
fentio fazer-fe-lhe mais damno ; que quem 
fe quizeiíe ir cm boa hora pêra lua terra , 
que livremente o podia fazer ; e querendo 
ficar, ellc osfegurava, não tomando armas 
contra Portuguezes , por quanto elie não 
contendia fenão com EiRey de Malaca , 
e léus naturaes té lhe darem fatisfaçao do 
inal que lhe tinham feito. A qual notifica- 
ção aproveitou muito em nofíb favor : cã 
eíles mercadores fe ajuntaram , e foram a 
EiRey , requerendo-fhe que acceitaíTc qual- 
quer condição de paz ; e que fe era por 
dinheiro , ji lhe tinham dito que todos con- 
tribuiriam groífamente nilTò , que melhor 
era que o pagaíTe a fazenda , que perecer 
tanta gente. Mas como o negocio eftava 
jã cevado com fúria de vingança 5 tudo fe 
quiz Jeixar no juizo das armas , e não em 
concerto de paz , com que todolos merca- 
dores ficaram indignados contra EiRey , e 
diziam entre íi , que tinham osnolíos caufa 
de fazer todo o mal. Vendo Affbnfo d' Al- 
boquerque que de dia, e de noite tudo era 
repa irar os lugares fufpeitofos , e que a pon- 
te eftava feita huma fortaleza em artilheria , 
e defensão de dobrada madeira , ordenou 

hum 



Década II. Liv. VI. Ca?. V. 69 

hum junco o mais forte que tinha dos que 
tomou , mui bem armado de artilharia , e 
com luas arrombadas , que fe foíTe por o 
mais que pudeíle junto da ponte , pêra dal- 
li varejar aos Mouros , que andavam fazen- 
do a obra de a fortalecer. Porque fua ten- 
ção era não tanto ir impedir a obra , que 
os Mouros faziam na ponte , quanto per 
elle mefmo fondar o lugar fe poderia com 
outro maior fubir tanto aflima , que puzef- 
fe a barba fobre a ponte ; porque quando 
houveíTe de commetter outra vez a Cida- 
de 3 per elle efperava entrar na ponte , e 
lhe ficaria em lugar de fortaleza , por fer 
de bom gazaihado , e a gente ficava ampa- 
rada da artiiheria , e frechas. Mandado ef- 
te junco , por razão de huma coroa que 
fazia o rio ante de chegar á ponte , não 
pode pairar , nem outro navio mais peque- 
no , que a efte fim mandava na fua efteira , 
e illo por as aguas ferem mui quebradas , 
de maneira, que foi neceífario efperar que 
vieíTem as vivas com a Lua nova. No qual 
tempo os Chijs > que tinha junto de íi , lhe 
pediram licença pêra fe ir ; e porque por 
razão da guerra eítavam mal providos de 
mantimento , Affonfo d'Alboquerque lhes 
mandou dar muitos fardos de arroz , e al- 
gumas peças deftas partes da Europa , que 
elles muito eiiimáram. E por fazerem fua 

via- 



yo ÁSIA de João de Barros 

viagem per o Reyno de Sião, fegundo el- 
les diziam, AfFonfo d\Alboquerque lhes pedio 
houveflem por bem de lhes Jevar em íua com- 
panhia hum homem , que queria mandar com 
cartas a EIRey de Sião, o que elles accei- 
táram de boa vontade. Per o qual homem , 
que era hum Duarte Fernandes alfaiate , que 
fora cativo com Ruy d' Araújo , e fabia já 
a lingua Malaya , elle Affoníb (f Alboquer- 
que fez faber a EIRey de Sião o eftado em 
que Malaca ficava , e que não fe havia de 
partir dalli com aquella Armada d'ElRey 
de Portugal feu Senhor , fem totalmente 
deftruir aquelle tyranno , e quantos Mou- 
ros o ajudavam, que elle lho fazia faber em 
tanto queNoflb Senhor lhe acabafle de dar 
vi&oria delle. Por tanto elle Rey poderia 
mandar povoar a Cidade de feus vaífallos 
da nação dos Siamês , por fer gente com 
a nem os Portu saiezes haviam muito de foi- 

x O 

gar : cá fua tenção era não leixar alli Mou- 
ro algum. E a caufa por que Affoníb d'Al- 
boquerque fazia efta diligencia , e cumpri- 
mento com EIRey de Sião era , por ter fa- 
bido o modo de como eíte Rey Mahamed 
lhe levantou a obediência , e com eíte re- 
cado feu entreteria os apparatos da Arma- 
da , que lhe tinham dito que efte Rey de 
Sião fazia contra elle , porque per ventura 
contentar-fe-hia com totalmente o ver def- 

trui- 



Década II. Liv. VI. Cap. V. 71 

truido per qualquer mão que íbííe. Partidos 
eíles Chijs , entreteve-fe AfFonfo d 5 Albo- 
querque efperando pelas aguas pêra man- 
dar levar o junco á ponte; e também dava 
aquelle tempo pêra EIRcy tomar melhor 
cònfelho , e vir com algum partido que elle 
pudeffe acceitar , por levar com elle o mo- 
do que tivera com ElRey de Ormuz. Cá 
fegundo lhe dizia Ruy- d' Araújo , na terra 
não havia huma fó pedra pêra fazer forta- 
leza , por ter tudo a maneira de capai ; e 
pêra fe fazer de madeira, dando-lhe Deos 
a Cidade , havia-fe toda de cortar no mato 
ás lançadas , e frechadas. Também em as 
náos não havia tantas munições , e fomente 
com huma forja , que todo dia eílava occu- 
pada em repairar as armas dos homens , 
não fe podia fazer tanta obra como havia 
mifler huma fortaleza de madeira , e mais 
a terra era tão peítifera , que não poderiam 
os homens aturar hum trabalho tão apref- 
fado como convinha no fazer daquella for- 
taleza , e adoeccndo-lhe no meio da obra , 
ficava fem gente, e fem fortaleza. D'outra 
parte contendia quanto importava ao fervi- 
ço d'ElRey tomar aquella Cidade , e qua- 
manho defcredito era do nome que os Por- 
tuguezes tinham naquellas partes , leixar 
aquelle tyranno fem caítigo dos damnos 
que delle tinham recebido. Também tomar 

a Ci- 



72 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

a Cidade , c tornalla a leixar , era mui pe- 
queno frufto pêra tamanha defpeza , como 
fe fizera naquella Armada ; emais, fògundo 

a Cidade fe tornava a fortalecer , parecia 
que nío fe poderia tomar íem cufto de mui- 
ta gente , que não fe devia de aventurar 
pêra tão leve fim. Finalmente em algumas 
coníiiltas que Affonfo d'Alboquerque teve 
com os Capitães , afli por parte dellcs, como 
fua , occorriam tantas coufas humas' cm con- 
trario de outras , té que per derradeiro vie- 
ram a concluir , que acabafíem de ver o í\m 
deita empreza , que foram bufear per tão 
comprido caminho. Porque Deos não mo- 
veo o animo delle AíFoníb d'Alboquerque 
pera acabar no que tinham feiro , e nos in- 
convenientes que punham , mas pera fim , 
e gloria de fua Sandia Fé, porque dalli fe 
folie efíendendo , e dilatando por aquellas 
grandes regiões Orientaes tão çafaras dos 
méritos de fua Redempção , e a pagar aquelle 
fogo de Mahamed , que fe começava ac- 
cender per todas aquellas partes , da com- 
municaçao que o Gentio delias tinha com 
os Mouros daquella Cidade , a qual era já 
feira huma cafa de abominação de infernal 
doftrina. Vindo as aguas com a Lua nova, 
que Affonfo d^Alboquerque defejava per ef- 
feito de tomar a ponte com o junco que 
pera iífo ordenava 3 mandou nelle António 

d'A- 



Década II. Liv. VI. Cap. V. 73 

d' Abreu, filho de Garcia d 5 Abreu hum Fi- 
dalgo morador em Avis , com todolos man- 
timentos , e munições neceííarias pêra os 
dias do combate , e gente pêra ília guarda , 
e com elle mandou Duarte da Silva em hu- 
ma galé 3 e Simão Affonfo em huma cara- 
vella. O qual junco tanto que paliou o ban- 
co d'arêa , e foi furto hum pedaço da pon- 
te , começou a artilheria dos Mouros àe[- 
carregar nelle; alguma da quai lançava pe- 
louro de chumbo do tamanho de hum tiro 
de efpera , que paííava ambos os cofiados 
do junco , fazendo muito damno na gen- 
te; na qual fúria de fogo com hum efpin- 
gardão foi António d' Abreu ferido pelas 
queixadas , levando-lhe a maior parte dos 
dentes , e o queixo , depois que houve laude , 
lhe ficou não muito em feu lugar. Ao qual 
logo AfFoníò d^Alboquerque acudio , man- 
dando Diniz Fernandes de Mello , que co- 
mo eípecial cavalleiro que era , loíFreo efte 
trabalho nove dias contínuos com fuás noi- 
tes ; não que António d 5 Abreu confentiíTe 
fer levado dalíi ásnáos pêra o curarem, di- 
zendo, que fe tinha as forças perdidas pê- 
ra pelejar, e a lingua impedida pêra man- 
dar, ainda lhe ficava vida pêra não perder 
o lugar em que era poílo , e com iílo ficou 
Diniz Fernandes em quanto elle havia íaude. 
E o que mais atormentava a gente o tem- 
po 



74 ÁSIA de JoÃo de Barros 

po que cílevc nefte lugar , era o fogo que 
lançavam pelo rio abaixo pêra queimar efte 
junco , porque com a íua artilharia os Mou- 
ros nao o podiam metter no fundo , por ci- 
tar aíFaftada hum pouco alta , e todo o da- 
mno delia era pelas obras mortas. O qual 
fogo ordinariamente ao defcer da maré ca- 
da noite havia de vir em três barcos mui 
compridos carregados de madeira ileada com 
breu , e azeite , e paliada per baixo da pon- 
te fem fogo, por a não queimar, ao íahir 
delia lhe era porto de maneira , que quando 
emparavam com o noíTo junco , vinha hu- 
ma balfa de fogo que alumeava toda aquel- 
la ribeira. Sobre o qual trabalho de apagar 
eftc fogo , tinham outro maior perigo : cá 
com a claridade grande que elle fazia , eram 
viílos nos bateis em que andavam com go- 
roupezes compridos , e arpéos encadeados 
pêra governar o fogo pela vea que não to- 
cafle com o junco; affi que le a luz do fo- 
go lhe fazia proveito pêra verem o que fa- 
ziam , também dava vilta a que os Mou- 
ros varejaíTem com íua artilheria nelles. Af- 
fonfo d'Alboquerque vendo quanto damno 
a gente com. ifto recebia , e quão defvela- 
da , e eânfada andava de tão contínuo tra- 
balho , pofto que muitos dos que ficaram 
feridos da entrada da Cidade , não eram 
ainda sãos , temendo que fe eíla obra da- 

quel- 



Década II. Liv. VI. Cap. V. jf 

quelle fogo durafíe por refguardo daquelle 
junco , toda agente Jhe íicaíTe ferida; com 
eííes poucos que tinha , hurna íèfta feira oito 
de Agofto , havendo dezefeis que commet- 
têra a Cidade , em amanhecendo a pezar 
dos Mouros tomou a ponte i onde o junco 
naquella preamar eftava já pofto. O qual 
junco em chegando não fez pequena obra, 
porque ainda que levava os caftelíos damni- 
ficados da artiíheria , como eram foberbos 
fobre a ponte , deJles , e da gávea fomente 
ás pedradas defpejáram a entrada da ilhar- 
ga da ponte da parte da mefquita per on- 
de Aífonfo d'Alboquerque queria tomar ter- 
ra , todo em hum corpo , e não em dous 
como da primeira vez , que lhe fuccedeo 
mui bem eíle confelho. Porque como a Ci- 
dade eftava repartida em duas partes com 
o rio pelo meio , cujo ferviço de huma a 
outra era a ponte , e os Mouros a tinham for- 
talecido 5 cuidando que AfFonfo d'Alboquer- 
que fe havia de querer fazer fenhor delia, 
como fez da primeira vez ; com a chegada 
do junco ficou elle fenhor daquella palía- 
gem de maneira , que a gente da maior 
povoação da Cidade , que era da parte de 
Upi , não podia paflar a outra ondeElRey 
vivia , que Aífonfo d'Alboquerque tomou. 
E pofto que ifto eftava alli pejado per nós., 
muito mais pejado achou Aífonfo d'Albo- 

quer- 



y6 ÁSIA de JoÂo de Barros 

querque o caminho que commetteo com 
muitas bombardas , cfpingardões , frechas , 
zervatanas , e zargunchos de arremedo , com 
os quaes foi recebido , e na primeira che- 
gada lhe feriram mais de oitenta homens , 
pelejando os Mouros como gente que que- 
ria defender mulher ? filhos , fazenda , por 
fer mais fujeita a eftas couías , que quantas 
havia naquellas partes , e íòbre iflb grande 
opinião de cavalleiros , e em companhia , on- 
de eram viftos por fe moftrar mui oufados 
em commetter , e confiantes em eíperar. 
Mas corno os noíTos eram coftumados aquel- 
le officio de foífrer fogo , e ferro , ainda 
que á eufta do feu fangue , quebra ram-lhes 
aquella fúria, ferindo nelles tão mortalmen- 
te . que lhes fizeram alargar as eílancias. As 
quaes eílancias tanto que lhes foram toma- 
das , repartio Àffonfo cTAlboquerque o cor- 
po da gente em duas partes : ellc tomou 
huma , com que foi tomar poíTe da ponte , 
e fegurar que da outra parte da Cidade não 
paílaíTem per ella á outra por acudir á que 
eíle tomou , que era onde EIRey vivia : cá 
eíla tinha encommendada a eítes quatro Ca- 
pitães , Jorge Nunes de Leão, Diniz Fer- 
nandes , Jemes Teixeira , e a Nuno Vaz 
de Caftello-branco , e mandou-lhes que não 
paílaíTem da mefquita , e que nella fe fizef- 
fem fortes té elle tornar a elies. Efpedidos 

ef- 



Década II. Liv. VI. Cap. V. 77 

eíles Capitães , foram ferindo , e recebendo 
feridas per o caminho que hiam a tomar a 
mefquita , a qual lhe os Mouros defpejáram 
como gente que os queria metter em cila- 
da , e nelJa houvera Diniz Fernandes de 
cahir com toda a gente de fua capitania 
que o acompanhava , e fomente huma con- 
ía lhe deo a fufpeita delia. E foi , que abo- 
cando elle huma rua larga , que era das 
principaes ferventias , atraveífou-íè EIRey 
diante ddle com té mil e quinhentos ho- 
mens , e leixou-fe eílar quedo como que 
queria que Diniz Fernandes fofTe a elle per 
aquella rua, na qual efpera que EIRey fa- 
zia , e ver elle Diniz Fernandes huma tão 
principal rua defpejada , entendeo o que 
era , de que logo viram final eftar femea- 
da de abrolhos 5 e eílerpes de peçonha , 
afora outro maior darnno que elle não vio , 
que era minada de pólvora 3 com que não 
ficara homem vivo. Paflado defta rua a ou- 
tra , per que via correr o no da gente , veio 
Aífonfo d ? Alboquerquc ter a efte mefmo lu- 
gar ; mas parece que infpirou Deos em hum 
homem que hia diante , que tornou a elle , 
dizendo : Tende -vos , Senhor , não pajjèis per 
aqui , porque nefia rua eftd algum perigo : 
cd fendo tão prificipal , não a vejo trilha* 
da de gente. Aífonfo d 5 Alboquerque quan- 
do cahio no cafo , porque podia algum dos 

Ca^ 



78 ÁSIA de J0Ã0 de Barkos 

Capitães vir cahir naquelle perigo , leixou 
alli hum com gente pêra dar avilò , e paf- 
fou adiante té fe ajuntar com os quatro , 
que tinham já tomado poííe da mefquita ; 
e ornais que fe deteve com elles , foi man- 
dar-lhes que entretiveílem os Mouros pêra 
que não chegaííèm á ponte , em quanto elle 
dava ordem de fe fortalecer nella , por não 
lhe impedirem a obra. Tornado á ponte 
achou já muita parte da munição , que ti- 
nha no junco pofta em terra , que era enxa- 
das , ceílos , machados , madeira , e pipas 
vazias , com as quaes cheias de terra , e 
madeira das paliçadas que os Mouros ti- 
nham feitas na parte da mefquita , mandou 
fazer hum repairo que encerrava no feu cir- 
cuito toda a boca da entrada da ponte , e 
huma íerventia que vinha beber na agua , 
pêra lhe ficar o ferviço do mar feguro. E 
ao longo deite repairo da parte de dentro 
mandou também fazer de altura de hum 
homem hum lanço de parede enfoca de ti- 
jolo de huma fômma delle que alli eftava 
per ventura guardado pêra outra obra de 
mais contentamento de leu dono que aquel- 
la em que alli fervio : a guarda da qual es- 
tancia deo a Jorge Nunes de Leão , Aires 
Pereira , Baíliao de Miranda , Nuno Vaz 
de Caftello-branco , e Jemes Teixeira , com 
a gente de fuás capitanias. Per o qual mo- 
do 



Década IL.Liv. VI. Cap. V. 79 

do na outra parte da ponte , ainda que não 
foi com tijolo , fez outro tal rcpairo , e a 
guarda delia deo aD.Jcão de Lima, Duar- 
te da Silva 3 Fernão Peres d' Andrade , e Si- 
mão d'Andrade feu irmão. Na frontaria das 
quaes duas eftancias mandou efxar certos ba- 
teis grandes com artiiheria , que varejavam 
pela banda de fora todo o panno das pali- 
çadas ? por os Mouros não virem per entre 
a madeira de noite ferir os que as guarda- 
vam. E por caufa do ardor do Sol , que ar- 
fava os homens , frechas , e zervatanas her- 
vadas ? que os Mouros tiravam de alguns 
eirados das caías mais vizinhas á ponte , 
mandou-a Affonib d'Alboquerque toldar com 
velas das náos 5 que deo vida a todos. Por- 
que não fomente a vela impedia o Sol , mas 
ainda como a viração quando corria vinha 
enfiada pelo rio , fazia duas obras , refres- 
car a gente com o movimento , e abanar da 
vela , e mais rebatia as frechas > que não 
vieíTem ferir a gente. 



CA- 



8o ÁSIA de JoÃo de Barros 

CAPITULO VI. 

Como depois que Affbnfo d^Alboquerqu? 
defpejou a Cidade Malaca , fabendo que o 
Príncipe Alodim fe fazia forte no lugar da 
Cidade Beitam , mandou Jobre elle , e o fez, 
ir dalli : e do mais que fez pêra fegur an- 
ca y e governo da Cidade. 

A Gabado cite feito da tomada de Ma- 
laca , que fe fez com oitocentos ho- 
mens d'armas Portuguczcs , e duzentos Ma- 
labares da efpada , e adarga , por aquelle 
dia não fez Aífonfo d'Alboqucrque mais 
que fortalecer-fe nefta ponte ; e ao fegun- 
do ? porque de duas caías grandes vizinhas 
a cila toda a noite lhe tiraram com mil 
modos de tiros 5 que faziam muko damno, 
mandou a ellas eftes Capitães , Jorge Bo- 
telho , Affbnfo PeiToa , e Simão Martins. 
Os quaes tanto que as tomaram , puzeram 
em os eirados alguma artilheria miúda , com 
que fizeram a praça franca ante aquella par- 
te da ponte , donde recebiam omaiordam- 
no • e trás elles mandou aos Capitães das 
eílancias que foííem dar huma vifítaçao á 
Cidade na parte que tinham por fronteria , 
com limitação té onde haviam de chegar. 
O que elles fizeram , dando hum varejo de 
lanhadas a eífes que achavam na Cidade > 

em 



Década II. Liv. VI. Ca?. VI. 81 

em que fe fizeram honrados feitos ; e iílo 
por continuação de nove dias, que eftive- 
ram recolhidos naquella força da ponte. E 
pofto que eíle jogo de lançadas não era 
muito aprazível aos noflbs , por ler a culta 
do feu langue , por menos perigo haviam 
eíles dos dias , que o das noites 5 com o 
commettimento dos Mouros , que elles não 
podiam afaftar da ponte : té que no fim def- 
tes dias era já tanto o damno que os Mou- 
ros tinham recebido , que dos mortos y fe- 
ridos , e fugidos ficou a Cidade meia des- 
pejada , recolhendo-fe pelos matos , e nos 
feus duçóes aquelles que os tinham. Porém 
era entre elles tamanha a fome , que antes 
queriam aventurar o corpo ao ferro dos 
noflbs , por vir furtar hum pouco de arroz 
á Cidade pelas cafas onde fabiam que fi- 
cava , que perder a vida por não comer. 
A gente foraíteira com a^mefma neceíTida- 
de , (poílo que tinham tomado armas con- 
tra nós , mais por temer receberem por ilTo 
ináo tratamento d'E!Rey , que por lhe de- 
fender a fua Cidade , ) confiados no que Àf- 
fonfo d'Alboquerque mandou notificar , que 
aqueila guerra não fazia a mercadores , fe- 
não aos naturaes , mandaram- lhe pedir fe- 
guro pêra fe tornarem á Cidade , e eftarem 
nella té fe embarcar pêra fuás terras. E a 
primeira nação que iílo mandou requerer, 
Tom.ILP.iL F foi 



82 ÁSIA de JoXo de Bauros 

foi a dos Péguus, aos quaes em geral clle 
AíFonfo cPAlboquerque mandou fegurar, 
e per elles mandou notificar lá per onde 
andavam outros , que não dizia aos eítran- 
geiros , mas ainda aos próprios Malayos , 
como foliem mercadores , elle os fegura- 
va 5 querendo-fe fometter á bandeira d^El-' 
Rey de Portugal, como a Senhor daquela 
la Cidade , que já era ganhada per força 
das armas daquelles léus Capitães , e cria- 
dos que nella eftavam. Os quaes Malayos 
podiam tornar pêra fuás caías , e fegura- 
mente vender fuás mercadorias , cá lhes feria 
guardada tanta juftiça como a hum Por- 
tuguez vaífallo d'ElRey feu Senhor : por 
quanto elle os receberia naquelle amparo , 
e defensão , e que dava efpaço de quinze 
dias pêra o poderem fazer ; e paliado efte 
tempo 3 todos feriam pcrfeguidos como 
mortaes imigos. A qual notificação , pêra 
maior folemnidade , além de o dizer a e fi- 
tes Péguus , e eftrangeiros , que logo co- 
meçaram de fe recolher á Cidade , a man- 
dou fazer com trombetas , e pregões na 
linguagem da terra pêra fer notório a to- 
dos : com a qual notificação , e gazalhado , 
com que AíFonfo d 5 Alboquerque recebia a 
todos , não ficou eftrangeiro no mato , e 
dos Malayos muitos que fe não torna ÍTem 
á Cidade, E o principal foi o grande Uti- 

mu- 



DÉCADA II. LlV. VI. CAP. VI. 83 

mutirája Senhor da povoação Upi , que , (co- 
mo diífemos , ) tinha já com Áffoníb d 5 Al- 
boquerque , ante da Cidade tomada , intel- 
ligencias de paz 5 poílo que eíles íeus tra- 
tos fempre foram de homem maliciofo y o 
que lhe elie perdoou 3 íimulando que não 
era fabedor diíTo ; porque nas duas entra- 
das , principalmente no derradeiro , elle o 
pagou bem com muita gente íua 5 que alli 
foi morta , e ferida , e hum feu filho bem 
acutilado > que era aquelle que eíleve com 
o cris na mão pêra matar Diogo Lopes 
de Sequeira , fegundo e fere vemos em feu 
lugar. Porém ante que eíta gente fetornaf- 
fe á Cidade , tinha AfFonfo d'Alboquerque 
dado três dias de cevadura á gente der- 
mas no defpojo delia; eRuy d' Araújo foi 
eílar em guarda das cafas de Nina Chetu 
o Gentio , de quem tanto beneficio tinha 
recebido. E fegundo a Cidade era rica , foi 
o defpojo de roupa , e alfaias de caía pou- 
co mais de cincoenta mil cruzados , por- 
que o mais os Mouros o tinham falvo per 
eífes matos nos dias que tiveram tempo , 
que foram muitos pêra defpejar quanto ti- 
nham. E da artiiheria não te acharam mais 
de três mil peças das oito que Ruy d'Araujo 
dizia haver na Cidade , parte da qual El- 
Rey mandou levar comíigo ; e entre eftas 
pejas fe acharam algumas mui groífas , e 

F ii hu- 



84 ÁSIA de João de Barros 

huma mui formofa , que havia pouco tem- 
po que lhe mandara EIRey de Calecut. 
Acabado efte defpojo , e tornada muita par- 
te da gente á Cidade , por dar ordem ao 
governo delia , fez Affoníb d'Alboquerque 
duas principaes cabeceiras , a quem entre- 
gou a juftiça , e governança , fegundo feus 
coítumes : a Utimutiraja o governo dos 
Mouros , e a Nina Chetu o dos Gentios , 
que foi caufa de o povo fe recolher de 
melhor vontade dos matos per onde an- 
dava comendo fruitas bravas. E porque AP- 
fonfo d'Alboquerque foube que o dia da 
batalha , quando ie EIRey recolheo , fora 
pêra o lugar chamado Beiram , onde tinham 
feus duçoes , e que dalli fe paífára mais 
longe , leixando naquelle lugar o Principe , 
o qual fe fazia forte com grandes eftacadas y 
e cerca de madeira em modo de fortaleza 
com fua artilheria poíla ao longo do rio , 
que vinha ter a Malaca , mandou fazer 
preftes em bateis té quatrocentos homens , 
e eíles Capitães : Fernão Peres d'Andrade , 
Simão d 5 Andrade , Jorge Nunes de Leão , 
Gafpar de Paiva , Aires Pereira , Francifco 
Serrão , e Ruy d 5 Araújo , que eftivera ca- 
tivo , pêra darem todos fobre aquelía obra 
que fazia o Principe , e o lançarem dalli í em 
cuja companhia Utimutiraja mandou tam- 
bém té fetecentos homens de fua familia, 

e os 



Década IL Liv. VI. Cap. VI. 8? 

e os mercadores Péguus trezentos. Os quaes 
Capitães chegados ao lugar de eítancia do 
Príncipe Alodim , alevantou o arraial , e 
foi bufcar feu pai, no qual lugar os nof- 
fos não tiveram mais que fazer , que man- 
dar queimar aquella madeira que alli acha- 
ram , e tornar-fe á Cidade , e por defpo- 
jo trouxeram íete Elefantes do íerviço do 
Príncipe todos fellados , e as guarnições 
dos affentos eram de marfim lavrados de 
ouro , e cores , em que fuás mulheres ca- 
minhavam , que parece não puderam tomar 
com a preíía da fugida , e no lavramento , 
e riqueza da guarnição delias mais mof- 
travam o eftado da paz que da guerra. Com 
a qual ida dos nofíbs fe alargou El.Rey 
mais outra jornada , não fe havendo ainda 
por feguro eftar tão perto de Malaca , e 
nefta mudada começou alguma gente de o 
leixar , vendo que Aífonfo d'Áíboquerque 
não fe contentava de tomar a Cidade , mas 
ainda mandava perfeguir EIRey pelos ma- 
tos per onde andava : e principalmente co- 
mo entre o pai, e o filho houve defaven- 
ças , dando EIRey a culpa ao Príncipe da- 
quelle eftado em que andava , por elle , e 
feu cunhado , e outros de fua valia ferem 
caufa de mover a guerra. As quaes diffe- 
renças entre o pai , e filho fizeram que fe 
apartaífem hum do outro , cada hum buf- 
car 



86 ÁSIA de JoXo de Barros 

car lugar onde fe pudeíTe íuílentar da fo- 
me , que já começava entre elles ; e alTi lhe 
fugiram pêra Malaca quatro , ou cinco mer- 
cadores ricos , que EIRcy quizera reter com- 
ligo pêra fe aproveitar de fuás fazendas na 
reftituição de feu eílado. Aos quaes Aífon- 
fo dAJboquerque ao tempo de fua chega- 
da recebeo com honra , e gazalhado , e per 
elies houve do eílado d'EJRey , e como hia 
tão desbaratado , que o não íeguiam mais 
que té cincoenta homens , e cem mulheres , 
e fazia feu caminho em Elefantes na vol- 
ta de Pam em bufca do genro que hou- 
vera de fer. E que efta determinação toma- 
ra depois que vio que clle Capitão mor co- 
meçava fazer fortaleza na Cidade : cá em 
quanto lhe pareceo que fua tenção era to- 
mar a Cidade , e rouballa , e a todo mais 
damno poer-lhe o fogo á partida , fempre 
andou per alli derredor pairando , e foífren- 
do grandes trabalhos naquelles matos. Fi- 
nalmente com efta nova da partida d'EÍ- 
Rey , edefavenças d'antreelle, efeu filho, 
começou a Cidade tomar alguma maneira 
de repoufo dos grandes trabalhos que os 
dias paliados teve : no qual tempo Affon- 
fo d 5 Alboquerque também começou a en- 
tender na fortaleza que queria fazer. E pof- 
to que Ruy d 5 Araújo o tinha defefperado 
de poder achar na terra pedra pêra iflb^ 

co- 



Década II. Liv- VI. Cap. VI. 87 

como homem cativo que não vê , nem fa-> 
be mais da terra , que os trabalhos da ca- 
fa do Senhor que o tem , veio AíFonfo d'Al- 
boquerque achar na mefma terra pedra pêra 
cal , e muita cantaria lavrada em humas 
fepulturas antigas de Gentios , e dos pri- 
meiros que alli foram , que eílavam no mon- 
te que diflemos , onde os Cellates primei- 
ros vieram povoar aquella povoação de Ma- 
laca. Ao pé do qual monte em mui breve 
tempo fez huma mui nobre fortaleza , que 
depois de acabada , por eíle monte lhe não 
ficar por padrafto , ficou a torre de mena- 
gem delia em altura de cinco fobrados , 
com hum curucheo cuberto de chumbo com 
todalas outras oíEcinas , que refpondia á 
mageílade delia , á qual poz nome a Fa+ 
mofa , porque o merecia ella por a vifta , 
e lugar tão remoto onde era fundada. E 
aili fundou huma Igreja da vocação de N. 
Senhora da Annunciada , a Capelia da qual 
mandou cubrir com hum curucheo da fe- 
pultura de hum Rey 5 que mandou trazer 
com Elefantes , obra de páo muito bem la- 
vrada. No trabalho das quaes obras fe apro- 
veitou AíFonfo dVllboquerque de huma gen- 
te do povo de Malaca chamada Ambara- 
ges, que quer dizer efcravos d'ElRey , co- 
mo em verdade o eram d'EiRey , e elle 
lhe mandava dar ração de mantimento; e 

quan- 



88 ÁSIA de Joio de Barros 

quando não , elles o ganhavam > mantendo 
a fi , e a fuás mulheres , e filhos , dos quaes 
efcravos EIRey teria paflante de três mil. 
E porque Affoníb d'Alboquerque em co- 
meçando as obras foube parte deites efcra- 
vos , e delles andavam ainda pelos matos , 
outros ficaram nos duções , e outros eítavam 
na Cidade fem elle faber quaes eram , man- 
dou lançar pregoes , que todo efcravo que 
fora d 5 ÈlRey Mahamed , fe vielíe a elle 
pêra lhe mandar dar feu mantimento , e 
ficaria no foro da vida , e liberdade que 
diante tinha ; e qualquer peífoa que lhe trou- 
■xefle hum efcravo deftes por andar fugido , 
ou fe elle aprefentaífe pêra feraífentado por 
efcravo d'ElRey , que elle lhe mandaria 
dar hum tanto. O qual pregão foi caufa 
que muita gente livre ficou cativa ; porque 
como os homens tinham premio , dos du- 
ções , e matos traziam do povo pobre hum 
livre ; e tanto que o aprefentava por efcra- 
vo d 5 ElRey 5 era aífentado na matricula del- 
les , ficando com nome de efcravo elle , fua 
mulher , e filhos. E o peior era , que como 
hum homem queria mal a outro , denun- 
ciando fer efcravo com duas teftemunhas , 
não havia mais mifter , o qual negocio def- 
tes Ambarages foi ao diante caufa de mui- 
to mal , como fe verá. Feitas eílas , e ou- 
tras obras pêra fegurança da Cidade , fez 



Década II. Liv. VI. Cap. VI. 8? 

Affoníò d'Alboquerque outra pêra o nobre- 
cimento , e commercio delia, quaíí a re- 
querimento do povo. A qual obra foi man- 
dar lavrar moeda 5 poílo que na terra o ou- 
ro , e prata geralmente correíFe por mer- 
cadoria , e em vida d 5 E!Rey Mahamed não 
houveíTe outra moeda lavrada fenão de es- 
tanho , a qual fervia pêra as coufas da pra- 
ça ; porque as outras de maior fubílancia , 
e valia corria o commercio delias per via. 
de commutaçao de huma coufa per outra; 
e quando niílo entrava prata , ou ouro , 
tinham o próprio modo , tomando eííes dous 
metaes ao preço que então corria pela ter- 
ra ; e a moeda não , por a não haver na 
terra , nem os Mouros a coílumavam 5 fo- 
mente de eftanho pelo haver muito , e fino 
que fe achava na própria terra : e deite pê- 
ra pagamento de jornaes 5 e coufas da pra- 
ça , lavrou duas fortes : a huma chamou 
dinheiro ; e a outra , que continha dez di- 
nheiros , chamou foldo ; e a outra de dez 
foídos , baíhrdo. De prata de lei de onze 
dinheiros fez fomente huma moeda per no- 
me malaquezes , a qual prata vinha alli de 
Pégu ? e de Sião muito fina de lei de do- 
ze dinheiros , havida de híins povos cha- 
mados Laos , que jazem ao Norte deftes 
dous Reynos. E de ouro fez huma fó moe- 
da chamada cathoiico ? de valia de mil reaes 

mui 



5>o ÁSIA de JoXo de Barros 

mui formofa de vinte e quatro quilates de 
lei , de muito ouro que alli vem da Ilha 
Çamátra , e aífi do que traziam os povos 
Lequios das Ilhas chamadas Lequio , que 
jazem fronteiras á coita da China. Feita ef- 
ta moeda , em o dia da notificação per que 
mandou que correííe , foi arraiado hum Ele- 
fante de pannos de ouro , e feda com leu 
caítello , e em cima delle levava a bandei- 
ra real das armas deite Reyno António de 
Soufa , filho de João de Soufa de Santarém ; 
e adiante delle no mefmo caítello hia hum 
filho de Nina Chetu o Governador dos Gen- 
tios , com grande fomma de toda eíta moe- 
da ; c diante do Elefante hiam outros dous 
não tão arraiados , e nelles trombetas deite 
Reyno , e tangeres , e mulheres cantadeiras 
da terra que vivem por eíte officio , todos 
acompanhados do povo da terra, eaífi dos 
Portuguezes com boa ordenança per eífes 
lugares públicos com grande feita. E de 
quando em quando faziam humapaufa, em 
que hum Malayo dos principaes da terra 
pregoava na própria lingua aquella moeda , 
c hum Portuguez na fua ; e dados os pre- 
goes , o filho de Nina Chetu derramava 
hum golpe delias per o povo. Acabado eP- 
te adio houve logo na Cidade quem tomou 
o feitio , e cambo delia , e começou correr 
fem referta alguma , por fermais favorável 

a to- 



Década II. Liv. VI. Cap. VI. 91 

a todos , que a dos Mouros : com ella man- 
dava Affoníb cPAlboquerque pagar os jor- 
naes áquelles que vinham ao ferviço da 
obra ? principalmente aos Péguus , que fol- 
gavam de andar ao ganho dos jornaes. E 
eram tão contentes do modo defíe ganho, 
que partidos alguns juncos delles pêra fua 
terra , fe leixou alli ficar hum filho de hum 
Piloto em modo de Capitão de té cem del- 
les a ganhar fua vida naquellas obras 3 por 
ler mancebo que com a ccmmunicaçáo dos 
noíTos tomou a lingua , e folgava com a 
converfaçao delles. Com o qual ganho , 
que todos achavam em nós , e bom trata- 
mento que geralmente recebiam , guardan- 
do-lhe verdade , e juftiça , a qual elies não 
achavam emEiRey , ante era já havido por 
tyranno , aííi correo a nova de nós per to- 
da a terra , que ante que AíFonfo d'Albo- 
querque fe partiífe de Malaca , entraram 
neíle mais de quarenta juncos carregados 
de mantimentos , e outras mercadorias da 
terra ; e aííi partiram outros dos mercado- 
res naturaes a ir fazer fuás fazendas aos 
portos coíiumados , com que a Cidade co- 
meçou ennobrecer. 



CA- 



92 ÁSIA de JoXo de Barros 

CAPITULO VIL 

Como Utimutirdja por algumas coufas 
que commetteo , foi julgado d morte com 
feus filhos : e dos movimentos de guerra 
que os feus por if] o fizeram té Affonfo d?Al- 
boquerque fe partir pêra a índia : e de al- 
gumas embaixadas que lhe vieram , e man- 
dou a diverfas partes ante que fe partif- 
fe , e affi huma Armada a defcubrir Ma- 
luco y e Banda. 

EStando as coufas de Malaca nefte ef- 
tado , veio nova como depois que El- 
Rey Mahamed, e o Príncipe Alodim feu 
filho fe defavieram por as couías que atrás 
diífemos , cada hum fazia cabeça per fi , 
bufcando parentes , e amigos pêra com fua 
ajuda ver fe poderia per algum modo tor- 
nar-fe a reítituir na poííe daquella Cidade , 
que perderam. E entre algumas peííoas com 
que efte Príncipe fe carteava pêra efte fim , 
era o Jáo Utimutirája Senhor da povoação 
Upi , o qual polo ódio em que eftava com 
EiRey Mahamed , folgou de acceitar efta 
amizade com o filho ; porque como ainda 
eftava inteiro na fua povoação Upi , defe- 
java meíter o negocio em revolta , pêra 
ver fe poderia ficar por Senhor da Cidade , 
que elle mui bem poderia fuílentar com 

gran- 



Década TL Liv. VI. Cap. VIL 93 

grande familia , e fubílancia de fazenda que 
tinha. Do qual trato que elle trazia 3 veio 
ter á mão de Affonfo d'Alboquerque huma 
carta per meio de alguns imigos do pró- 
prio Utimutirája , por fer mui mal quiílo : 
e a cauía era por elle com o favor do 
officio fazer algumas tyrannias aos Mou- 
ros , e mercadores da fua jurdição , a huns 
tomando-lhes as mercadorias pelos preços 
que queria , e a outros naturaes de Mala- 
ca os duçóes, e propriedades : e fobre tudo 
todolos efcravos que podia haver á mão , 
corno entravam na fua povoação , nunca 
dalli fahiam , os quaes logo mandava met- 
ter no ferviço da obra que fazia , que era 
fortalecer-fe. Além difto por mais defcubrir 
a maldade do feu peito , mandou atraveí- 
far quanto arroz havia na terra , com que 
o povo clamava por não fe achar a ven- 
der , fenao o feu a pezo de ouro : e com 
iilo mandava na fua povoação que não cor- 
reífe a noíTa moeda novamente feita , mas 
a do Rey Mahamed , fendo elle tão gran- 
de feu imigo , fomente a fim que com efta 
neceílldade de não haver efta moeda na ter- 
ra , venderia melhor o feu ; e ao tempo 
que Affonfo d'Alboquerque mandou pregoar 
aquella nova moeda , elle , nem coufa fua 
foram prefentes. Finalmente chegou a ou- 
fadia deite Jáo a tanto, que indo lmmNai- 

re 



'94 ÁSIA de João de Barros 

re já feito Chriftáo dos da terra Malabar á 
ília povoação , elle o mandou prender; e 
porque o Meirinho da Cidade foi a elle , 
cjue lhe mandafle entregar aquelle homem , 
não lho quiz dar , e íòbre iiTo difle ainda 
mais palavras ao Meirinho chamado Fran- 
cifco de Figueiredo. E affi injuriou hum 
mercador Gentio o mais honrado dos Que- 
lijs , per nome Midele Alraja , indo á fua 
povoação Upi a lhe requerer pagamento 
de certa fazenda , que lhe tomara : e quaíl 
eícapou de o não matarem os feus efcra- 
vos , que o apedrejaram com pães de eíla- 
nho , que eílavam em huma cafa , que era 
feu almazem , por não haver pedras na ter- 
ra , o qual mercador fe veio logo quei- 
xar a Affonfo d 5 Alboquerque. Sobre as quaes 
coufas praticando elle com Ruy d' Araújo, 
que fervia de Feitor , e outros Officiaes que 
alli haviam de ficar na fortaleza , a (Tentaram , 
viíto como efte Jáo diante dos feus olhos 
todolos dias fazia mil forças ? e os íinaes 
de fuás obras eram , que como vieíTe tem- 
po 5 os havia de metter cm revolta , feu vo- 
to era que ante de proceder mais em ou- 
tras maldades , que não tiveflem remédio , 
devia de morrer por o melhor modo que 
ahi houvefle pêra iíTo , e de menos efcan- 
dalo. Nefte mefmo tempo foube mais Af- 
fonfo d'Alboquerque , que efte Jáo todo- 
los 



Década II. Liv. VI. Cap. VIL 9? 

los dias mandava contar quantas covas ha- 
via dos noffos que faleciam ; porque além 
daquelles que morreram a ferro , começou 
a terra de os apalpar , e morriam alguns 
dos muitos que adoeciam : e pêra mais con- 
firmação de fua foberba per vezes que Af- 
fonfo d 5 Aiboquerque o mandou chamar, 
elle , nem o filho nunca quizeram vir , II- 
mulando doença , e outras coufas. Andando 
Affonfo d'Alboquerque mui cheio das fuás , 
aconteceo , que hum Coge Habraem Mou- 
ro , Parfeo de nação , grande amigo deíle (Jti- 
mutirája veio pedir a elle Affonfo d 5 Al- 
boquerque o officio de Quetual da Cida- 
de ; ao qual refpondeo 5 que os taes officios 
não os havia de dar fem confelho dos ho- 
mens principaes da Cidade , que os ajuntaf- 
fe elle a hum certo dia , e que per ante el- 
les lho daria. Coge Habraem como teve 
eíla palavra , houve logo que tinha o offi- 
cio , pois não eílava em mais que ajuntar 
os Mouros principaes ante elle Affonfo d 5 Al- 
boquerque ; e teve logo maneira , pola ami- 
zade que tinha com Utimutirája , como ajun- 
tou a elle , e aPatiáco, ePatiprá feu filho, 
*\ genro , e a Tuam Colafcar Governador 
dosjáos da povoação dellher, Nina Chetu 
Governador dos Gentios j Patê Quetir Jáo , 
e a outros dos mais principaes da terra. 
Affonfo d 5 Alboquerque tanto que íòube a 

vin- 



96 ÁSIA de João de Barros 

vinda deMes, ajuntou-íe com os Officiaes, 
e Capitães em modo que os queria ouvir, 
e elJes ouviram outra prática mui differen- 
te j porque ante que fallaíTem, mandou a 
Ruy d' Araújo que leffc os capítulos das 
coufas que Utimutirája tinha commettido , 
e a carta que tinha cfcrito ao Príncipe Alo- 
dini y muitas das quaes coufas elle confef- 
fou , dando algumas mais razões de fua 
deículpa. Finalmente daquella feita , elle , 
o filho , e genro 3 e hum neto já homem 
ficaram prezos , e Patê Quetir que era pre- 
fente , entregue do officio delie Utimutirá- 
ja , fobre o qual cafo Affonfo d'Alboquer- 
que mandou proceder judicialmente , tiran- 
do-fe teftemunhos de Mouros , e Gentios. 
E a primeira execução que fez fobre fuás 
culpas , foi mandar-Ihe reftituir o roubado , 
em que entraram mais de quinhentos efcra- 
vos de partes , e dos d'E!Rey chamados 
Ambarages , que diíTemos : e fobre iíío man- 
dáram-lhe desfazer as tranqueiras que no- 
vamente tinha feito , e encher de terra as 
cavas : a execução das quaes coufas fazia 
Patê Quetir , como official que já era da- 
quella parte deUpi, e per derradeiro deo- 
íe fentença que morreífe elle , o filho , e 
genro , e neto. A mulher fabendo parte dei- 
ta fentença , mandou pedir a Affonfo d 5 Al- 
boquerque houvefle por fatisfaçao deite ca- 
io 



Década II. Liv. VI. Ca*. VII. 97 

fo elles com toda fua famiíia fe irem vi- 
ver a Jáoa , pois Malaca os havia por odio- 
fos ; e que daria por liias vidas tantos mil 
pezos de ouro , que da noíTa moeda palia- 
riam de cem mil cruzados. Ao que AíFon- 
fo d'Alboquerque refpondeo 3 que el!e era 
Mmiftro da juftiça d'ElRcy- D. Manuel de 
Portugal feu Senhor , o qual não cofturna- 
va vender juftiça por dinheiro , por fer a 
mais preciofa coufa do Mundo ; e por iffb 
que fe coníblaíTe , porque elle padecia con- 
forme a vida que teve , e êníínou a feus 
filhos té os trazer áquelle eílado. E pare- 
ce que permittio ainda Deos que a maior 
parte do cadafaífo , que per feu confelho , 
e do Bendara , que affi acabou , fe fez na 
praça em que elles efperavam banquetear 
com crua morte a Diogo Lopes de Sequei- 
ra , (como efcrevemos , ) eíle íèrvio pêra efta 
fentença que fe deo contra ellc ; porque 
foi degollado nelle , e feu filho Patiáco , 
que também ao tempo que Diogo Lopes 
jogava o enxadrez eíteve com o cris pêra 
o matar , e aíll os outros que eram os mais 
chegados a elles por fangue , com pregoes 
que denunciavam fuás culpas. A qual juf- 
tiça foi a primeira que per noífas leis , e 
ordenações , e proceflada íegundo forma 
de Direito , fe fez naquella Cidade a vin- 
te e ÍGte dias de Dezembro de quinhentos 
Tom. II. P. iL G e on- 



98 ÁSIA de JoXo de Barros 

e onze , havendo dezefeis dias que era pre- 
zo. Com o qual feito o povo de Malaca 
ficou mui dcfaílbmbrado daquelie tyranno , 
e houveram fermos gente de muita juftiça y 
e que a nao vendíamos por tão pouco pre- 
ço , como le naquellas partes entre elles ufa , 
pois dando a mulher de Utimutirája tanta 
fomma de ouro , ante Aífonfo d'Alboquer- 
que lhe quiz mandar entregar os corpos 
pêra lhes dar íòpultura 5 que as peífoas , íem 
nelle fe executar o que deviam por fuás cul- 
pas. Efta mulher movida com a dor deftes 
filhos , e marido , determinou , pois Affonfo 
d" Alboquerque lhos nao quiz dar polo ouro 
que mandava prometter, degaftar todo ef- 
te ouro na vingança de fua morte , e pêra 
iílb não achou melhor meio , que dar a 
Patê Quetir féis , ou fete mil pezos de ou- 
ro , que fizeífe quanto mal nos pudeífe fa- 
zer 5 porque ella lhe entregaria pêra iífo to- 
da fua familia ; e mais dando-lhe efta vin- 
gança , que o cafaria com huma filha fua. 
Patê Quetir, como era homem poderofo na 
terra , ainda que em vida de Utimutirája 
não eftava bem com elle , com cubica do 
premio de que logo via boa entrada , e tam- 
bém com efperança que podia Malaca com 
efta revolta vir a termos que feria elle fe- 
nhor delia , por a grande familia de Uti- 
mutirája y e riqueza que ficara delle , e que 

nif- 



Década II. Liv. VI. Cap. VIL 99 

nlílo não aventurava coufa alguma , pois 
era á cufta alhea ; huma ante manhã veio 
queimar toda aqueila parte cia Cidade con- 
tra a povoação Upi , por alli viverem os 
Chatijs do Quelim , dos quaes fe elia quei- 
xava , dizendo lerem authores da morte de 
feu marido, e filhos, por os queixumes que 
delles foram fazer a Affonfo d'Alboquer- 
que. O qual infulto tanto que o elle íbube , 
andando já os Jáos com as mãos tintas do 
langue dos mortos , mandou alguns Capi- 
tães que acudiíTem a iíTò , os quaes fizeram 
recolher a Patê Quetir na povoação Upi. 
Mas elle não contente com efta vez , man- 
dava daquella gente que tinha pereííes du- 
ções de "Queiijs , com que 'fazia grão dam- 
no , e aííi naquella parte da Cidade , dan- 
do de íubito alguns rebates , de que os Ma- 
laios andavam aíTombrados , por temerem 
muito a eftes Jáos como a gente defefpera- 
da que não temem morrer com tanto que 
fatisfação fua vingança. A qual fúria durou 
per dez dias , té que o mefmo Patê Que- 
tir veio aífentar paz com Affonfo d 5 Albo- 
querque , moftrando que por ganhar lua 
amizade , e defejar o ferviço d'ElRey de 
Portugal , amanfára os corações daquella 
gente , á qual fe lhe não fora concedido 
aquelíe modo de vingança , quafi como cho- 
ro nos cafos tão triítes , como foi o de feu 

G ii Se- 



ioo ÁSIA de Joio DE Ba&kos 

Senhor , fegundo a gente dos Jáos he fu- 
rioíli naquelles aétos , fempre fizeram maior 
damno ; mas com aquella cevadura , que 
foi artificio de os amanfar ; clle os tinha 
já pacificos , e obedientes a feu mandado. 
Affonfo d 5 Alboquerque porque foube que 
eíte Jáo defejava muito cafar com a filha de 
Utimutirija , que lhe fua mai promettia , 
pareceo-lhe que por comprazer á mulher 
delJe pêra effeito daquelle cabimento fizera 
aquelles commettimentos , que cauíbu diífi- 
mular o melhor que pode com clle , levan- 
do-lhe em conta fuás defculpas. E porque 
via também que começava clle ter credito 
entre os Jáos , gente a mais principal , e 
poderofa da terra , e dando-lhe de todo o 
officio que fora de Utimutirája , ficava mais 
honrado pêra a mulher dclle lhe dar fua 
filha em cafamento , com que ficaria de to- 
do aífocegado , deo-lhe o officio , com que 
per eíte modo ficou em paz fobmettido á 
noiTa obediência. Mas ifto durou mui pou- 
cos dias ; cá a mefma honra que lhe Af- 
fonfo d'Alboquerque fez na dada do offi- 
cio , caufou tornar-fe a rebellar ; porque 
vendo-fe cafado com a filha de Utimutirá- 
ja , com que ficou fenhor daquella fua grão 
família , e fazenda , ficou logo vingador de 
ília morte 5 porque com efta condição lhe 
deo a fogra a filha. Porém logo no prin- 

ci- 



Década II. Liv. VI. Cap. VIL 101 

cipio não fe moftrou mais que revel aos 
mandados de Affoníb d'Alboquerque fem 
fazer guerra , efperando que fe folie elle 
pêra a índia, que feria tanto que a monção 
vieíle. Eftando as coufas nefte efiado , El- 
Rey de Campar 5 cujo Reyno lie na Ilha 
Çamatra obra de vinte e féis léguas ao Le- 
vante de Malaca , porque fora cafado com 
huma filha d 5 EÍRey de Malaca , de que 
era viuvo , donde entre elles houve deía- 
vença , determinou de fe metter em noffa 
graça pêra eíle fim. Sabendo elle como 
AíFonfo d'Alboquerque á mingua de ho- 
mens nobres per morte de Utimutirája pro- 
vera do officio que elle tinha a Patê Qye- 
tir , o qual fe rebellava , determinou de lhe 
mandar pedir que o ieixafíe vir a Malaca 
a fervir a ElRey de Portugal 5 cujo vaífal- 
lo queria fer 5 parecendo-lhe que os Ma- 
layos por razão da nobreza de lua peíToa , 
como o viííem em Malaca, pelas intelligen- 
cias que já fobre iíTo tinham , pediriam a 
AíFonfo cPAlboquerque que lhe déííe o of- 
ficio que tinha Patê Quetir. Com a qual 
entrada , de duas o tempo lhe podia dar 
huma , ficar fenhor de Malaca , ou provo- 
car todolos moradores delia a fe paliarem 
a viver ao feti rio de Campar. Pêra eífèi- 
to do qual propofito fe veio a huma Ilha , 
a que os naturaes da terra chamam Czvá- 

x "ta % 



ioa ÁSIA de João de Barros 

ta , e os noíTos da Aguada , pola que alli 
fazem quando navegam , ou dos Limões , 
poios muitos que tem : da qual Ilha man- 
dou hum prelente a Affonfo d^Alboquer- 
que de certos fardos de lenho aloé , e de 
huma maíTa da efpecie de lacre ? que en- 
tre elles lerve de verniz ; dizendo que aquel- 
la era a fruta da fua terra ; e poílo que 
nella foííc livre , que feu defejo era fazer- 
fe vaíTallo d 5 EUley de Portugal , e vir vi- 
ver a Malaca ao fervir , fe aprouveífe a 
elle Capitão mor. A qual vinda por então 
não houve eífeito , por Aífonfo d'Alboquer- 
que lhe não conceder algumas coufas de 
fuás capitulações ; porém depois em tempo 
de Jorge dWlboquerque 5 fendo Capitão da- 
quella Cidade Malaca , fe veio elle a eíta 
com Pêro de Faria 5 que andava naquelle 
eítreito de Sabam de Armada , ( como fe 
verá em feu tempo.) Também vieram nef- 
te tempo Embaixadores de hum Rey Gen- 
tio da Ilha Jauha com hum prefente , e 
offerecimentos de grande amizade a Aífon- 
fo d'x\Jboquerque , ao qual elle refpondeo y 
e mandou hum dos Elefantes que alli fo- 
ram tomados , por ferem lá de muita eíli- 
ma ; e aííi lhe veio hum Embaixador d'El- 
Rey de Sião em companhia de Duarte Fer- 
nandes , que elle lá tinha enviado com os 
Chiis. E a caufa de fua vinda era cu;erer 
J J EI- 



Década II. Liv. VI. Gap. VII. 103 

ElRey per fua peflba faber fe era verdade 
do euado em que eílava Malaca , e que 
gente era aquella , que lhe dava tal vingan- 
ça daquelle tyranno , porque não o podia 
crer ? e diffo mandava agradecimentos a Af- 
fonfo d'Alboquerque , offerecendo-fe por 
grande amigo d'ElRey de Portugal, pêra 
o qual mandava cartas , e prefente, e aífi 
a elleÂíFonfo d'Alboquerque. Com o qual 
á tornada elle mandou , por mais fegurar 
o eílado de Malaca , fua embaixada per An- 
tónio de Miranda d' Azevedo , e Duarte 
Coelho bem acompanhados com algumas 
coufas deitas partes : a íubftancia da qual em- 
baixada era liança de amizade , e que pois 
elle tinha deftruido aquelle tyranno , que 
tanto tempo lhe fora revel, e nunca pude- 
ra caftigar 5 que dalii em diante podia man- 
dar os feus povos de Sião viver aquella Ci- 
dade , porque feriam tratados nelía como 
os próprios Portuguezes. E neíle mcfmo 
tempo mandou outra embaixada a ElRey 
de Pégu per Ruy da Cunha ; e aífi elle , co- 
mo António de Miranda foram em navios 
que alli vieram de Pégu , e porém Antó- 
nio de Miranda ficou em Tanaçarij , que 
era d 5 ElRey de Sião , por o feu íenhorio 
fer de mar , e per alli entrou per terra té 
Sião. Ruy d' Araújo , e Nina Chetu , porque 
fouberam de Affonfo d'Alboquerque como 

de^ 



104 ÁSIA de João de Barros 

defejava também de mandar defcubrir as 
Ilhas de Maluco , e Banda , donde nafcia 
o cravo , noz , e maça , em quanto os na- 
vios fe faziam preftes , ordenaram hum jun- 
co feu com alguma mercadoria 5 de que era 
Capitão hum Mouro per nome Nehodá If- 
jfnael , que foíTe diante , ao qual Affbníò 
d'Alboquerque dco regimento quefoííe per 
todolos principaes portos da Jauha , denun- 
ciando o feito de Malaca , e que podiam 
ir a ella fazer feus proveitos mais fegura- 
mente , que em tempo d 5 ElRey Mahamed , 
porque achariam todalas mercadorias deftas 
partes Occidentaes , de que elle levava mof- 
tra. E dahi foíTe ás Ilhas de Maluco , e 
Banda carregar , efizeífe outra tal denuncia- 
çao , a fim que a navegação de Malaca , 
que naquellas partes era tão geral, não fe 
perdeííe , ouvindo que eftava em noífo po- 
der ; e também que os noííos navios que 
elle efperava mandar Jogo, quando chegaf- 
fem a algum porto deites , foíTem bem re- 
cebidos. O qual Nehodá não levou de ven- 
tage a três navios, que Affbnfo d 5 Alboquer- 
que mandou a efte defcubrimento , mais que 
dons , ou três dias , dos quaes foi por Ca- 
pitão mor António d 5 Abreu o que foi fe- 
rido com o efpingardão no junco ; e dos 
outros dous eram Capitães Francifco Ser- 
rão 3 e Simão Aítonfo cavalleiros da cafa 

d'El~ 



Década II. Liv. VI. Cap. VIL 105- 

d'ElB.ey ; e Feitor das mercadorias João 
Freire criado da Rainha D. Lianor, e Ef- 
crivão Diogo Borges, e Pilotos Luiz Bo- 
tim , Gonçalo de Oliveira , e Franciíco Pvo- 
drigues : com regimento , que em nenhuma 
maneira fizeíTern preza , nem tomadia , ante 
procuraíícm paz , dando do feu per onde 
quer que foffcm , e affentaíTem padrões, e 
as terras nas cartas , e outros muitos avi- 
fos , e refguardos , que convinham pêra tão 
novo deícubrimento. Efpedidos eftes Em- 
baixadores , e navios que Affoníb cfAIbo- 
querque mandou , começou entender em íua 
partida pêra a índia , leixando primeiro af- 
fentado todalas coufas da Cidade o melhor 
que fe pudeíTe fazer em tão breve tempo y 
e em negocio tão revolto como fe tratou 
depois que chegou a ella té fua partida. Por 
Capitão da qual fortaleza , (que ficava já em 
altura que fe podia bem defender , ) leixou 
a Ruy de Brito Patalim , hum Fidalgo da 
Villa de Santarém , peflba de quem clle 
confiou o governo , e defensão daquella Ci- 
dade com té trezentos e tantos homens der- 
mas ; e a Ruy de Araújo por Alcaide mor , 
e Feitor , em pagamento de feu cativeiro ; 
e porEfcrivães de feu cargo, Franciíco de 
Azevedo , Pêro Salgado , e João Jorge ; 
Almoxarife dos mantimentos Jacome Fer- 
nandes^ e feuEfcrivao Franciíco Cardofo; 

e Al- 



ioó ÁSIA de João de Barros 

e Almoxarife do armazém Braz AfFoníb; 
e Provedor dos defuntos , e hofpital Dio- 
go Camacho com feus Efcrivães , e outros 
cfficiaes , cujos nomes não vieram á noífa 
noticia , todos criados cTElRey , e peííoas 
de merecimento, fegundo feu cargo; e por 
Xebandar, e Governador dos Gentios Ni- 
na Chetu , e dos Mouros Malayos hum 
feu Caciz , e dos Jáos da parte de Upi, 
por Patê Quetir eftar alevantado , hum Mou- 
ro honrado per nome Aragemut Rája , e 
dos da parte Uher Tuam Colafcar; e Ruy 
de Araújo por já faber a lingua da terra , 
e feus ccílumes , intervieffe com elles Xe- 
bandares em os negócios da governança de 
feus officios 5 pêra dar diíío razão ao Ca- 
pitão Ruy de Brito , porque o povo não 
recebeífe algum aggravo dos Xebandares. 
No mar leixou huma Armada de dez ve- 
las 3 em que ficariam trezentos homens de 
armas 5 e mareantes, da qual Armada era 
Capitão mor Fernão Peres de Andrade , e 
Sota-capitão Lopo de Azevedo ; e os ou- 
tros Capitães eram João Lopes Alvim , Vaf- 
co Fernandes Coutinho , Chriftovao Gar- 
ces , Jorge Botelho 5 Aires Pereira de Ber- 
redo 3 Pêro de Faria , Chriftovão Mafcare- 
nhas , e António de Azevedo , todos ho- 
mens Fidalgos 5 e bons cavalleiros. E aos 
que novamente fez Capitães ^ deo parte dos 

na- 



Década II. Liv. VI. Cap. VIL 107 

navios que levou da índia , com fundamen- 
to que ranto que a elle chegaíTe , prover 
de melhores vaíilhas áquelles a que tomara 
as em que andavam , por as dar aos que 
ficavam nefta Armada. E Fernão Peres Ca- 
pitão mor delia havia de eíperar a monção 
do tempo em que vem os juncos de Ma- 
luco , Banda , Timor , e daquellas partes 
Orientaes a Malaca , pêra carregar de dro- 
gas , e de outra fazenda as náos dos ar- 
madores 5 que Diogo Mendes de Vafcon- 
cellos levava , e dahi fe vir pêra o Rey- 
110 ; e em lugar delle Fernão Peres , como 
diífemos 5 havia de ficar Lopo de Azeve- 
do. Providas eílas coufas , e as mais que 
convinham á governança , e defensão de 
Malaca , e aííi as neceífarias á partida de 
Affonfo d'Alboquerque , vieram-fe a elle 
os moradores que alli ficavam de aííento , 
aífi Gentios do Quelij , Pégu , Jauha 5 como 
os Mouros deitas , e de outras partes , fazen- 
do-lhe huma falia publica em modo de re- 
querimento. Trazendo-lhe á memoria como 
as coufas daquella Cidade eílavam ainda 
mui frefeas , e os ânimos de muitos pouco 
quietos y e feguros no ferviço d'E!Pvey de 
Portugal, e outros publicamente affi como 
Malayos , e Jáos andavam levantados ; e 
poílo que elle Capitão mor leixava pêra de- 
fensão daquella Cidade mui bons Capitães, 

e Ca- 



108 ÁSIA de João de Barros 

e Cavalleiros , elia era tamanha coufa , que 
requeria fempre prefente a peílba delle Ca- 
pitão inór , principalmente naquelle tempo* 
Por tanto elles como bons , e fieis vaílal- 
los d'ElRey de Portugal , os quaes elle Ca- 
pitão mor tinha ganhado per armas , e de- 
pois per amor de boas obras , e mercê que 
delle receberam , lhe requeriam que por en- 
tão não fe partiíTe pêra a índia , ao menos 
té a outra monção ; e que fe per ventura 
na feitoria d'E!Rey havia alguma neccífi- 
dade pêra pagamento da gente de armas , 
elles a fuppririam com fuás fazendas. Af- 
fonfo d'Aiboquerque , poíto que eftes mo- 
radores o apertavam muito , quafi imputan- 
do a elle o mal que ao diante fuecedeífe 
com fua breve partida , todavia eíte zelo 
que vio naquellas peífoas tão principaes , 
de quem dependia a governança , e aífoce- 
go da terra , o íegurou mais em fua ida; 
e dando-lhe por iífo muitas graças , e as 
razoes que obrigavam acudir ao eftado da 
índia , os efpedio , e dahi a três , ou qua- 
tro dias fe partio com quatro velas. Elle 
em huma , e nas três vinham Jorge Nunes 
de Leão , Pêro d'Alpoem , que era nas em 
que foram da índia , e Simão Martins em 
hum junco , que tomou naquelle caminho, 
todo amarinhado de Jáos 3 em que entra- 
vam muitos carpinteiros , calafates J e offi- 

ciaes 



Década II. Liv. VI. Cap. VII. 109 

ciaes mecânicos , que AíFonfo d'Alboquer- 
que levava em grande cftima , poreftesjáos 
ferem grandes homens defte miíler do mar , 
os quaes feriam quaíi feíTenta pelToas , a fo- 
ra mulheres , e filhos , que elies coftumam 
trazer comfígo. E ao tempo que AíFonfo 
d ? Alboquerque fc embarcou , o Príncipe Gei- 
nal, que elle tomou em o junco Bravo, def- 
appareceo : parece que defconfiou de poder 
fer reftituido em feu Reyno 3 como lhe Af- 
fonfo d'Alboquerque tinha promettido , ven- 
do que levava elle comfígo poucas velas 3 
e gente. E poíto que AíFonfo cPAlboquer- 
que mandou fazer diligencia em fua bufca , 
nunca o puderam achar : e depois fe foube 
fer ido pêra EIRcy Mahamcd , que fora 
de Malaca por tratos que andaram entre 
elies , onde eíleve alguns annos 3 té que per 
feu favor veio cobrar o Reyno de Pacem 3 
em que durou pouco , como veremos em 
feu tempo. E nefte de feu defterro , o ty- 
ranno que o lançou do Reyno , temendo 
que AíFonfo d'Alboquerque IhepediíTe con- 
ta daquella obra 3 e mais do que era feito 
a João Viegas no feu porto de Pacem 3 
trabalhou fempre de o contentar , e ganhar 
a vontade com boas obras ; porque alguns 
homens que foram ter ao feu porto da náo 
Flor de la mar 3 que naquella viagem que 
AíFonfo d'Alboquerque fez pêra a índia, 

fe 



no ÁSIA de João de BakkoS 

fe pcrdeo, (como veremos,) elle os aga* 
zalhou , e mandou com davidas em asnáos 
de Choromandel , que hiam carregar ao feu 
porto , pêra dahi fe irem a Cochij. E lei- 
xando ÁíFonfo d'Alboquerque a viagem , 
do qual eferevemos adiante, convém, pri- 
meiro que entremos em o anno de doze , 
darmos conta do que paflbu na índia , e 
principalmente em Goa, em quanto elle an- 
dou fora. 

CAPITULO VIII. 

Como os Mouros das terras firmes de 
Goa , partido Affbnfo â? Alboqucrque pêra 
Malaca , lhe vieram fazer guerra , té hum 
Capitão do Kidalcao entrar na Ilha , em 
que o Capitão Rodrigo Kabello , e Manuel 
da Cunha foram mortos. 

COmo muitas terras firmes de Goa não 
eílavam de todo aíTentadas , nem o ani- 
mo de feus moradores mui fieis na obedien- 
cii noíTa , tanto que viram partido AíFonfo 
d\Alboquerque pêra Malaca , lugar tão re- 
moto da índia , e terra pêra que os noflbs 
não tinham navegado , e mais mui duvido- 
fa pelo que nella aconteceo a Diogo Lopes 
de Sequeira , como gente que não temia fua 
tornada , começou de fe rebellar , não que- 
rendo acudir com o rendimento das tana- 

da- 



Dec. II. Liv. VI. Cap. VIII. tii 

darias ao Capitão Melrao , a quem AfFoníb 
d'Alboquerque as tinha dado pela maneira 
que diflemos. E pofto que com a gente da 
guerra que elle trazia ordenada pêra defen- 
são daquellas tanadarias , ás vezes fazia a 
arrecadação delias com trabalho , muito 
maior- o teve tanto que com força de gente 
veio fobre elle hum Capitão do Hidalcão 
chamado Pulate Can , té que per derradeiro 
vindo efte Pulate Can a lhe dar huma ba- 
talha , Melrao lhe fahio , e o desbaratou 
com quatro mil peães , e quarenta de ca- 
vallo que tinha , tendo Pulate Can muito 
maior número de gente. Seguindo o alcan- 
ço do qual hum feu Capitão delle Melrao 
per nome Içarão , quiz tanto perfeguir os 
irnigos , que quaíi deíèfperados de falvaçao 
em hum lugar eftreito tornaram fobre íi, 
onde Içarão foi morto , e a maior parte da 
gente que levava , com o impeto da qual 
viótoria vieram dar com Melrao , queeftava 
repoufado daquelle feito , e foi alii desba- 
ratado. E porque lhe tomaram o caminho 
de Goa , e elle fer homem de honra 3 e fâ- 
ber , que acerca de nós he injúria perder o 
campo 5 não oufou vir ante o Capitão Ro- 
drigo Rabello naquelle eftado de vencido , 
e foi-fe pêra EiRey de Naríinga , levando 
comíigo Timoja , que (como vimos) dle 
tinha tomado fobre fi por caufa do roubo 

das 



112 ÁSIA DE Joio DE BàR&OS 

das náos , os quaes damnos fe os não pa- 
gou com a fazenda , foram pagos com lua 
morte lá em Naríinga de lua chegada a 
poucos dias. Com a qual nova ília mulher 5 
e filhos fugiram de Onor onde eftavam , e 
fe vieram a Goa bufear noífo amparo , aos 
quaes AíFonfo d 5 Alboquerque depois de fua 
vinda de Malaca , ( pofto que elle Timoja 
era traveíTo , ) por memoria dos ferviços 
que fez na tomada de Goa , e exemplo ao 
Gentio daquella terra , que as mulheres , e 
filhos daquelles que militavam , e morriam 
por nós , eram amparados , lhes mandou or- 
denar certa coufa de que fe mantiveííem. 
Meirao depois que foi em Narfinga , não 
tardou muito que não foi chamado por o 
povo do Reyno de Onor , por fer morto 
o irmão , com que tinha guerra fobre a fiic- 
cefsão do Reyno. E como era homem gra- 
to , tanto que foube que Affonfo d'AIbo- 
querque era vindo de Malaca , lhe mandou 
algumas peças de ferviço , em que entrou 
hum aíícnto forrado de ouro ao modo de 
tripeça , que lhe EIRcy de Narfinga deo 
quando fe delle efpedio por vir herdar , e 
fempre foi grande amigo de Portuguezes 
em quanto viveo. Ficando as terras de Goa 
defamparadas com eíla batalha , em que Mei- 
rao foi desbaratado , fem Rodrigo Rabello 
lhe poder foccorrer, por apouca gente que 

ti- 



D se. II. Liv. VI. Ca?. VIII. 113 

-tinha , levantou-fe neíla conjunção hum Mou* 
ro coixo , e com pregações per modo de 
religião começou de induzir , e convocar 
muito povo dos Mouros dos que lançára- 
mos da Ilha de Goa , e de outros a ella vi- 
zinhos que vieflem fobre ella , promettendo 
com feus fermdes de Satanaz reftituição del- 
ia 3 de maneira , que com a gente que cite 
Mouro ajuntou, e outra que Fulate Can ti- 
nha fe fez hum corpo de mais de oito 
mil homens f com que elle Pulate Can al- 
gumas vezes vinha dar moítra derredor da 
Ilha , e do fucceííò tomar conlelho do mo- 
do que teria em commetter a entrada dei- 
la. A qual elle não coinmettêra , íe Rodri- 
go Rabelío fizera a torre , e baluarte , que 
lhe AfFonfo d 5 Alboqucrque leixou ordenado 
que fizeíle no paílò Beneilarij na parte da 
Ilha onde eftava hum muro velho larço , 
e foberbo íobre o rio , com huma porta 
como que já em outro tempo fe fizera alli 
aquella defensão por guarda da entrada da 
Ilha. Porque como toda era cercada de rio 
largo , fegurado eíle paífo , por fer o mais 
corrente da terra firme , ficava o mais da 
Ilha guardado com pouca vigia ; e quando 
per qualquer outra parte foííe entrada , pê- 
ra fahir delia depreíla , não podia Ih" fenão 
per aqui , o qual lugar tomado , ficava a 
•gente deita entrada perdida , e iílo era o 
Tom. II. P.iL H que 



ii4 ÁSIA de JoXo de Barros 

que AfFoníò cTAlboquerque lamentava de- 
pois da ília vinda. A qual obra Rodrigo 
Rabello por então houve poreícufada, por 
ter outras da Cidade a que acudir , e mais 
vendo que Melrao andava com gente de 
guerra nas terras firmes , e que não havia 
nellas Mouros de que temer a entrada da 
Ilha ? depois que Melique Agrij perdeo ef- 
tas terras firmes , e o Hidalcao com fuás 
occupaçoes da guerra que tinha no fertão 
não acudia a ellas. Peró depois que elle Ro- 
drigo Rabello vio Melrao desbaratado com 
a vinda de Pulate Can , e que com elle fe 
ajuntaram os Mouros do outro pregador , 
com que lhe vinha dar moftras derredor da 
Ilha 3 e podia em jangadas , como da outra 
vez , commetter a entrada delia , ordenou 
navios de guarda , porque té então a vigia 
dos paíTos era encommendada ao Tanadar 
Cogequij homem de guerra , e mui fiel fer- 
vidor. O qual com certos Naiques , que 
são Capitães da gente de pé , fegundo tifo 
da terra , de noite , e de dia roldavam os 
paíTos de fufpeita ; porque como elles eram 
do Gentio Canarij da Ilha , que tinham nel- 
la mulher , e filhos , tanto importava a el- 
les a guarda da Ilha , por lhes não deftrui- 
rem íua pobre aldeã onde viviam 5 como 
aos noífos a Cidade onde eftavam mais fe- 
guros ^ e fobre tudo fempre o Adail Dio- 



Dec. II. Liv. VI. Cap. VIII. 11$ 

go Fernandes ordinariamente com a gente 
de cavallo , e pé a eile ordenada ? a gyros 
viíitava todolos paíTos. E porque os de Be- 
neííarij , e Agacij eram de maior fufpeita , 
tanto que Pulate Cari deo moílra de íi , 
mandou Rodrigo Rabeiio a hum Pcro Pre- 
to morador da Cidade , que eílivefle com 
hum batel grande com alguns homens 5 e 
duas peças de artilhem em o paíTo de Be- 
neftarij , e no de Agacij outros dous bateis , 
em hum delles Aires Dias , e no outro Ai- 
res da Silva por Capitão de todos três, 
dando vifta a huma , e outra parte. E elle 
Rodrigo Rabeiio per muitas vezes cavalga- 
va com té quarenta de cavallo , e gente de 
pé da terra , e andava favorecendo as al- 
deãs , e dava também alguma moílra a Pu- 
late Can \ que apparecia da outra banda do 
rio. Havendo já dias que a guarda da Ilha 
procedia per efta maneira , como Pulate Can 
era homem de guerra , e de induftria , or- 
denou humas jangadas per huns efteiros den- 
tro do rio de Antraz , que vinham dar no 
paíTo de Agacij , moftrando que per aquel- 
la parte havia de fazer a entrada , e pêra 
iílo tinha faas intelligencias com alguns Gen- 
tios moradores na Ilha , que como foíTe 
dentro , que leixaííem os nòííos , e fe ajun- 
taíTem com elle. Do qual commettimento 
que fez ao Gentio da terra Crifná hum 

H ii Ca- 



n5 ÁSIA de João de Barros 

Capitão delJes o defcubrio a Rodrigo Ra- 
bello; e paliando alguns dias que elle Pu- 
late Can andou com elles neíte trato , tudo 
induftriofamente pêra que Rodrigo Rabcllo 
o foubeífe , mandou dizer a eítes principaes 
que tinha convocado pêra o negocio , que 
pêra huma tal noite o vieflem efperar ao 
paffo de Agacij. Rodrigo Rabello como 
foi aviíado deita noite de fua entrada per 
aquella parte , mandou a Pêro Preto , que 
eííava em Beneílarij , que fe vieííe ajuntar 
com Aires da Silva. Pulate Can como não 
efperava outra coufa , tinha no paíTo Benef- 
tarij gente preftes , e a nado paliaram a Ilha 
fobre as adargas , e ceftos obra de trezen- 
tos homens , que vieram logo ao longo da 
ribeira té o paflb de Agacij tomar a gente 
da terra , que eftava alli em guarda do paf- 
fo Agacij, A qual como tinha os olhos no 
mar, e o defcuido na terra, quando fentí- 
ram o ferro em íi , houveram que a Ilha 
era entrada per muitas partes , e não de gen- 
te que os convocava em fua ajuda , mas 
que lhes queria tirar a vida , e por iííb co- 
meçou cada hum acudir a fua aldeã a poer 
em' cobro mulher, e filhos. Aires da Silva , 
que eílava defronte na terra firme vigiando 
afahida das jangadas, quando ouvio os ala- 
ridos dos Mouros , e arder a aldeã dos Gen- 
tios, que eftavam em guarda dopaífo, pa- 
re- 



Dec. II. Liv. VI. Cap. VIIL 117 

recendo-lhe que algumas jangadas das que 
elle efperava eram paliadas da banda da- 
lém , foi demandar a Ilha pêra ver fe as 
via ; e não as achando 3 nem menos o Nai- 
que que eílava fobre o paíTo , tornou-fe ao 
lugar que ante tinha , que era aqueíle per 
onde efperava que haviam de fahir as jan- 
gadas 3 fegundo o avifo de Rodrigo Ra- 
bello 3 parecendo-lhe que a grita , e arder 
da aldeã era alguma maldade dos Gentios 
da terra feita per a induítria de Pulate Can , 
pêra que em quanto acudiffe alli com os 
bateis , fahir elie com fuás jangadas. A qual 
fufpeita era aÁi 3 porque não feria Aires da 
Silva tornado a efte lugar quando fentio 
o rumor da gente que vinha nas jangadas ; 
e porque o efcuro da noite , e chuva lhe 
não dava vifta pêra as commetter y convcr- 
teo-fe .a mandar tirar com artiiheria aefmo , 
onde fentíram o rumor ? que caufou não 
fe mudarem os Mouros donde eílavam , o 
que aproveitou muito pêra fe fal varem. Por- 
que quando veio pela manhã com a maré 
vaíia , e o mar efpraiar muito , por ferem 
aguas vivas 5 eílavam todos em fecco huns 
fobre coroas de areais , outros em vafa , de 
maneira 5 que os noífos bateis não podiam 
ir a elles , e eftavam hum pouco affaftados 
pêra com artiiheria lhes fazer algum damno. 
Aires da Silva em quanto os tinha alli pra- 
zos 



n8 ÁSIA de JoXo de Barros 

zos té vir amare, deo huma volta aos paf- 
fos da Ilha , e achou que verdadeiramente 
os alaridos , e fogo , que ouvio , e vio de 
noite , eram dos Mouros , e que entraram 
per Beneílarij , onde já da banda da terra 
firme vio muita gente que queria paflar per 
huma jangada pequena , que eílavam fazen- 
do , a qual obra impedio que não fofle 
mais avante. Peró ifto aproveitava já bem 
pouco , porque ante de fua vinda eram paf- 
fados alguns Mouros de cavallo com hum 
golpe de gente de pé , que fe ajuntaram 
com os peáes que paíTáram de noite , os 
quaes como não acharam defensão na terra , 
mettêram-fe per eíTas aldeãs ferindo , e ma- 
tando os lavradores , muitos dos quaes que 
podiam efcapar daquelle primeiro impeto , 
em fio a grão corrida vinham bufcar o am- 
paro da Cidade. Quando o Capitão Rodri- 
go Rabello os vio entrar 3 delles banhados 
em fangue das feridas que já traziam , e 
as mulheres , e crianças de peito poílas em 
hum vivo choro , mandou a grão preíía ao 
Adail Diogo Fernandes , que lhe foííe fa- 
ber fe era muita gente entrada. O qual tan- 
to que fahio hum pedaço da Cidade , to- 
pou muitos deites lavradores que vinham 
fugindo > e dilTcram-lhe que feriam té qui- 
nhentos Mouros , e fobre eftes veio o Ta- 
nadar Cogequij que elle mandou ir ao Ca- 

pi- 



Dec. II. Liv. VI. Cap. VIII. 119 

pitão pêra lhe dar razão do que fabia , em 
quanto elle Adail dava huma volta pêra ha- 
ver mais viíla da terra. Chegado efte Co- 
gequij a Rodrigo Rabello , contou-lhe o 
modo do desbarato do Naique , que eílava 
em guarda do pafíb , e que lhe parecia , 
(fegundo o que de noite fe podia eítimar , ) 
os Mouros poderiam fer té duzentos ; e po- 
rém pela nova que lhe davam os lavrado- 
res das aldeãs , per toda a Ilha andava mui- 
ta gente eípalhada como quem vinha a 
roubar o campo , e não commetter a Ci- 
dade. Rodrigo Rabello com efta informa- 
ção cavalgou com té trinta e féis de cavai- 
lo , e feífenta peaes que fe alli acharam com 
o Tanadar ; mas em fahindo da Cidade, 
foi recolhendo os que vinham fugindo té o 
Adail vir dar com elle , que lhe deo a mef- 
ma nova de Cogequij. Ao qual Adail o 
Capitão logo efpedio com quatro de cavai- 
lo que lhe foífe atalhando , e defcubrindo 
a terra pêra faber a que parte andavam os 
Mouros. Partido o Adail , vieram ter com 
o Capitão dous lavradores , e difleram-lhe 
que , (fegundo tinham fabido , ) aquella noi- 
te pelo paífo de Agacij entraram té duzen- 
tos Mouros , que fe mettêram per eflas al- 
deãs a roubar , e matar , e que os Gança- 
res da terra. fe ajuntaram, e os tinham cer- 
cado em hum covão em Goa a velha , os 

quaes 



i2o ÁSIA de JoÃo de Barros 

quaes aguardavam por fua mercê pêra os 
tomar alli ás mãos. O Capitão por lhe pa- 
recer que eíta era a verdade de todo aquel- 
le alvoroço da terra, e não perder aquella 
preá , tomou hum meio galope , e chegan- 
do a hum teíb, onde oAdail veio ter com 
clle , que vinha atalhando a terra , viram 
os Mouros que lhe ficavam debaixo no val- 
Je em hum corpo de gente de té mil c qui- 
nhentos homens , como que houveram viíta 
dos noíTos ? e hiam tomando hum tefo. 
Quando elle vio que o número da gente 
era mais , e não citava no citado que lhe os 
lavradores diíTeram , diíTe contra os que 
o acompanhavam: Parece-me que mal f ou- 
be contar quem nos cá fez vir , que vos pa- 
rece , fenhores , que devemos fazer ? Ao que 
refpondeo Pêro Quareíma : Nos temos a 
Cidade longe , e aqui não ha mais que be- 
bella , e não verte lia. Com a qual palavra 
hi não houve mais conlclho , (por não da- 
rem em a detença delle animo aos Mou- 
ros , ) que dizer o Capitão em nome de 
Deos, Sant-Iago. Eram com Rodrigo Ra- 
bello neíte feito eítes Fidalgos , e Cavallei- 
ros : Manuel da Cunha filho de Triítao da 
Cunha , Duarte de Mello , que ficaram 
doentes quando AíFonfo d'Alboquerque par- 
tio pêra Malaca , Pêro Quareíma 3 que de- 
pois foi Provedor dos fornos d'E!Rey y Fer- 
não 



Dec. II. Liv. VI. Cap. VIII. 121 

não Corrêa , e Balthazar da Silva ambos ir- 
mãos , Mem cTAffonfo hum efpecial Caval- 
leiro de Tangere, Braz Bocarro Almoxari- 
fe da Cidade , o Adail Diogo Fernandes , 
Baftião Rodrigues , que depois foi Juiz da 
Balança da Moeda de Lisboa , Fernão Cha- 
noca 3 Lopo d' Abreu Almoxarife dos man- 
timentos , e Francifco de Madureira filho 
de Antão Diz do chafariz de Arroios , Gon- 
çalo Rabello , Fernão Caldeira 3 António 
Corrêa , Meílre AíFonfo Çurgião , e outros 
cujos nomes não vieram á nofla noticia > 
que períodos fariam número de té quaren- 
ta de cavalio , e peães da terra té cento e 
trinta , que fe ajuntaram com o Tanadar. 
Os Mouros todos vinham a pé , e o Capi- 
tão delles era hum Turco valente de fua 
peflba , que por honra de Capitão era tra- 
zido em hum andor ao hombro de quatro 
homens , de cima dos quaes mandava a gen- 
te como fe andafle a cavalio. O qual na- 
quella pequena demora que fizeram os nof- 
fos em fe determinar , vendo que feria con- 
íiilta , e por poucos não oufariam de os 
commetter , cobrou coração de maneira , 
que quando o Capitão deo Sant-Iago , já 
elle com os feus o receberam com alaridos , 
defpendendo o íeu armazém de frechas con- 
tra os noííos. E foi a coufa aíli rompida , e 
favorecida de Deos 3 que no primeiro impe- 
ro 



122 ÁSIA de JoÃo de Barros 

to dos noflbs os Mouros fe puzeram em 
fugida em bufca do mar , parecendo-lhe 
oue podiam achar algum favor dos feus ; e 
toi tanta a matança nelles nefta fugida , que 
alguns que efcapáram foi por ferem tantos , 
e os noffos tão poucos , que em quanto fe 
detinha com huns , fe puzeram os outros 
em falvo. E os que mais feguíram eíle al- 
canço , foram o Capitão Manuel da Cu- 
nha , Fernão Corrêa , Pêro Quarefma , e 
BrazBocarro, e aíTi lhe ficou o braço mais 
canfado. Tornando o Capitão deita vitoria , 
chegou a elle hum homem da terra , e dif- 
fe que per huma tal parte entravam Mou- 
ros , com o qual elle mandou o Adail a 
ver vifta da gente ; e fobre efte homem che- 
gou outro , e diíle que em outra parte mais 
perto vira alguns homens que fe recolhiam 
a hum tefo junto da agua , como gente 
que não oufava de fahir dalli , a qual toda 
em feu trajo eram dos principaes , que lhe 
parecia poderem logo fer tomados. O Ca- 
pitão favorecido da vitoria , ou porque o 
chamava o feu derradeiro dia , fem mais 
confideraçao , com efles que tinham os cavai- 
los menos canfados , poz-fe logo na dian- 
teira ; e como era homem de fua pelfoa, 
e defejofo de honra , entrando primeiro que 
todos pela entrada per que fervia a reco- 
lhimento y onde fe os Mouros quizeram pôr 

em 



Dec. II. Liv. VI. Cap. VIII. 123 

em defensão , que era hum lugar íngreme y 
e torneado de paredes de edifícios , que já 
alli eftiveram , foi-Jhe logo derribado o ca- 
valio com hum zarguncho de arremeííb , e 
elle morto primeiro que fe pudeííe defem- 
baraçar , e per o mefmo modo Manuel da 
Cunha , que vinha enfiado nas ancas delle. 
Porque dentro eíiavam mais de fetenta Mou- 
ros todos gente limpa a pé com o feu Ca- 
pitão Pulate Can , o qual buícou modo de 
paliar da terra firme , e eílava alli recolhi- 
do , porque foube do desbarato da fua gen- 
te ; e a fortuna foi-lhe tão favorável , que 
eftando perdido , e quafi tomado ás mãos , 
veio a fer vencedor de quem não havia meia 
hora que vencera mil e quinhentos homens. 
E eíle perigo de morte houveram de paf- 
far os outros que vinham trás eílas duas tão 
notáveis peflòas ; mas quando os acharam 
atraveííados naquella entrada , e viram o 
que hia dentro , tornaram a voltar por não 
fer lugar em que pudeííem vingar fua mor- 
te 5 e trazerem os cavallos taes , que fomen- 
te pêra aquelle feito em andar fobre elles 
andavam mortos ; e fe Pulate Can não efti- 
vera tão temorizado , parecendo-lhe que no 
campo andava gente groffa , de que aquel- 
les leriam alguns deímandados , primeiro 
que elles chegaílem á Cidade , hum , e hum 
os mataram. Chegada efta triíle nova áCi- 

da- 



224 ASTÀ de João de Bakros 

dade da morte de taes peflbas , houve nel- 
la grande confusão \ porque ainda que ti- 
nham fabido da vitoria que d'ante houve- 
ram , com íua morte tudo efqueceo ; e mais 
vendo que o Gentio da terra ataífalhado 
grande número. deli e entrava clamando que 
a Ilha era entrada de muitos Mouros. E 
poílo que per Regimento d'E!Rey os Al- 
caides mores fuecedem aos Capitães , por o 
negocio da defensão da Cidade eftar em 
grande rifeo , e pêra o governo delia havia 
mifter hum homem de madura idade, e de 
muita experiência nas coufas da guerra , a 
maior parte da gente foi , que a capitania 
delle fe déífe a Diogo Mendes de Vafcon- 
cellos , em que concorriam as qualidades 
que convinham pêra ifíb , vifto também co- 
mo Franciíco Pantója Alcaide mor quaíí 
deíiftio do direito da fuccelsão. E por elle 
Diogo Mendes ficar prezo no caftello pelo 
cafo que atrás fica, Francifco Corvinel Fei- 
tor , e os OfHciaes da Camará da Cidade , 
e outras pelicas principaes lhe foram com 
aóio folemne levantar a menage de prezo i 
e lhe entregaram o governo da Cidade com 
nome de Capitão delia. Aires da Silva , que 
foi dar no paíío Beneftarij fern fer fabedor 
deitas coufas , andou a huma , e a outra 
parte ver fe era alguma gente entrada na 
Ilhaj e tornado ao paflb de Agacij , onde 

lei- 



Dec. II. Liv. VI. Ca?. VIII. Tftjr 

Icixára os Mouros em fecco , achou que 
com a vinda da maré muita parte delles 
eram recolhidos , e outros eftavam em tal 
lugar , que lhes não podia fazer damno. An- 
dando na qual diligencia , veio íàber per gen- 
te da terra que deíciam á ribeira buícar am- 
paro do mal que fe fazia nas aldeãs , que 
a terra era cheia de Mouros de Pulate Can, 
que entrara de noite , e ante manhã per o 
paflb Beneílarij. Com a qual nova , de que 
foi logo mais certificado com o grande nú- 
mero de Mouros , que acudiam ao porto 
de Agacij ver fe poderiam paliar em jan- 
gadas . determinou-fe que fua eílancia allí 
era efcufada , pois os Mouros tinham tan- 
tas partes per onde entrar , e mais que da 
Cidade não lhe vinha recado , como occu- 
pada em alguma grande neceilidade. E com 
efte fundamento lê foi a ella > onde achou 
os trabalhos que diíTemos , e a partida del- 
le fez que a gente de Pulate Gan paílaífe 
mais preílcs , e á fua vontade , por lhe não 
fer defendida a paífagem. O qual Pulate 
Can como homem que fazia fundamento 
de pôr em cerco a Cidade , quiz fegurar a 
entrada , e fahida na Ilha , fazendo no paf- 
fo Beneílarij cavas , e vallos pêra de vagar 
fazer huma fortaleza , tomando parte de 
hum outeiro , por lhe não ficar aquelle pa- 
drafto fobre a cabeça ? donde poderia rece- 
ber 



125 ÁSIA de JoXo de Barros 

ber damno , e com pouca artilheria lhe po- 
diam defender a ferventia da terra firme y 
donde efperava todo feu provimento. 

CAPITULO IX. 

Como o Hidalcao mandou outro Capitão 
fobre Goa , e o modo que teve pêra com 
nojja ajuda lançar Pulate Can da fortale- 
za que começou fazer : e g mais que acon- 
teceo no tempo que a Cidade efteve cerca- 
da , té fe nella lançar João Machado hum 
Portuguez que anelava entre os Mouros. 

O Hidalcao como foi certificado deita 
entrada da Ilha fem fer per carta de 
Pulate Can , e da fortaleza que fazia no paf- 
fo , e outras coufas como homem izento , 
começou de tomar prefumpçao que não ef- 
tava muito fiel nas coufas de feu ferviço , 
porque já dantes não lhe refpondia com o 
rendimento das terras firmes , dizendo des- 
pender tudo com a gente que trazia a fol- 
do pêra as defender de nós. Com a qual 
fufpeita ante que elle Pulate Can fe fizeífe 
mais poderofo , ordenou de mandar outro 
Capitão , e foi hum feu cunhado per nome 
Roztomocan , a que os noíTos chamam Ruz- 
çalcão , porque por fer peííoa tão principal , 
e mais por levar té fete mil homens , em 
que entravam muitos Mouros brancos de 

to- 



Década II. Liv. VI. Cap. IX. 127 

toda nação , Pulate Can lhe obedeceria. A 
qual coufa fuccedeo pelo contrario : cá Pu- 
late Can' fe moftrou mui aggravado , dizen- 
do que o Hidalcão lhe tomava fua honra 
em mandar a elle Roztomocan , pois com 
tanto fangue vertido tomara aquella Ilha , 
de que o mandava tirar , não tendo delle 
Hidalcão recebido mais ajudas pêra efte fei- 
to , que huns poucos de homens que per 
feu mandado trouxera logo no princípio da- 
quella guerra , e que tudo o mais té aquel- 
le eítado era induftria, e trabalhos delle Pu- 
late Can. Roztomocan quando o vio tão 
indinado , e folto em palavras > confirmou 
o que fe delle fufpeitava, eftarmeio alevan- 
tado , e como homem prudente, emanhofo 
fez a efte negocio dous roftos , que lhe mui- 
to aproveitaram pêra tudo lhe ficar na mão. 
O primeiro foi a Pulate Can, dizendo-lhé, 
que não fe podia negar elle Pulate Can ter 
commettido aquelle feito como cavalleiro 
que era , por o qual merecia mercê ao Hi- 
dalcão 3 e que elle lhe efcreveria como as 
coufas eftavam em melhor eftado do que 
lhe fora dito ; que a culpa de elle alli vir 
fora delle meímo Pulate Can não efcrevér 
ao Hidalcão o que tinha feito , e havia mis- 
ter pêra acabar de levar de todo aquella 
em preza na mão. Qu^ entretanto como com- 
panheiros fizeíTern o que convinha ao fervi- 

ço 



128 ÁSIA de Joío de Barros 

ço de feu Senhor , fortalecendo bem aqucl* 
la fortaleza que tinha começado té vir. re- 
cado do Hidalcao , e que elle confiava fer 
tal 5 qual convinha a lua honra. O outro 
rofto que efte Roztomocan fez por achar 
efte Mouro tão alevantado , foi diífimulaí 
fuás coufas por não virem á noticia de to- 
dos , e mandou fecretamente a Diogo Men- 
des de Vafconcellos Capitão da Cidade hum 
Portuguez per nome Duarte Tavares , que 
do outro cerco paífado fora alli cativo , e 
andava lá com outros que foram tomados 
com Fernão Jacome. Per o qual lhe man- 
dou dizer , que o Hidalcao citava em pro- 
pofito mais de ter paz , e amizade com El- 
Rey de Portugal 5 que andar com feus Ca- 
pitães em contínua guerra , e que com efta 
tenção elle não mandara mais gente fobre 
aquella Cidade , pofto que era huma das 
coufas mais principaes do feu eílado ; por- 
que mais eítimava a amizade d 5 ElRey de 
Portugal 5 que a própria Cidade em fi , com 
tanto que a renda das terras firmes ficaífe 
com elle Hidalcao da maneira que entre 
elle , e Aífonfo d'Alboquerque eftava aííen- 
tado. E porque ao prefente elle era em Ma- 
laca , o Hidalcao feu Senhor o mandava a 
duas coufas : a primeira lançar dalii Pulate 
Can como perturbador deita paz 5 mui en- 
carniçado nos roubos da terra , per onde 

fem 



Década II. Liv. VI. Cap. IX. 129 

fem licença. do Hidalcão commettêra entrar 
naquella Ilha ; e a íegunda affentar efta paz 
com eiíe Capitão. A qual fògundo tinha en- 
tendido , Pulate Can contrariava • e todo o 
feu negocio era ir avante com aquella guer- 
ra 5 como homem que fe via rico , e hon- 
rado depois que a começou. E que a lhe 
defcubrir o que paíTava em verdade , eiíe 
o achava rebel aos regimentos , e manda- 
dos do Hidalcão , a qual coufa eiíe diííi- 
mulava té faber delíe Diogo Mendes o que 
determinava íbbre o negocio defta paz , que 
lhe o Hidalcão mandava dizer. Porque que- 
rendo elle aíTentar nella , convinha primei- 
ro dar-ihe huma certa ajuda , que havia mií- 
ter pêra lançar Pulate Can daquelia fortale- 
za 3 e todolos feus íequazes que eram con- 
trários a efta paz , a qual ajuda era de al- 
guns bateis , e artilheria nelles , que foíTem 
ao pafío Beneftarij em favor delle Rozto- 
mocan. Diogo Mendes quando vio efte re- 
cado , havido confelho com os principaes 
da Cidade., e com o mefmo Duarte Tava- 
res , o qual enganado de Rostomocan não 
fomente promettia liberdade dos outros ca- 
tivos , mas ainda dava grandes èfperanças 
de outros negócios acerca do Hidalcão foi- 
tar de todo as terras firmes , como todolos 
da Cidade eftavam neceffitados de feu pro- 
vimento , e do que convinha á defensão 
Tom.ILP.iL I dei- 



130 ÁSIA de J0Á0 de Barros 

delle , parcceo-lhe vir aquelle requerimento 
de Roztomocan ordenado per Deos ; e jun- 
tamente todos foram , que logo fe lhe devia 
dar a ajuda que pedia ante que ambos fe 
concertaíTem , e aflentar a paz com elle Roz- 
tomocan té a vinda de Affonfo d'Alboquer- 
que 5 que a confirmaria , e mais pois era 
conforme ao que elle já movera. Finalmen- 
te fem mais cautela Diogo Mendes o fa- 
voreceo per mar , como elle pedia , com 
que lançou Pulate Can fora da fortaleza ; o 
qual indo-fe aggravar ao Hidalcao daquel- 
la injúria , tendo-lhe tanto ferviço feito , lá 
lhe deram fecretamente peçonha , com que 
acabou. Roztomocan como ficou defaflbm- 
brado delle , em lugar de desfazer a for- 
taleza , começou novamente a fe fortalecer 
mais com dezefeis mil homens que tinha 
comfigo , dos que elle trouxe , e de outros 
que ficaram de Pulate Can , que lhe logo 
obedeceram por fer peflba tão notável , e 
pêra iífo amoftrou os grandes poderes que 
trazia do Hidalcao feu cunhado. Pofto em 
paz feu arraial , a primeira coufa em que 
moftrou a Diogo Mendes que tratara com 
elle cautelofamente , como homem de guer- 
ra , foi mandar-lhe dizer que elle tinha já 
defpejado a fortaleza daquelle trédor Pula- 
te Can, que dahi por diante não lhe fica- 
va mais por fazer , que defpejar a elle da- 

quel- 



Década II. Liv. VI. Cap. IX. 131 

quella Cidade , cabeça , e principal aíTento 
de feu Senhor o Hidalcão ; que como ami- 
go lhe pedia , e aconfelhava que aíli o fi- 
zeíie , e logo , fenao que o iria eile fazer. 
Haveria neíte tempo dentro na Cidade Goa 
té mil duzentos e cincoenta homens de pe- 
leja , os quatrocentos e cincoenta Portugue- 
ses , em que entravam trinta , que logo com 
o novo cerco dePulate Can Diogo Corrêa 
Capitão de Cananor mandou em foccorro , 
de que vinha por Capitão Franciíco Perei- 
ra de Berredo , e todolos mais eram Cana- 
rijs da terra. Os quaes na entrada que os 
Mouros fizeram na Ilha , fe recolheram á 
Cidade com fuás mulheres > e filhos , e pe- 
lo tempo em diante foram mui proveito fos ; 
porque como o cerco da Cidade durou mui- 
to 5 e os combates eram a miude , elies , e 
as mulheres ajudavam bem , não lhes fahin- 
do da cabeça de dia , e de noite os ceftos 
da terra , e os cochos de barro , acudindo 
a rapar , e repairar com hum fervor , como 
fe foram os próprios Portuguezes ; temen- 
do os noflbs , logo quando fe acolheram á 
Cidade , que com a entrada defta gente, 
além de não ler mui fiel , haviam de pade- 
cer á fome , por os poucos mantimentos 
que havia nella , e elles foram caufa de vi- 
rem de fora nos mezes do inverno , que 
fora o de maior trabalho. Porque como os 

I ii mo- 



132 ÁSIA de João de Barros 

moradores das Ilhas Divar , e Choran eram 
íeus parentes , e muitos delles já liados com 
os Portuguezes per via das filhas , que eram 
caiadas com clles , acudiam com grande 
perigo de fuás peííoas furtadamente por amor 
dos Mouros com quanto podiam haver pê- 
ra provisão da Cidade , não fomente como 
vaítallos fieis 3 mas como parentes , que foi 
huma das maiores ajudas que os noffos ti- 
veram. Diogo Mendes vendo-fe enganado 
de Roztomocan, algum tanto fe confolou 
em fer per commum confelho de todos ; e 
peró que nefte primeiro ardil delle não teve 
muita cautela 3 dahi em diante teve gran- 
de cuidado , e dobrada diligencia , por re- 
compenfar huma coufa por outra , repar- 
tindo a vigia da Cidade em eftancias per 
cíTas peííoas mais principaes. E poílo que 
os Mouros logo nos primeiros dias vieram 
dar vifta a Cidade 5 fempre daquelle com- 
mettimento levaram a peor , por fer per 
entre os vallos que foram dos arrabaldes 
que Affonfo d 5 Alboquerque mandou desfa- 
zer por defabafar a Cidade. Peró depois 
que Roztomocan entrou em o noíTo modo 
de pelejar, não curou mais daquella ordem 
de travar efearamuça por os tirar a campo , 
como era fua tenção ; mas de propoíito veio 
com grande corpo de gente á efcala vifta 
combater os muros da Cidade, dando-lhe 

com- 



Década II. Liv. VI. Cap. IX. 133 

combates mui apreífados , e contínuos , por 
ter tanta gente comfigo , que a repartia em 
quadrilhas pêra de dia , e noite ; e queren- 
do entrar per cima do muro novo , queAf- 
fonfo d'Alboquerque fizera , tomaram al- 
gumas lanças , que os noíTos tinham polias 
ao longo delle , e começaram commctter a 
porta da entrada com vai ? e vem ; e entre 
todos quem fe naquelle dia mais moftrou 
em fazer coufas fora do que fe pode efpe- 
rar do alento de hum homem , foi hum 
Francifco de Madureira , que era cafado 
na Cidade. Nos quaes três combates não 
fomente vieram com os noílos a mão te- 
nente , mas ainda com bombas de fogo 
houveram de fazer grande damno , íònão 
fora no inverno , que tolhia as cafas palha- 
ças dos moradores não tomarem fogo ; e 
fe pegava 3 dava lugar a que o apagaífem y 
com que a gente da terra tinha affás de tra- 
balho j porque como eíle era o feu apofen- 
to , não havia outro amparo fenão aquel- 
la pouca de olla , de que as cafas eram cu- 
bertas , e defendia a elles do Sol, e chuva, 
porque ambas eftas coufas efcaldava aquel- 
la pobre gente da terra. Além deites dons 
fogos , que lhe efcaldavam as carnes , ha- 
via outros dous artifícios que os matava , e 
trazia mui affombrados , que eram as bom- 
bas de fogo , e hum tiro groífo de metal 

dos 



134 ÁSIA de João de Barros 

dos noflbs , que no cerco paliado nos to- 
maram , o qual Roztomocan mandou pôr 
fobre hum tefo , que defcubria a Cidade, 
e tão vizinho aos muros , que não podiam 
andar peraquella parte fem perigo de mor- 
te , e dentro nas cafas os hia matar. Sobre 
eíle trabalho , e outros 5 que por ferem 
muitos os pafíamos per íòmma , tiveram 
o maior , e que os mais atormentou , que 
foi falecerem-lhes os mantimentos ; porque 
chegou a tanto 5 que hum fardo de arroz , 
que teria obra de dous alqueires dos nof- 
fos , valia vinte pardáos de ouro , que são 
da nofla moeda fete mil e duzentos reaes. 
De maneira , que todalas neceíTidades fica- 
vam fobre a vida defta gente pobre da ter- 
ra , e aílí de alguns dos noflbs que não ti- 
nham aquella poflibilidade pêra dar tanto 
por hum fardo de arroz , que era o com- 
mum mantimento de que todos naquelle 
tempo fe mantinham , porque ao prefente 
já a maior parte dos noflbs ufam de pão 
amaflado , como neííe Reyno , de trigo que 
lhes vai de fora. Finalmente houve tanto 
aperto de fome , que muita gente da terra 
fe achava morta pelas ruas , e alguns ho- 
mens baixos dos noflbs entre fome , e def- 
efperação , parecendo-lhes que a Cidade ha- 
via de fer entrada dos Mouros , lançarem- 
fe com ellesj porque além de fugirem et 

tes 



Década II. Liv. VI. Cap. IX, 135* 

tes trabalhos do cerco , fome , e temor , que 
os mais atormentava , eram provocados per 
outros que andavam com Roztomocan , e 
fabiam ferem eíiimados dos Mouros , dan- 
do-lhes bom foldo , fem fazer eleição da 
lei , ou feita que profeífava , fomente que 
fofíe cavalleiro defua peífoa. Por caufa do 
qual coftume daquellas partes fe acham nos 
feus arraiaes todo género de homens , ora 
fejam Chriftãos , ora Gentios , Judeos , ou 
Mouros, como pelejam bem, não querem 
mais delles ; e fe acertam de ferem Mou- 
ros 5 recebem gráo de honra em lhes dar 
cargo da gente. E o que mais "animava a 
efta noífa gente defefperada, além de fabe- 
rem o ufo dos Mouros pêra os fazer fugir 
pêra elles , era faberem que andava lá , ha- 
via muito tempo , hum Poríuguez per nome 
João Machado , que Roztomocan trouxe 
comíigo por fer homem eftimado entre el- 
les , e a quem o Hidalcão pelos feitos de 
fua peífoa dera a capitania de certa gente y 
e cargo de todoíos lançados noffos ; e com 
efta fama foi a coufa em tanto crefcimen- 
to , que fendo já lá dezoito homens de gen- 
te vil , começou entrar no coração de al- 
gumas peífoas de mais qualidade. Final- 
mente havendo já entre eftes da Cidade , 
e os outros que eram idos , intelligencias 
do modo que haviam de ter pêra fe paC- 

lar 



136 ÁSIA de J0A0 de Barros 

far huiis poucos dcllcs 3 porque o Capitão 
Diogo Mendes trazia grande vigia niífo , 
elegeram os da Cidade hum delles , que fe 
chamava Pêro Bacias , homem valente de 
fua peííba , e fraco na fé , fendo já cafado 
em Goa , que naquelle cerco o tinha feito 
mui bem. O qual poílo a cavallo , huma 
quinta feira de Endoenças fahio da Cida- 
de a eípora fita publicamente a fe lançar 
com os Mouros 5 com eíle ardil confultado 
pelos outros que ficavam , que logo á feita 
feira feguinte , a tempo que a repartição 
da guarda , e ferviço da Cidade cabia a cf- 
tes da confulta daquella infernal obra , Roz- 
tomocan mandaffe gente pêra os recolher 
ao tempo da fua fahida , porque a gente 
de cavallo da Cidade havia logo de fahir 
trás ellcs. Partido Pêro Bacias per aquella 
maneira , como levava bom cavallo , poíto 
que houve repique á fua fahida , e o de- 
mónio dá melhores pés neíle caminho pêra 
falvar o corpo, com tanto que fècondcmne 
a alma , foi logo alongado dos noííos , e 
mettido entre os Mouros. João Machado , 
que lá andava , como homem que trazia o 
penfamento no que adiante fez , c via que 
os noíTos fe lançavam , aíH por razão de 
lhe fer dada a capitania delles , como por 
os avifar de nao dizerem o trabalho que 
hia na Cidade, foi logo receber Pêro Ba- 
cias i 



Década II. Liv. VI. Cap. IX. 137 

cias ; e apartando-fe com elle pelo canipo > 
diiTe-lhe : Que coufa he efta ? Tanto mal 
ha lá y que já começa entrar pela gente 
de c avalio ? Senhor ? refpondeo Pêro Ba- 
cias , fome 3 e trabalhos com defefperaçao 
de remédio faz commetter eftas coufas , e 
o principal he na confiança da vojfa ejla- 
da cá. Então começou de propor o cafo 
a que era ido , o que lhe João Machado 
foi reprendendo como Cathoiico , e cavai- 
leiro ; e dizendo tacs palavras , reprefentan- 
do-lhe a verdade que tinham da Fé , e o 
dia que era , com que Pêro Bacias começou 
chorar como homem arrependido daquelle 
commettimento feu. E porque no feito, 
que João Machado no dia íèguinte fez, que 
foi feita feira da Redempção noíía , lalvou 
a Cidade Goa de fer tomada pelo que eí- 
tava ordenado per alguns máos Chriílãos , 
e delle fizemos já menção , por memoria 
de tão cathoiico barão , e esforçado cavaí- 
leiro , como. elle moftrou fer nefte dia , pê- 
ro que per fortuna de degredo foi áquellas 
partes , diremos a caufa deite trabalho 5 que 
o poz em eítado de andar tanto tempo en- 
tre os Mouros. Eítejoão Machado era na- 
tural da Cidade Braga, homem de boa li- 
nhagem , e fendo mancebo eftava em cafa 
de hum Abbade feu tio , onde fe veio na- 
morar de hutna fobrinha deite Abbade d'ou- 

tia 



138 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

tra parte , fem clle fer parente delia • e por- 
que o cafo chegou a ella emprenhar , te- 
mendo João Machado a indinação do tio , 
fogio com ella huma noite , alongando-fe 
da Abbadia quanto puderam , té que a mo- 
ça por não fer coftumada andar a pé , não 
podia dar hum paflb. Chegando ambos com 
cfte trabalho a hum cafal , era o lavrador 
tão caridofo , que nem os quiz agazalhar , 
nem alugar huma befta. João Machado an- 
dando em hum alpendcre , que o lavrador 
tinha ante a porta , apalpando onde fe aga- 
zal liaria com a moça por fer de noite , foi 
dar com huma albarda , e todo feu avia- 
mento , per os quaes íinaes fentindo que 
andaria a befta fora a pacer , caladamente 
a foi bufear ; e tanto que a achou , veio 
pela albarda , e partiram ambos. O lavra- 
dor quando veio a manhã , fendo já alto 
dia , que não achou a befta , andou de hu- 
ma a outra parte té que pola albarda que 
não vio , entendeo o cafo , e metteo-fe em 
caminho jornada por jornada , té que veio 
dar com João Machado á entrada da Ci- 
dade de Coimbra , o qual pagando-lhe mui 
bem o aluguer de fua befta , e dks que poz 
no caminho ? e mais a entrega delia , pe- 
dindo-lhe perdão , porque a neceflidade obri- 
gara a fazer o que fez , per outra parte foi- 
fe á juíliça y e fez prender a João Macha- 
do , 



Década II. Liv. VI. Cap. IX. 139 

do , que eftava com fua amiga em huma 
eftalagem. Finalmente elle foi accufado de 
ladrão por razão da befta , e de forçador 
por caufa da moça ; e a lhe valerem ordens , 
foi degredado pêra S. Thomé pêra fem- 
pre. No qual tempo EIRey D. Manuel man- 
dando Pedralvares Cabral pêra a índia 3 lhe 
deo efte , e outros degredados pêra os lan- 
çar nas terras , perque foíTem pêra defcubri- 
dores ; e aconteceo a forte a João Macha- 
do ficar em Melinde \ como efcrevemos ; 
e porque não achou entrada pêra ir pelo 
fertão ao Reyno do Preíte João , andou 
per toda aquella cofta , té que fe foi em 
huma náo a Cambaya , fendo já a efte tem- 
po morto outro feu companheiro , que hou- 
vera de entrar com elle ás terras do Prefte 
João Rey da Abexia. No qual Reyno de 
Cambaya efteve hum tempo , depois paíTou- 
fe ao Reyno Decan por ouvir dizer que 
pêra lá poderia mais facilmente chegar a 
noíiás Armadas que andavam naqueiía coi- 
ta ; e que em quanto ifto não pudefíe fazer , 
andaria ganhando foldo com aqueiles fenho- 
res do Reyno. Decan, onde andava muita 
gente das partes da Chriftandade. No qual 
tempo que elle andou nas guerras, que o 
Sabayo Senhor de Goa tinha com feus vi- 
zinhos , ganhou tanto credito, que o fez 
Capitão d 5 alguma gente j e com efte credi- 
to 



140 ÁSIA de J0Á0 de Barros 

to o Hidnlcão , morto feu pai , o tratou ; 
e por iflb , como homem que lhe podia mui- 
to íervir ao que vinha Roztomocan , o en- 
viou com elle. E poíto que a tenção de 
João Machado fempre foi vir-fe pêra nós , 
parece que permittio Deos que não foiTe 
íenão nefte tempo , pêra moftrar duas cou- 
fas : que elle mefmo Deos o mandava cm 
tal citado , como a Cidade citava , por An- 
jo de falvação , e euftodia ; e a outra , que 
niiTo fe moltraria a fé , e virtude delle João 
Machado, que fe vinha pêra nós, não em 
tempo de noíla profperidade , mas quando 
muitos defefperados , por razão das coufas 
que lhe iriam contar , fe íahiam delia 5 as 
quaes leriam muito peores da fua boca , 
do que paíTava em verdade , a fim de abo- 
narem a maldade que commettêram. Fi- 
nalmente elle veio ao outro dia , que era 
feita feira de Endoenças , com alguns Por- 
tuguezes que pode provocar , falvando-fc a 
unha de cavallo por os Mouros virem trás 
elle : com a vinda do qual foram prezos 
alguns daqueiles , que eram na confulta de 
Pêro Bacias , lançando o Capitão fama fer 
por outra coufa , por não alvoroçar a Ci- 
dade com número de tantas , e taes peíToas , 
como entravam neíta maldade. 



CA- 



Década II. Livko VI. 141 

CAPITULO X. 

Como depois da vinda de João Macha- 
do d Cidade Goa 5 e principalmente com a 
chegada de Manuel de la Cerda , Diogo 
Fernandes , João Serrão que lá andavam , 
e depois com a chegada de Chrijlovão de 
Brito , que defte Reyno partio com D. Ai- 
res da Gama , que eram da Armada de 
D. Garcia de Noronha , ella ficou livre dos 
grandes trabalhos que teve. 

COm a vinda de João Machado , e dos 
que vieram com eile , que foram no- 
ve peflbas , em que entravam parte dos ca- 
tivos que tomaram com Fernão Jacomc , 
houve na Cidade muito prazer ; porque fen- 
tindo em íi as neceflidades que padeciam , 
e verem hum homem que havia tantos an- 
nos que andava entre os Mouros tão favo- 
recido , e eftimado delles , lançar-fc na Ci- 
dade em tempo que muitos fogiam delia 5 
animou não fomente o coração daquelles 
que eftavam em máo propoílto de fe paf- 
x far aos Mouros , mas ainda toda a outra 
gente. Porque como era homem prudente , 
e fabia bem reprefentar as coufas . aííi fal- 
lava nos Mouros , e máo modo que os nof- 
fos tinham de pelejar comelles fegundo feu 
coftume , que pareceo a todos > que efte ho- 
mem 



142 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

mcm affi polo modo de fua vinda , como 
polas razões que dava, era vindo perDeos 
pêra falvaçao daquelle leu povo. A qual 
coufa logo começaram ver ; /porque como 
os Mouros correram á Cidade na fahida 
que os noflbs fizeram , logo levaram a me- 
lhor pela doutrina de João Machado , de 
maneira, quedahi por diante já fe não che- 
gavam aos Mouros , como faziam ; porque 
como elles ufavam de frechas , e cfpingar- 
das a cavallo , e os noíTos queriam-lhes re- 
íiítir a bote de lança , primeiro que chegai- 
fem a elles 5 era o Mouro poílo em falvo , 
e elles ficavam com as frechadas , e pelou- 
ros mettidos no corpo , o que tudo lè mu- 
dou com a vinda de João Machado. Po- 
rém em dia de S. João Baptiíta houveram 
os noííbs de fe perder, porque como já an- 
davam favorecidos em algumas vezes que 
fe revolveram em peleja com os Mouros , 
nefte dia por reverencia do Santo , e mais 
por ferem coftumados íègundo o ufo de 
Hefpanha de cavalgar , e efearamuçar nel- 
le ; vindo Roztomacan correr com té du- 
zentos de cavallo , fahíram a elle que fe 
poz em hum tefo , detrás do qual eítavam 
em cilada obra defetecentos peães , que em 
os noíTos fe igualando no alto com os de 
cavallo , tomáram-lhes as coitas por lhes não 
ficar acolheita pêra a Cidade. O qual feito 



Década II. Liv. VI. Cap. X- 143 

affi aos Mouros , como aos noíTos cufiou 
muito fangue , e da nofla parte morreram 
dezefete , e delles ficaram no campo muitos 
mortos, aííí ás lançadas, como da artiíheria 
que lhe tirou do muro ao recolher dos noí 1 
fos. E eíle foi o derradeiro trabalho dos 
muitos de peleja , que per efpaço de três 
mezes tiveram , que foram na força do in- 
verno , fomente lhes ficou o trabalho da fo- 
me , pêra que foi neceííario , ainda que era 
nos mezes de Junho , e Julho , em que o 
inverno curfava , cada hum per lua vez 
irem Francifco Pereira de Berredo em hu- 
ma fuíla a Baticalá buícar mantimentos , a 
qual com muitos paráos trouxe carregados 
delles , e depois em outra fuíla foi Baíliáo 
Rodrigues. E porque quando elle tornou 
com eíles , entrou com a fuíla toldada , e 
embandeirada moftrando muito prazer , hou- 
veram os Mouros que aquella feda não era 
por mantimentos , mas que levava nova que 
náos do Reyno eram chegadas a algum por- 
to daquella coíla, que os defconíòlou mui- 
to , vendo fer paíTado todo o inverno fem 
ter levado nas mãos a Cidade como cui- 
daram no princípio da entrada da Ilha. Pe- 
io ainda que não vieram náos do Reyno , 
veio dahi a poucos dias a Armada de Ma- 
nuel de la Cerda , que ficou por Capitão 
do mar , e invernára em Cochij , que refti- 

t,uio 



144 ÁSIA de JoXo de Barros 

tuio a vida a todos em fua chegada, por- 
que não fomente lhes trouxe mantimentos , 
que era o principal que então haviam mif- 
ter 5 mas ainda cllc , e outros Capitães com 
a gente que traziam folgada do repouíò do 
inverno , tomaram logo fobre 11 a defensão 
da Cidade. No qual tempo também veio 
Diogo Fernandes de Beja, que (como difc 
femos) AfFonfo d'Alboquerque tinha man- 
dado desfazer a fortaleza de Çocotorá , c 
dahi ir a Ormuz bufear as páreas , o qual 
negocio elle acabou mui bem. E ao tempo 
que chegou a Ormuz , era EIRey ido com 
huma groíía Armada fobre a Ilha Barem , 
(da qual ida adiante diremos a caufa,) e 
com elle o leu Governador Coge Atar , com 
que a Cidade eftava tão fó de gente , que 
bem a pudera Diogo Fernandes tomar; pê- 
ro elle não quiz mais delia , que as páreas 
que lhe entregou Raez Nordim Guazil d'El- 
Rey , que ficou em feu lugar. E neftes ca- 
minhos que Diogo Fernandes fez te chegar 
a Goa , tomou algumas náos de preza de 
Mouros , com que elle , e os de fua com- 
panhia vieram bem pagos do trabalho do 
caminho , e trouxeram provimento de mui- 
tas coufas , de que a Cidade eftava desfale- 
cida. Aíli que com a vinda deftes dous Ca- 
pitães começaram os noífos tomar algum 
animo, com que fizeram fahidas contra os 

Mou- 



Década II. Liv. VI. Cap. X. 14? 

Mouros > em huma das qviaes receberam 
muito damno , porque mataram D. António 
de Lima filho de D. Rodrigo de Lima , e 
António de Sá Capitão do navio Rofairo , 
natural d'Àlhandra , e outros dous , e feri- 
ram Manuel de Soufa Tavares ? Diogo Fer- 
nandes de Beja, e outros. Donde dahi por 
diante por conielho que Diogo Mendes te- 
ve , aííentou com os outros Capitães não 
fahirem mais ás corridas dos Mouros , pois 
nellas recebiam damno por caufa de não te- 
rem cavallos , e mais não tinham poder de 
gente pêra lançar Roztomocan da fortaleza 
que tinha , fomente procuraífem de defender 
a Cidade , e provella de mantimentos , que 
naquelle tempo era a coufa de que mais ca- 
reciam. E de todolos portos a que os man- 
davam bufear deMergeu, Onor, e Batica- 
lá foram fempre bem providos , por a qual 
caufa té ora os moradores deites lugares tem 
privilegio , que não paguem direitos alguns 
em Goa dos mantimentos que lá levarem a 
vender. Não havendo muitos dias que eítes 
Capitães eram chegados a Goa , quando 
chegou João Serrão , e Payo de Sá , que o 
anno de dez (como eferevemos) partiram 
deite Reyno a oito d'Agoíto , com funda- 
mento de ir defeubrir a Ilha de S. Louren- 
ço em hum porto chamado Antepara no 
Reyno deTurubaya, que eítá na ponta do 
. Tom. II. P. il K Po- 



146 AS1A de João de Barros 

Ponente deita Ilha da banda de fóra delia f 
que he á do Sul além do cabo , a que os 
nofíbs chamam de Sandia Juíta. Os quaes , 
(por darmos razão do que fizeram , ) feguin- 
do fua viagem com tempos contrários , fo- 
ram ter á Ilha de S. Thomé , onde fc re- 
pairáram de alguns maíios, que lhe quebra- 
ram com hum temporal j e partidos dalli , 
chegaram ao porto de Antepara, onde fo- 
ram bem recebidos com refrelco que lhe os 
da terra trouxeram , e aíli algum pouco de 
gengivre , porque como não tinham íahida 
delles , não le davam os cafres muito ao fe- 
mear. Daqui correndo a coita , foram ter 
fóra da Ilha aos ilheos , a que ora chama- 
mos de Saneia Clara , que são além deite 
porto Antepara obra de doze léguas , onde 
eítiveram muitos dias com levante , té que 
partidos dalli por a nova que levavam de 
haver gengivre naquelle rio , chegaram a 
hum chamado Maneibo, que íería da Ilha 
donde partiram trinta léguas. Surtos em o 
qual , tendo enviado o batel a terra , deo 
Jium tempo nelies por davante , que os fez 
tornar aos Ilheos de Sandia Clara , e o ba- 
tel foi acapellado com a grande marefía , e 
quatro homens que efeapáram delle foram 
ter a terra a poder dos Negros. A qual nova 
o Capitão depois foube per outro batel fçu, 
que tornando elles a íeu caminho lanharam 



Década IL Liv. VI. Cap* X. 147 

fora em hum rio per nome Manatápa junto 
do outro Monaibo , que também com ou- 
tro tempo lhe ficou alii , com que ficaram 
fem bateis. Tornados outra vez com levan- 
tes aos iiheos de Sanita Clara , onde efti- 
veram vinte dias , veio ter com eiles em 
huma almadia hum André Velho marinhei- 
ro , que era da companhia daquelles que fe 
perderam em o batel da náo de João Go- 
mes d' Abreu , que foi na Armada de Tril- 
ião da Cunha o anno de quinhentos e féis. 
Finalmente João Serrão não fez mais per 
aquelles portos ? que ora tomar hum , ora 
outro , em que gaitou o inverno daquellas 
partes fem achar gengivre que hia bufear, 
e com eíle defengano fe fez á vela cami- 
nho da índia , e com hum temporal que 
lhe deo ? Payo de Sá tomou a cofta de Mo- 
çambique , e dahi foi ter á índia em com- 
panhia da Armada que partio defte Reyno 
aquelle anno , e João Serrão tomou Goa , 
(como ora diíTemos.) O qual não fe deteve 
muitos dias na Cidade, porque foi aífenta- 
do per Diogo Mendes , e pelos outros Ca- 
pitães que foíTe a Cochij á feitoria tomar 
carga de efpeciaria , e dahi a Dio com car- 
tas a Melique Az , que de lá fazia muitas 
oífertas per via de Cide Alie o torto ? e de 
Fr. António do Loureiro , que foi cativo 
com os que efeapáram do navio de D. A£? 

K li fon- 



148 ÁSIA de João de Barros 

foníò de Noronha, que fe perdeo, (como 
efcrevemos , ) da vinda do qual Fr. Antó- 
nio adiante daremos razão. João Serrão co- 
mo a principal coufa a que lua a Dio era 
bufcar mantimentos a troco da efpeciaria 
que levava , em breve tempo tornou com 
elles , e no caminho á vinda topou Chrif- 
tovão de Brito filho de João de Brito, que 
partira deite Reyno o anno de onze em com- 
panhia de D. Aires da Gama irmão do Al- 
mirante D. Vaíco da Gama. Os quaes par- 
tiram aquelle anno a vinte d' Abril oito dias 
depois de fer partido D. Garcia de Noro- 
nha filho de D. Fernando de Noronha , de- 
baixo da bandeira do qual elles hiam , e fi- 
zeram ambos tão boa navegação , que el- 
les fomente paliaram aquelle anno á índia , 
c D. Garcia por má pilotage invernou em 
Moçambique com mais quatro náos que le- 
vou, da viagem do qual adiante eícrevere- 
mos. A de Chriftovao de Brito , ainda que 
té o Cabo de Santo Agoftinho , que he na 
Provinda de Santa Cruz , foi em compa- 
nhia de D. Aires , alli fe apartou delle com 
hum temporal , e chegado a Moçambique 
achou Gonçalo de Sequeira Capitão mor da 
Armada do anno de dez , que invernára já 
da vinda da índia , (fegundo efcre vemos.) 
O qual recebendo alguns mantimentos , e 
couías que havia mijíler de Chriftovao de 

Bi> 



Década II. Liv. VI. Cap. X. 149 

Brito , cada hum fe partio feguindo ília via- 
gem y Gonçalo de Sequeira pêra efte Rey- 
no y onde chegou a falvamento 5 e Chrifto- 
vão de Brito pêra a índia , e a primeira ter- 
ra delia que tomou foi Cananor , dia .de 
N. Senhora de Setembro , onde foubç de 
Diogo Corrêa Capitão da fortaleza o tra- 
balho em que Goa eftaya poíta. Chriftovãp 
de Brito como levava em a náo Belém > 
(que foi huma das mais formofas que o mar 
vio , ) té quatrocentos homens , toda gente 
limpa , e frefea daquella breve viagem , e 
bem provido de mantimentos , recolheo 
mais comligo alguns Fidalgos que alli ef- 
tavam , afli como Bernaldim Freire filho de 
Nuno Fernandes Freire , e Ruy Galvão fi- 
lho de Duarte Galvão , e outras peflbas no- 
bres com mais quatro navios da terra car- 
regados de mantimentos , e trinta e finco 
cavallos , que eram de mercadores vindos 
pêra fe venderem em Goa , e por eftar de 
guerra , fe foram a Cananor. Com o qual 
foccorro chegado a Goa , foi mui fefteja- 
do y e por quebrar o animo aos Mouros , 
e também por honra de fua peílba 5 pofto 
que tinham aífentado não fahirem a elles té 
a vinda de Affonfo d'Alboquerque , deram 
huma moftra obra de mil peaes , e feííenta 
de cavallo que lhe vieram correr , fahindo 
Diogo Mendes a elles > dando a dianteira 

a Chri- 



ijo ÁSIA de João de Barros 

a Chriftovão de Brito ; na qual fahida que- 
rendo-le os Mouros revolver com os nof- 
fos , foram tão efcarmentados , ficando alguns 
mortos no campo , que fe pairaram muitos 
dias fem virem correr a Cidade na face dos 
noíTos , como dantes faziam. Chriftovão de 
Brito leixando alli a gente d'armas que le- 
vava ordenada pêra andar na índia , com a 
neceflaria á lua navegação fepartio pêra Co- 
chij a tomar carga de efpeciaria já em No- 
vembro , e na paragem de Baticalá achou 
D. Aires da Gama , que com a nova que 
teve do eííado de Goa , também hia ao íòc- 
corro delia. Porém fabendo per Chriftovão 
de Brito como já ficava provida , tornaram 
a tomar fua carga de efpeciaria , e com ci- 
la fe vieram via deite Reyno , onde chega- 
ram a íalvamento a vinte e féis de Junho 
do anno de quinhentos e doze. E de ca- 
minho paliando pela Aguada de Saldanha, 
onde citavam os oiíos daquelle illuftre Ca- 
pitão D. Franciíco d 5 Almeida , e dos outros 
que com eile pereceram , efquecidos de feus 
herdeiros , e tão mal galardoados do Mun- 
do , por reverencia delles quiz Chriftovão de 
Brito ver o lugar onde jaziam , por alli ir 
com elle por meftre da fua náo Diogo d'U- 
nhos , que o fora também da náo do Vifo- 
Rey , e fabia onde o feu corpo , e o de Lou- 
renço de Brito foram enterrados. Chegado 

Chri- 



Década II. Liv. VI. Cap. X. 15T 

Chriftovão de Brito a eíle lugar , por não 
achar nelle mageílade de campa , ou final de 
quem alli jazia , lamentando o defamparo 
daquelles corpos , e maldizendo o lugar a 
que a fortuna trouxe tanta peflba , tanta vir- 
tude , e tanta cavalleria como D. Francifco 
teve , pois já em mais lhe não podia apro- 
veitar , diíTe por fua alma , e de Lourenço de 
Brito hum refponíò , e cubrio feus oílbs com 
huiis poucos de feixos da praia , e em cima 
huma Cruz de pão. E poíto que taes íinaes , 
fegundo o ufo commum delles , mais fervem 
pêra encaminhar os caminhantes , que de 
memoria de alguma notável peífoa , aqui 
bem nos podemos também fervir eíte mo- 
rou ço de feixos , e Cruz pêra encaminhar- 
mos noífas obras ao fim pêra que fomos crea- 
dos , pois afli os que andam neíla carreira da 
índia, como os que feguimos outros cami- 
nhos de vida , todos param em huma trifte 
fepultura. E praza a Deos que quanto for 
melhor lavrada ante elle per gloria, e acer- 
ca dos homens per fama, feja tão lembrada, 
como he a deites deíierrados corpos entre 
aqueiles bárbaros , fegundo já per nós atrás 
fica dito em outra tal lamentação. Mas pa- 
• rece que pêra maior gloria deitas tão notá- 
veis peffcas permirtio Deos tanto efqueci- 
mento em feus herdeiros , porque o defeui- 
do feu fofle caufa deita nolTa repetição. 

*DE- 



DÉCADA SEGUNDA. 
LIVRO VIL 

Dos Feitos , que os Portuguezes fize- 
ram no dcfcubrimento y e conquiíta 
das terras , e mares do Oriente 
depois que AfFonfo d'Alboquer- 
que partio de Malaca , té 
entrar no eftreito do 
mar Roxo, 

CAPITULO I. 

Como Affonfo cV Alboquerque partido da 
Cidade Malaca , fe veio perder em os bai- 
xos de Aru na cofia de Çamatra : e fa/va 
fua pejjòa , e gente , tornou a feu caminho , 
72o qual tomou duas nãos té chegar a Cochij. 

ENtre muitas coufas de grande ad- 
miração j que efta noíTa conquifta 
Oriental tem , e muito pêra ponderar 
com difcurfo de prudência , he , que além 
de contendermos accidentalmente per armas 
com homens de tão varias nações , e fedias , 
como nelía ha , temos perpétua contenda 
com os elementos , fendo coufa mais bru- 
ta , fera , e impetuofa , que Deos creou , 
o que té noíTo tempo não temos viílo em 

ai- 



Década II. Liv. VII. Cap. I. 15^3 

alguma gente. Porque fe lemos guerras de 
Perfas , Gregos , Romanos 5 ou de outras 
nações defta noffa Europa 5 nas quaes houve 
grandes perigos no rompimento de exerci- 
to com exercito , trabalhos de fome , e le- 
de , e vigiíia na continuação de algum com- 
prido cerco 3 frio , e ardor do Sol na va- 
riação dos tempos , e climas , grandes en- 
fermidades per corrupção dos ares , ou man- 
timentos ? e outros mil géneros de acciden- 
tes que chegam a eílado da morte , todos 
eftes perigos , e trabalhos paíTa a noíTa gen- 
te Portuguez em fuás navegações , e con- 
quiftas. Efobre tudo peleja com afaria do 
vento , impeto do mar , dureza da terra , 
temendo feus baixos , e encontros \ e final- 
mente tem pofta a vida , e morte em tão 
breve termo , como são três dedos de ta- 
boa ás vezes comeíla do Bufano , e no def- 
cuido de cahif em huma pevide de candea 
em lugar onde fe pofla atear, e em outros 
mui particulares , e miúdos cafos , de que 
refulta tão grande couíà , como vemos em 
tanto número de náos que são perdidas. Em 
cada huma das quaes podemos affirmar, 
que fe perde huma mui nobre Vilia deite 
Reyno em fubílancia de fazenda , e em 
nobreza de gente. E o que mais devemos 
lamentar por parte delíe , he , que vem os 
homens daquellas Orientaes regiões falvos 

do 



i£4 ÁSIA de João de Barros 

do fogo , e ferro de tanto Mouro , c Gen- 
tio , como nellas habitam , trazendo as náos 
carregadas dos léus defpojos ; e hum tão 
pequeno perigo , como eftes que aponta- 
mos 5 confunde tudo no abyímo do grande 
Oceano , principal íepultura dos Portuguc- 
zcs depois que começaram feus defeubri- 
mentos. Da qual verdade ora veremos hum 
notável exemplo em Affoníò d'Alboquer- 
que , o qual partido de Malaca com as náos 
carregadas dos triunfos que houve delia , 
fendo tanto avante como o Reyno dcAru, 
onde chamam a ponta de Timia , que Jic 
na Ilha Çamatra , veio a fua náo huma 
noite tomar aflento fobre huma lagea lava- 
da de agua , onde fe logo fez em duas par- 
tes 5 a popa a huma , e a proa a outra , por 
a náo ler mui velha , e os mares groílbs. 
Eftando no qual perigo fem os de huma 
parte fe communicarem em ajuda dos ou- 
tros 5 nem terem foccorro das outras nãos 
por fer de noite , e mais cada hum tinha 
bem que fazer em fi, ordenou Diniz Fer- 
nandes de Mello huma jangada ? em que 
fe recolheram té o outro dia , que com mui- 
to trabalho Pêro d'Alpoem , que hia na e£ 
teira do Capitão mor ,. em hum batel o fal- 
vou , e aos que com ellc fe recolheram , com 
muito trabalho, e perigo. No qual tempo 
Affonfo d'Alboquerque 3 poíto que tiveílb 

en- 



Década II. Liv. VIL Cap. L 157 

enfeitos outros Commentarios que guardar , 
como Cefar fez no feu naufrágio, fomen- 
te falvou huma menina filha de huma ef- 
crava fua , que lhe veio ter á mão , dizen- 
do , que pois aquella innocente fe viera pe- 
gar a ellc por fe falvar , que elle tomava 
a innocencia delia por falvaçao ; e eftando 
fempre em pé , elle a teve nos braços fem 
falvar outra coufa de quanto defpojo das 
riquezas de Malaca vinham naquella náo. 
E o que elle mais lamentava de todalas per- 
das daquelía náo , eram dous leões de fer- 
ro vafados , obra mui prima, e natural, 
que EIRey da China enviara de preíente 
a EIRey de Malaca , os quaes por honra 
EIRey Mahamed tinha á porta dos feus 
Paços , e Affonfo d'Alboquerque os trazia 
por a mais principal peça de feu triunfo 
da tomada daquelía Cidade ; e dizia por 
elles 5 que em os perder perdera toda fua 
honra , porque náo quizera em fua fepul- 
tura outro letreiro , nem outra memoria de 
feus trabalhos. Por haver os quaes , nos 
primeiros navios que da índia , depois de 
elle lá fer , partiram pêra Malaca , particu- 
larmente efereveo a Jorge Botelho Capi- 
tão de huma caravella % encommendando- 
Ihe muito que vieífe áquelle lugar , e viífe 
fe per algum modo de mergulho com gen- 
te da terra coílumada pefear aljofre P lhe po- 
diam 



i>6 ÁSIA de JoÃo de Barros 

diam tirar aquelles leões , e que defpendef- 
fe niflb quanto quizeífe , que elle lho man- 
daria pagar ; porque já que perdia a fazen- 
da, não queria perder a honra. Mas pare- 
ce que permittio Dcos que eítes leões , de 
?iue elle fazia tanta conta pêra memoria de 
eus feitos por ferem mudos , e os anneis 
de diamantes , e rubijs que elle mandava 
a Ruy de Pina Chroniíta mor deite Rey- 
no , (como nós vimos em cartas que lhe 
elle efe revia , ) porque podiam fer fufpei- 
tos , não lhe ferviíTem pêra a memoria, que 
elle defejava de fi ; mas que ficaíTem fumi- 
dos os leões nos baixos de Aru , e os an- 
neis no efquecimento dclle Ruy de Pina. 
E que eu murmurado de muitos , por não 
ler profeílo em nome deite officio de ef- 
crever, e oceupado no de minha profifsao, 
aqui 5 c na Chronica d'ElRey D. Manuel 
a mi impropriamente commettida , paífados 
trinta annos de feu falecimento , vieííe dar 
conta dos leões 5 e dos anneis , como fe os 
eu tivera em receita , ou algum premio que 
me obrigara foffrer os trabalhos deita eferi- 
tura , que, fegundo me carrega a ingrati- 
dão delles , não fei fe fora mais juíto lei- 
xar os leões , e os anneis em poder de quem 
os confumio. Porém porque os mortos não 
tem culpa , e aos que eítam por vir pode 
íèr que lhes feja mais acceito eíte meu tra- 

ba- 



Década II. Liv. VIL Cap. I. 15-7 

balho , que a muitos prefentes , não quero 
que-Affonfo d ? Aíboquerque perca os leões , 
e a Ruy de Pina faça-lhe boa prol os feus 
anneis : nos quaes leões , e anneis , e aíll 
em todo o mais que ante defta minha es- 
critura eílava fepultado no defcuido de meus 
naturaes 5 eu efpero ter aquella parte > que 
tem aquelles que acham coufa perdida ,. e 
a dam a feu dono. Teve Affonfo d'Albo- 
querque 3 além da perda defta náo , outra, 
que elie também muito fentio , que foi o 
junco que vinha em companhia de Jorge 
Nunes de Leão , onde , fegundo diffemos y 
vinham treze Portuguezes , e trinta Mala- 
bares dos foldados de Cochij , com o qual 
fe alevantáram os Jaós que o mareavam 9 
vendo a náo Flor de la mar perdida , e as 
outras em trabalho do tempo. E como ei~ 
les não queriam mais que falvar fuás pef- 
foas de cativeiro , não curaram da marea- 
gem do junco 5 e deram com elle no por- 
to de Aru , onde logo foi roubado per el- 
les ? e pelos da terra , e os Portuguezes poe- 
tas em poder dos Mouros , no qual ale- 
vantamento morreo Simão Martins , e ou- 
tros. Por haver os quaes , e aífi alguns que 
do naufrágio de Flor de la mar a nado em 
taboas foram á coita , EIRey de Pacem tra* 
balhou muito por ganhar a vontade a Af- 
fonfo d'Alboquerque ? té que havidos, lhos 

mau- 



T?8 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

mandou depois em huma náo , que partio 
do feu porto pêra Choromandel. Aftonfo 
d'Alboquerque recolhido em a náo Trinda- 
de Capitão Pêro d 5 Alpoem , fez iiia via- 
gem caminho da índia ; e na traveíla da- 
quelJe golfam té Ceilão tomou duas mios 
de Mouros , huma de Dabul y c outra de 
Chaul , que vinham bem carregadas de Ça- 
matra. E porque na de Chaul teve alguma 
dúvida ., por citar naquelle tempo comnof- 
co em amizade , e nos pagar parcas , não 
fe houve per tomada de preza , e mandou 
recolher comíigo as principaes pcíTbas da 
náo , e a Simão d 5 Andrade com quinze Por- 
tuguezes que foíTem em guarda delia , por 
de noite não fe acolher. Mas com todo ef- 
te refguardo o Piloto > e oííiciaes da náo 
a mettêram nas correntes das Ilhas de Mal- 
diva , e foram dar com cila em huma , a 
que chamam Candaluz ; e no porto com 
favor de Mouros de Calecut que aíli cita- 
vam , trataram mal os noífos , tomando-lhes 
o que levavam , fem oufarem de lhes fazer 
mais damno , com temor do que poderiam 
receber em fuás peífoas os mercadores que 
levava Affonfo d'Aiboquerque comfigo. O 
qual feguindo fua viagem 5 chegou a Co- 
chij , onde foi recebido com folemnidade , 
e grão prazer de todos \ porque além de 
celebrarem com feitas a vitoria que houve 

na 



Década II. Liv. VIL Cap. L 15*9 

na tomada de Malaca , parecia-lhe , (fcgu ri- 
do os Mouros tinham dito per toda a ter- 
ra que eram perdidos , ) que Nofíò Senhor 
os reíuícitava naquella chegada fua ; por- 
que tinha o demónio tanta communicação 
com o Gentio daquellas partes , que geral- 
mente todos diziam que Aíronfo d'Albo- 
querque fe perdera na fua náo : parece que 
por não perder o credito efte medre de en- 
ganos j fempre fe quer falvar em parte de 
algum aquecimento , como foi a perda da 
náo. Affonfo d'Alboquerque a primeira cou- 
fa em que entendeo , como poz os pés em 
Cochij , polo eftado em que Goa eliava , 
(fegundo teve nova por Patamares , que 
hiam , e vinham com aliás perigo por ter- 
ra j ) porque o tempo não fervia pêra na- 
vios grandes > foi mandar gente em oito 
catures a remo , que em féis dias chega- 
ram a Goa. A chegada dos quaes deo tan- 
to prazer aos noflbs , como trifteza aos Mou- 
ros ; e muito maior receberam depois que 
Aífonfo d ? Álboquerque em Cochij mandou 
foltar dez , ou doze Mouros dos cativos 
que tomou em Malaca ; parte dos quaes 
vieram ter ao arraial de Roztomocan , que 
eílava fobre Goa , e como teítemunhas de 
yiíta , contaram o que pairaram naquelle 
feito , e a fortaleza que lá tínhamos > que 
lhes quebrou muito os corações de quão fo- 

ber- 



i6o ÁSIA de JoXo de Barros 

berbos eftavam com as más novas que ti- 
nham íemeado daquella ida. E per eítes ca- 
tures mandou Affbnfo d'Alboqucrque Pro- 
visão , em que havia por ferviço d'ElRey 
que Manuel de la Cerda ferviífe de Capi- 
tão da fortaleza , e Manuel de Soufa de 
Alcaide mor, c Diogo Fernandes de Beja 
ficafle por Capitão da Armada que Manuel 
de la Cerda fervia. E porque elie efereveo 
a eítes Capitães , e aííi á Cidade y que lo- 
go , como o tempo lhe ferviífe , feria com 
elies , relpondêram-lhe que em nenhuma 
maneira o fizeífe com tão pequena Arma- 
da , como tinha ; porque ainda que fua pef- 
lba importava tanto como a mefma fal- 
vação áquella Cidade , ao prefente ella fi- 
cava com feiscentos homens , c quinhentos 
peaes Canarijs pêra poder rcíiítir a todo 
o poder do Hidalcão , ainda que vieífe fo- 
bre ella. Porém pêra ir lançar do caítello 
Beneítarij hum tal imigo como nelle eíta- 
va , artilhado , e defendido com baluarte , 
torres , e grande número de gente , que , 
fegundo tinham fabido , palfavam de vin- 
te mil homens , não fe podia fazer com 
tão pouca gente , como então eílava na ín- 
dia : que prazeria a Deos que traria a feu 
fobrinho D. Garcia de Noronha ; porque y 
fegundo a efperança que Chriítovam de Bri- 
to dera de fua viagem , devia invernar em 



Deg. II. Liv. VIL Cap. L e II. 161 

Moçambique , e aífi ^iria a outra Armada 
daquelle anno , que também íè efperava 
do Reyno , com que lançariam aquelie imi- 
go foberbo daquelle lugar que tomou por 
elie AfFonfo d'Alboqueríjue fer auíente. E 
como a conta deitas duas Armadas , em 
que cites Capitães apontavam , era mui re- 
gular i e verdadeira ; neíle íeguinte Capitulo 
faremos relação delias , e quanto maior foi 
a fegunda que a primeira , por a nova que 
EIRey D. Manuel teve da navegação que 
D. Garcia fez té a Ilha de S. Thomé 7 don- 
de lhe efcreveo. 

CAPITULO II. 

Da viagem , que D. Garcia de Noronha 
fez com as nãos com que partio de fie Rey- 
no o anno de quinhentos e onze : e do que 
também pajfiãram Jorge de Mello Pereira , 
e Garcia de Soufa o anno de doze cora ou- 
tra Armada de doze nãos , de que elles fo- 
ram por Capitães mores : e o que todos fi- 
zeram em Moçambique , ondefe ajuntaram. 

DOm Garcia de Noronha filho de Dom 
Fernando de Noronha partio defte 
Reyno por Capitão de féis náos o anno de 
quinhentos e onze, duas que partiram de- 
pois delle doze dias , Capitães Chriítovão 
de Brito , e D. Aires da Gama , que J ( co- 
Tom.II. P.iL L mo 



i6z ÀSIÀ de João de Barros 

mo fica nefte precedente Livro , ) p^fTáram á 
índia aquelle anno, e tornaram o íeguintc 
com fua carga de efpeciaria. E os Capitães 
das outras quatro velas eram Pêro Mafcare- 
nhas filho de João Mafcarenhas , e Jorge 
de Brito filho de João de Brito , e Manuel 
de Caftro Alcoforado. O qual D, Garcia íc- 
guindo fua viagem , não podendo dobrar 
o Cabo de Saneio Agoftinho , que he na 
terra de Sandia Cruz vulgarmente chamada 
Braíil , quiz o leu Piloto fazer-fe na volta 
de Guiné 5 pêra tomar outra mais larga ío- 
bre o mefmo Cabo. Na qual traveífa fe 
houvera de perder em hum penedo que acha- 
ram no meio daquelle golfão , no qual de 
noite foi dar a náo S. Pedro , Capitão Jor- 
ge de Brito , que fez forol ás outras que 
vinham na lua eíleira , por razão do qual 
perigo o penedo houve nome S. Pedro , 
que hoje tem acerca dos noflbs navegantes. 
Seguindo mais o caminho na volta da ter- 
ra de Guiné, foram ter a Ilha de S. Tho- 
iné , onde Fernão de Mello Capitão delia 
os proveo do que havia na terra , e daqui 
per dous navios avifou D. Garcia a EIRey 
D. Manuel da má navegação que fizera com 
tempos contrários , a qual nova caufou o 
anno feguinte mandar EIRey doze náos , 
como veremos. O Piloto por emendar efte 
erro de não dobrar o Cabo de Santo Ago£ 

ti- 



Década II. Liv. VIL Cap. II. 163 

tinho , veio a cahir em outro maior, que 
foi pôr-fe em altura de quarenta gráos , co- 
mo houvera de paliar per fora da Ilha de 
S. Lourenço , que ainda fe não coítumava 
tal navegação , como ora fazem alguns Pi- 
lotos quando parlem tarde deite Reyno. 
Na qual paragem eram tamanhos os frios, 
que não podiam os navegantes marear as 
velas , e os dias tão pequenos , que o jan- 
tar lhes ficava em lugar de cêa, té que ha- 
vendo três mezes qi*e eram partidos da Ilha 
de S. Lhomé , vindo demandar a terra , e 
parecendo ao Piloto que tinham dobrado 
o Cabo de Boa Efperança, veio a ré delle 
metter-fe em huma angra , que milagrofa- 
mente tornaram a fahir delia com baixos , 
e reítingas , e correntes , que os mettia no 
facco da eníèada. Donde per efpaço de hum 
mez e meio , fazendo caminho ao longo da 
coita , dobraram o Cabo , no qual tempo 
lhes adoeceo a gente de maneira , que por 
muitos dias fe lançavam ao mar quatro e 
cinco homens. E ainda depois deites traba- 
lhos , que o puzeram em não ter quem lhes 
mareaíTe a náo , andou entre as Ilhas de 
Cofala , e S. Lourenço meio perdido , e com 
a primeira terra que tomaram , que foi a ré 
de Moçambique trinta léguas , por a dúvi- 
da que tinham em que paragem eram , foi 
Pêro Mafcarenhas com hum batel a terra, 

L ii e le- 



164 ASIÁ DE JOÃO DE BARBOS 

e levou comfigo hum degredado pêra o 
mandar tomar língua. Porém como elle não 
fabia nadar , e o mar andava bravo , com 
promeílas de Pcro Maícarenhas lançáram- 
fe no rolo delle hum Marinheiro , e hum 
Negro , c da prática que o marinheiro teve 
com Mouros que achou da terra , fbubc on- 
de citavam. Tornados pêra dar cila nova a 
Pêro Maícarenhas , andava o mar de ma- 
neira , que não os pode recolher , e eícaíía- 
mente ouvir o que lhe*diíTeram , e mandou- 
lhes que fbfíem abaixo onde lemoftrava hu- 
ma ponta 3 em que parecia podellos reco- 
lher , e nunca mais apparecêram , e íuípeitá- 
ram que os Cafres , ou alguns animaes da 
terra os matariam ; mas depois houve mais 
certa íuípeita que os mataram os Mouros. 
D. Garcia partido cíall i caminho de Mo- 
çambique com eíta nova de quão perto ef- 
tava delle , topou António de Saldanha , 
que vinha de lá com dous navios , e hia pê- 
ra Çofala , onde eftava por Capitão , o qual 
fe tornou com elle polo agazalhar , onde o 
leixou , como quem ficava no paraifo terreal ? 
tão defejofos vinham os homens de terra , 
e em tal difpofição , como quem havia fete 
mezes , eonze dias que era partido da Ilha 
de S. Thomé , porque elle chegou a Mo- 
çambique a onze dias de Março do anno 
de quinhentos e doze ^ e partio da Ilha o 

pri- 



Década II. Liv. VIL Cap. II. 16$ 

primeiro de Agoíto de onze. E alli em Mo- 
çambique achou hum criado de D. Aires 
da Gama , que da torna viagern da índia fi- 
cou doente , per o qual foube todalas no- 
vas da índia , afíi do eftado do cerco de 
Goa , como da ida de Affonfo d'Alboquer- 
que a Malaca , e a má fuípeita que havia 
delle fer partido, as quaes novas puzeram 
a D. Garcia em muita confusão. Por a qual 
razão, poílo que o tempo era mui perigo- 
fo pêra navegar , e a gente vinha mui ano- 
jada do mar , e outra enferma , provido o 
melhor que pode 5 efpedio a Pêro Mafca- 
renhas que (offe tomar qualquer porto das 
noíTas fortalezas da índia pêra esforçar a 
gente , fabendo fer elle vivo : cá pelas no- 
vas que D. Aires 5 e Chriftovão de Brito lá 
deram , também o haviam por perdido. Par- 
tido Pêro Mafcarenhas , ficou D. Garcia com 
as outras três náos , e fegundo elle achou 
a terra alevantada contra a noíTa gente , fe 
a que elle tinha eftivera em outra difpoíi- 
çao , elle houvera decaftigar os Mouros das 
Ilhas de Angoxa , que tinham feito eíle mal ; 
e o princípio delle foi eíle. Eílando Duar- 
te de Mello por Capitão , e Alcaide mor 
daquella fortaleza de Moçambique , com 
hum navio que tinha alli pêra o trato de 
Çofala , mandava algumas vezes bufear man- 
timento a eílas Ilhas de Angoxa 5 e como 

os 



166 ÁSIA de JoÂo de Barros 

os moradores são Mouros, mataram, e fe- 
riram alguns dos noflbs , que hiarn no ba- 
tel do navio a terra. E porque Duarte de 
Mello não podia emendar efte damno íem 
licença de Affonlb d'Alboquerque , efcrc- 
veo-lhe havia dias , cuja reípofta na Arma- 
da de Gonçalo de Sequeira houve António 
de Saldanha , mandando-lhe que fe vieíTe a 
Moçambique , e com a gente , e navios que 
pudeíTe haver , foííe áquellas Ilhas , e as 
deftruiífe. Da qual ida António de Saldanha 
vinha , quando D. Garcia o topou , e o ca- 
lo de fua ida não fuccedeo tão bem como 
elle a houve por leve , porque Duarte de 
Mello foi morto com outros , e muitos fe- 
ridos , e não fe fez mais damno aos Mou- 
ros , que queimarem-lhes o lugar , e dous , 
ou três zambucos que citavam no porto , e 
trouxe cativo hum Xeque da terra , que por 
acerca dos Mouros fer homem religiofo , 
foi caufa de fe levantarem todolos Mouros 
daquellas Comarcas contra nós. E daqui 
veio , ( fegundo fe depois foube , ) que os 
dous homens , que Pêro Mafcarenhas lan- 
çou em terra , foram mortos per Mouros 
da terra , o qual Xeque foi logo reígatado 
a troco de Franciíco Nogueira , e de dous 
filhos feus , que fe perderam em a náo San- 
to António , de que elle hia por Capitão , 
em os baixos de Angoxa. Na qual perda 

mor- 



Década II. Liv. VIL Ca?. II. 167 

morreo quaíí toda a gente , e elle como não 
fabia nadar leixou-fe ficar em o que appa- 
recia danáo com os filhos, e na baixamar, 
ficando a náo toda defcuberta , efpraiou tan- 
to que a pé enxuto fe recolheo a huma das 
Ilhas de Angoxa 3 onde os Mouros o to- 
maram 5 e depois deram pelo feu Xeque. Ef- 
te Francifco Nogueira partira aquelle anuo 
de doze em huma grofla Armada de doze 
velas , que deite Reyno partiram , em que 
EIRey mandou dous mil homens j e a cau- 
fa de efte anno ir tanta gente foi por a 
nova que EIRey teve do eftado da índia , 
em que fe preíiimia que AfFonfo d'Alboquer- 
que era perdido , e principalmente por as 
cartas que houve de D. Garcia de Noro- 
nha feitas na Ilha de S. Thomé ao primei- 
ro dia d^Agoílo , quando fe elle dalli par- 
tio , que eftava certo , a lhe Deos fazer mui- 
ta mercê , invernar em Moçambique. A 
qual Armada partio EíPvey em duas capita- 
nias , huma de oito náos deo a Jorge de 
Mello Pereira filho de Vafco Martins de 
Mello , o qual hia pêra ficar na índia por 
Capitão da fortaleza deCananor, e das ou- 
tras quatro hia por Capitão Garcia de Sou- 
fa. E por não efperarem humas per outras 
pêra irem em hum corpo , ordenou EIRey 
que como fe foffem apercebendo , de duas 
em duas partiiTem y e em Moçambique ef- 

pe- 



IÓ8 ÁSIA de JoÂo de Barkos 

peraflcm té hum certo tempo por feu Capi- 
tão ; e não indo , fe foílèm na conferva do 
outro , e todas em hum corpo. Porque co- 
mo as coulas da índia citavam fracas por 
a nova que fe tinha do eftado em que fi- 
cava , e per via de Levante tinha EIRey 
nova que o Soldão mandava novamente fa- 
zer outra Armada pêra enviar lá , por ra- 
zão da outra que lhe desbaratou o Viib- 
Rey D. Franciíco , havia fufpeita que po- 
diam também haver Rumes na índia. E 
poílo que EIRey deo eíla ordem á partida 
das nãos daqui , eJlas fe fizeram tão preíles , 
que a maior parte delias partiram deite por- 
to de Lisboa dia de N. Senhora da Annun- 
ciaçao , que he a vinte e finco de Março. 
Os Capitães da qual frota eram eíles : Jorge 
d'Alboquerque filho de João d'Alboquer- 
que , Gonçalo Pereira filho de Gonçalo Pe- 
reira 5 Jorge da Silveira filho baftardo de 
Diogo da Silveira , Simão de Miranda filho 
de Diogo d' Azevedo , o qual havia de fi- 
car por Capitão em Çofala em lugar de An- 
tónio de Saldanha, D.João d'Eça filho de 
D. Pedro d 5 Eça , Franciíco Nogueira o que 
fe perdeo filho de Francifco Nogueira , Lo- 
po Vaz de . Sampaio filho de Diogo de 
Sampaio, Per0jd'Alboquerque filho de Jor- 
ge d 5 Alboqiíefque , António Rapofo de Be- 
ja , Gafpar Pereira 5 que hia pêra fervir de 

Se- 



Década II. Liv. VIL Cap. II. 169 

Secretario de Affonfo d'Alboquerque , co- 
mo fervio com D. Franciíco d' Almeida , fe* 
gundo atrás efcrevemos. E em treze de Ju- 
lho defte anno de doze partio hum Caval- 
leiro per nome João Chanoca em hum na- 
vio a bufcar a carga da náo Gallega , que 
vindo da índia por a náo não fer pêra na- 
vegar, defcarregou em Moçambique. E de 
todas eílas náos Franciíco Nogueira perdeo 
a ília j e Jorge da Silveira paliou á índia 
per fora da Ilha de S. Lourenço , e foi ter 
íbbre a barra de Goa a oito de Julho ; e 
por o tempo fer mui verde , não oufando de 
entrar , paífou adiante a Anchediva , onde 
efperou perto de dous mezes té fe ir a Co- 
chij , onde achou Affonfo d'Alboquerque. 
Toda a outra Armada de Jorge de Mel- 
lo , e Garcia de Soufa 5 ainda que não jun- 
tamente 5 quando veio dia de S. João efta- 
vam já em Moçambique , onde acharam 
D. Garcia , que alli invernára com três náos. 
E porque (como vimos) Simão de Miran- 
da Capitão de hum a náo vinha pêra Capi- 
tão da fortaleza de Çofala , Jorge de Mel- 
lo o elpedio , e mandou Provisões a An- 
tónio de Saldanha que naquella náo fevief- 
fe , e paflafle per a fortaleza de Quiloa , 
onde eftava por Capitão Francifco Pereira 
Peílana , e o recolheífe com toda a gente 
delia 3 por EiRey D. Manuel não íiaver 

por 



ijo ÁSIA de João de Barros 

por bem ter alli aquella fortaleza , por as 
caufas que no fim da primeira Década ef- 
cre vemos , e aíli os trabalhos em que Fran- 
cifco Pereira eftava no tempo que António 
de Saldanha chegou, e o que fez té a par- 
tida delia. 

CAPITULO HL 

Como "Jorge de Mello , e Garcia de Sou- 
fa com D. Garcia partiram todos em con- 
ferva pêra a índia , onde chegaram , e o 
que fizeram té fe ver com Affonfo d?Albo- 
querque : e de algumas coufas que elle pro- 
veu ante de partir de Cochij pêra Goa. 

JOrge de Mello , e D. Garcia , tanto que 
o tempo lhes íervio , partiram caminho 
da índia , e a primeira terra que tomaram 
foi a barra de Goa dia da AíTumpção de 
N. Senhora , que he a quinze dias de Agof- 
to ; a vifta da qual frota como era de tre- 
ze náos mui groílas , em que hiam mais de 
mil e oitocentos homens , foi tão alegre aos 
jioíTos , quão trifte aos Mouros : cá bem 
viam nellas que fe lhes apparelhava algum 
trifte fim de fua eftada alli ; que caulou a 
Roztomocan repairar , e fortalecer de no- 
vo a fortaleza. Jorge de Mello , poílo que 
Aífònfo d'Alboquerque não era vindo de 
Cochij , e D, Garcia por razão de fua au- 

fen- 



Década II. Liv. VIL Cap. III. 171 

fencia não quiz fahir da náo , mandou ar- 
mar feus bateis, e aífi por mar, como per 
terra quiz com a gente da Cidade , (que por 
honra de fua chegada o acompanhou , ) dar 
huma vifta á fortaleza de Beneftarij , e por 
fruta do Reyno mettêram-lhes huns poucos 
de pelouros dentro com as bombardas pê- 
ra iílb que levavam , fazendo também re- 
colher os Mouros á fortaleza , não oufan- 
do andar no campo tão vagos , como fa- 
ziam ante de fua vinda. Dada eíla vifta , e 
leixando alli as munições que ferviam á 
Cidade , fe foram eíles dous Capitães mo- 
res a Cochij , em companhia dos quaes fo- 
ram os cativos que eftavam em Cambaya, 
e aili João Machado com os outros que 
com elle fe vieram , por os mandar chamar 
Aífonfo d'Alboquerque , que queria prati- 
car com elle João Machado fobre as cou- 
fas daquelle Mouro Roztomocan : peró pri- 
meiro que mais procedamos , pois ora fal- 
íamos nelles , convém dizer per que modo 
fahíram eftes cativos 5 que fe perderam com 
D. Affonfo de Noronha. Ante que Aífonfo 
d'Alboquerque partifíe pêra Malaca , tendo 
já recados delles que eftavam em poder 
d'ElRey de Cambaya , vendo que não acu- 
dia aos mandar tirar, deoElRey de Cam- 
baya licença que foíle a efte negocio de feu 
requerimento hum , ou dons , porque ven- 
do- 



173 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

do-os AíFonfo d'Alboquerque ante íi , c 
mais cmcoufa tãojufta, tomaria logo con- 
clusão no defpacho dos outros ; c os que 
vieram a efte negocio , como já eferevemos , 
foram Diogo Corrêa , e Francifco Pereira 
de Berredo , os quaes chegaram a tempo 
que AíFonfo dWiboqucrque eftava de ca- 
minho pêra Malaca , e deo a Diogo Cor- 
rêa a capitania de Cananor , em que ficou 
em lugar de Manuel da' Cunha j e quanto 
ao deípacho dos outros , eípaçou té lua 
vinda por não poder fer então. Os cativos 
vendo que Diogo Corrêa não tornara , nem 
tinham per via alguma recado de lua li- 
berdade , tornaram pedir a Melique Gupi 
que lhe alcançafle d^ElRey que houveíle 
por bem confentir que outro delles foíTe 
requerer ao Capitão mor que os rcígataííe. 
Ao qual requerimento reípondeo EIRey , 
que hum , e hum lhe parecia que aquelles 
Portuguezcs per bom modo fe queriam to- 
dos acolher : peró como Melique Gupi era 
homem mui acceito a EIRey , e deíejava 
noíla amizade por lhe importar á navega- 
ção de luas náos , tanto trabalhou niííb , 
que aprouve a EIRey dar licença a Fr. An- 
tónio do Loureiro por fer Rciigioíb. O 
qual em fé de lua verdade prometteo , que 
quando o Capitão mor não o defpachaiTe , 
elle fe tomaria a fe metter em feu poder; 

e em 



Década II. Liv. VIL Cap. III. 173 

e em penhor deita palavra leixou o cordão 
do habito que trazia , dizendo , que naquel- 
la corda eftava grão parte da religião do 
feu habito, que por qualquer maneira que 
foffe , elle tornaria ao defempenhar. A qual 
conftancia de palavra aprouve muito a El- 
Rey , e muito mais o eífèito delia ; porque 
vindo Fr. António 3 e não achando Affonfb 
d'Alboquerque em Goa por fer em Mala- 
ca , o mais que pode acabar com Diogo 
Mendes de Vaíconcellcs , que fervia de 
Capitão , foi mandar com elle hum Gon- 
çalo Homem a EIRey de Cambaya , di- 
zendo , que AfFonfo d'Alboquerque era ido 
a Malaca v e ao tempo de íua partida che- 
gara Diogo Corrêa , ao qual logo não deí- 
pachou com fundamento , que quando em- 
bora tornaífe , elle o tornaria a mandar com 
recado de fua liberdade , e dos outros ; e 
que fe Diogo Corrêa fe leixou de tornar a 
cumprir fua verdade, fora por elle Aíron- 
fb d'Alboquerque lhe encommendar a for- 
taleza de Cananor 5 em que eílava por Ca- 
pitão. E por quanto elle Capitão mor não 
era ainda vindo , e efperavam por elle na- 
quella primeira monção , lhe pedia por mer- 
cê que por então lhe tornaífe por defculpa 
a aufencia de feu Capitão mor ; e que o 
Padre Fr. António tomava defempenhar feu 
cordão P e o tratamento de fuás peífoas fof- 
fe 



174 ÁSIA de João de Barros 

fe como té então todos tinham recebido 5 
pois era natural dos Principes tão grandes , 
como elle era , condoer-fe das mi terias da 
gente a que a fortuna puzera naquelle cf- 
tado. Com o qual recado mandou-lhe Dio- 
go Mendes algumas coufas deite Rcyno em 
prefente , e afli a Meiique Gupi , as quaes 
poíto que eftimadas foliem dclles , muito 
mais eílimáram o cumprimento que Fr. An- 
tónio fez 5 e affi as deículpas dos noflbs em 
não ter cumprido. A qual obra acreditou 
tanto noíías couíàs , que não tardou muito 
vermos quanto aproveitou com elies , ha- 
vendo fermos homens que tínhamos duas 
partes , huma pêra muito temor , e outra 
pêra grandemente amar ; por mal , fermos 
mui eíquivos vingadores deoffenfas; e por 
bem , em extremo fieis na amizade , e cum- 
pridores de nolTa palavra. Parte das quaes 
coufas ciles viam nas que tínhamos feito 
naquellas partes , e principalmente duas , 
que então muito notaram , eíla de Fr. An- 
tónio j e a outra a nova que veio de Ma- 
laca do que lá fizera Aífonfo d'Alboquer- 
que , a qual deo a náo de Meiique Gupi , 
que (como diííèmos) elle tratou como fe 
fora noífa , quando foube fer fua. E como 
eíla nova favorecia muito noífas coufas na 
índia , quando ella veio , que foi muito an- 
te da chegada de Aífonfo d'Aiboquerque, 

ca- 



Década II. Liv. VIL Cap. III. 17? 

calaram o que lá viram > e andava entre 
elles em grande fegredo ; e efta boa obra 
obrigou muito a Melique Gupi , e aífi a 
Melique Az temer offender-nos , e procu- 
rar noffa amizade , pois a maior parte de 
fuás fazendas eftava em navegação, de que 
éramos fenhores per armas , e potencia. Fi- 
nalmente com citas co ufas defpacháram a 
todoíos cativos liberalmente , e bem vefti- 
dos , e tratados os mandaram a Goa ante que 
ÀíFonfo d'Alboquerque vieíTe > por achar 
efta obra feita em fua aufencia 3 e fer mais 
agradecida ante elle. Eíle foi o modo da 
liberdade delles , porque huma de duas cou- 
íàs pêra todas haverem eífeito acerca dos 
homens os enfrea , amor , ou temor. A 
chegada dos quaes cativos a Cochij com 
toda a frota de D. Garcia , e Jorge de Mel- 
lo , foi hum dos maiores prazeres que Af- 
fonfo d'Alboquerque vio , e que mais con- 
tentamento lhe deo que quantas vitorias 
teve : cá efta groífa Armada em feu animo 
acabou de as confirmar , e tirar de muitas 
fufpeitas que elle tinha , como adiante ve- 
remos. Porque ver elle ante íi D. Garcia 
de Noronha feu fobrinho , a que elle mui- 
to queria por fuás qualidades , com aquel- 
la honra de Capitão mor de íeis náos que 
naquelle tempo , e naquella idade que el- 
le também tinha y parecia fazer-lhe EIRey 



rj6 ÁSIA de João de Barros 

D. Manuel aquella ventage por razão dei- 
le AíFonfo cTAlboqucrque 5 poílo que em 
D. Garcia havia méritos de ília pcíloa pê- 
ra iífo , além da morte de feus irmãos ; e 
ver também tanta gente , e tão nobre Fi- 
dalguia como elle D. Garcia , e Jorge de 
Mello levavam 5 e ver aquelies cativos , c 
João Machado com feus companheiros , os 
quaes elle tanto trazia no animo , defejando 
modo pêra os haver , e Deos lhos trouxe 
afli a huns , como a outros per caminho de 
mais feu contentamento , e ver que as cou- 
ías do eílado da índia , (peró que em Goa 
houve aliás trabalho , ) todas eítavam melhor 
do que as elle lá onde andava temia , efo- 
bre tudo concorrerem todas quali em elle 
chegando , de prazer não lhe parecia que 
as via , mas fonhava. Porque fobre eíles 
Capitães chegaram eftoutros que ficaram de- 
trás , Gonçalo Pereira , com o qual vinha 
Francifco Nogueira 3 e a gente que com 
elle fe íálvou da náo perdida em Angoxa ; 
e affi chegou António- de Saldanha com to- 
da a gente de Quiloa que eftava com Fran- 
cifco Pereira. Além delles , chegaram mais 
duas pelToas que elle muito eílimou , am- 
bos Embaixadores do Xeque Ifmael Rey 
da Perua , hum delles poílo que não vinha 
ordenado a elle AíFonfo d'Alboquerque per 
modo de Embaixador > fomente aos Prin- 

ci« 



Década II. Liv. VIL Cap. III. 177 

ripes Mouros do Reyno Decan , que qui-» 
zeííem acceitar a carapuça , e oração da íua 
fedia de Alie 5 de que ao diante faremos 
larga menção , todavia Affoníò d 5 Alboquer- 
que , por £cr de tal Príncipe , e elle Em- 
baixador o viíitar defua parte, lhe fez mui- 
ta honra , e gazalhado. E depois quando 
efte Embaixador fe foi pêra Ormuz , ha- 
vendo embarcação em Goa , per ordenança 
de Affoníb d'Alboquerque , mandou com 
elle hum Miguel Ferreira homem honrado , 
e de bom faber natural de Beja com reca- 
do feu ao Xeque Ifmael Rey da Perfia. O 
outro Embaixador , que chegou depois dei- 
te , mandava EIRey de Ormuz a EIRey 
D. Manuel a efte B.eyno com requerimen- 
tos y o qual Embaixador veio aquelle an- 
uo em as náos da carga j e entre algumas 
coufas que lhe trouxe de prefente , foi hu- 
ma Onça de caça , com que naquellas par- 
tes da Perfia coftumam montear, trazendo- 
as o caçador prezas nas ancas do cavalío. 
E por ferem alimárias anui efquivas , e que 
esfarrapam muito com as unhas , e dentes 
a preá , e os cavallos as não recebem bem 
nas ancas onde as trazem no monte , fazem- 
lhe pêra aquelle lugar huma maneira de 
coprão de cubertas de armas , por não ef- 
candalizar com as unhas o cavallo ; e ain- 
da porque ella aferra com ellas na coufa 
Tom. II. P.iL M que 



ij% ASIÁ de JoÃo de Barros 

que tem debaixo pêra fe fuíler, quando o 
cavallo anda , aquelle coprão não he bor- 
nido , mas á maneira de cortiça afpera. Do 
qual Embaixador , c aííi do outro com que 
foi Miguel Ferreira, adiante faremos rela- 
ção. Affbnfo dWlboquerque aífí pela carta 
que tinha do Capitão , e Cidade de Goa , 
como pela informação que lhe deram Jor- 
ge de Mello , e D. Garcia , e principalmen- 
te João Machado do eftado delia, ficou al- 
gum tanto defcançado , e determinou não 
ir lá fenao com a carga da efpeciaria feira , 
a qual em mui breve tempo fez. Porque 
ainda que as náos foíTem muitas , como o 
anno paífado não tomaram carga mais que 
as náos de D, Aires da Gama , e Chriíro- 
vao de Brito , havia tanta pimenta da que 
fobejava daquelle anno , que fe fez leve- 
mente : no qual tempo , pofto que Pêro Mas- 
carenhas eftava por Capitão de Cochij , de 
que fora provido de ca do Reyno por El- 
Rey , elle o levou comfigo a Goa , e lhe 
deo a capitania daquella Cidade > por fer 
coufa de mais importância , que a capitania 
de Cochij : e as peíToas como Pêro Maf- 
carenhas queria elle empregar em parte on- 
de fízeíTem mais fruto , que eftar por olhei- 
ro de huma fortaleza. E como as náos fo- 
ram de todo preftes , e elle das coufas que 
havia mifter pêra os combates do caftello 

de 



Década II. Liv. VIL Cap. III. Í79 

de Beneftarij , partio pêra Goa , e de paiTa- 
gem leixou Jorge de Mello na fortaleza de 
Cananor, de que também hia provido per 
EIRey , e levou comíigo Diogo Corrêa: 
parece que o chamava o feu derradeiro dia , 
porque acabou como cavalleiro ao pé dos 
muros do caftello Beneftarij , como vere- 
mos. E aííi paflbu per Baticalá, e Onor , 
onde proveo algumas couías , e lhe veio 
fallar Melrao Rey da Cidade , que o acon- 
feíhou que délíe grão prefla a tomar a for- 
taleza de Beneftarij , por quanto tinha no- 
va certa que o Hidalcão em própria peíToa 
lhe havia devir foccorrer, pêra que fe fa- 
zia preftes com groílo exercito , que cau- 
fou a que Aftbnfo d'Alboquerque fe apref* 
faíTe mais , chegando a Goa , onde eram 
feus defejos. 



Mií CA* 



180 ÁSIA deJoao de Barros 

CAPITULO IV. 

Como chegado Ajfonfo d?Alboquerque â 
Cidade Goa , onde foi recebido com grande 
folemnidade y os Mouros do cajlello de Be- 
nejiarij lhe correram , e, elle os foi encer- 
rar no mefmo : e por caufa de querer com- 
metter a entrada delia , morreram três Ca- 
pitães > e outra gente da nojja. 

CHegado Affbnfo d'Alboquerque á bar- 
ra de Goa com toda fua frota , Jeixou 
cm baixo as náos grandes da carga , e le- 
vou acima ao porto de Goa as de peque- 
no porte , que podiam levemente ir pelo 
rio. Na fahida do qual em terra a Cidade 
lhe tinha feito hum folemne recebimento ; 
e quando foi á entrada da porta da Cida- 
de , hum Meftre AfFonfo homem letrado 
Fyíico , que fervia de Juiz ordinário , lhe fez 
huma Oração. A fubítancia da qual era , co- 
mo elle ganhara aquella Cidade aos Mou- 
ros , com que acerca dos Reys , e Prínci- 
pes da índia , por ella fer huma das mais 
notáveis daquellas partes > a nação Portu- 
guez não fomente tinha ganhado grão no- 
me , mas ainda em fer fua era hum duro 
jugo , que cada hum deites Príncipes tinha 
fobre feu pefcoço. Porque os Capitães , e 
Príncipes do Reyno Decan perdiam aquel- 
la 



Década II. Liv. VIL Cap. IV- 181 

Ia porta per que lhe entrava , e fahia todo 
o eflencial que os fuítentava , e mantinha 
em feus eílados : EIRey de Narlinga fenhor 
de todo o Canará pela meíma maneira não 
tinha vida , por razão dos cavalíos , que 
eram as principaes armas com que fe de- 
fendia dos Mouros. Finalmente aííi eítes por 
razão de feus eílados , como os outros Mou- 
ros de toda a coita da índia por cauía de 
feus commercios , citavam mui aífombrados 
em ver que a gente Portuguez , que té li não 
fizera conta de habitar na índia , com ter to- 
mada aquella Cidade , começava de lançar 
raizes de fua vivenda. A qual coufa 5 depois 
que o Hidalcão cahio nella 3 affi o atormen- 
tou 5 além de perda de tamanho eftado , e de 
tanta injúria como nella recebeo per duas 
vezes , que partido elle Capitão mor pêra 
Malaca , mandou cercar aquella Cidade y 
cujos lares ainda eítavam quentes, da habita- 
ção que nella fizeram alguns dos que aí li 
vinham. A dor , e mágoa da qual perda vi- 
nha tão viva no animo de todos , que de- 
fejando reílituir-íè nella , muitas vezes com 
o grande número da gente que eram , e es- 
terilidade do inverno , per combates , Der 
fome , fede , e continuação de vigílias , e 
trabalhos , todos aquelies Fidalgos cavaliei- 
ros , e gente d'armas padeceram grandes 
afrontas; E pois N. Senhor a todos fizera 

tan- 



182 ÁSIA de João de Barros 

tanta mercê , que nacjuelle lugar ante feus 
olhos viílem a clle feu Capitão mor , do 
qual dependia todo o feu governo , forças , 
induítria , e vitorias , com muito prazer , e 
efperança de tirar aquelle imigo , que ti- 
nham ante de fua face , lhe entregavam a 
pofle daquella Cidade 3 pêra que a remiíTe 
de feus trabalhos , pois per duas vezes a ti- 
nha ganhada a Mouros. E em dizendo ef- 
tas palavras , o Capitão da Cidade lhe en- 
tregou as chaves delia , e elle depois lhas 
tornou a dar , e de li foi á Sé dar graças 
a Deos da mercê que lhe tinha feito em o 
trazer áquella Cidade , onde cílavam todos 
feus defcjos , e dáhi a feu apofento. Palia- 
dos dous dias de lua chegada , começou 
clle entender nas coufas de fua obrigação > 
e officio , pedindo razão a cada hum do 
que tinha feito , começando primeiro naquel- 
les a que ante da fua partida tinha manda- 
do alguma coufa , aífi como a Diogo Fer- 
nandes de Beja , que mandara desfazer a for- 
taleza de Çocotorá. O qual lhe deo razão 
diíío como ficava desfeita , e trazia as pá- 
reas de Ormuz , onde também o enviara 5 
com todo o mais que tinha fabido da ida 
d 5 EiRey á Ilha Baharem , por eftar alevan- 
tada contra elle , e aíli o que tinha fabido 
daqtielle Reyno. E com a nova deftas cou- 
fas lhe entregou três mil e tantos pardaos 5 

e ai- 



Década II. Liv. VIL Cap. IV. 183 

e algumas peças do quinto das prezas , que 
elle Diogo Fernandes fez naquelle cami- 
nho 5 ( como atrás apontámos , ) os quaes 
AíFonfo d 5 Alboquerque logo diftribuio per 
elle Diogo Fernandes , e per outros Capi- 
tães. Finalmente depois que perguntou , e 
deo audiência a outros de tanto tempo co- 
mo havia que dalli era partido , contentan- 
do a todos delles com mercê em nome 
d'E!Rey , outros com palavras , e a muitos 
com efperança de feus requerimentos , co- 
meçou entender cm o modo que havia de 
ter no commettimento daquella fortaleza Be- 
neílarij : cá fegundo a informação que te- 
ve , era coufa mui dura de conimetter. Por- 
que ella era huma fortaleza feita affi per 
fitio da terra , como per o trabalho da mui- 
ta gente que tinham quaíi té as ameas per 
dentro o muro entulhado , e maciílb , e as 
torres , e baluartes outro tanto , fomente hum 
lanço do muro ao longo , do qual corria 
hum eíleiro da parte do Paífo fecco , onde 
elles tinham mettido alguns barcos de que 
fe ferviam pêra terra firme,. por razão deíle 
eíleiro impedir poder-fe alli dar bateria, lei- 
xáram aquelle pedaço por entulhar. E por- 
que elles fabiam que per mar não havia cou- 
fa que fe nos tiveííe , temendo que os po- 
deríamos commetter per aquella parte , por 
a fortaleza ter hum lanço grande de muro 

P e ~ 



184 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

pegado no mar , e ainda que per alli não 
foífem commettidos , podiam-lhe com na- 
vios que fe puzcífem entre a fortaleza , e 
a terra firme tomar a ferventia delia , que 
era toda fua vida , pois de lá lhe vinha todo 
o neceíTario \ ordenaram de atraveílar o rio 
com duas eftacadas , huma da parte donde 
chamam o PaíTo fccco , e outra de Goa a 
velha. Cada huma das quaes eftacadas feria 
de comprimento de hum tiro de efpingar- 
da ; e porém a da parte de Goa a velha 
era muito mais forte , e dobrada , que a ou- 
tra , entre as quaes ficava a fortaleza met- 
tida hum pouco affaftada delias , com que 
tinham larga , e fegura ferventia pêra terra 
firme, fem alguém lha poder impedir. Ti- 
nham mais nefta banda da eftacada con- 
tra Goa a velha hum baluarte , onde alem 
de outra muita artilheria miúda, eífava hum 
bafaíifco de ferro , aíli ordenado , que com 
maré cheia , e vafia pefeava hum batel por 
pequeno que foíle. Porque como defta par- 
te de Goa a velha té a fua fortaleza o rio 
era largo , e de fundo que poderia ir aci- 
ma huma não , punham nefte lugar toda fua 
defensão , e artilheria ; e aíli na face da ter- 
ra contra a Cidade , e da outra parte con- 
tra o Pafíb fecco , não fe temiam tanto por 
fer tão baixo principalmente nefte paílo , 
que per elie na baixamar fe podia paíTar a 

pé 



Década II. Liv. VIL Cap. IV. 185- 

pé de huma a outra parte. Affònfo d'Albo- 
querque , pofto que logo ao prefente náo fou- 
be parte do que hia dentro do caílello , nem 
de algumas coufas deitas , fomente polo que 
lhe diífe João Machado do que leixava fei- 
to ao tempo que de lá veio , ordenou fuás 
coufas y como quem havia de ir poer cerco 
a eíla fortaleza per terra , e per mar , com 
fundamento que não fe havia de levantar 
de fobre ella té que a não houvefle ás mãos. 
Porém ante que nefte negocio foífe avante, 
não paífáram féis dias de fua chegada que 
huma fefta feira, dia que os Mouros fole- 
mnizam como nós o Domingo 5 vieram cor- 
rer á Cidade obra de duzentos de cavallo , 
e quatro mil de pé , com tenção , que dando 
aquella mofíra de íl , poderia fahir gente a 
elíes , com que defcubririam o que haveria 
na Cidade, pois nelia eíiava AíFohfo d'Al- 
boquerque ; e ainda de induítria correram 
o campo derramados em modo que pudef- 
fem convidar os noíTòs a fahir a elles. Af- 
fònfo d'Alboquerque pofto já fora dos mu- 
ros em hum lugar 3 onde fe incorporou com 
toda a gente que fahio ao repique , affi de 
cavallo , como de pé, vendo o modo em 
que os Mouros andavam , affaftou-fe hum 
pouco do corpo da gente chamando os Ca- 
pitães , e a João Machado , ao qual per- 
guntou , que como andava aquella gente 

tão 



i8ó ÁSIA de João de Barros 

tão mal ordenada, fc vinha alli Roztomo- 
can. Ao que João Machado refpondeo , que 
por aquelle dia fer o que os Mouros fole- 
mnizavam , lhe parecia virem elles mais a 
folgar , que a outra coula j e quanto alli 
vir Roztomocan , não via bandeira fua ; po- 
rém porque elles coftumavam incorporar-íb 
ás duas Arvores. , tanto que os viíTe em lium 
corpo , onde fe haviam de ajuntar os de ca- 
vallo com os de pé , faberia dizer fe vinha 
alli. Eftando AíFonfo d'Alboqucrque nefta 
pratica, foi tanta a fúria da nona gente , ha- 
vendo por injúria aquella foltura dos Mou- 
ros em fua face , que com impeto de vin- 
gança começou a correr huma voz per to- 
dos : A elles , a elles \ e foi cfte alvoroço 
tão folto na boca , e pés de todos , que 
quando AfFonfo d'Alboquerque acudio aos 
entreter , eram já tanto na vifta dos Mou- 
ros , que por lhes não dar fufpeita que os 
temiam , largou a trella aos noífos , toman- 
do por final de vitoria o impeto que nel- 
les via. Os Mouros como viram a corri- 
da que levavam , começaram os de cavai- 
lo rodear a fua pionagem , e pola ante fi , 
recolhendo-fe em boa ordem ; porém Pêro 
Mafcarenhas Capitão da Ordenança da gen- 
te de pé , da qual Ordenança eram Capi- 
tães João Fidalgo , e Ruy Gonçalves , co- 
meçou de os apreífar de maneira ; que mui- 
tos 



Década II. Liv. VIL Cap. IV. 187 

tos delles defamparáram a pionagem , e 
[ começaram de fe recolher aprefladamente. 
Porque como com efta nofla gente hiam 
I muitos Gentios do Malabar , e dos Cana- 
rijs , homens mui leves em commetter , com 
i o favor dos noííbs que levavam nas coitas , 
I derribavam pelo caminho muitos , té que 
chegados ao fob pé de hum tefo já pega- 
j do nos muros da fortaleza ? onde os Mou- 
ros tinham muitas cafas palhaças á manei* 
I ra de arrabalde , elles mefinos por entreter 
j os noflbs , puzeram fogo ás caías. A qual 
| detença deo algum fôlego aos Mouros pe- 
| ra fe poder recolher ; porque era tanta a 
I preffa, e o lugar per onde enrravam na for- 
taleza táo eílreito , e o rolo delles tama- 
nho , que de não terem os de cavalío lu- 
gar pêra entrar leixavam os cavalios de 
; fora. E ainda chegou o temor a tanto , que 
temendo que os noflbs juntamente com el- 
les entraffem , como aconteceo na tomada 
de Goa, fecharam a porta hum pouco ce- 
do y com que muitos ficaram de fora. Par- 
te dos quaes , por fugir o ferro dos noflbs 
que os fangrava , fe lançaram a huma ala- 
goa a nado ; outros fe mettiam nos barcos 
que tinham no efteiro , que eram do fer- 
viço da fortaleza ; e muitos fubidos em hum 
cubcllo baixo de cima do muro , que fica- 
va fobre elle ? por toucas que lhes lançavam 

fe 



188 ÁSIA de João de Barros 

fe queriam falvar. Ao qual lugar, (poílo 
que a fortaleza toda foi logo torneada dos 
noíTos , bufcando entrada , ) como era o de 
maior preífa , e hum pouco eftreito , acu- 
dio muita gente nobre dos noífos ; e vendo 
alguns o trabalho que os Mouros tinham 
pêra fe alar pelas toucas ao muro , come- 
çaram fubir ao baluarte , por fer baixo , 
com tenção de entreter os Mouros , e ver 
fe teriam modo de poder fubir em cima 
do muro ; e o primeiro que fubio a eíte 
baluarte , foi Trilião de Ataíde hum Fi- 
dalgo de Loulé , dando a mão a outros 
que o quizeram feguir. E porque no chão 
deite baluarte no muro da fortaleza eftava 
huma porta fechada de pedra , e barro, 
coufa feita de poucos dias , como que fe 
fechara por não haver tantas ferventias, on- 
de concorria muita gente , começaram os 
Mouros, por o lugar fer azado pêra os en- 
trarem per elle , de cima lançar panellas de 
pólvora , fogo de alcatrão , e quantas cou- 
fas achavam pêra o defender, no qual por 
fer eftreito os noíTos receberam aífás dam- 
no. Ao qual trabalho acudio Pêro Mafca- 
renhas , Duarte de Mello , Aires da Silva , 
Lopo Vaz de Sampaio , Manuel de la Cer- 
da , Ruy Galvão , e outros Fidalgos com 
João Machado , que como homem que ef- 
tivera dentro daria algum confeího per 

on- 



Década II. Liv. VIL Cap. IV. 189 

onde podiam entrar , que ao defcer foíTe a 
elle poífivel. Peró como na companhia não 
havia efcada , nem coufa mais azada que 
aqueíía porta , e o baluarte pêra entrar na 
fortaleza , carregaram os Mouros tanto , 
que mataram Diogo Corrêa 3 que fora Ca- 
pitão de Gananor , e Jorge Nunes de Leão, 
e feriram Lopo Vaz de Sampaio , Manuel 
de la Cerda , Ruy Galvão , e outros. Na 
qual -perna de querer trepar , e fubir , Pêro 
Mafcarenhas femoílrou mais defejofo , que 
outro algum , commettendo a fubida per 
os piques da gente de Ordenança, o qual 
trabalho lhe nao fundio a feu propoíito. 
AíFonfo cPAlboquerque vendo que na par- 
te em que elle eíiava , e affi nefta em que 
morreo a mais gente , todo o damno era 
feu , pois eftavam por barreira de quanta 
frechada , e artilheria tiravam os Mouros , 
mandou hum recado a Pêro Mafcarenhas 
que íe recolheíle ; o que elle fez com aliás 
perigo , porque defabrigado do muro , ne- 
nhum tiro perderam os Mouros. Finalmen- 
te daquella fahida ficaram aqucllas pefíòas 
principaes ; e toda a mais gente que che- 
gou áquelle lugar do muro , o maior dam- 
no que recebeo , foi do fogo , e azeite fer- 
vente , e alcatrão que lançavam de cima. 
PaíTado eíle perigo dos Mouros > veio Af- 
fonfo d'Alboquerque cahir em outro , que 

el- 



190 ÁSIA de João de Barros 

elle mais fentio ; porque como a natureza 
do Portugucz he conceder a poucos a glo- 
ria do feu braço , acertou Affonfo d 5 AÍbo- 
qucrque , por moftrar quão contente ficou 
do que Pêro Mafcarcnhas fez na chegada 
daquelle muro , de o ir beijar na face, che- 
gando a elle com palavras de louvor da- 
quelle feito que AíFonfo d'Alboqucrquc mui 
bem íabia dizer, como grande official que 
era diíTo. A qual couia foi em tal hora , 
que faltou entre toda aquella Fidalguia hum 
rumor de palavras , como fe todos naquel- 
le louvor de Pêro Mafcarenhas recebiam 
alguma injúria. E porque o author defta 
revolta fora Francifco Pereira Peftana , que 
nas coufas de cavalleria era de huma con- 
dição forte , e lingua afpera pola confiança 
que tinha de fi , vio-fe Aítonfo d'Alboquer- 
que tão agaílado , que ufou dos feus arti- 
fícios com que elle íabia apagar eíte fogo 
de paixão entre partes. Arremettendo con- 
tra Francifco Pereira não per modo irofo , 
e chegando a elle , começou rafgar a vef- 
tidura dos peitos , dizendo : Que quereis , 
Francifco Pereira ? Quereis ver o meu co- 
ração ? Vede-lo aqui puro , limpo , todo 
cheio de amor • e aquelle , que menos parte 
tem nelle , he quem ifto não crê : An ocu- 
lus tuus nequam eft 3 quia ego bónus fum ? 
Com o qual modo ; e palavras, e efta ul- 

ti- 



c 



Dec. II. Liy. VIL Cap. IV- e V. 191 

tinia tirada da Efcritura metteo toda a mur- 
smuração em. prazer , e fefta da vitoria , em 
que ( fegundo fe logo foabe ) dos Mouros 
morreram cento e tantos > e perderam al- 
guns cavallos 5 que com preifa não pude 
ram recolher , que os noííos trouxeram , 1 
affi muita boiada , que lhes foi bom refreí- 
co. E por efpedida puzeram fogo ao arra- 
balde , que os Mouros tinham feito junto 
da fortaleza ; e em quanto elle ardia , Af- 
fonfo d'Alboqnerque á vifta delia fe poz a 
fazer alguns cavalleiros : acabado o qual 
a&o y fe recolheo pêra a Cidade. 

CAPITULO V. 

Como Ajfonfo $ Alboquerque , providas 
algumas coufas a ejia ida necejjarias , affi 
fera mar , como pêra terra , partio de Goa 
a pôr cerco ao cajlello , que os Mouros ti- 
nham feito no PaJJo de Benejlarij. 

P Afíado efte dia , em que AíFonfo d'Al- 
boquerque tomou per íi experiência da 
força daquella fortaleza de Beneftarij , e 
quão trabalhofa coufa havia de íèr o cerco 
que lhe elle queria pôr , e a caufa era as 
eítacadas com que tinham atraveiTado o rio 
que lhe impediam poder-fe aproveitar do 
mar , aqui foi todo o feu eftudo do modo 
que teria pêra fe fervir > aíli do mar , como 

da 



192 ÁSIA deJòao de Barros 

da terra. Porque como elle paíFafle além 
das eílacadas alguns navios que pudeílem 
eftar entre ambas , pêra impedir com arti- 
lhem o ferviço , que a fortaleza tinha da 
terra firme , donde lhe vinha todo o necef- 
fario , logo ficava ícm forças pera não po- 
der fofFrer o cerco , que lhes havia de por 
per terra. Porém achava a eílc feu funda- 
mento dous grandes inconvenientes , e taes , 
que quando com elles foííe avante , feria á 
eufta de muita gente ; e o lomenos dclles 
era , que mandando navios pela parte do 
Paíío fecco , ás vezes em aguas vivas fica- 
va o váo de maneira , que fe paliava a pé , 
donde houve nome Pafío fecco. Pela outra 
parte de Goa a velha , poílo que era de 
mais fundo , aqui eítava o maior perigo ; 
porque fegundo diííemos , como parte mais 
fufpeitofa , que os podiam commetter com 
entrada de náos , e abalroar com a fortale- 
za , além de terem a eftacada dobrada hum 
pouco larga da fortaleza , tinham hum ba- 
falifco com a mais da artilheria ; e com- 
metter pera aqui era coufa mui trabalhoía 
o arrincar das eftacas , e grande perigo da 
gente. Finalmente bufeados todolos modos 
pera a não metter a tanto rifeo , depois que 
lobre iífo houve muitos coníelhos , não 
achou outro mais conveniente pera poder 
tomar aquelia fortaleza x que commetteíla 

per ' 



Década II. Liv. VIL Cap. V, 193 

per mar , e per terra juntamente. Pêra o 
qual negocio , em quanto fe ordenavam as 
outras munições de enxadas , picões , ceílos , 
padiolas , mantas , efcadas , e outras coufas 
pêra ir aíTentar o arraiai enj cerco da for- 
taleza per terra , mandou aperceber pêra 
entrarem pelo Pafío fecco hum navio , e 
huma caravella. O navio feria de té cem 
toneis , o qual fora daquelles que tomaram 
alli dos que tinham feito os Rumes , mui 
azado por não fer de quilha como os nof- 
fos , que daquelle porte demandam muita 
mais agua , do qual era Capitão Duarte de 
Mello , e da caravella João Gomes de al- 
cunha Cheira-dinheiro , que feria de té -qua- 
renta e cinco toneis 5 ambos cubertos de 
taboado per cima de longo a largo , ar- 
mado fobre antenas á maneira de cumicira 
de cafa baixa , pêra que a gente pudeífe 
per baixo trabalhar fem receber damno , e 
além diífo fuás arrombadas; e o navio Ru- 
me hia tão artilhado , que parecia levar 
emíi mais ferro, que madeira. Pêra entra- 
rem pela parte de Goa a velha 5 ordenou 
quatro peças , a náo S. Pedro , Capitão 
Triílão de Miranda ? e hum navio , Capi- 
tão Pêro cTAffonfeca filho de Gonçalo d'Af- 
fonfeca, e huma caravella, e huma fufta , 
de que eram Capitães Mendafonfo , e Af- 
fonfo PeíToa , todos quatro repairados pela 
Tom.II.P.il N m^ 



ip4 ÁSIA de João de Barros 

maneira de eftoutros com arrombadas , e 
artilhados , e cubertos. Concertados eíles 
féis navios com a gente ordenada pêra o 
trabalho de arrincar as eftacadas , e laborar 
da artilheria, que tudo havia de fcr gente 
do mar , e bombardeiros , os dous foram 
pela parte de Daugij , e tendo já paliado 
o Palio fecco á força de cabreílante , indo 
o navio per cima da vafa , foi cahir em 
outro maior perigo ^ porque por fe afaftar 
da terra firme 3 tanto fe encoílou a Ilha , 
que foi dar em hum penedo , o qual ale- 
vantou o animo per huma parte y e como 
elle hia carregado de artilheria , encoftou- 
fe pêra a banda da agua pêra onde toda 
correo de maneira , que o pezo delia fez 
que tomou agua per bordo , com que fe 
foi ao fundo , por o penedo fer a pique , 
e o navio não aífentar per todo nelle; mas 
aprouve aDeos que toda agente fe falvou. 
Em lugar do qual navio mandou Aífonfo 
d'Alboquerque hum grande batel aífi cu- 
berto com algumas peças de artilheria que 
elle podia foffrer ; e com ajuda delle João 
Gomes , a pezar dos Mouros , á força de ca- 
breílante tirou tantas eftacas , té que fez 
lugar per que metteo a fua caravella > on- 
de efperou que vieífem pela outra parte os 
outros navios. Aos quaes o caminho foi 
mais empidofo com o bafalifco, e artilhe- 
ria 



Década II. Liv. VIL Cap. V. 195* 

ria groíTa com que lhe tiravam, e detive- 
ram-fe em fubir aílima per tantos dias, ato- 
ando-fe de vagar pouco , e pouco em e£ 
paço de huma légua fem chegar á eftaca- 
da , que canfado Affonfo d'Alboquerque 
dos recados que lhe mandava , e deículpas 
de não poderem mais , determinou per íl 
ir ver efte vagar. Pêra a qual ida , pofto 
que havia de fahir á barra do rio, e tor- 
nar a entrar pela outra de Goa a velha , 
não quiz efcolher maior vaíílha pêra fua peP- 
foa , que hum catur da terra- Chegado aos 
navios , depois que vio o que podiam fa- 
zer , e ouvio as defculpas dos Capitães do 
que não tinham feito , quaíl tanto poios en- 
vergonhar , e aíli a toda a gente , do receio 
que tinham em chegar á eftacada , como 
por de mais perto notar o íitio da artilhe- 
ria , e que entrada haveria per alli á for- 
taleza, mandou remar o catur que chegaf- 
íè á eftacada ornais perto da fortaleza que 
elle pode. Notado o lugar , e eftancia da 
artilheria , em íè tornando parece que hum 
bombardeiro Gallego arrenegado, que nos 
fazia todo aquelle damno , enfiou o bafa- 
lifco no catur , e efpedaçou o corpo de hum 
Canarij que hia ao leme de maneira , que 
parte dos miollos envoltos em fangue vieram 
dar nas barbas de Affonfo d'Alboquerque. 
O qual todolos do catur houveram por 

N ii mor-- 



196 ÁSIA de J0X0 de Barros 

morto , porque o vento do pelouro o íbm- 
brou com que cahio , e aíli aífinalado da- 
quella oufadia chegou aos navios , onde 
logo mandou lançar hum pregão , que qual- 
quer bombardeiro que lhe quebraíTe aquel- 
le bafalifeo , lhe dava cem cruzados. E co- 
mo o premio as coufas que ante delle fe 
tem por impoílivcis elle as faz leves , e 
finalmente acaba tudo , aíli ordenou hum 
bombardeiro o ponto de hum tiro groflb , 
que metteo o pelouro pelo cano do bafa- 
lifeo , com que o quebrou , e o bombardei- 
ro arrenegado foi morto. Com a qual obra 
elle levou os feus cem cruzados , e Affon- 
fo d 5 Alboquerque ficou vingado do fangue , 
com que o borrifaram ; e mais tirou o pe- 
jo da náo S. Pedro , e aos outros navios 
pêra chegarem á eftacada. Com que logo 
aquella noite na baixamar em as eílacas fi- 
zeram ao machado grandes prezas , ende 
amarraram cabos de linho groífo ; e vinda 
a maré , que alevantou a náo , e navios , 
a força da agua fez arrincar as eílacas fem 
mais cabreílante , e per eíte modo fizeram 
lugar com que entraram , e foram- fe ajun- 
tar com a caravella , e batel de João Go- 
mes. Feita a qual obra 5 em que Affonfo 
d 5 Alboquerque tinha tanta efperança do que 
defejava , quanto os Mouros de receio, 
parece que eítaya aíli provido per elles ,_ 
• t que 



Década II. Liv. VIL Cap. V. 197 

que ao feguinte dia da entrada dos noflbs 
navios entre as eílacadas acudio logo hum 
Capitão , que eítava ao pé da ferra chama- 
do Çufo Larij ? que depois em accrefcen- 
tamento de honra houve nome Çadacan , 
de que ao diante faremos maior relação por 
caufa das contendas que com elle tivemos 
fendo Senhor de Bilgam. O qual trouxe 
comíigo té fete mil homens com muitas 
munições em foccorró da fortaleza , aííen- 
tando feu arraiai hum pouco emparado das 
noífas caravellas na parte da terra firme y 
por não receber damno da fua artilheria, 
no qual lugar efteve per alguns dias , pa- 
recendo-lhe que poderia fazer algum pro- 
veito á fortaleza. Porém depois que vio 
que fuaeftada era ociofa , e que mais d a ni- 
nava a íi , do que aproveitava aos outros , 
tornou-fe recolher com perda de alguma 
gente , que lhe a artiiheria dos navios ma- 
tou. Nefte tempo como Affonfo d 5 AIbo- 
querque eftava apercebido pêra ir pôr cer- 
co a efta fortaleza Beneftarij , havendo per- 
to de vinte dias que paliara efta vitoria que 
houve dos Mouros , partio de Goa com 
té quatro mil homens 9 três mil delles Por- 
tuguezes , que foram os mais que té aquel- 
le tempo fe viram na índia , e os mil da 
terra , em que entravam eftes Capitães , Dom 
Garcia de Noronha , Pêro Mafcarenhas y 

Ma- 



198 ÁSIA deJoaode Barros 

Manuel de la Cerda , António de Salda* 
nha, Jorge d'Alboquerque , Pêro d'Albo- 
querque , Jorge da Silveira , Francifco Pe- 
reira Peftana , Garcia de Soufa , Gafpar Pe- 
reira 5 Diogo Mendes de Vafconcellos , Lo- 
po Vaz de Sampayo y Jeronymo de Soufa , 
Ruy Galvão , Gonçalo Pereira , Francifco 
Pereira de Berredo , António Ferreira , An- 
tónio de Sá , e João Fidalgo , Ruy Gon- 
çalves , ambos Capitães da Ordenança , os 
quaes neíte ufo andaram muito tempo em Itá- 
lia , donde trouxeram honrado nome. Além 
deites Capitães , hiam muitos Fidalgos ca- 
valleiros , e criados d^ElRey, toda gente 
mui efcolhida y e limpa , a qual Affonfo 
d'Alboquerque repartio em dous corpos, 
hum tomou pêra fi , e outro deo a D. Gar- 
cia de Noronha feu fobrinho ; e a gente 
da terra Canarij 5 e Malabares que de Co- 
chij vieram a foldo , ficou com Pêro Mas- 
carenhas Capitão mor da Ordenança. Par- 
tido AfFonfo d'Alboquerque com eíte exer- 
cito huma tarde , foi dormir ás duas Ar- 
vores meia légua da Cidade , e ao outro 
dia chegou a fortaleza Beneílarij , onde af- 
fentou feu arraial em huma parte encuber- 
ta a gente 5 por caufa dos tiros que tinham 
no muro, e baluartes. E porque de dia fe 
não pode aífeftar a artilheria nos lugares, 
onde convinha pêra dar bateria á fortaleza , 

tau- 



Década II. Liv. VIL Cap. V. 199 

tanto que foi a noite , ficando elle Affonfo 
d'Alboquerque com a gente que tomou pê- 
ra íi naquelle lugar onde fe poz . que era 
em hum outeiro á maneira de pádrafto íò- 
bre a fortaleza , mandou a D. Garcia , e a 
Pêro Mafcarenhas que foflem mais abaixo 
aíTeílar toda a artilheria detrás de hum re- 
pairo de pipas cheas de terra obra de trin- 
ta paffos do muro , em que toda aquella 
noite trabalharam comaflas perigo* Porque 
como os Mouros fentíram o bater , e ca- 
var que elles faziam nefta obra , defcarre- 
gavam alli toda fua artilheria , e armazém ; 
e com tudo quando veio ao outro dia, a 
fortaleza da terra eílava toda torneada def- 
tas nofías eftancias , das quaes, e affi dos 
navios do mar , tanto que lhes foi dado fi- 
nal , começaram com aquella fúria de fogo 
picar o muro da fortaleza per todo* Porém 
efte trabalho per alguns dias aproveitou pou- 
co , e tudo foi gaitar pelouros , e pólvo- 
ra , aílí Âã noíTa parte , como da fortaleza , 
a qual Riria parecia huma femelhança do 
inferno , porque todo o fítio daquella for- 
taleza era fumo , e fogo. Em tanto que té 
os lagartos da agua , que no circuito da- 
quella Ilha andavam , (como atrás efcreve- 
mos , ) os quaes eram viftos dos nofíbs na- 
vios ? que tolhiam a paíTagem da terra fir- 
me , ás vezes fobre a agua , e outras na 

mar- 



200 ÁSIA de João de Barros 

margem da praia , tanto que começou á 
bateria , afll foi efpantofo aquelle aíto a 
elles , que fe recolheram pelos efteiros , fem 
mais apparecer na fronteria da fortaleza. 
Porém nefte aélo do combater muito maior 
damno receberam os noíTos , que o muro ; 
porque como per dentro" era maciço téqua- 
fi as ameas , toda noíTa artilheria embaça- 
va nelle , e nos baluartes onde elles tinham 
aífeftado a fua , que varejava bem em as 
noflas eílancias , e navios. Vendo Aífonfo 
d'Alboquerque que gaitava tempo , que era 
honra noíTa em fe deter tanto , fem fazer 
mais que defpender, e quebrar fuás muni- 
ções , mandou mudar huma das eílancias 
junto de hum eftciro , que era já pegado 
no mar , e que apalpaífem per aquelle can- 
to o muro. Na qual parte, poíto que a 
noffa artilheria não era de bateria de cam- 
po , com os primeiros tiros furiofos os nof- 
fos viram a luz da outra parte por naquel- 
la não ter entulho , fomente a groífura da 
parede , a qual coufa deo logo muito al- 
voroço em todo o arraial 5 e pelo contra- 
rio aos Mouros. Roztomocan vendo eíla 
obra , e fentindo o prazer dos noflbs pela 
grita que deram com elia , determinou-íè 
em mais que defender , porque logo aqu el- 
ia noite , ante que os noíTos procedeíTem 
mais nelia 7 teve confelho com os princi- 

paes 



Década II. Liv. VIL Cap. V. aoi 

pães Capitães que tinha , e aíTentou que per 
huma porta que vinha dar na eftancia , que 
lhe fazia eíle damno , fahiíTem té duzentos 
homens eícolhidos, e trabalhaffem por fa- 
zer algum feito, ao menos que houveíTem 
a artilheria , e pólvora , de que elle mui- 
to carecia. No tempo da qual fahida, que 
havia de fer ao quarto derradeiro da noi- 
te , quando as vigias eftam menos prontas 
na guarda , elle eftaria á porta da fortale- 
za pêra lhe acudir , fendo neceííario. Aííen- 
tada eíle commettimento , quanto por par- 
te delles ainda foi melhor commettido , em 
tanto , que muitos Turcos vieram a bra- 
ços com os noíTos 5 fervindo-fe mais das 
adagas , e punhaes , que de outras armas ; 
e pelo tempo em que foi metteo os noíTos 
em tanta revolta naquella eftancia 3 per on- 
de commettêram efta entrada , a qual tinha 
Manuel de Soufa Tavares , que acudindo- 
Ihe D. Garcia , ainda fe não podiam defen- 
der deite impeto delles , té que fobreveio 
Pêro Mafcarenhas com os feus Capitães , 
e gente de Ordenança , que os fizeram re- 
colher tão apreííados como fahíram. E fo- 
bre efte trabalho , como coufa induftriada 
pêra aquelle feito por recebermos maior 
damno 3 tanto que foram mettidos pela por- 
ta do muro de cima delle , foi tanto o ti- 
ro fobre os noíTos , que maior foi a obra 

em 



202 ÁSIA de João de Barros 

em ferir , e efcalavrar do muro , que da 
mão dos Mouros ; de maneira , que fez def- 
fazer o corpo da noíTa gente , que eftava 
alli apinhoada por acudir áquelle commet- 
timento dos Mouros , recolhendo-fe cada 
Capitão áfua eftancia. AíFonfo d'Alboquer- 
que por lhe não virem dar outro tal reba- 
te y quando veio a noite feguinte , mandou 
dobrar outras pipas cheas de arêa , que vie- 
ram de Goa per duzentos Canarijs , que 
deo a Baftião Rodrigues pêra as trazerem 
ás cofias , por não haver beílas de ferviço ; 
e além das pipas > mandou fazer huma ca- 
va de maneira que ficaram as eílancias mais 
feguras. Nefte tempo os Mouros eílavam 
já neceílitados de muitas coufas , principal- 
mente de mantimentos , e aíTi de pólvora , 
e pelouros , porque todas eítas os noílbs' 
navios , que davam á bateria por mar , lhe 
impediam a não virem da terra firme. Da 
qual neceífidade os noflbs tiveram noticia 
por dous íinaes : hum , que tiravam poucas 
vezes , e já fracamente , e alguns pelouros 
de pedra , que vinham cahir entre os nof- 
fos, eram de pedra branca os próprios que 
lhe a noíTa artilhem tirava , como que lhes 
faleciam já os feus , que eram de pedra ne- 
gra ferrenha , fegundo tinham viílo per 
todolos outros dias. Sobre eíta fua neceífi- 
dade fobre vieram douscafos, que acabaram 

de 



Década II. Liv. VIL Ca?. V. 203 

de rematar o fim deite cerco ; o primeiro 
foi , que eftando Roztomocan em huma tor- 
re , que vinha tomar parte do outeiro , que 
ficava em lugar de padraílo da fortaleza, 
a qual torre era á maneira de cunhal de 
dous pannos de muro que corriam em re- 
vés , acertou de tirarem com hum camelo 
da eftancia de Afíonfo d 5 Alboquerque 3 e 
deo em hum cunhal da torre , que a fez 
toda eítremecer por não fer maciça , e trás 
eíle foram outros dous de maneira , que 
quando elíe Roztomocan fe apartou da ja- 
nella , onde eítava em prática com alguns 
dos noflbs arrenegados , já foi bem cheio 
de caliça do grande tremor da torre. O ou- 
tro cafo que fuccedeo logo íòbre efte foi 
accender-fe fogo em huns barris de pól- 
vora em huma das noíTas eftancias ; e por- 
que iíto foi com hum pelouro da artilheria 
dos Mouros , que logo matou dous bom- 
bardeiros , vendo elles a revolta que fobre 
iflb houve entre os noíTos , foi tão grande ' 
a grita delíes , que acudio Aífoníb d 5 Àlbo- 
querque áquelle lugar , parecendo-lhe fer 
outra coufa. No qual abalo fe alvoroçou 
tanto a gente ? que não oufando ante defte 
cafo chegar ao muro , como fe a vitoria 
os chamara , todos fe puzeram era fúria de 
o commetter á efcala vifta. Roztomocan 
guando vio a revolta per todalas partes do 

ar- 



204 ÁSIA de JoÃo de Barros 

arraial , perguntou aos arrenegados que cou- 
fa era aquella. Os quaes cortados da culpa 
de feus peccados , fem as palavras de es- 
forço , com que ante animavam a todos , 
diííeram que lhes parecia que o Capitão mor 
queria commetter entrar a fortaleza á efea- 
la vifta ; e fe aíli foífe , lbubeífe certo que 
onde os Portuguezes punham o roítro , de- 
pois que bebiam o vafo da fúria que os 
movia , tudo levavam nas unhas como leões ; 
e porque aquella fortaleza eftava já apor- 
tilhada na parte de baixo junto do mar , 
feu confeiho era commetter-lhes trégua 5 e 
algum bom partido. A efte tempo também 
dentro na fortaleza entre os Mouros havia 
já grande confusão , porque viam que os 
noíTos navios impediam a lhe não vir man- 
timento algum 5 e tinham neceífidade dei- 
les 5 e muito maior de pólvora , e pelou- 
ros , e munições , em que eftava toda fua 
defensão : fobre iíTo viam o muro roto , e 
•que não podiam andar dentro na fortaleza 
com dous trabucos noíTos que lhe tinham 
morta alguma gente ; por iíTo quando ou- 
viram fallar os arrenegados em partido , 
lançaram orelhas a iíTo , e muito mais Roz- 
tomocan , que vio o negocio ordenado de 
maneira pêra o tomarem ás mãos. Final- 
mente poíto eíle cafo em prática de todos , 
aíTentáram que commetteítem trégua, e no 

tem- 



Década II. Liv. VIL Cap. V. 205 

tempo delia lhe moveria algum bom par- 
tido j e ante que dalli fahiffem com o te- 
mor do alvoroço dos noflbs , mandou Roz- 
tomocan arvorar huma bandeira branca na- 
quella parte onde D. Garcia eílava , que era 
a que elles mais receavam j e o arrenegado 
que a trazia começou de chamar por João 
Machado. D. Garcia quando vio efte final , 
e ouvio o que diziam , por João Macha- 
do não fer prefente , mandou íaber per BaC- 
tiao Rodrigues , que fabia alguma couía 
da lingua do tempo que o cativaram na 
morte de D. Lourenço , o que queriam. O 
qual trouxe recado da parte de Roztomo- 
can , que elle queria eííar em trégua com 
o Capitão mor por alguns dias , e nefte tem- 
po teriam prática em alguma coufa que fcf- 
íè em proveito cHElRey de Portugal, e do 
Hidalcão feu Senhor. D. Garcia mandou 
logo efte recado per o meímo Baftiao Ro- 
drigues a Aftoníb d'Alboquerque , o qual 
recado teve muitas contradições ; porque 
^entre os Capitães houve differentes votos , 
aprefentando muitas razões , huma das quaes 
era que Roztomocan não pedia eíia trégua 
a mais fim , que pêra dobrar o muro , que 
lhe a nofla artilheria começava a romper. 
Todavia eram tanto mais os pareceres da 
trégua com logo mover partido , e execu- 
ção delle por lhes não dar tempo a lè po- 
de- 



io6 ÁSIA de João de Barros 

derem rcpairar , que lhes foi concedida per 
Joáo Machado , que foi com Baílião Ro- 
drigues , levando eftes apontamentos. Que 
lhe entregaíTe elle Roztomocan a fortaleza 
alíi como eftava com toda a artilheria nof- 
ía , que fora tomada em o navio naquelle 
paíío Beneftarij , quando a Ilha foi entrada 
per elles da primeira vez , com todolos 
navios , e fuítas noflas , e fuás , e mais os 
cavallos que tinham comíigo : e fobre tudo 
os arrenegados que de nós fe pafíaram a 
elles 5 e que livremente leixaria ir fuás pef- 
foas com a fazenda que tiveíTem. Dados 
eftes apontamentos , Roztomocan fe mof- 
trou mui livre na concelsao dellcs : toda- 
via pêra eftas coufas tomarem algum ter- 
mo de concerto , elle deo dous Turcos cm 
reféns , e da nofía parte eftavam com elle 
João Machado , e Baftiao Rodrigues , que 
liia , e vinha a Affonfo d 5 Alboquerque com 
recado do que elle queria conceder. Final- 
mente elle fe refumio nifto , que entregaria 
a fortaleza affi como eftava com toda ar- 
tilheria , e munições de guerra ; e quanto 
aos arrenegados , (em que elle muito iníif- 
tio , ) eftes entregaria com condição de el- 
le AíFonfo d'Alboquerque lhe dar a vida, 
o que lhe foi concedido por ifto fer o prin- 
cipal. O qual negocio ordenou elle de mo- 
do > que fe acabou de noite pêra fazer o 

que 



Década II. Liv. VIL Cap. V. 207 

que fez , defapparecer de antre os feus y paf- 
íando-fe fecretamente da banda da terra fir- 
me com fuás mulheres , e fazenda , fem o 
faberem os outros Capitães ; dando depois 
por defculpa por os leixar aífi, que o fize- 
ra por não fer prefente á entrega dos ar- 
renegados , porque como já os mais delles 
eram convertidos a fua lei , havia fer gran- 
de efcrupulo de fua confciencia fer elie a 
peífoa que os entregaífe. Na qual paffagem 
levou comfigo hum deites chamado Fernan- 
dinho entre os noífos , por fer mui acceito 
a elle. Os outros arrenegados quando fou- 
beram o concerto da entrega , e que haviam 
de ir ter ante Affonfo d'Alboquerque , qui- 
zeram efcapulir; mas como os Capitães do 
Roztomocan viram que a íalvação de fuás 
vidas eftava na entrega delles , tiveram mão > 
e entregáram-os a Baftiao Rodrigues , que 
os fegurou, e confolou no que temiam de 
Affonfo d'Alboquerque. Todavia por não 
ficarem fem cafligo 3 pofto que não perde- 
ram a vida , perderam as orelhas , narizes y 
mão direita , e dedo pollegar da efquerda y 
que lhe Affonfo d'Alboquerque mandou cor- 
tar tanto que tornou pêra Goa • e poftos 
em lugar público dos moços , e gente do 
povo ? receberam vitupérios , e dahi os man- 
dou vir pêra efteReyno em asnáos daquel- 
le anuo. Hum dos quaes per nome Fernão 

Lo- 



ao8 ÁSIA de João de Barros 

Lopes fe leixou ficar na Ilha Santa Elena 
com hum negro , que lhe os Capitães de- 
ram , o qual peio tempo em diante foi mui 
provcitoíò ás náos que alli vam fazer fua 
aguada á vinda da índia ; porque com a 
creação de porcos , cabras , gallinhas , e 
ortaliça que lhe as náos deram, eellecreou, 
e fcmeou , quando chegam acham efte re- 
frefco , que dá vida aos homens de tão com- 
prida viagem , em tanto que a náo que náo 
toma efta Ilha 3 traz muita gente morta por 
falta de agua , e defte refrefco , de que Fer- 
não Lopes foi o author. Paliados alguns 
annos neíla vida folitaria , em que fazia pe- 
nitencia , veio a efte Reyno, e daqui foi a 
Roma a pedir reconciliarão , e abfolvição 
plenária de íeus peccados > e vindo de lá , 
fe tornou á mefma Ilha , onde ainda efta- 
va em penitencia no tempo que efcrevia- 
mos efta hiftoria. Aífonfo d'Alboquerque 
tanto que fcube per Baftiao Rodrigues , que 
levou eftes homens , como Roztomocan era 
ido , e que os Mouros que ficavam na for- 
taleza , eram na confiança de fua palavra con- 
forme aos apontamentos , por fer alta noite, 
leixou a entrada pêra pela manhã , como 
fez , abrindo-lhe os Mouros principaes as 
portas 3 confiados na conceísão dos apon- 
tamentos. A qual confiança não teve a mais 
da gente baixa : cá eíla > tanto que viram en- 
trar 



Década II. Liv* VIL Ca?. V. 209 

trar os noífos per as portas cia fortaleza 
que hia pêra o arraial , começaram com 
temor de fugir pelas outras , lançando-fe 
a nado pêra paíTar á terra firme , parte dos 
quaes fe afogaram. AíFonfo d 5 Alboquerque 
quando vio que o temor da fua entrada os 
fazia fugir , em que também entravam al- 
guns Mouros de cavallo , ao cabo dos quaes 
ao tempo do andar fe apegavam outros de 
pá , mandou lançar pregões 5 que ninguém 
fugiíle fob pena de morte , por quanto el- 
le queria dar embarcação a todos pêra paf- 
farem fem perigo 5 e poderem levar fuás 
fazendas , fegundo tinha concedido nos feus 
apontamentos ; e que em quanto não foílem 
paffados á terra firme , qualquer Portuguez , 
ou peífoa que fizeífe algum damno a algum 
Mouro 5 que morrefíe por iífo ; com os 
quaes pregões os Mouros ficaram fem aquelle 
aífombramento , que os fazia fugir ; e final- 
mente nas embarcações que lhe Affonfo d 5 Al- 
boquerque mandou dar , paffáram fuás pef- 
foas, e fazenda, leixando o ca fco da fortale- 
za com toda artilheria 3 e cavallos que Roz- 
tomocan tinha. As quaes coufas AíFonfo d 5 Al- 
boquerque tomou pêra EIRey , por a forta- 
leza fe entregar a partido , e algum movei 
que os Mouros leixáram , ficou pêra defpojo 
da gente miúda , principalmente o mantimen- 
to , que naquelle tempo era de muita cítima, 
T0m.ILP.1L O CA- 



aio ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO VI. 

De algumas coufas , que Affonfo d* Al- 
buquerque pajjòu com Roztomocan , e ajji da 
paz que ajjèntou com o Çamorij de Cale- 
cut , e da vinda do Embaixador do Prefie 
"João , e de outro d^ElRey de Ormuz a efi 
teReyno na Armada que aquelle anno par- 
lio da índia. 

TAnto que AfFoníb d'Alboquerque fe 
metteo de pofle deita fortaleza , a pri- 
meira coufa em que entendeo foi mandar 
vifitar per Baílião Rodrigues a Roztomo- 
can, efpantando-fe delle não o efperar na 
fortaleza pêra fe verem ambos , coufa que 
elle muito defejava ; porque huma tal pef- 
foa, como elle Roztomocan era, fe havia 
de ir muitas jornadas polo ver , quanto mais 
eítando á fua porta , e per eítes termos ou- 
tras palavras. Entre as quacs foram algu- 
mas offertas que elle Affonfo d'Alboquer- 
que lhe promettia pêra fegurança da peífoa 
delle Roztomocan , em quanto não tinha 
recado do Hidalcão feu cunhado : cá fegun- 
do lhe diziam , elle lhe tinha eferito o ef- 
tado em que eftava naquelle cerco , pedin- 
do-íhe foccorro pêra fe não perder aquella 
fortaleza , ou modo que havia de ter. Ao 
qual recado elle Hidalcão 1 não refpondêra j 

e que 



Década II. Liv. VIL Cap. VL 211 

e que como os Príncipes ás vezes íe indi- 
gnavam indignamente de feus Capitães nos 
taes negócios , e ifto quando não fabem a 
verdade , e tem á fua ilharga peífoas , que 
tem ódio ás partes , e eJle Roztomocan ti- 
nha alguns emulos por razão de feus hon- 
rados feitos, per ventura com efte concedi- 
do por fe mais não poder fazer , como são 
todolos cafos da guerra , e não por fua von- 
tade , encruaria a do Hidalcão , por o não 
tratar como clle merecia , por quão pruden- 
temente , ve como cavalleiro fe tinha havido 
no ftiodo que teve com Pulate Can , e ná 
defensão daquella fortaleza. Roztomocan, 
poílo que Aífonfo d'Alboquerque lhe to- 
cou neftas coufas , que em verdade elíe te- 
mia , não lhe refpondeo a ellas , mas a ou- 
tro propoílto em modo deaggravo, pedin- 
do-lhe os cavallos , que lhe ficaram na for- 
taleza : cá fua tenção , quando concedera 
leixar os cavallos , não fora os da Períia , 
e Arábia , fomente os da terra. Finalmente 
defta vez, e de outras, depois que Aífonfo 
d'Alboquerque fe foi pêra Goa , andaram 
entre elles tantos recados , té que fe viram 
ambos no mefmo lugar de Beneílarij , cada 
hum pêra a feu propoílto ; porque Aífonfo 
d'Alboquerque queria-o fazer temer do Hi- 
dalcão , offerecendo-lhe da parte d 5 ElRey 
D. Manuel mercê > querendo-fe vir pêra feu 

O ii fer- 



212 ÁSIA de JoÃo de Barkos 

ferviço ; e que entretanto em feu nome elle 
lhe daria as terras firmes pelo modo que as 
dera a Melráo 5 dando por ellas hum tan- 
to , e o mais ficaria a elle Roztomocan pê- 
ra lua peííoa , e pagamento da gente que 
havia de trazer na defensão delias. E Roz- 
tomocan por faber a tenção de feu cunha- 
do , da lua parte largava as Ilhas derredor 
de Goa , como coufa que fe não podia de- 
fender de nós ; e quanto as terras firmes , 
que o Hidaicão mandaria que os mantimen- 
tos , e coufas que nellas havia , fc deíTem 
como amigo 3 e vizinho per modo de com- 
mutaçao de outras , que a terra haveria mif- 
ter da Cidade Goa 5 e nifto lhe fazia gran- 
de amizade , por quanto ella fe não podia 
manter fem ellas , como era notório , e elle 
Aífonfo d'Alboquerque teria experimentado. 
AíFonfo d 5 Alboquerque , poílo que Rozto- 
mocan movia neíla prática algumas coufas , 
de que elle pudera lançar mão , em quanto 
não via coufa movida pelo Hidaicão , a 
quanto efte Roztomocan dizia não lhe da- 
va credito , e por iífo não fe determinou 
com elle em alguma. Somente polo aífom- 
brar , em quanto elle andava derredor da 
Ilha já hum pouco desbaratado , porque a 
gente o leixava , fortaleceo a fortaleza Be- 
neftarij , epoz nella hum Capitão com gen- 
te em guarda daquelle paífo > e em cada 

hum 



Década II. Liv. VIL Cap. VI. 213 

hum dos outros , que já diííemos , também 
fez torres , e forças pêra defensão daquella 
entrada , e guarda da Ilha com peííbas or- 
^ denadas a ifío , a qual coufa deíèíperou os 
Mouros de mais entrarem nella , como fi- 
zeram duas vezes. Em quanto Affonfo d 5 Al- 
boquerque entendia neflas coufas , era tão 
neceífaria fua peflba íèr prelente em Goa > 
que importando muito a carga da efpecia- 
ria 5 que aquelle anno havia de vir pêra eí- 
te Reyno , não pode ir a Cochija ifib , e 
mandou lá , acabado o feito de Beneftarij , 
feu fobrinho D. Garcia de Noronha , ao qual 
deo todolos feus poderes pêra iííò , vendo 
quanto .fundamento EIRey D. Manuel fa- 
zia delle. Cá o rnefmo D. Garcia na via 
das cartas que levou , levava huma , em que 
EIRey dizia a elle Aífonío d'Alboquerque y 
que havendo refpeito ás qualidades da pef- 
foa de D. Garcia , e ao defcançar em algu- 
ma maneira dos trabalhos da governança da 
índia por fer leu fobrinho , havia por bem 
que ficaíTe lá com o cargo de Capitão mor 
do mar, por a qual razão D. Garcia ficou 
na índia. E quando foi fazer efta, carga das 
náos a Cochij , levou os mais dos navios 
pequenos que havia delles pêra ficarem de 
Armada fobre os portos de Calecut , pêra 
não leixarem entrar 5 nem fahir náos de 
Mouros > e outros pêra ferem corrigidos 



do 



214 ÁSIA de João de Barros 

do damao , que receberam naquelle rio dè 
Goa no tempo do cerco. E aproveitou tan- 
to ficarem eíles navios fobre Calecut 3 que 
como D. Garcia foi em Cochij , logo teve 
recado do Príncipe de Calecut chamado 
Naubeadarij fobre tratos de paz ; porque 
vendo EIRey de Calecut a profperidade de 
noífas coufas , e em quão breve tempo Af- 
fonfo d'Alboquerque fe tinha feito lenhor 
de duas Cidades tão notáveis , como eram 
Malaca , e Goa , deo licença a eíle feu ir- 
mão, que como coufa movida perelle, por 
fempre fe moftrar noífo amigo , folgaria de 
falíar na paz entre elle , e o Capitão. So- 
bre o qual negocio fe paflaram muitos re- 
cados , e defcontentamentos d'ElRey de Ca- 
nanor , e d 5 ElRey de Cochij : cá elles peza- 
va-lhes muito eílarmos em paz com Calecut , 
por perder na entrada , e fahida das merca- 
dorias grande renda , pola muita cópia de pi- 
menta , gengivre , e outras efpeciarias que ti- 
nha em Calecut , e havia de abater no provei- 
to delles. Porém teve Affonfo d'Alboquerque 
tanta prudência em os faber contentar , fol- 
dando entre elles ódios das guerras paíladas , 
que os fatisfez ; e finalmente D. Garcia ven- 
do- fe em Cranganor com o Príncipe Naubea- 
darij , e com o Senhor de Chálle chamado 
Cheneachena Coripa 5 e dous Mouros per 
nome Nambear } e Pocaracem grandes noíTos 

ami- 



/ 

Década II. Liv. VIL Cap. VI. 2x5* 

amigos , todos afTentáram eíla paz per capitu- 
lações. A principal das quaes era que El- 
Rey de Calecut havia de dar lugar , onde 
Aííonfo d 5 Alboquerque quizeíTe , pêra fazer 
huma fortaleza , em que havia de eftar hum 
Capitão com gente de armas que a guardai- 
fe , e feitoria pêra o negocio do commer- 
cio , e que pêra eleição do lugar, e man- 
dar fazer eíla obra , elie Affonfo d'Albo- 
querque poderia mandar a Calecut homens 
pêra ifío , como mandou , ( fegundo adian- 
te veremos.) Nefte tempo teve AíFonfo d'AÍ- 
boquerque nova per hum Portuguez de al- 
cunha Tavares de Alcacere do Sal , que 
fora cativo em Cambaya , que em Dabul 
eftava hum homem , o qual lhe diílera , ía- 
bendo fer elle Portuguez 3 que vinha a elíe 
Capitão mor da parte do Rey dos Abexijs 
pêra o enviar em as náos da eípeciaria , por 
quanto levava huma embaixada a EIRey de 
Portugal. O qual , pofto que não tinha com- 
municado acaufa de lua vinda com alguém, 
temendo que receberia algum damno dcs 
Mouros , todavia o retiveram alli em Chaul , 
dizendo elle por diííimular ler hum merca- 
dor de dentro do eftreito do mar Roxo 5 
que vinha refgatar hum filho , que os Por- 
tuguezes cativaram em huma mio 5 o qual 
diziam eftar em poder do íèu Capitão mor 
AíFonfo d 5 Alboquerque. E porque elle ti- 
nha 



2i6 ÁSIA de João de Barros 

nha ordenado a Garcia de Soufa com qua-' 
tro navios pêra andar naquella paragem de 
Dabul , por caufa de impedir não entrarem 
per alli , por fer porto do Hidalcao , os 
cavallos que vinham da Períia , e Arábia , 
que elle queria quefoflem a Goa 3 tanto que 
teve efta nova , eípedio logo Garcia de Sou- 
fa , mandando-lhe que trabalhaífe muito por 
faber parte defte Embaixador , elho enviaf- 
fe em hum dos navios , e elle ficaífe com 
os outros fazendo arribar as náos dos ca- 
vallos a Goa. O qual negocio elle fez com 
tanta diligencia , que depois de fua partida 
a poucos dias entrou em Goa efte Embai- 
xador 5 onde por reverencia do Lenho da 
Cruz , que trazia em preícnte a EIRey Dom 
Manuel , foi recebido com folemnidade de 
procifsão , levando efta fanta Relíquia em 
hum a Cuftodia de prata , e Pallio de feda , 
e foi pofto na Igreja ; fobre o qual recado 
defte Príncipe Chriftao , Fr. Domingos de 
Soufa da Ordem de S. Domingos , que fer- 
via de Vigairo geral naquelías partes , fez 
hum devoto Sermão. Affõnfo d 5 Alboquer- 
que , paflado efte primeiro dia de fua che- 
gada , quiz íníormar-fe particularmente das 
coufas do Rey da Abexía, a que nós cha- 
mamos Prefte João, e aíli da caufa da vin- 
da defte feu Embaixador chamado Mattheus , 
homem de reverenda prefença^ alvo, enão 

da§ 



Década II. Liv. VII. Cap. VI. 217 

das cores 3 e cabello dos Abexijs , por não 
íer natural da terra Abcxia , mas do Cai- 
ro ; e íegundo fe depois foube 3 era merca- 
dor da linhagem dos Mouros 5 homem que 
a Rainha Ilena madre do Preíle chamado 
David , trazia em negócios de o mandar a 
diverías partes , por íèu filho David nefte 
tempo fer pouco mais de doze annos de 
idade , e ella governava o Reyno. E pofto 
que elle Mattheus não deo conta deitas cou- 
ías a AíFpnfo d'Alboquerque 5 bailou pêra 
fe acreditar com outras que lhe diffe , aíli 
da caufa de fua vinda , como principalmen- 
te que na terra do Preíle eílavam alguns Por- 
tuguezes ,. hum havia, muitos annos manda- 
do per hum Rey de Portugal chamado 
Joanne , e dous que havia pouco tempo fe- 
rem lá lançados 5 e fegundo elles diziam , 
foram poílos em terra no Cabo de Guar- 
dafu , per mão de hum Capitão de outro 
Rey de Portugal chamado Manuel , que era 
aquelle a que elle Mattheus era enviado. 
Hum dos quaes Portuguezes fe chamava 
João Gomes , e ao outro João Sanches 5 e 
em fua companhia fora também hum Mou- 
ro per nome Cicie Mahamed , e delles não 
trazia carta alguma por teíiemunha de ler 
elle Mattheus Embaixador : cá íiia vinda foi 
fubita 5 e não quiz EIRey que fe foubefle. 
Porque como fua terra he rodeada dos Mou- 
ros, 



218 ÁSIA de João de Babros 

fos , principalmente os portos de mar , on- 
de eile Mattheus havia de embarcar pêra vir 
á índia , e na Corte d'ElRey continuada- 
mente andam muitos Mouros , fe á noticia 
deiles viera a vinda delle Mattheus , fora 
morto , pois a caufa principal delia era 
deftruição deiles , polas inftrucçÕes , e cartas , 
que levava pcraEÍRey de Portugal, (como 
per ellas elle Capitão mór podia ver 5 ) hu- 
ma das quaes era d'ElRey David , e outra 
da Rainha Ilena fua madre. E porque el- 
las vinham em língua Ch aldeã podia-as 
mandar trasladar perpeíToa fiel: cá per ven- 
tura no Reyno de Portugal não haveria quem 
as foubeííe interpretar , e per ellas veria a 
tenção d ? E!Rey íèu Senhor , e a caufa da 
vinda delle Mattheus. Aííonfo d'Alboquer- 
que por os finaes que lhe deo dos homens , 
que havia pouco tempo que andavam na- 
quellas partes , os quaes elle mefmo poz em 
terra no Cabo Guardafu a efte fim de fe 
communicar efte Príncipe per nós chamado 
Prefte João das índias com EIRcy D. Ma- 
nuel , coufa que elle tanto deíejava , e tan- 
to fempre encommendou a feus Capitães y 
(como atrás fica ,) houve que a vinda da- 
quelle homem , fegundo os perigos per que 
paíTou naquelle caminho ? que Deos mila- 
grofamente o trouxe ante elle 5 pêra eífeito 
de communicarmos efte Principe Chriftão 

met- 



Década II. Liv. VII. Cap. VI. 2,19 

rnettido no interior da terra do Egypto , e 
cercado havia tantas centenas de annos de 
Mouros , e pagãos. E da ília communica- 
çao fe confeguiria tamanho ferviço de Deos , 
como era deílruição da cafa de Meca , e 
feda dos Mouros , fegundo elle David pro- 
mettia em fuás cartas 5 as quaes Affonfo 
d ? Alboquerque mandou trasladar em Portu- 
guez per hum Judeo chamado Samuel na- 
tural do Cairo ? do qual fe fervia neíles ne- 
gócios de interpretar por faber muitas lín- 
guas. E porque ao diante particularmente 
havemos de tratar do efFeito que houve a 
vinda deíle Mattheus , e aííi do eílado , e 
coufas defte Rey da Abexia que o enviou , 
baile ao prefente faber 5 que AíFonfo d'Albo- 
querque mandou eíle Embaixador aquelle 
anno em as náos que vieram com efpecia- 
ria. O qual anno foi neíle Reyno hum dos 
mais profperos, e de maior prazer que elle 
vio porcaufa da índia: cá não fomente vie- 
ram muitas náos , e bem carregadas de es- 
peciaria , mas ainda novas da tomada de 
Malaca , e do feito de Beneftarij , eíla em- 
baixada do Prefte , outra d'ElRey de Or- 
muz , (como já diífemos , ) muitas cartas > 
e prefentes de outros Príncipes de todo aquel- 
le Oriente , aífi comoElRey de Sião, d'El- 
Rey de Pegu em refpofta dos menfageiros , 
cjiie AíFonfo d'Alboquerque lá enviou ? car- 
tas 



220 ÁSIA DE JOÃO DE BAKROS 

tas do grão Çamorij , como dava fortaleza 
em Calecut , e de todolos outros Príncipes 
do Malabar com requerimentos como íubdi- 
tos deite Reyno. E pelo mefmo modo vie- 
ram cartas cTElRey de Naríínga , do Hi- 
dalcão , d^ElRey de Cambaya , e de Me- 
lique Az Capitão de Dio , todos pedindo 
paz , c amizade , e mandando mui ricos pre- 
lentes em final delia a fim de feus interef- 
fes , como nefte feguinte Capitulo veremos ; 
tanto abalo fez no animo deites infiéis as vi- 
torias que Affonfo d'Alboquerqiic houve 
naquellas partes, que parecia contenderem 
a quem primeiro confeguiria eíla amizade 
que defejavam. 

CAPITULO VII. 

Do que Affonfo cT Albuquerque fez de- 
pois da tomada do Caftello Benejlarij : e 
como , affentadas as coufas de Goa , partio 
fera o ejlreito do mar Roxo com huma Ar- 
mada de vinte velas : e o que pajfou té che- 
gar d Cidade Adem , e fe determinar de a 
tomar per força de annas. 

TOdolos Pveys , e Príncipes da índia, 
principalmente os Mouros , a quem a 
entrada que nella tínhamos feito , mais to- 
cou , que ao Gentio , fe alguma efperança 
tinham de perder eíla dor, era com lhe pa- 
re- 



Década 1L Liv. VIL Cap. VIL 22 r 

recer que nos contentávamos de andar ef- 
pancando o mar , e roubar todalas náos do 
eftreito de Meca , por havermos efpeciaria , 
fem querer fazer aiTento na terra pêra nel- 
h habitarmos , o qual modo lhe parecia 
não mui certo , e durável 3 por fer differen- 
te do que eíles tiveram na entrada delia, 
com que fe fizeram fenhores do feu maríti- 
mo , e depois de- parte do fertão conquis- 
tado dos Gentios , íèm mais tornar á pátria 
donde cada hum era. Porém quando elles 
viram a fegunda tomada de Goa , e depois 
a de Malaca Cidade por cauía do com- 
mercio tão celebrada naquelías partes , e o 
aflento que os noffos nella fizeram , fcgun- 
do a ordenança em que AíFonfo d'Aíbo- 
querque a leixou , e ao prefente ter vencido 
tão grande poder de gente á força de fo- 
go , e ferro em o feito do Caftello.de Be- 
neííarij , e quanto AíFonfo d'Alboquerque 
trabalhava por fortalecer aquelia Ilha com 
as fortalezas , que mandou fazer nos paííbs 
delia , começaram perder a efperança que 
diante tinham. Porque com ifto fe ajunta- 
vam duas Qoufas , em que elles tinham pof. 
to olho , como íinaes de noíTa habitação, 
ver os modos que AíFonfo d 5 Aíboquerque 
tinha em cafar os homens com a gente da 
terra , e o Gentio delia converfar a noíTa 
Fé, por razão das quaes coufas recebiam de 

nós 



222 ÁSIA DE JOÃO DE BABROS 

nós boas obras , com que os tinhamos ga* 
nhado por amigos ; o que era pelo contra- 
rio nelles polas tyrannias , e injuítiças com 
que os tratavam. Sobre as quaes coufas o 
que lhe fez determinarcm-fe a feguir cami- 
nho mais feguro que o das armas , foi vi- 
rem algumas náos de Ormuz á própria Ci- 
dade Goa com té quinhentos cavallos das 
partes da Arábia , c Períia , por Àffonfo 
d 5 Alboquerque ter ordenado alguns navios 
armados , que andaílem na coita de Chaul 
pêra baixo , e fizeflem arribar todalas náos 
de cavallos a Goa ; e pêra nenhuma outra 
parte dava licença que os pudeflem nave- 
gar fenao pêra Goa. Tudo a fim de a no- 
brecer , e fazer fenhora do principal poder y 
e força , com que os fenhores do fertao > 
que era EIRey de Narfinga , e os Capitães 
do Reyno Decan , fe faziam poderofos huns 
contra os outros , que eram eítes cavallos 
que lhe hiam de Perfia , e Arábia. E che- 
gou efte negocio dos cavallos a tanto , que 
não fomente os Mouros , mas EIRey de 
Narfinga Gentio , e EIRey de Bifa por fer 
feu valia lio , enviaram logo feus Embaixa- 
dores vifitar Aífonfo d'Alboquerque ? reque- 
rendo-lhe paz , e amizade com alguns apon- 
tamentos fobre a entrada deites cavallos per 
feus portos. O primeiro dos quaes foi o 
Hidalcão j temendo que EIRey de Naríinga 



Década II. Liv. VIL Cap. VIL 223 

Gentio , com quem fempre andava em guer- 
ra , tivefle o mefmo requerimento j e efte 
negocio não commettco logo de propoííto 
como principal , mas como couía que ha- 
via depender de paz , e amizade, que que- 
ria adernar com elle íbbre a guerra palia- 
da , e feito de Beneftarij. Aífbnío d 5 Aíbo- 
querque , porque eftava de caminho pêra ir 
ao eftreito do mar Roxo, como lhe EIRey 
mandava , pofto que não tinha communica- 
da efta ida com peííoa alguma , fomente 
com feu fobrinho D. Garcia , tirando os 
dous Embaixadores que na Armada daquel- 
ie anno vieram a efte Reyno 5 como diííe- 
mos , a todolos outros refpondeo que elle 
per feus menfageiros mandaria determina- 
ção do que podia fazer nos requerimentos 
que traziam , e com efte deípacho os efpe- 
dio. A qual refpofta não careceo de artifi- 
cio ; porque como elle mandava prover to- 
dalas náos , e navios da frota , que efpera- 
va levar ao eftreito , e efte apercebimento 
era público , fazia temor a todos aqueiles 
Príncipes , a que refpondia que per os men- 
fageiros , que efperava mandar a elles , lhe 
enviaria a refpofta de feus requerimentos , 
porque cada hum ficava com receio fe efta 
Armada iria fobre feus portos , e efta fuf- 
peita faria ferem bem refpondidos os men- 
fageiros que mandaífe a elles. Os quaes lo- 
go 



224 ÁSIA de JoXo de Barros 

go mandou nas coitas dos Embaixadores, 
a Cainbaya Triftão de Gá , a Narfinga Gaf- 
parChanoca , ao Sabayo Diogo Fernandes 
Adail de Goa e por lhe comprazer em 
quanto Diogo Fernandes fez a elle , man- 
dou a Garcia de Soufa í que andava com 
os quatro navios d' Armada febre Dabul , 
que lhe iargaífe a navegação delle , pêra po- 
derem entrar , e íahir náos , e navios com 
fuás mercadorias. E ao negocio da fortale- 
za que o Çamorij dava lugar que fc fizeífe 
em Calecut, mandou Franciíco Nogueira, 
o qual havia de ficar por Capitão delia , e 
com elle Gonçalo Mendes pêra Feitor , com 
avilo que nãp a dando em Calecut no lu- 
gar do Cerame , não lha acceitaíle , por quan- 
to o Çamorij havia de trabalhar muito que 
a fízeíTem em o porto de Challe , que he 
abaixo de Calecut três léguas : cá nos con- 
certos fempre iniiítio niílb , como fez de- 
pois que eftas duas peífoas lá foram ; porém 
nunca Francifço Nogueira , e Gonçalo Men- 
des a quizeram acceitar fenão no lugar do 
Cerame , onde fe fez , (como adiante vere- 
mos.) Efpedidas eftas peífoas , e poílas as 
coufas do governo de Goa em eítado fegu- 
ro, e o mais que convinha pêra guarda das 
outras fortalezas da coíla da índia , como 
AíFonfo d'Alboquerque tinha já apercebido 
as vinte velas da frota y em que efperava ir 

ao 



Década II. Liv. VIL Cai», VIL 225^ 

ao mar Roxo , foi-fe embarcar na barra de 
Goa , onde primeiro que fe fizeííe á vela , 
mandou chamar eftes Capitães delia: Dom 
Garcia de Noronha y Fero d'Alboquerque , 
Lopo Vaz de Sampaio , Garcia de Soufa , 
D.João d 5 Eça 5 Jorge da Silveira, D. João 
de Lima , Manuel de la Cerda , Diogo Fer- 
nandes de Beja , Simão d 5 Andrade , Aires 
da Silva , Duarte de Mello, Gonçalo Pe- 
reira , Fernão Gomes de Lemos , Pêro d'Af- 
fonfeca , Ruy Galvão , Jeronymo de Sou- 
fa , Simão Velho , e João Gomes. Aos quaes 
Capitães , e aíli a alguns Fidalgos princi- 
paes que eram prefentes , diíTe como EIRey 
D. Manuel per muitas vezes lhe tinha et 
crito que trabalhaííe por entrar no mar Ro- 
xo , e que pelas cartas daquelle anno lhe 
mandava eftreitamente que o fizeíTe , fe o 
já não tinha feito. E por quanto as coufas 
do eftado da índia , (fegundo elies viam , ) eC- 
tavam feguras , lhe notificava que todolos 
apercebimentos daquella frota , que viam 
verga d'alto , eram a fim defte caminho , 
o qual lhe parecia fer mui neceíTario fazer- 
fe polo muito que importava ir fechar aquel- 
las portas do eftreito com huma boa forta- 
leza , como lhe EIRey mandava que fizef- 
fe ; porque lançado hum tal ferrolho na- 
quelle lugar , não tinham os Mouros fahi- 
da , nem entrada per elle P com que o efta* 
Torn.II. P.iL P do 



^i6 ÁSIA de João de. Barros 

do da índia ficava mais pacífico, e fcm os 
íòbrefaltos de ouvirem cada hora : Vem 
Rumes. E com tudo, porque osjuizos dos 
homens eram mui diíFerentes , e entre tacs 
peflbas como alli eftavam por razão de fua 
prudência , cavalieria , e muita experiência 
que tinham das coutas da guerra , e convi- 
nha ao eftado delia , e bem do Reyno de 
Portugal , lhe pedia que cada hum em feu 
juizo examinaíle efte cafo , pêra que haven- 
do razão mais principal contra elle , fe íi- 
zeíTe : cá EIRey feu Senhor nas couíàs que 
lhe mandava fazer , principalmente as da 
guerra , não era abfoluto , mas fobmettido 
ao que mais importava á confervaçao do 
que naquellas partes tinha ganhado. Propof- 
tas eftas palavras , quall todolos Capitães 
mais foram no louvor defte caminho , que 
em contradições de o impedir, com o qual 
confelho Affonfo d'Alboquerque ao outro 
dia , que eram dezoito de Fevereiro do an- 
no de quinhentos e treze, deo á vela. Na 
qual frota levava mil e fetecentos Portugue- 
zes , e oitocentos Canarijs , e Malabares : 
pondo a proa em atra vefíar aquelle golfão , 
que jaz entre a terra da índia , e a outra 
de Africa , pêra tomar o rofto do Cabo 
Guardafu, fugindo dacofta da Arábia, por 
não fer vifto , e dar avifo á Cidade Adem. 
Porém como os tempos eram bonanças, 

de- 



Década II. Liv. VIL Cap. VIL 227 

deteve-fe tanto nefta traveffa , que lhe con- 
veio por falecimento de agua ir tomar o 
porto do Soco na Ilha Çocotorá , onde ti- 
vemos fortaleza , no qual lugar eílavam 
obra de cincoenta Mouros Fartaquis , que 
começavam levantar algumas cafas , e fazer 
hortas , como quem queria tornar a povoar 
o que leixámos. Os quaes havendo vifta da 
frota , defamparáram tudo recolhendo-íè á 
ferra , que foi polo contrario nos Chriíiaos 
da terra : cá eíles vieram-fe lançar aos pés 
de Aífonfo d'Alboquerque , pedindo~ihe am- 
paro , e que tornaííe a reformar a fortale- 
za pola vexação que já começavam receber 
dos Mouros , antes que le tornaffem fazer 
fenhores da terra , como eram quando elle 
lhe tomou a fortaleza que alli tinham fei- 
ta. Aífonfo d'Alboquerque por em alguma 
maneira fatisfazer a leu requerimento , man* 
dou derribar , e deílruir quanto os Mouros 
alli tinham feito, e mais mandou-lhes dar 
pannos , e arroz , e outras coufas , de que 
aquella pobre gente tinha neceílldade , com 
que em alguma maneira ficaram confolados- 
É a primeira coufa que Aífonfo d'Albo~ 
querque fez em chegando áquelle porto, 
foi efpedir João Gomes , que na fua cara- 
vella foífe ao porto de Calancea , que era 
eu! huma ponta da mefma Ilha, e viíTe fe 
achava algum navio P ou barco de Mouros, 
P ii e lho 



222 ÁSIA de João de Barbos 

e lho trouxeflc. João Gomes chegado a Ca-> 
lancea , onde não achou coufa alguma , por 
os ventos lhe não fervirem pcra tornar on- 
de Affoníb d'Alboquerque eítava , começou 
andar ás voltas ao mar 5 e á terra , nas 
quaes foi dar com huma náo de CJiaul , que 
Ília pêra o eftreito , que tomou , e fervio 
muito naquella viagem a AfFonfo d'Aibo- 
querque. Porque como não levava Piloto , 
que íòubeífe bem aquella navegação , fo- 
mente hum Martim Mendes que já fora em 
Canarij , que fera vinte léguas de Adem na 
mefma coita , foi-lhe o Piloto Mouro deita 
náo mui proveitofo. Per confelho do qual , 
poíto quex\íFonfod ? Alboquerque levava em 
propolito de tomar terra do Cabo Guarda- 
fu , e ir correndo ao longo daquella coita 
té fer na parage de Adem , e dahi atravef- 
far a ella , logo daqui atraveífou á terra de 
Arábia por caufa dos tempos. E a primeira 
terra que tomou 3 foi huma ferra , a que os 
da terra chamam Darzina , que vai fenecer 
em Adem , e feria dalli pouco mais de quin- 
ze léguas 3 e ao feguinte dia com tempo 
frefeo foi ter ao feu porto. E temendo não 
fer limpo pêra furgir com tamanha frota, 
e também não darem humas náos per ou- 
tras , mandou amainar todalas velas com 
fundamento de pairar aquella noite. Mas 
porque Pêro d'Alboquerque feu fobrinho 

veio 



Década IL Liv. VIL Cap. VIL 229 

veio áfua náo em hum batel, dizendo que 
achava fundo de trinta e finco braças 5 de 
que o mefmo Affonfo d 5 Alboquerque logo 
vio experiência na fonda que mandou lan- 
çar ; çarrando-fe a noite , fez final ás náos 
que fe fizefíem a vela com traquetes 5 e fon- 
da na mão , e foram cortando per aqueiíe 
parcel té chegarem a quatorze braças , junto 
do porto de Adem , donde já eram viftos. 
Por a qual cauía defejando os Mouros de 
fe a Armada perder , ou efcorrer o porto , 
mandáram-lhe fazer fogos em huma ponta 
bem abaixo contra as portas do eílreito : cá 
governariam a elles , parecendo-lhes fer alli 
a povoação da Cidade. Porém Affonfo d'Al- 
boquerque não fe fiando nos fogos , nem 
menos no fundo que achava , mandou lan- 
çar ancora 3 e ao outro dia pela manha 
foram tomar poufo diante da Cidade , o 
qual dia todo houve miíler pêra fegurar a 
ancoragem da Armada , e neíle foi vifita- 
do do Capitão da Cidade chamado Mira- 
mirzan , Abexi de nação já feito Mouro , 
mandando-íhe perguntar fe mandava alguma 
coufa de provisão pêra fua Armada. Ao que 
Affonfo d 5 Alboquerque refpondeo , que elle 
era Capitão geral daquellas partes da índia 
per mandado d'ElRey D. Manuel feu Se- 
nhor , que vinha alli em bufca da Armada 
dos Rumes , por lhe dizerem fer partida de 

Suez 



230 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

Suez por mandado do Soldão do Cairo; 
e efte caminho fizera por não dar trabalho 
a elles de o irem bufear á índia ; e ante 
elle , quando os não achaífe , determinava en- 
trar o eftreito pêra fe ver com elles , e efta 
era a principal caufa de fua vinda. Partido 
o Mouro, que o veio vifitar, com eíla re- 
fpofta , tornou logo com hum prefente de 
carneiros , gallinhas , limões , laranjas , e ou- 
tras fruitas da terra , o que AfFonfo d 5 Al- 
boquerque duvidou receber delle , dizendo 
que feu coftume era não receber as taes cou- 
ias íenao das peíToas com que tinha aíTen- 
rado paz , e amizade. Ao que o Mouro 
refpondeo , que Miramirzan não fomente 
lhe ofFerecia aquelle refrefeo , mas toda a 
Cidade , fe cumprifte a ferviço d'ElRey de 
Portugal , polo defejo que elle tinha de íua 
amizade. AfFonfo d'Alboquerque lhe diífe 
que olhaíle o que dizia , porque fobre aquel- 
la fua palavra acceitava o refrefeo ; e cm 
refpofta delle , difle que diíTefle a Miramir- 
zan , que fe elle queria eftar na graça , e 
amizade d'ElRey de Portugal feu Senhor, 
abriííe as portas , e recebeífe fua bandeira , 
e fe fobmetteíTe a fua obediência , como fa- 
ziam os Príncipes da índia , que com elle 
queriam eftar em paz. E fobre efte recado , 
per hum batel mandou dizer a todalas náos 
que eftavam no porto , que todo fenhorio , 

ou 



Década II. Liv. VIL Cap. VIL 231 

ou Capitão fe recolheífe a ellas; e aquelle 
que o não fizefle , encorreria em perdimen- 
to da náo. Miramirzan com eftes recados 
ficou mui confuíb , por fer de mais conclu- 
são do que elle quizera ; e por dilatar com 
Affonfo d'Alboquerque aquelle dia , man- 
dou-lhe dizer que a terra , e Cidade era 
d'E!Rey feu Senhor, efeu officio delle Ca- 
pitão era defender-lha , e não confentir mão 
poderofa entrar nella fem fua licença, que 
lho faria logo faber. Que quanto a peílba 
delle Capitão , com ella teria menos conta , 
e fe aprouveíTe a elle Capitão mor, elle lhe 
viria fallar á ribeira com vinte homens , não 
trazendo elle mais comíigo. Áo que Affon- 
fo d 5 Alboquerque refpondeo , que era efcufa- 
do verem-fe em outra parte fenão dentro 
na Cidade , com refpofta do qual recado 
não tornou mais o menfajeiro , fomente dos 
mercadores das náos que ainda eftavam na 
Cidade, lhe enviaram dizer em refpofta da 
notificação que lhe dlc Affonfo dVYlboquer- 
que mandou fazer, que não oufavam defe 
vir a ellas com temor da fua gente de ar- 
mas , em cujo poder ellas já eftavam , e 
que ante queriam perder a fazenda , que 
peííbas , e ella. Affonfo d' Alboquerque , por- 
que no modo da Cidade lhe pareceo que 
com pouco culto a podia tomar , mandou 
trazer duas barcaças grandes, que eftavam 

em 



232 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

em fecco , ( as quaes ferviam a Cidade no 
defcarregar a fazenda das náos que alli vi- 
nham , ) eaffi alguns bateis que citavam ao 
longo da ribeira , pêra nelles poiar gente 
em terra , por ter poucas vaíilhas ; e na de- 
fensão que os Mouros niífo puzeíTem , veria 
que gente tinha a Cidade , fe era tão pou- 
ca como lhe parecia. Tomadas eftas barca- 
ças , e bateis , fem alguém os defender 3 no- 
taram os Capitães que Aífonfo d 5 Alboquer- 
que a iífo mandou , que algumas portas do 
muro da Cidade , que vinham ter a ribeira, 
citavam cheas de efterqueira , como que fe 
não cerravam de noite , e que naquelle dia 
fe affaftou o efterco delias pêra fe fecharem ; 
ealli notaram que quando foi ao tomar das 
barcaças , tirou hum Mouro , de muitos que 
eftavam em cima do muro , com huma fre- 
cha á gente do mar que andava neíle tra- 
balho , o qual á vifta dos noffos foi pelos 
outros mui bem efpancado , como gente 
que lhes pezava de os indignar , temendo 
commetterem entrar na Cidade. E porque 
com todo efte temor elles não vieram a con- 
clusão pêra Aífonfo d ? Alboquerque leixar 
de a commetter , primeiro que eferevamos 
o modo que niflb teve , convém deferever- 
mos a íituaçao^ e força delia. 



CA- 



Década II. Livro VIL 2,33 

CAPITULO VIII. 

Em que fe defcreve o fitio , e pojiura da 
Cidade Adem , e as coufas delia. 

ADem he huma Cidade fituada na coi- 
ta de Arábia feliz em altura do pólo 
Artico de doze gráos e hum quarto , e fe- 
gundo a fituação da taboa de Ptolomeu 3 
parece feraquella, a que elle chama Modo- 
can, e a ferra que eftá fobre ella Cabubar- 
ra , a que ora os Mouros chamam Darzi- 
ra , a qual he toda de huma pedra viv r a fem 
arvore , nem herva verde. Porque além de 
não ter coufa , em que huma herva lance 
raiz , faz-fe dous , e três annos que não cho- 
ve per toda aquella Comarca , e quando 
vem efta agua , he de trovoada que palia 
logo ; e ainda que houveífe algum arvore- 
do na parte contra o mar , he tão lavado 
dos ventos do Levante que entram pelas 
portas do eftreito , que tudo feria eícalda- 
do como nafcefle. A Cidade eftá fituada ao 
fob pé deita ferra , quando fe metre no mar y 
onde fe fazem dous portos ; hum tem o rof- 
to na ribeira do mar per onde Te a Cida- 
de ferve , a que elíes chamam Focáte ; o 
qual fica abrigado de alguns ventos com 
huma ilheta 5 que tem diante chamada Ly~ 
ra. O outro porto chamado Uguf . he á 

ma- 



234 ÁSIA de João de Barros 

maneira de bahia , do qual a Cidade fe fer- 
ve pouco em navegação , por fer quaíi á 
maneira de cftciro alagadiço tão baixo , que 
não entram nelle fenão barcos pequenos , 
e iílo ainda té hum certo lugar , o qual tor- 
nea a ferra em que a Cidade jaz , tanto pe- 
las cofias delia , que parece quer ella leixar 
em Ilha , e defapegar do efpinhaço da fer- 
ra grande, que corre do interior do feríão. 
Porque té efte lugar vem a ferra Darzira , 
ou Cabubárra , como lhe Ptolemeu chama , 
de mui longe , e aqui fez a natureza a fer- 
ra tão aílellada , e efcachada , té o andar do 
mar , que fe efpraia efte efteiro per aquel- 
la planície , que he á femelhança de man- 
ga , o fim da qual he quafi como várzea. 
De maneira, que contra o mar fica hum mu- 
ro alto de viva pedra toda em picos , ao 
fob pé do qual a Cidade eftá fituada ; e quan- 
do delia fe querem fervir pêra a terra firme , 
cujo caminho fazem quafi pelo cume da fer- 
ra grande , atraveííam aquelle alagadiço per 
huma ponte de pedra de muitos arcos , onde 
eftá huma povoação de peícadores chamada 
Rubarca , e obra de quinze , ou dezefeis po- 
ços. O qual porto Uguf fica aífi communi- 
cavel em viíla com o outro da cofta , que 
jaz ao longo dos muros da Cidade , que 
per huma ilharga de hum ao outro fe vem 
as gáveas das máos ; que eftam furtas na en- 
tra- 



Década II. Liv. VII. Cap. VIII. 23? 

trada de cada hum 5 e affi fe vê deite prin- 
cipal quem vem da terra firme pelo cami- 
nho da ferra , por fer alto. A Cidade do 
íitio , e parecer de fora he coufa mui for- 
mofa , porque além da parte que jaz ao 
longo da ribeira 3 ter bons muros , torres y 
e muitos edifícios , e cafarias altas de fo- 
brados , e eirados , toda aquella chapa de 
ferra que jaz na vifla do mar té o leu cu- 
me he huma pintura delia obra da Nature- 
za , e o mais da induftria dos homens. Por- 
que como eíta ferra he pedra viva , vai to- 
da em picos tao crefpos , e dobrados , que 
tem femelhança de fortaleza, e fobre elles 
edificaram muitos cafíelletes , e torres 5 e de 
huns aos outros onde ha quebrada , lança- 
ram muro , como defensão delia. Em íi não 
tem mais agua , que algumas ciíternas , e a 
nadivel de que bebe ííca-lhes na outra face 
daquelle muro , quando querem defcer pêra 
a ponte 3 que dillemos fer ferventia da ter- 
ra firme , a qual per carreto lhes he traba- 
lhoía de trazer : cá fobem da povoação té 
o alto dos caftellos da ferra , e depois tor- 
nam a defcer ao pé delia a hum chafariz 
onde a recolhem. Eíta Cidade poílo que an- 
tigamente foi mui rica , e célebre , com nof- 
fa entrada^na índia fe fez mais : cá os prin- 
cipaes mercadores que viviam em Calecut, 
Cananor , e per toda aquella coita da ín- 
dia. 



236 ÁSIA de J0X0 de Barros 

dia j e afll de dentro do eftreito do mar 
Roxo na Cidade Judá , fe paffáram alli. A 
cauta foi , porque ante que navegafíemos 
aquelles mares, eram navegados pelos Mou- 
ros fem temor de lhos alguém impedir , e 
partiam do porto de Judá com as mercado- 
rias do Cairo ? e daquelle eftreito nos me- 
zes da navegação , cm que curfam os Po- 
nentes , que lançavam pelas portas do eftrei- 
to fora caminho da índia fem terem necef- 
fidade de tomar a Cidade Adem , e quan- 
do tornavam da índia per o mefmo modo y 
paliavam por efta Cidade , e entravam as 
portas do eftreito com os ventos Leftes. Po- 
rém tanto que per noífas Armadas lhes foi 
impedida efta liberal navegação , como quem 
navegava a temor faziam efte caminho a 
pedaços , tomavam o porto de Adem , quan- 
do queriam entrar na índia , e fabiam pri- 
meiro de noífas Armadas , e fegundo a no- 
va affi faziam feu caminho , e muitas vezes 
não paífavam , mas faziam commutação, 
e commercio com as coufas que alli acha- 
vam da índia, As quaes eram vindas em 
náos do Malabar também furtadas das nof- 
fas Armadas , muitas no cabo da monção 
dos ventos, com que aquelle golfão fe na- 
vegava, por não oufarem fahir dos portos 
onde carregavam , de maneira que aíli eftas 
náos que vinham do Malabar ? e as de to- 
da 



Década II. Liv. VIL Cap. VIII. 237 

da a coita da índia , Cambaya , e Ormuz 5 
como as d'eftoutra cofta de Melinde com 
temor de noíTas Armadas vieram a fazer da 
Cidade Adem huma efcala de Ponente , e 
Levante , ao modo da Ilha Calez em Hef- 
panha , dando alli carga , e tomando outra. 
Com o trafego da qual per commutaçao , 
e commercio fe fez nobre , e rica , e com 
noífo temor mui forte \ e defenfavel com 
hum baluarte , que \jefendia a entrada da 
ribeira , onde tinham aífeftado muita arti- 
lhem, e era aííi alcantilado o lugar delle, 
que as náos tinham alli feu próis. E ao 
tempo que Aífonfo d'Alboquerque chegou 
a efta Cidade , era fenhor delia hum Xe- 
que 3 a que alguns chamavam Rey , cujo 
nome era Hamed, o qual o mais do tem- 
po eftava dentro no fertao , por ter guerra 
com hum feu vizinho , que era Rey do 
Rey no Sana , cuja metropoli he huma Ci- 
dade aífi chamada , de que elle fe intitulou , 
mui antiquiffima , a que Ptolomeu chama 
Sanaregea. Por razão da qual neceíTidade ti- 
nha elle nefta Cidade Adem o Capitão Mi- 
ramirzan , que diffemos , o qual determinou 
de a defender , como fez , e não entregar 
a Aífonfo d'Alboquerque , como veremos 
neíte feguinte Capitulo, 



CA- 



*-$% ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO IX. 

Como Affonfo â? Alboqaerque commetteo to* 
mar a Cidade Adem d efcala vifta : e o 
que niffo pajjou , per onde não hou- 
ve effeito tornalla de todo. 

AFfonfod'Alboquerquevifto o fítio def- 
ta Cidade Adem , pofto que lhe pa- 
receo mui differente pêra a determinação 
que trazia do modo de a commetter pola 
informação que lhe tinham dado delia , to- 
davia determinou-fe no confelho que fobre 
iflb teve com os Capitães , de a combater , 
e fahir em terra em amanhecendo fabbado 
vefpera de Pafcoa, por não dar tempo aos 
Mouros recolherem mais gente da terra fir- 
me , da que recolheram naquelle dia , e 
noite , por fer logo appellidada. Somente 
no modo do combate nefte confelho orde- 
nou fer de outra maneira, do que tinha 
aííentado cm Çocotorá , porque nefta Ilha 
repartia a gente em três , ou quatro par- 
tes , com fundamento que per tantas havia 
de commetter a Cidade 3 e mais havia de 
fer em chegando fem fe metter mais efpa- 
ço , que em quanto fe embarcavam nos bar- 
cos. Porém como ao tempo de fua chega- 
da a eíle porto de Adem , por o mar an- 
dar furiofo ; teve naquelle dia bem que fa- 
zer 



Década II. Liv. VIL Cap. IX. 239 

zer em fe amarrar , e fegurar toda a frota , 
e também o íitio da Cidade requeria outro 
modo de repartição da gente , não fez o 
que trazia ordenado , e tomou o que lhe 
o caio deo ; e foi ficar com toda a gente 
em hum corpo pêra combaterem a Cidade 
á efcala vifta , per hum lanço de muro que 
corria ao longo do mar, onde fe fazia hu- 
ma praça comprida entre ambos. O qual 
corpo da gente , que era de mil e quatro- 
centos homens , mil Portuguezes , e quatro- 
centos Malabares , hia repartido em duas 
capitanias , huma que eíle levava, e outra 
D. Garcia feu fobrinho j e na lua hiam ef- 
tes Capitães , D. João de Lima , D. João 
d'Eça , Jorge da Silveira , Duarte de Mel- 
lo , Aires da Silva , Manuel de la Cerda , 
Garcia de Soufa , Diogo Fernandes de Be- 
ja , António Rapofo , e João Gomes. E 
com D. Garcia hiam Lopo Vaz de Sam- 
payo , Fernão Gomes de Lemos , Simão 
cPAndrade , Ruy Galvão , Pêro d'Affonfe- 
ca de Caílro , Simão Velho. Ordenou mais 
AfFonfo d'Alboquerque João Fidalgo Ca- 
pitão da Ordenança com Henrique Homem , 
que fervia por Ruy Gonçalves também Ca- 
pitão da Ordenança , por eílar doente , que 
ambos com fua gente , que feriam feiscen- 
tos homens , trabalhafíem por tomar o al- 
to da Cidade ao longo do muro té chegar 

a fe 



240 ÁSIA de João de Barros 

a fe fazerem íenhores da ferventia , que per 
aquella parte ella rinha da terra firme, por- 
que com iíio faziam duas coufas , tolher 
que não entraíTem nella os Bárbaros da ter- 
ra , que eram já appellidados , e mais fica- 
va-lhe a Cidade ao fob pé pêra darem nel- 
la á fua vontade, depois que feguraííem a 
entrada da ferra. Aos quaes dous Capitães 
entregou as duas barcaças da Cidade que 
alli tomaram , pêra nelías poiarem fua gen- 
te em terra , e os outros Capitães ficaram 
com os bateis das fuás náos , levando al- 
guns delles em modo de capitanias certas 
efeadas feitas tão largas , per que folgada- 
mente podiam ir feis homens juntos , per 
as quaes haviam de fubir ao muro ; de hu- 
ma das quaes , que era a delle Affonfo d'Al- 
boquerque , tinha cuidado Diogo Fernan- 
des de Beja. E aífi levavam bancos pincha- 
dos , marões , picões , pólvora , e outros 
artifícios; porque fua tenção era não fomen- 
te commetter o muro á efcala viíla , mas 
ainda ver per alguma parte fe o podiam 
picar, e com pólvora dar com hum lanço 
delle em terra , e entrar per aquella que- 
brada. Dada efta ordem como haviam de 
fahir, quando veio pela manha, todos efta- 
vam tão preftes , que em breve tomaram 
terra fem haver quem lha defendeífe , por- 
que a tenção dos Mouros foi eíperar o im- 
pe- 



Década II. Liv* VIL Caí. IX. 241 

peto dos noflbs detrás dos muros y e não 
fora delles , por duas caufas : a primeira , 
porque lhe pareceo , que fahindo elies á 
praça 5 todos haviam de íèr aili mortos com 
a nofla artilheria , porque como os viflem 
juntos , e defcubertos , defcarregariam as 
náos nelles : e a fegunda , que não fabiam 
quanta gente era a noíTa , e leixando-lhe a 
praça franca 3 onde íe elles haviam de ajun- 
tar , podiam mui bem eílimar quanta era, 
pêra legundo a quantidade delia aili íe re- 
partiriam pelos lugares do combate. Os Ca- 
pitães , e principaes Fidalgos , que neítes 
lugares de honra lempre querem fer os pri- 
meiros , vendo a praça da ribeira deípeja- 
da , e que a gente commum que hia com 
clíes , que havia de tirar as efcadas , íe em- 
baraçara , e detinha , não foffrendo o va- 
gar delles , mettêram-fe pela agua pêra ti- 
rar as efcadas dos bateis , e com grande al- 
voroço , dizendo : Ao muro , ao muro , ca- 
da hum arvorou a fua. Na fubida do qual 
Louve tanta preífa , que feria coufa diffi- 
cultofa determinar qual foi o primeiro : cá 
os Capitães , que arvoraram feus aguiões 
fobre o muro , tanto que foram nelle , aili 
como D. João de Lima , e Jorge da Sil- 
veira . que fubíram per huma efcada que 
levavam a feu cargo , dizem ferem elles os 
primeiros. As peííòas que não são de qua- 
Tmi.IL P.il Ct li- 



44* ÁSIA de JoÃo de Barros 

lidade pêra arvorar aguiões , aífi como João 
Pereira Repoíleiro que fora da Infante 
D. Beatriz , e hum CÍerigo per nome Dio- 
go Mergulhão , dizem que íc não arvora- 
ram aguiões , que arvoraram o Crucificio , 
que Diogo Mergulhão levava , bradando 
alta voz : Vitoria \ o qual Crucificio de- 
pois como eícudo da fua falvaçao o falvou 
de não morrer onde outros ficaram , eica- 
pando elle com fete feridas : Diogo Fernan- 
des de Beja , que levava a efcada , que lhe 
AíFonfo d- Alboqucrque encommendou , tam- 
bém quer fer dos primeiros ; e teftemunha 
eíía verdade com fer o primeiro que veio 
per ella abaixo derribado com hum pelou- 
ro de efpingarda , que lhe tiraram do mu- 
ro , de que efteve á morte , e depois o trou- 
xe muito tempo no corpo. Finalmente por- 
que neíle primor de íubir primeiro também 
entraram marinheiros fem nome , que leva- 
vam efeadas ás coitas j e contende neíta 
parte tanto a honra de cada hum , que fi- 
camos fem poder julgar qual foi primeiro. 
Baile faber em fomma , que per todalas par- 
tes onde fe puzeram efeadas , os primeiros 
que foram no muro , que á noífa noticia 
vieram > são os nomeados aíTima , e eftas 
peífoas principaes , D. João d'Eça , Aires 
da Silva , Vicente d'Alboquerque , Rny Pa- 
lha, GafparCam, Manuel d' Acoita Feitor 

das 



Década II. Liv. VIL Càp. IX. 243 

das prezas , António Ferreira Fogaça , João 
Gonçalves de Caftello-branco 3 Garcia de 
Souíà ? D. Álvaro de Caíiro, Manuel de 
la Cerda , João de Meira 5 Henrique Fi- 
gueira 3 João de Caminha ? Balthazar Mon- 
teiro. Os quaes como em fua companhia 
levaram muita gente , e o alvoroço de to- 
dos era grande por fubir , e os degráos da 
efcada largos , como diíTemos , foi tamanho 
o pezo da gente , que quebraram as efca- 
das , ficando defta' cahida os debaixo mal 
tratados , e os acima nomeados em cima 
do muro. Os Mouros como viram as e£- 
cadas quebradas , e quão poucos ficavam 
em cima , repartira m-fe em partes , huns 
correndo ao longo do muro , que da ban- 
da de dentro era mui baixo , por fer entu- 
lhado , com que fizeram recolher a hum 
cubello alguns dos noííbs ; e outros ficaram 
fobre o lugar das efcadas , por defenderem 
efta fubida. E pofto que elles faziam em 
os noffos aflas de damno , por lhes tu- 
do fervir de armas , pedras , páos , alcatrão > 
enxofre > ardendo té cortiços de abelhas , 
muito maior lhe fizeram as mefmas efcadas : 
cá tornadas a concertar per mandado de 
Aífonfo d 5 Alboquerque , que acudio a iíío , 
quando foube ferem quebradas , tornaram 
outra vez a quebrar com o alvoroço que 
a gente tinha de íubir 5 por ferem todos 
Qjx tão 



544 ÁSIA de JoÃo de Barros 

taocubiçofos defla honra, que ficou emdcA 
ordem com morte , e ferimento de muitos. 
Porque vendo Affoníb d'Alboquerque , que 
atando com cordas os troços quebrados da 
cícáda, não ficava muito fegura, mandou 
aos alabardeiros de fua guarda , que com 
fuás alabardas a fuílentaílem - y e quando com 
o pezo , e alvoroço de fubir tornou a que- 
brar , não fomente dos alabardeiros , que 
eílavam debaixo , ficaram cfmagados , e mal 
feridos 5 mas ainda muitos dos cahidos fe 
vieram efpetar nas alabardas , que foi cou- 
fa piedofa de ver. Neíta fegunda fubida fi- 
caram em cima do muro perto de quaren- 
ta homens , que fizeram faltar os Mouros 
cm baixo , e Garcia de Soufa foi tomar pof- 
fe de hum cubello , por fe alli fazer forte 
té fubir mais gente ; e porque Affonfo d'Al- 
boquerque os houve por perdidos com ef- 
te defaftre das efcadas , mandou em conti- 
nente duas coufas. Huma repairar dous tro- 
ços da efcada pequena ; e porque não che- 
gavam ás ameas per cordas que foram ata- 
das nellas , mandou aos que eítavam em 
cima que fe defceífem ; e a outra mandou 
deftapar duas bombardeiras rafas do muro , 
e affi huma de hum baluarte tirando delia 
com muito perigo huma bombarda , que 
os Mouros alli tinham pofta , per onde man- 
dou entrar alguns béfteiros , e efpingardei-i 

ros. 



Década II. Liv. VIL Cap. IX. 24? 

ros , e com elles João d 5 Ataíde , não con- 
fentindo entrarem primeiro alguns Fidalgos 
que o quizeram fazer , por não terem mais 
armas que fua lança , e efpada , e com as 
béftas , e efpingardas íe apartariam os Mou- 
ros da boca das bombardeiras, onde logo 
acudiram. Porém foram naquella primeira 
chegada tão efcozidos das efpingardas der- 
ribando alguns , que fizeram bom terreiro , 
e muito maior quanto dos noffos , que efta- 
vam em cima do muro , defcêram a elles. 
De que eram os principaes Aires da Silva y 
Jorge da Silveira , Vicente d 5 Alboquerque > 
D. João d 5 Eça , João de Caminha, Ruy 
Palha , e João de Meira. Os Mouros co- 
mo fe viram apartados , leixando o terrei- 
ro quaíi como cilada , mettêram-fe pelas 
tranqueiras das ruas , por efpalharem os 
noíTos ; ao qual tempo acudio Miramirzan 
a cavallo com outros que o feguiam tam- 
bém a cavallo , e por o lugar fer efpaçofo 
naquelle terreiro feriram alguns dosnoíTos. 
Os quaes como eram poucos , e não po- 
diam reíiftir a tanto pezo de gente , parte 
fe tornaram recolher pela bombardeira, e 
os outros foram demandar o pé do cubei- 
lo , onde Garcia de Soufa eílava recolhido , 
ficando daquella feita Jorge da Silveira mor- 
to , afli das pernas que lhe jarretáram \ co- 
mo dos pés dos cavalios que lhe acabaram 

de 



246 ÁSIA de João de Barros 

de trilhar os oflbs ; e com elle ficaram tam- 
bém mortos cinco homens, que acabaram 
como cavalíeiros , e foram daqui feridos 
Aires da Silva , João de Caminha , João 
de Meira , e o meílre da náo Magdalena , 
e a Miramirzan da mão delles. Garcia de 
Soufa , que eílava no cubello recolhido , 
quando vio vir eftes Fidalgos que aqui eí- 
capáram , e fe acolhiam ao fob pé do feu 
cubello , houve que tivera bom confelho 
em não fahir dalli • porque ao tempo que 
eftoutros defcêram do muro pêra dar nos 
Mouros , elles o convidaram , e os que ef- 
tavam em fua companhia ; mas não o qui- 
zeram fazer 5 por haver íèr aquelle cubei- 
lo peça da vitoria , por fer lugar principal 
da força da Cidade. O qual primor de hon- 
ra que elle tinha de cavalleiro lhe cuílou 
a vida : cá vendo os Mouros quão poucos 
eram , e que eílavam embatefgados fcm fe 
poderem dalli mover , e porém tão acanha- 
dos que não podiam entrar com elles , ft> 
máram por armas pêra os matar grandes 
feixes de palha , pondo-lhcs o fogo , o gran- 
de fumo da qual foi que lhes deo a vida. 
Porque ficou o fumo entre elles , e os Mou- 
ros aílí groffo , e efcuro , que tiveram maior 
parte dos nofos modo de fe efcoar delles , 
vindo correndo ao longo do muro té che- 
garem onde fora eftava AfFonfo d 5 Alboquer- 

que 7 



Década II. Liv. VIL Cap. IX, 247 

que , que com troços , e cordas atadas lhes 
ordenou perque defceffem , parte delles tra- 
zendo alguns feridos ás coitas , por não fe 
poderem mover. A efte tempo não ficaram 
^jpor defcer mais que Garcia de Soufa , que 
eítava no cubelío com té dez peíToas , de 
que os principaes eram Gafpar Cam , Dio- 
go Eítaço de Évora , e hum irmão bafíar- 
do delle Garcia de Soufa, que no feito da 
entrada de Goa na eílancia de Aires da Sil- 
va falvára ás coitas , como efcrevemos atrás : 
aos quaes AíFonfo d'Alboqucrque , que e£- 
tava de fora ao pé do cubello , mandou 
que fe defceíTem per humas cordas , que Dom 
Garcia de Noronha lhes lançou com afies 
de lanças atadas. E fallando AíFonfo d'Al- 
boquerque contra Garcia de Soufa, que fe 
defceífe per aquellas cordas , perque os ou- 
tros defciam , dilTe : Senhor , não fou eu o 
homem pêra defcer fenao como fubi \ epois 
me não podeis valer fenao com huma coryr 
da , valha-me Deos com feu favor , que #m 
lugar eflou pêra ijfo. Parece que o efpirito 
lhe revelava quanta conta EIRey D. Ma- 
nuel tinha com elíe Garcia de Soufa, pois 
com tanta conítancia quiz fuítentar efte cu- 
bello ; porque nas primeiras náps, que de- 
pois deite feito chegaram á índia , fem EI- 
Rey o faber , lhe mandava a capitania da 
fortaleza que AíFonfo d'Alboquerque ilzeííe 

neí- 



a4$ ÁSIA de João de Barros 

nefta Cidade. E ainda parece ter elle algu- 
ma palavra d'ElRey deita mercê , porque 
a noite que fe faziam preftes pêra fahir em 
terra , chamou elle o Meflre da ília náo 5 e 
tirando huma cadea do pefcoço de cincoen- 
ta cruzados de ouro , lançou-lha 3 e mais 
deo-lhe cinco Portuguezes , moeda de ouro , 
que naquelle tempo havia de a dez cruza- 
dos cada hum 5 dizendo-lhe : Me/ire , a 
minha honra ejld na vojfa diligencia : pe co- 
vos que ajji feja tudo tão preftes , e orde- 
nado em o batel , em que havemos depoiar 
cm terra , que feja eu o primeiro que a to- 
rne , e iflo vos dou em final do que vos hei 
de jazer fe me efta honra derdes. AíTique 
fe pode por elle Garcia de Soufa dizer com- 
prar a morte com ouro ; e com outro ouro 
que deo ao irmão comprou a fama dos 
feitos que fez no adio de morrer: cá vindo 
elle a cfte Reyno , foi teílemunha , que tan- 
to que elle Garcia de Soufa refpondeo a 
AfFonfo d'Alboquerque , virou-fe pêra den- 
tro , e como quem fe offerecia ao que Deos 
fizeíTe deíle , tomou hum relicário , que tra- 
zia ao pefcoço , e diííe a eííe irmão baílar- 
do , que (como atrás efcrevemos ) era mu- 
lato: Efta peça te dou por herança fe me 
Noffo Senhor levar ; e levando-te Deos ao 
Reyno de Portugal > dize a EIRey NoJJò 
Senhor quanto trabalhei por fuflentar ejle 

cu- 



Década II. Liv. VIL Cap. IX. 249 

€uhello , que em feu nome tomei \ e fe al- 
guma mercê lhe por ijjò mereço , em ti fe- 
ra bem empregado. Ditas as quaes palavras , 
fem mais convidar algum que o íèguiíTe, 
remetteo aos Mouros que os perfeguiam 
com zargunchos , e outros tiros de arremef- 
fo , na qual fahida do cubello em baixo no 
muro fez maravilhas de fua peííoa 5 té que 
o mataram com hum dos zargunchos de ar-» 
remeffo, que lhes atraveííòu a garganta. A 
determinação , e fúria do qual ante de o 
matarem deo vida aos outros de fua com- 
panhia , porque tiveram tempo de fahir do 
cubello 5 e ir correndo ao longo do muro 
té chegarem á parte mais baixa per que fe 
puderam lançar com ajuda dos de fora ; e 
porém delles tão feridos , que quando fal- 
taram , da força da queda arrebentaram as 
feridas em fluxo de fangue , de que morre- 
ram , hum dos quaes foi Gafpar Cam com 
mais huma perna quebrada. Neíle nlefmo 
tempo no muro abaixo do cubello de Gar- 
cia de Souía eftava D. João d'Eça com al- 
guns de fua companhia fem fazerem mais 
que defender-fe dos tiros , que lhe os Mou- 
ros tiravam do chão , por não poderem vir 
a elles , efperando que de fora lhe deíTem 
modo pêra fe defcer ; ao qual D. João os 
noíTos diziam que fe íançaíTe também per 
outras cordas que lhe deram j e porque Ma- 
nuel 



i$o ÁSIA DE João DE'BAKROS 

nucl de la Cerda o aprefíava muito que o 
fizeíTe , refpondeo-lhe D. João que não era 
elie filho , nem neto de homens pêra defcer 
per taes degráos. Finalmente D. João fe 
deteve tanto nefta opinião , que lhe ordena- 
ram huns troços de cícada , per que fe def- 
ceo , quafi no tempo que mataram Garcia 
de Soula , fem ficar dos muros a dentro 
cá no baixo da Cidade , per onde as efca- 
das foram poílas . vivo algum dos noíTos. 
Somente no alto delia , o qual Affonfo d'Al- 
boquerque mandara tomar pelos Capitães da 
Ordenança , havia parte deita gente que defr 
cia desbaratada , e lançava-fe pelo muro , 
por alli fer muito baixo , e a caufa foi j 
porque tanto que elíes tomaram aquelle al- 
to dos picos da ferra, e torres perellas pof- 
tas , era tanta a pedrada , e galgas de pe- 
dra , que vinham faltando per cima das ca- 
beças deita gente de Ordenança, que os des- 
baratou logo 5 fem darem por brados de 
léus Capitães. Vendo Affonfo d'Alboquer- 
que que aíii neítes , como na gente nobre 
houve mais defordem , que ordenança , e 
que havia quatro horas que continuavam ef- 
te combate , em que os defaftres tiveram 
mais poder, que a refiílencia dos Mouros, 
no primeiro impeto com que commettêram 
fubir aos muros , e que a maré que enchia 
vinha-os arrimando ao muro , de que po- 
diam 



Década II. Liv. VIL Gap. IX. 251 

diam receber muito damno , e a calma era 
grande , e os feridos muitos 3 e a gente mui 
quebrada do alvoroço com o deíàííre que 
lhe aconteceo ; e fobre tudo duas bombar- 
das , que os Mouros tinham poftas nas bom- 
bardeiras do muro , por fahirem raftèiras , lhe 
faziam muito damno ; viftas todas eftas cou- 
fas , determinou de fe recolher ás nãos , o 
que fez ainda com trabalho , porque como 
a maré alli efpraia hum pouco , pêra tomar 
os bateis , foram todos peia agua , dandor 
lhe por meia perna. No qual recolher Ma- 
nuel de la Cerda quaíí como offendido do 
que lhe D. João d ? Eça refpondeo , quando 
lhe diziam que fe lançaííe pela corda abai- 
xo 3 não quiz fer dos primeiros que embar- 
caram , mas hum dos derradeiros , receben- 
do bem de affronta por iíío 3 por moftrar 
que não era elle o homem que fe recolhia , 
fenao quando era tentar a Deos. 



CA- 



2p ÁSIA de JoXo de Barros 

CAPITULO X. 

Como recolhido Ajfonfo cTAlboquerque ds 
nãos 5 por algumas razões que importa- 
vam , leixou de fegunda vez commetter a 
Cidade , e dahi Jè partio pêra as portas 
do ejlreito > onde chegou. 

REcoihido AíFonfo cTAlboquerque ás 
náos 5 a primeira couía que mandou 
fazer , foi commetter hum baluarte com hu- 
ma torre , que os Mouros tinham feito no 
cabo de hum molde , onde fe defcarrega- 
vam as náos 5 de que as da fua frota , em 
quanto eile andou no combate da Cidade , 
recebiam afias damno com muita artilheria 
que tiravam. E como a náo de Manuel de 
la Cerda , por eílar mais perto delle , era a 
pior tratada , o feu Meftre per nome Álva- 
ro Marreiro em vingança deite damno , fen- 
do em companhia dos outros mareantes, a 
quem Aífonfo d 5 Alboquerque commetteo ef- 
te feito , foi o primeiro que entrou no ba- 
luarte , donde trouxeram trinta e fete bom- 
bardas de ferro 5 em que entravam peças , 
que lançavam pelouros quaíi de palmo em 
diâmetro , ficando o baluarte em noífo po- 
der fem muito trabalho , por náo haver neí- 
le quem o defendefle, fenao alguns Mou- 
ros que tiravam com a artilheria , que fo- 
ram 



Década II. Liv. VIL Cáv. X. 25-3 

iam mortos á efpada. AíFonfo d'Alboquer- 
que , tirado eíle impedimento ás náos , en- 
trou em confelho fobre o mais que deviam 
fazer acerca do que tinham paflado ; e pof- 
to que muitos Capitães , e a maior parte da 
gente de armas era , que tornaílem com- 
metter a Cidade 3 levando alguma artilhe- 
ria grofla pêra darem com hum lanço de 
muro em terra > reprefentando algumas ra- 
zoes 3 porque todas vinham a concluir a le- 
rem fenhores da Cidade , onde fe moftrava 
terem mais refpeito ao esbulho delia , que 
á tenção que EIRey tinha quando mandou 
a AíFonfo d 9 Alboquerque que a tomaíle 5 fenr 
do-lhe coufa fácil , refpondeo elle a eftes 
Capitães com a tenção d'ElRey. A qual 
era não querer fuftentar tão grande coufa , 
como era aquella Cidade , pêra que haveria 
mifter mais de quatro mil homens , por ef- 
tar mui remota da índia ^ e mais na boca 
-daquelle eftreito , ecom as coitas na flor de 
toda Arábia , fomente queria a obediência 
delia ao modo de Ormuz com ter alli hu- 
raa fortaleza favorecida de algumas velas y 
í]iie podiam andar de Armada defendendo 
aos Mouros a entrada daquelle eftreito. E 
pois hiam pêra o entrar , nas portas deíle 
ou na Ilha Çamatra , ou em algum porto 
de Prefte João fe poderia fazer : cá ElRey 
acerca da fortaleza que defejava ter naquella 

par- 



2$4 ÁSIA de João de Barkos 

parte , em todas eílas lhe apontava , e a 
eleição do lugar leixava a elle Affonfo d'Al- 
boquerque , que havia de ver o íitio deíles 
quatro. E porque além do negocio da for- 
taleza 3 correo mais a prática fc combate- 
riam ainda a Cidade com artilheria , como 
no primeiro confelho os mais delles apon- 
taram , dco também AfFonfo d'AIboquer- 
quc luas razões como não era ferviço d 5 El- 
Rcy , por eftar no cabo da monção dos le- 
vantes com que haviam de entrar o eftrei- 
to , que importava mais que quanto esbu- 
lho a Cidade tinha. Porque perdendo a 
monção , convinha ir invernar a Ormuz , 
por dalli té lá não haver outro lugar fegu- 
ro , com as quaes razoes , e outras mui evi- 
dentes , todos foram que leixaíTem o cafti- 
go daquella Cidade pêra outro tempo. E 
porque emires dias que fe Affonfo d'Albc- 
querque alli deteve no exame deitas coufas, 
e também em mandar queimar as náos dos 
Mouros, que eftavam naquelle porto depois 
ce esbulhadas , fempre o vento lhe foi quaíí 
travefsao , e temia durar muitos dias , ás 
toas per bateis mandou tirar todalas náos 
do porto , as quaes poílas no largo , fez-íe 
á vela caminho das portas do eítreiro. O 
qual como he perigoíb de navegar, princi- 
palmente com náos grandes ? e AfFonfo d'Al- 
boquerque não levava Pilotos delie ; e ás 

fuás 



Década II. Liv. VIL Cap. X- 25:5- 

fuás portas eftá luima povoação toda de Pi- 
lotos pêra eíla navegação , ao modo dos Pi- 
lotos dos bancos de Fraudes , cujo oíEcio 
he tirar , e metter as náos daquelles peri- 
gos , mandou diante a náo de Chaul 3 que 
tomou a João Gomes com vinte homens 
dos noííbs , que lhe foíTe defcubrindo a coi- 
ta ; e tanto que abocaffe ás portas , lhe hou- 
yeíle três , ou quatro daquelles Pilotos , a 
que eJles chamam robooes , e es retiveffem 
té fua chegada. Partida a náo com efte re- 
cado , quando Affonfo d'Aiboquerque che- 
gou aella , tinha já reteúdos dous Pilotos 3 
per a pilotagem dos quaes toda a Armada 
tomou poiiío em hum porto logo á entra- 
da da porta do eílreito da parte de Ará- 
bia , porque efte canal he o mais geral. Por 
feita da qual entrada mandou Affonfo d'Al- 
boquerque embandeirar a frota , e tirar to- 
da a artilheria. A imitação do qual , pois 
elle Affonfo d'Alboquerque foi o primeiro 
que navegou aquelle eílreito té aquelle tem- 
po tão encuberto aos mareantes da Chriftan- 
dade , queremos entrar no oitavo Livro dei- 
ta noífa fegunda Década também com ou- 
tra pompa de eferitura , relatando íiia na- 
tureza , navegação , e portos , como Affon- 
fo d 5 Alboquerque entrou pompofo de náos , 
bandeiras , e eítendartes > por celebrar a fef- 
ta de fua entrada. 

DE- 



DÉCADA SEGUNDA. 
LIVRO VIII. 

Dos Feitos , que os Portuguezes fize- 
ram no defcubrimento , e conquiíta 
dos mares, e terras do Oriente: em 
que íe contém o que Affonfo d Aibo- 
querque fez depois que partio da ín- 
dia pêra o mar Roxo , te tornar a ella. 

CAPITULO I. 

Em que fe defcreve o mar Roxo : e toda~ 
las povoações , e portos do ma- 
rítimo delle. 

A Figura do eítreito do mar Roxo 
quer parecer ao corpo de hum la- 
garto , cujas portas são o lugar do 
collo , onde elle he mais delgado , e a ca- 
beça podemos dizer que he o mar que jaz 
fora delias entre o Cabo Guardafu , e o 
de Fartaque. O lançamento deita figura das 
portas té o fim delia , que he a povoação 
de Suez , jaz quaíi per o rumo y a que os 
mareantes chamam Nornorcefte , e haverá 
nefte comprimento efpaço de trezentas e 
cincoenta léguas. Os Mouros , que o nave- 
gam P repartem a largura delle em doze jó- 

mos • 



Década II. Liv. VIII. Caí. I. 257 

mos , cm que haverá pouco mais de trin- 
ta e féis léguas no mais largo deile , a 
qual medida jómo acerca delles quer dizer 
oitava parte de vinte e quatro , dando por 
fingradura entre dia , e noite outras tantas 
cartes de caminho , a razão de farçanga 
3or hora , três das quaes farçangas fazem 
jum jómo , medida antiga dos Parfeos , a 
que os Gregos corruptamente chamaram pa- 
rafanga. Repartem mais os Mouros eíies 
doze jómos em três partes de longo a lon- 
go , com que o mar fica dividido em três 
faixas : á faixa do meio , que he o lombo 
deile lagarto , chamam mar largo , por íer 
limpo , e navegável de dia , e de noite , 
começando das portas do eftreito té quaíi 
o fim deile , não defcendo a ília altura de 
vinte e cinco braças , nem fubindo de cin- 
coenta. O que não tem as outras duas fai- 
xas que vam pelas ilhargas , huma ao lon- 
go das praias de Arábia 5 e outra da terra 
Africa, a que elles chamam Ajam, e por 
outro nome Abaíia , porque ambas eftas duas 
coitas fazem o mar mui cujo de ilhetas, 
reftingas 3 e baixos com canaes retorcidos , 
per que fe navega de oito té quinze bra- 
ças , tão temerofos aos navegantes , que co- 
mo he Sol poílo lançam ancora. Pêra a 
qual navegação , por íer mui perigofa , fer- 
vem os Pilotos chamados Pvcbões , que di£ 
Tçnu II. P.iL R fe- 



a^S ÁSIA de João de Barros 

femos viverem nas portas deite eftreito ; e 
de levarem delias té o porto de Judá hu- 
ma náo , levam vinte e cinco té trinta cru- 
zados ? e navegam eíte mar com dous ven- 
tos geraes , que são Levante , e Ponente ; 
e quando não são mui tendentes , ventam 
alguns terrenhos , e porém poucas vezes. 
Em todo elle não entra rio de agua doce 
que feja notável ; porque a terra de Ará- 
bia , depois que entram as portas do eftrei- 
to , lie mui fecca , e eíteril , íòmente tem hum 
rio , a que elles chamam Bardillo , que quer 
dizer branco , e preto por fe ajuntar de 
dous pequenos ribeiros > hum dos quaes tem 
a agua branca , e o outro preta, O qual 
rio le vem metter no mar quatro léguas aci- 
ma de hum lugar chamado Baháor, e dez 
de Judá ; e lie a fua agua tão pouca , aue 
primeiro que chegue ás praias , já vem íal- 
gada da maré , que a vai receber hum bom 
pedaço per dentro da terra. Os que naícem 
das ferranias , que correm ao longo deite 
mar da parte da Abafia , a Natureza pro- 
vida os mais notáveis , e cabedaes enca- 
minhou que foflem entrar em o rio , a que 
os da terra chamam Tagazij , que fe vai 
metter em outro maior chamado per elles 
Abauhij , que quer dizer pai das aguas , e 
ambos já em hum corpo entram em o Ni- 
lo pêra regarem a terra do Egypto , pois 

não 



Década II. Liv. VIII. Cap. I. 25*9 

não tem outra chuva pêra dar luas novida- 
des. Alguns pequenos rios que vertem pêra 
efte mar Roxo por a terra das ferranias 
donde eiles nafcem té as praias fer mui 
efteril , e hum pouco folta com pedregu- 
lho , primeiro que entrem 110 mar , fe fu- 
mem per baixo no veram ; donde os nave- 
gantes , quando vam ao longo defta coita , 
conhecem já as madres dos taes rios , que 
no inverno são poderofos , e cavando na 
arêa , e pedregulho ? acham a agua do rio 
que corre furtada per baixo. Geralmente os 
Mouros chamam a efte mar Bahar Corzum , 
que quer dizer mar cerrado , peró que eíle 
nome dam elles mais propriamente ao mar 
Cafpio , por não ter entrada alguma ; e ou- 
tros lhe chamam mar de Meca , por a ca- 
fa que alli tem da abominação do feuMa- 
hamed , e todos fe efpantam de lhe cha- 
marmos mar Pvoxo. A caufa do qual no- 
me Roxo querendo AfFonfo d'Alboquer- 
que entender nefte tempo que o navegou, 
diz em huma carta que fobre iífo efcreveo 
a EIRey D. Manuel , que lhe convém mui- 
to eíle nome Roxo , por fer mui cheio de 
manchas vermelhas j porque querendo elle 
abocar com a frota que levava ás portas 
delle , vio fahir per ellas huma vea groífa 
de agua vermelha , a .qual fe eftendia con- 
tra Adem , e pêra dentro das portas quan- 
R ii tQ 



i6o ASTÀ de Joio de Baruos 

to hum homem podia divifar do capiteo 
da náo , era deita cor vermelha ; e depois 
que entrou ao largo defte mar , muitas ve- 
zes o via manchado da mefma cor. E per- 
guntando aos Mouros Pilotos a caufa dei 
la 5 difleram-lhe fer revolução das aguas de 
baixo ao tempo das marés , e aquellas man- 
chas cornam com ajuíante, e montante da- 
quelle eílreito , por não terem as aguas ou- 
tra corrente fenão entrar , e fahir per as 
portas delle , e por fer aparcellado , e mar 
de pouco fundo , que ás vezes quando o 
vento era tefo , corriam eftas aguas á von- 
tade delle , e que então faziam aquella re- 
volução debaixo em alguma coufa daquel- 
la cor que o mar tinha por laftro. D.João 
de Caftro filho de D. Álvaro de Caftro Go- 
vernador da Cafa do Civel que foi em Lis- 
boa , ante que foífe á índia por Governa- 
dor , e Vifo-Rey delia , andando lá no tem- 
po que D. Eílevão da Gama filho do Con- 
de da Vidigueira I). Vafco da Gama era 
Governador delia , e foi a efte eílreito té 
chegar ao porto de Suez , como fe verá 
em feu tempo , trabalhou muito por faber 
as caufas defte nome Roxo com muita prá- 
tica que teve com Mouros Pilotos , e al- 
guns homens letrados , da qual viagem fez 
hum roteiro , em qye notou portos , ma- 
res y alturas do pólo com todalas outras cou- 

fas 



Década II. Liv. VIII. Cap. I. 261 

fas que pertencem á navegação , tudo mui 
particularmente , como quem nefta arte da 
navegação era douto , e mui diligente. O 
quai diz nefte Roteiro , que pêra nenhuma 
outra coufa daquella entrada do eftreito te- 
ve mais alvoroço, que pêra notar as cau- 
fas deite mar fer chamado Roxo ; e como 
homem eftudiofo traz o que efcreve Plinio , 
e outros Coímografos acerca da opinião da- 
quelle tempo , (como largamente trataremos 
em a noíTa Geografia , ) e per derradeiro dá 
feu parecer fundado nas obfervaçoes que 
fobre iflb fez ; e o modo que pêra ifto te- 
ve foi eíte. Indo aquella Armada que Dom 
Eftevam da Gama levava ao longo da cofta 
da Abafia , ( porque na Arábia não tocou 
fenão do Toro pêra baixo,) como era de 
navios de remos , que podiam correr per 
cima de muitos baixos , e reftingas , que 
aquelle mar tem tanto , que elle D. João 
via agua chea de manchas vermelhas per 
muita diftancia , e ás vezes agua tão baixa 
que tocava o catur em terra 5 furgia logo , 
e mandava com baldes tomar daquella agua , 
a qual vinda acima , via fer muito mais 
clara , e cryílallina , que a do mar fora das 
portas do eftreito. Não contente com ifto > 
mandava mergulhar alguns marinheiros, e 
traziam-lhes do laftro do chão huma ma- 
téria vermelha á maneira de coral ao mo- 
do 



2Óz ÁSIA de João de Barros 

do de ramos , e outras eram cubertas de 
huma lanugem alaranjada; e em outra par- 
te onde o mar fazia manchas verdes , tra- 
ziam-lhe outra efpecie de pedras aílí cm ra- 
mos , a que commummente lá chamam co- 
ral branco , com outra lanugem verde á 
maneira de limo , e onde a agua era bran- 
ca traziam arêa mui alva. E não fomente 
neítes lugares baixos a fuperficie da agua em 
cima reprefentava eítas cores do laílro da 
terra , mas ainda em fundo de vinte braças 
por a agua fer mui pura, e cryílallina ; e 
ornar, onde achou mais cópia dcílas man- 
chas , foi da Cidade Çuáquem té o porto 
Alcocer, que he caminho de cento e trin- 
ta e tantas léguas , por fer mui cheio de 
reítingas. Do Toro pêra baixo , que he já 
na coita da Arábia , onde ella vizinha com 
a de Egypto , ajuntam- fe aqui ambas eftas 
duas coitas com dous cabos que fe oppóe 
hum defronte de outro 5 que não haverá en- 
tre elles mais diílancia que de três léguas : 
paíTados os quaes cabos , torna-fe logo a 
terra encurvar com enfeadas , e pontas té 
chegar á povoação de Suez ultimo feio def- 
te mar Roxo. Na qual diílancia diz Dom 
João não ver alguma das manchas do ou- 
tro mar atrás , fomente vio nefte efpaço hu- 
ma diíferença, fer aqui o mar empollado, 
e de fervura, porque como a coita he aqui 

mais 



Década II. Liv. VIIL Cap. L 263 

mais defcuberta de ferrania, e patente aos 
ventos do Norte, com pequena força del- 
les logo o mar he poílo nefta fúria , como 
que não cabe em tão pequeno lugar , co- 
mo lhe a terra alli fez , donde fe caufa fa- 
zer huma maneira de aguages, que fahem 
de baixo do mar anaçadas em grande al- 
vura do movimento delle. Conta mais Dom 
João , que fahido deíle eílreito fora das por- 
tas tanto avante como o cabo de Fartáque , 
vio o mar coalhado de malhas vermelhas, 
que parecia ferem alli degollados alguns 
bois ; e mandando tomar agua com hum 
balde , quando lha trouxeram aílima , vio-a 
mui clara , onde lhe pareceo que a verme- 
lhidão hia per baixo , e não pela fuperfície 
da agua , e que feria algum parto de ba- 
lças , por naquelía paragem haver muitas. 
A opinião de alguns Pilotos Portuguezes 
acerca do nome Mar Roxo , ante que fí- 
zeíTem efta entrada nella , era , que as ven- 
tanias que fe levantavam na terra Arábia 
traziam poeiras vermelhas da cor da terra, 
as quaes vinham lançar no mar , de que 
elle ficava tinto ; e outros diziam , que fe- 
ria porque a ribeira delle toda era chea de 
barreiras vermelhas. A qual opinião repro- 
vando elle D. João, diz que em toda aquel- 
la viagem nunca vio poeiras, nem barrei- 
ras, vermelhas , que foíTe coufa notável ; e 

com 



264 ÁSIA de João de Barros 

com tudo punha todalas opiniões pêra ca- 
da hum tomar a que mais racional lhe pa- 
receífc 5 conformando-fe com as experiências 
que elíe com tanta diligencia fez. Nós con- 
formando-nos com o que Affbnfo d 5 Albo- 
querque vio , e razão que lhe deram os 
Mouros j c com a diligencia que elle Dom 
João lobre iíTo fez , e difcurío de todalas 
navegações que ante , e depois per elle fi- 
zemos y toda outra opinião de Gregos , e 
Romanos reprovamos , pois não andaram 
com o aftrolabio , e fonda na mão per ef- 
te , e per todolos outros mares per que na- 
vegámos , como os rioílbs mareantes tem 
feito , e acceitamos efta cor vermelha fer 
por caufa dolaftro da terra 5 como D.João 
diz ; e por fer per tanta parte deite mar 
os que antigamente o navegaram , lhe dariam 
nome de vermelho 3 e não d^ElRey Ery- 
threo que ofenhoreou, cujo nome Erythrco 
acerca dos Gregos quer dizer Roxo. So- 
mente queremos tirar hum efcrupulo , que 
D. João leixa do parto das baleas que con- 
ta , de que me muito efpanto cahir alguma 
duvida em tão grave barão , tendo dentro 
no eftreito feita tanta experiência pêra ob- 
fervar efta verdade. Porque quem notar o 
que AíFonfo d 5 Alboquerque diz , quando 
abocou ás portas do eftreito , que vio fahir 
per dk hum fio groflb defta vermelhidão ; 

e dç 



Década II. Liv. VIII. Cap. I. 265 

e de dentro das portas quanto fe podia di- 
vifar do capiteo da náo em que hia, tudo 
era daquella cor vermelha , e aífi o que lhe 
contaram os Mouros , entenderá que ifto 
eram balfas daquelle laftro de corai arrin- 
cadas com a força do impeto domar quan- 
do os Nortes tetos lhe anação as aguas de 
baixo acima. E como he coufa pezada 5 nao 
as traz á face da agua , e com a corrente 
delia , paCTada a fúria do tempo , as enca- 
minha pêra fora das portas deite direito 
com a jufante • e quando vem abocar efta 
eftreiteza , o tesão da agua corta a grande- 
za , e largura deíias balias , fazendo aquel- 
íe fio grpíFo , que AíFonfo d'Alboquerque 
vio fahir j e depois que fe acha cm mar 
mais largo , torna derramar-fe em balfas , 
fazendo aquellas manchas , que pareceram 
a D.João parto 3 ou movito debaleas, por' 
fer fora do laftro que elíe dentro no eftrei- 
to notou. E quem vio quantos dias as noí- 
fas náos cortam pêra çargaço , vindo da 
índia quando vem demandar as Ilhas Ter- 
ceiras , o qual corte he neftas balfas da par- 
te da terra nova do Norte , donde os ma- 
reantes chamam a eíte caminho a volta do 
Çargaço , não haverá por caufa eftranha ef- 
toutras balias de coral que correm no ef- 
treito , por fer coufa mui commum todo 
mar baixo j e cujo com reftingas , e ilhetas 

crcar 



a66 ÁSIA de João de Barros 

crear eítas balfas , as quaes muitas vezes de 
Malaca por diante, onde o mar he cujo, 
e navegando per canaes , dam trabalho aos 
noífos no levar das ancoras : cá travam na 
rama deite género de coral de maneira , 
que ás vezes fica a ancora , ou trazem nella 
hum pedaço da baila. Peró tem huma dif- 
ferença , que eftas balfas de coral , por fe- 
rem de matéria pezada 3 não furdem acima 
pêra fe ver o corpo , e vam per meia agua 
per que transluze a cor : e o çargaço co- 
mo he matéria leve de rama , andam os 
marinheiros com baldes , tomando aquellas 
ramas ? e fem fer çargaço , por a femelhan- 
ça que tem com elle , lhe deram o fcu no- 
me , fem fe faber a caufa de que procede y 
nem o lugar donde vem , fomente cortam 
per elle , como no mar Roxo pelo coral , 
que lhe deo eíle nome. E pofto que em 
alguma parte delle fe achem manchas ver- 
des do laftro verde que D. João vio , por 
o vermelho fer muito maior quantidade , 
deram-lhe a denominação do mais , e não 
do menos. Acham-fe também nefte eítreito , 
por caufa dos baixos que tem , algumas 
pefcarias de aljofre , principalmente em o 
circuito da Ilha Daláca , que he na coíla 
Abafía , e vam abrir efta oftraria ao Sol , 
pêra lhe tirar o aljofre em outra Ilha a el- 
la vizinha chamada Mua > e aífi fe acha 

em 



Década II. Liv. VIII. Cap. I. 267 

em outra Ilha chamada Arfax na coíla de 
Arábia. De peitado não he mui creado ef- 
te mar, parece que a Natureza próvida na 
creaçao dos animaes não os dá fenao onde 
fe podem manter, fegundo feu género : e 
porque as praias daquelle mar são efteriles 
fem undação de rios que tragam cevo pê- 
ra mantença do pefcado , ha alli muito pou- 
co. Ás portas deite eítreito os Mouros lhe 
chamam Babeímande, e fegundo os noíTos 
que per vezes lhe tomaram a altura do Nor- 
te , eííam em doze gráos , e hum quarto , 
pofto que Ptolomeu as põe em dez. Have- 
rá da ponta deita terra Arábia , a que eíle 
chama promontório Poíidio , á outra terra 
fronteira de Africa , em que elle íitua a Ci- 
dade Dire 5 obra de féis léguas , a qual dis- 
tancia he occupada com fete Ilhas , que pa- 
rece quererem fechar aquella entrada , prin- 
cipalmente féis que jazem mais vizinhas á 
terra de Africa. Porque quando os nave- 
gantes de longe as vem demandar , affi en- 
ganam a vifta , ajuntando terra a terra , que 
moílram não ter traníito pêra dar paflagem ; 
e quando fe vam chegando áquclla abertu- 
ra que fazem , he tão temerola , que pare- 
ce mais pêra entallar navios , que dar-lhes 
pafTagem : peró entrando per ellas , moftram 
mui formolb , e largo canal. A mais nota- 
yeí delias he a chegada á terra de Arábia, 
V a qual 



2Ó8 ÁSIA de JoÂo de Barros 

a qual per excellencia entre os Mouros , 
dizendo a Ilha das portas , fe entende por 
efta 3 pofto que os naturaes per próprio no- 
me lhe chamem Mehum. Terá em com- 
primento légua e meia 5 lançada ao longo 
das correntes das aguas que fahem , e en- 
tram do eftreito , a terra da qual da parte 
de Arábia lie mui alta , e foberba , toda 
efcalada dos ventos , que vertem per aquel- 
la garganta do eftreito j e a parte que jaz 
contra a terra do Abexij , tem huma an- 
gra abrigada delle , onde fe pode agazalhar 
huma grande frota de náos, e delia á ter- 
ra firme de Arábia haverá obra de huma 
légua , e efte canal he o principal per que 
aquelle eftreito fe mais ferve ; e pegado com 
terra firme , faz á terra hum mamillo alto , 
que de longo quer parecer fortaleza , que 
no tempo da maré chea fica torneado de 
agua , no qual lugar vivem os Pilotos da- 
queííe eftreito. De dentro , e de fora deitas 
portas tem as náos bom furgidouro em an- 
gras que a terra faz , com que ficam abri- 
gadas de huma parte do Levante , e da ou- 
tra do Ponente. Começando deftas portas , 
a terra marítima que jaz ao longo das pra- 
ias de Arábia quaíi té Ilha Camaram , que 
podem fer quarenta e quatro léguas , he 
d'E!Rey de Adem , fem ter no marítimo 
deita tão grande terra alguma Cidade , ou 

no- 



Década II. Liv. VIII. Cap. I. 269 

nobre lugar, por todos eftarem dentro pe- 
la terra firme , fomente os portos de Mo- 
ca , e outros pouco nomeados. E deita Ilha 
Camaram pegada á terra firme té Gezam 
lugar nobre , de que he Senhor hum Xe- 
rife intitulado delle, haverá feílenta léguas, 
na qual diílancia eftam eftes portos , Celi- 
ba , Cubit , Hoihedia , Macobam , Çuli , 
Halhor , Homara. De Gezam té a Villa 
Imbo , que ferao de cofta cento e trinta 
léguas , he tudo do eftado do Xerife Barac 
Senhor de Meca : ás quarenta e duas eftá 
Zidem lugar mui notável , e nefta diílancia 
ficam os portos de Malábo , Gobaalcarne , 
Boca , Gudufi 5 Magaxá. E de Zidem a 
trinta e féis léguas eftá Judá , Cidade pê- 
ro que em edifícios , em trato , e com- 
mercio , por aqui concorrerem quaíi toda- 
las náos que vem da índia , he mui céle- 
bre, e a mais nobre povoação de toda ef- 
ta coíla de Arábia dentro do eftreito. Da 
qual á Meca , que eftá mettida no fertão , 
onde jaz o corpo de Mahamed , haverá 
pouco mais , ou menos quinze léguas , na 
qual diílancia de trinta e féis léguas eftam 
eftes dous portos notáveis Badea , e Co- 
rom ; e de Judá té Imbo , que diífemos , 
haverá per coita cincoenta eduas, entre os 
quaes dous termos eftam eftes portos , Ba- 
haor, Rabá, Hejar. Da Villa Imbo té ou- 
tra 



27O ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

tra chamada Tor , e per nós Toro , em que 
haverá per coda Menta e oito léguas , pof- 
to que toda a terra que atrás fica he eíte- 
ril , eíta muito mais , e por iílb não tern 
fenhor próprio : o fertão delia he de Alar- 
ves , que andam em cabildas a roubar os 
Mouros y que vam em romaria a Meca , 
(como já atrás eferevemos , ) e fomente nef- 
ta diftancia ha hum ío porto notável cha- 
mado Maluy. Na Villa Tor ha mais al- 
guma policia affi nos edifícios 5 como no 
modo do tratamento das peílbas , do que 
fe acha em todalas povoações que nomea- 
mos , por fer povoada a maior parte de 
Chriítãos Gregos da cintura 3 onde ha al- 
guns Frades em hum Moíteiro , que alli 
tem da vocação de Santa Catharina , por 
razão da vizinhança do outro Mofteiro, 
que elles tem em Monte Sinay , onde e£- 
tá o corpo deita Santa Virgem , que pode- 
rá fer deite lugar obra de dezoito léguas. 
Entre os moradores deite lugar Tor he fa- 
ma que per alli paífou Moyfés o povo de 
Ifrael vindo fugindo de Faraó, porque aqui 
fe vizinham as duas terras de Arábia , e 
do Egypto per diítancia de três léguas , e 
tanto foi ( fegundo elles dizem ) o tranlíto 
do mar. D.João deCaítro no Roteiro que 
fez da navegação defte mar Roxo , diz , que 
eíta Villa Tor lhe parece fer a Villa Elia- 
na. 



Década II. Liv. VIII. Cap. I. 271 

na , de que todolos Geógrafos fizeram men- 
ção , donde a enfeada , que íe faz adian- 
te , íe chama Ellanitica ; poílo que Ptolo- 
meu ponha efta Villa em vinte e nove gráos , 
e hum quarto da altura do Norte , e elle 
D. João tomou a do Tor em vinte e oi- 
to e hum fexto. E entre outras razões que 
dá pêra approvar eíle feu parecer, he 5 que 
daqui té a povoação de Suez , que ferao 
quarenta léguas , não ha entre os Mouros 
memoria de íituaçao de algum lugar 3 que 
naquella diftancia em que Ptolomeu a põe , 
houveíTe 3 nem o maritimo da cofta mof- 
tra poder ter povoação 5 por a ipaior par- 
te delia fer de ferranias quaíi té Suez , e 
mui efteril fem agua alguma ; e nefta Vil- 
la Tor ha muita difpofição 5 aíli por haver 
nella agua , e ter hum campo que começa 
onde eftam doze palmeiras obra de hum 
tiro de bombarda da Villa. O qual campo 
fe vai eftendendo hum bom pedaço té ir 
dar ao pé de huma ferra 5 que vem acabar 
alli de mui longe donde elle corre 3 atraí 
veflando toda aquella terra de Arábia , com 
que faz a divisão deftas duas partes delia , 
a que chamam Félix , e Pétrea ; e ante de 
chegar aoj>orto de Suez obra de três lé- 
guas dizem 'os Mouros eftarem huns poços, 
que elles affirmam abrir Moyfés depois que 
paliou o mar Roxo , por o clamor que lhe 

o po- 



^J^ ÁSIA de João de Barros 

o povo fez da agua que lhe falecia , os 
quaes poços eiles entre fi tem por couíà 
mui fanta. Hum Venezeano comirre de hu- 
ina galé , que foi na Armada de Soleimáo 
Baila Capitão do Turco, quando foi á ín- 
dia combater a noífa Cidade Dio no Rey- 
no Guzarate , ( como veremos em leu lu- 
gar,) fez defta viagem hum Roteiro deto- 
dolos portos que Soleimão Baffá tomou nef- 
ta cofta da Arábia; e diz que o lugar don- 
de IVloyfés paííou da parte do Egypto á 
outra de Arábia , he hum chamado Coron- 
dolo , que fera de Suez quinze léguas, e 
vinte e cinco doTor. E porque feria cou- 
fa mui eftranha fahirmos do curfo da noífa 
hiíloria pêra concordarmos eílas opiniões 
do traníito , e paffagem de Moyfés , em o 
Commentario da noífa Geografia o faremos , 
por fer mais próprio lugar , por iíTo paf- 
faremos avante com noílb intento , que lie 
tornar caminho das portas defte eílreito po- 
la outra coita do Egypto , e Abafia. O qual 
caminho começaremos do ultimo termo àc[- 
te eílreito , que he a povoação de Suez , 
poíla em altura do Norte vinte enove gráos 
e rres quartos, tomada per D. João deCaf- 
tro , e per muitos Pilotos que foram na- 
quella Armada : e fegundo as razões que 
elle D. João dá , parece que neíta povoa- 
ção de Suez foi a fituação da Cidade dos 

He- 



Década IL Liy. VIÍL Cap. I. 273 

Heroas , pêro que Ptolomeu a ponha dis- 
tante do mar. Eíla povoação Suez ao pre- 
jente náo he habitada de mais gente, que 
de officiaes de fazer navios pêra as Arma- 
das que o Soidao fazia , e ora o Turco faz 
pêra a índia , e de gente que eflá em guar- 
da deftas velas. A terra em fi he mui efte- 
ril , fem agua , e toda a que fe alli bebe fe 
traz em camelos perto de duas léguas , e 
ainda tão falobra , que he mais pêra os ca- 
melos que a trazem , que pêra homens : e 
o que confirma o parecer de D. João fer 
alli a Cidade dos Heioas, he que naqueí- 
le lítio fe tnoftram algumas minas dos edi- 
fícios delia meios cubertos de arêa , e gran- 
de número de ciíternas mais cheas delia , 
que de agua. Asquaes, fegundo parece, íe 
enchiam da agua do Nilo no tempo de feu 
crefeimento per huma aberta á maneira de 
larga levada , que vinha delle té efta Cida- 
de , a qual o tempo , e os Bárbaros a to- 
piram , fegundo a opinião da gente do Cai- 
ro 5 da qual ainda em algumas partes ap- 
parecem os finaes. Deíla povoação de Suez 
á Cidade Cairo Metropoli de Egypto ha 
três dias de andadura de camelo contra Po- 
nente , que podem fer vinte léguas • e co- 
meçando delia a conta da diítancia que tem 
os portos , e povoações da outra coita deíle 
mar, haverá ao porto Corondolo , que dif- 
Tom. II. P. il S fe- 



174 ÁSIA DE João de Bakros 

femos , quinze léguas, e daqui a Alcccef 
quarenta e cinco. O qual Alcocer he hum 
lugar notável naquella coita , não por a ma- 
geítade de léus edifícios , e policia dos mo- 
radores , porque tudo he conforme a huns 
poucos de Alarves que nelle habitam : fo- 
mente por fer huma aberta das ferranias 
que té aqui correm ao longo do mar ; e 
per efte porto aquella parte de Egypto , a 
que elíes chamam Rifa , vafa todalas luas 
novidades , e mais grande parte dos Mou- 
ros defte Ponente , quando vam á fua ro- 
maria de Meca , por não defcerem abaixo 
ao Cairo , vem demandar efte porto. Junto 
da qual povoação obra de duas léguas ef- 
tam humas ruinas de habitação , a que os 
Mouros chamam Alcocer o velho : e diz 
D. João de Caftro no feu Roteiro , que 
lhe parece ferem eftas ruinas da Cidade Phi- 
loteras , e que fe defpovoou por ter roim 
ferventia , e povoou-fe Alcocer : daqui ao 
rio Nilo haverá dezefeis léguas , e efte por- 
to de mar he o mais perto delle. Eftá efte 
lugar em altura do Norte vinte e féis grãos 
e hum quarto ; e nas ferranias que cahem 
fobre a ribeira do mar , e eftam entre efte 
lugar Alcocer , e Suez , ha dous Mortei- 
ros de Frades da Ordem de Santo Antão , 
hum chamado Santo António quall na pa- 
ragem de Corondolo , e outro per nome 



Década II. Liv. VIII. Cap. I. 275- 

S. Paulo na frontcria do Toro , e efte he 
mais vizinho do mar que o outro ; porém 
longe das praias, e poílo no alto das fer- 
ras , ambos povoados de Chriftãos de va- 
rias nações , que alli fazem penitencia ? os 
quaes íe communicam com outros da meí- 
ma ordem que ha per aquella região do 
Egypto. Tornando a noíFo caminho deite 
lugar Alcoeer a cento e trinta léguas eftá 
a Cidade Çuáquem em altura de dezenove 
gráos , e hum terço , na qual diítancia ha 
eítes portos, Tuna, Goalibo, Xoana , Xa- 
cara , Xaroelquiman , Somo! , Igidid , Fa- 
raterio , Çalacal , Fuxa , Dradáte , e ou- 
tros ., os quaes não são povoações, fomen- 
te portos dos mareantes , ou (por melhor 
dizer) aguadas que elles alli fazem. A Ci- 
dade Çuáquem he o melhor porto de todo 
efte eítreito, porque o mar entra per hum 
boqueirão , e panado hum pequeno efpa- 
ço nefta eftreiteza , faz depois huma gran- 
de lagoa , no meio da qual eftá huma ilhe- 
ta , que quaíi não tem mais terra que quan- 
to occupa a Cidade, toda de pedra , e cal 
com calas nobres ao modo de Hefpanha, 
e temRey per li. E ao tempo que D. João 
de Caftro notou efta Cidade , que foi no 
anno de quarenta e hum , D. Eftevao da 
Gama com a Armada que levava a deftruio , 
(como fe verá em feu tempo,) e delia em 
S ii dian- 



ij6 ÁSIA de João de Barros 

diante té Maçuá haverá fetenta léguas , na 
qual diftaftcia eftá o porto de Xabáque , e 
outros fem nome que á noíía noticia vief- 
fe. Efta povoação Maçuá he huma Cida- 
de , que tomou o nome da Ilha , em que 
cila eftá íituada , tão vizinha á terra firme , 
que fera de efpaço tiro de huma efpingar- 
da ; e a vizinhança que tem nefta terra fir- 
me , he hum lugar chamado Arquico , que 
he do Prefte Joáo. Tem eíla Cidade Ma- 
çuá hum Xeque , que he Senhor da terra 5 
o qual fenhorea a Ilha Dalaca , que aífima 
diílemos , onde fe pefcava aljofre , e afli 
outras Ilhas a eftas vizinhas , e eftá em paz 
com os Abexijs povo do Prefte João polo 
grande proveito que recebe delles em o ne- 
gocio do commercio , porque per efte por- 
to de Arquico íáhem todolos mantimentos , 
onde ha grande cópia , de que a maior par- 
te defte eftreito principalmente da cofta da 
Arábia fe mantém. Defta Cidade Maçuá ás 
portas do eftreito , onde começamos efta 
defcripçao , haverá oitenta e cinco léguas ; 
a qual ribeira , paífada a Ilha Daláca 5 por 
fer mui pejada , e cuja com ilhetas , e ref- 
tingas y não tem tantas acolheitas , e por- 
tos ; e fe os tem , não he coufa célebre a 
que navegantes acudam , porque também 
ofertão da terra naquella paragem hemonf- 
truofo. A gente que habita ao longo defta 

ri- 



Década II. Liv. VIII. Cap. I. 277 

ribeira domar, tirando os lugares célebres, 
he mui agreíte , e barbara , a que os taef- 
mos Mouros chamam badois , corno cá di- 
zemos campeítre , e montanheza , a qual 
toda vive de faltos , e rapina , e quando 
podem, commettem as povoações. Per de- 
.trás das ferranias , em que efta gente agref- 
te vive 5 as quaes correm ao longo da ri- 
beira deita coita , ficam as terras do citado 
do Preíte João , que centra o Cairo não 
defeem mais que té a paragem da Cidade 
Çuáquem , e dahi pêra o Melodia, e Po- 
iiente fe eftendem per muita diftancia , e de 
tanta terra fomente tem hum porto de mar, 
que he Arquico. E fe D. Eítevão da Ga- 
ma , quando per alli paflbu , lhe não lei- 
xára D. Paulo íèu irmão com quatrocentos 
homens em feu favor contra os Mouros , 
que havia treze annos que fe tinham feito 
fenhores da maior parte de feu Reyno , já 
não houvera reliquias daquella chriftanda- 
de , que N. Senhor alli depoíítou tantas 
centenas de annos , tão defamparada dos 
Príncipes da Igreja. Com o qual deíampa- 
ro fe podem chamar homens de muita fé, 
pois mettidos no coração daquella Ethiopia 
fobre Egypto , cercados de tanta idolatria 
de Gentio , e blasfémia de Mouros , tem 
viva aqueila luz de fé do nome de Ch ri- 
flo noíía Redempção : peró que feja de mui- 
tos 



2J% ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

tos errores, em que fenão conformam com 
a Igreja Romana , de que elles eftam tão 
remotos , como ella efquecida d elles , do 
eftado dos quaes ao diante faremos copio- 
fa relação. 

CAPITULO II. 

Como Affbnfo cV Alboquerque entrou dentro 

no ejlreito , e o quepajjbu té invernar 

na Ilha Gamaram. 

AO feguinte dia , depois que Affonfo 
d'AIboquerque tomou o pouíò den- 
tro das portas do eftreito , (como no fim 
do precedente Livro diflemos , ) elle fe fez 
á vela com toda fua frota , levando por Pi- 
lotos daquelle eítreito os Mouros que lhe 
tomaram , e ao outro dia houve viíta de 
liuma Ilha chamada Gibel Cocor . onde el- 
les o quizeram levar. E receando elle que 
ndh não haveria poufo pêra tão grande fro- 
ta como levava , tomou ante a parte da 
coíla Arábia, onde íurgio á vifta da Ilha; 
porque como não tinha Piloto Portuguez , 
que foubeíTe aquella navegação , e os Mou- 
ros pelo modo com que os houve lhe eram 
fbfceirofos , em tudo o que lhe diziam da- 
va refguardo , e queria ir de vagar fempre 
com o prumo na mão 9 e tomar o poufo 
com Sòl. Peró com todos eftes refguardos 

de- 



Década II. Liv. VIIL Cap. II. 279 

depois de tomar duas náos , que hiam de 
Barbora y e Zeila com mantimentos pêra 
Judá y as quaes mandou queimar, quando 
veio ao feguinte dia , fazendo feu caminho 
via da Ilha Gamaram , pêra alli fazer íua 
aguada por a falta que levava de agua, que- 
rendo os Mouros metter a náo delle AíFon- 
fo d'Alboquerque em huma eníèada , onde 
eftava hum lugar chamado Luya , deo em 
huma reítinga de arêa , que lhe fez dar com 
as velas de alto a baixo , e a náo foi dan- 
do algumas pancadas. Mas por efte parcel 
fer ao modo de alfaques , íahio a náo do 
banco com ajuda de Lopo Vaz de Sam- 
paio , D. João d'Eça ,.Pero d 5 AíFonfeca , 
Fernão Gomes , e Simão Velho , que por 
irem na fua eíleira todos lhe acudiram com 
diligencia ; e os outros Capitães , que não 
puderam fer com clle, mandaram feus ba- 
teis de maneira , que a náo atoada a outra 
fahio do perigo , do qual cafo ficaram aos 
baixos nome de Santa Maria da Serra , que 
era o da náo. E affi deo caufa a que clle 
Áífonfo d'Alboquerque , depois que foi em 
Goa , por a falvaçao que lhe N. Senhora 
deo daquelle perigo , a quem fe elle en- 
corntnendou nelle , edificou em huma das 
portas da Cidade huma cafa em feu lou- 
vor , intitulada de N. Senhora da Serra 
do nome da mefma náo ; a qual cafa de- 
pois 



22o ÁSIA de JoXo de Barros 

pois lhe fervio de ília fepultura , onde ora 
jaz , (como adiante veremos.) Fazendo-fe á 
vela íua via de Gamaram 3 mandou diante 
D. Garcia de Noronha com alguns Capi- 
tães em os navios pequenos , e bateis pêra 
lhe rodearem a Ilha , que os moradores fe 
não paílaííem á terra* e com tudo quando 
chegaram , por terem per terra nova de fua 
ida , eram todos paliados , e nao houveram 
delles mais que asgeluas em que paliaram, 
que são barcos de remo com huns poucos 
de Mouros , de que alguns eram Pilotos. 
E entretiveram té chegada de Affonfo d'Al- 
boquerque duas náos , que queriam fahir 
do porto caminho dejudá, huma dasquaes 
era do Soldão do Cairo , e ambas carrega- 
das de mui rica fazenda ; e a fora eftas ef- 
tavam no porto outras duas de mercadores 
Mouros , e Judeos de Judá , que na che- 
gada de Affonfo d\Alboquerque foram tam- 
bém tomadas. Efta Ilha Camaram eílá cm 
altura de quinze gráos da parte do Norte , 
e tão vizinha á terra firme de Arábia , que 
eílá vifta delia per efpaço de huma légua ; 
he terra muito baixa , e parte delia alaga- 
diça , e neftes alagadiços cria algumas arvo- 
res , a que chamam mangues de madeira 
rija , e reverfa de lavrar , a qual commum- 
inente fe acha em Guiné naquelles alagadi- 
ços. Todo o mais da Ilha he [cm creação 

de 



Década II. Liv. VIII. Cap. II. 281 

de alguma arvore, fomente dá huma herva 
curta táo fubftancial , que o gado miúdo 
que nelia anda , he bem creado , e aííi os 
camelos de que os moradores íe fervem , 
faz com a terra firme , (porque a ampara 
dos ventos que alli mais cursao , ) hum dos 
melhores portos claquelle eílreko , e mais 
frequentado dos navegantes , por cauía da 
muita agua que tem , onde todos aíli á en- 
trada , como fahida do eftreito concorrem 
fazer fua aguada. Segundo fe moftra nas 
minas de alguns edifícios , antigamente hou- 
ve nella povoação nobre \ da defíruição da 
qual os Mouros não fabem a cauía ; e os 
que nella habitavam, e fugiram ao tempo 
que AfFonfo d'Alboquerque chegou , viviam 
ao modo de alarves em choupanas , e pa- 
rece eftarem alli mais por ca Ufa de algum 
proveito que recebiam dasnáos que vinham 
fazer aguada , que por folgar de habitar a 
terra. O maior defpojo que os noíTos hou- 
veram delles , foi gado miúdo que toma- 
ram a coifo, e mataram ás efpingardadas, 
e aífi alguns camelos de que fizeram refref- 
co , e affi acharam alguns .Mouros , que não 
puderam paflar a terra firme. Entre os quaes 
foi hum homem de idade , e de nobre fan- 
gue , o qual (íegundo dizia) fora já Xe- 
que , e fenhor das Ilhas Dalaca , e Maçuá 7 
de que falíamos , que eftani pegadas na ou- 
tra 



282 ÁSIA de João de Barros 

tra coita daAbafia, o qual fora defpoíTado 
dcíle fenhorio per hum fcu fobrinho , a 
quem elle matara o pai , e ifto com favor 
do Xeque de Adem com paílo que havia 
de ficar feu tributário. Porém elle durou 
pouco no eítado , porque o mefmo Rey de 
Adem teve modo como o mandou matar, 
e poz por Governador da terra hum feu 
efcravo com gente de guarnição , e aíTi fe 
fez íènhor da terra , de que EIRey de Adem 
tinha huma grande renda , principalmente 
da pefcaria de aljofre que fe alli faz. Ao 
qual Àíouro AíFonfo d 5 Alboquerque fez hon- 
ra ? e mercê , e leixou em fua liberdade ; 
porque na prática que teve com elle mof- 
trava fer quem dizia , e delle foube AíFonfo 
a'Alboqucrque muitas coufas daquelle ef- 
treito , e principalmente do Prcíle João , a 
que elles chamam Rey de Abafia , por a 
muita communicação que teve com os feus 
naturaes quando era Xeque na Ilha Ma- 
çuá tão vizinha á povoação Arquico , que 
( como eferevemos ) he do Preíte. AíFonfo 
d\Alboquerque , porque em chegando a eíla 
Ilha Camaram , lhe acalmaram os levantes 
pêra ir a Judá , ( como era feu intento , ) 
foi-lhe neceíFario deter-fe alli fete dias , no 
fim dos quaes os Mouros Pilotos lhe pro- 
mettêrain poder navegar , porque efperavam 
ver fahir huma efirella entre elles mui co- 

nhe- 



Década II. Liv. VIII. Cap. II. 283 

nhecida por nome Taria , que era final mui 
certo de tornarem a ventar levantes. Porém 
vinda a eftrella, elles ventáram tão poucos 
dias ? que fahido do porto com toda a fro- 
ta , não pode ir mais avante que té humas 
Ilhas , que eftam já no mar largo , onde os 
ponentes lhes deram derofto, e o detiveram 
alli vinte e dous dias , no qual tempo man- 
dou João Gomes na íua caravela té a Ilha 
Ceibam 3 parccendo-lhe, que como eftallhà 
cftá mais nomeio domar quaíi enfiada com 
as portas do eftreito 5 podiam aqui ventar 
os levantes , ou qualquer outro vento , com 
que pudeíTe navegar. João Gomes como o 
tempo também lhe era contrario 5 com aííás 
trabalho ás voltas chegou lá , e achou que 
todo o tempo era geral , fomente quando 
acalmava havia alguma bafugem de outro 
rumo , mas era pêra mover hum batel , com 
a qual nova fe tornou a AíFonfo d'Albo- 
querque. Elle porque a agua lhe começava 
a fallecer , conveio-lhe arribar á Ilha Ca- 
maram , onde achou duas náos chegadas á 
terra firme defpejadas de quanto tinham , e 
recolhido tanto dentro delia , que não pu- 
deflem os noíFos lá ir. Feita aguada, tor- 
nou AíFonfo d'Alboquerque outra vez com- 
metter o caminho donde vinha té chegar 
ás próprias Ilhas : eftando no qual lugar vi- 
ram contra a parte onde fe o Sol punha , 

que 



284 ÁSIA de João de Barros 

que era da terra do Prefte , hum final de 
Cruz no Ceo de cor vermelha mui refplan- 
decente , e de largura de huma braça , e o 
comprimento em proporção delia. Á vifta 
da qual , que foi per hum bom efpaço , to- 
dos fe aílentáram em giolhos adorando-a , 
e AfFonfo d 5 Albuquerque levantando as mãos 
a ella em alta voz começou dizer : O' fi- 
nal de nojja redempçao , ó final de nófias 
vitorias efpirituaes , e temporaes , ornada , 
e decorada com o preciojtjjimo Sangue de 
Chrifio Jefus : ó arvore Divina } cujo fruto 
remi o o pe ceado do fruto , que nos trouxe a 
morte , eu confejfo ferdes o final , em que e fi- 
ta a efperanca de vojfas vitorias : nós te 
confe fiamos , reconhecemos , e adoramos , /;<?- 
ãindo-te que per mar , e per terra fejas 
nojfa defenfor. Com as quaes palavras toda 
a gente foi porta em lagrimas de devoção , 
e fervor de fé , levantando-fe em todalas 
náos huma grita , dando gloria a Deos , que 
parecia romperem os Ceos , no fim da qual 
grita tangeram as trombetas , e tirou toda a 
artiiheria , em meio do qual tempo huma 
nuvem branca foi cubrindo aquelle final. 
Do qual cafo Affonfo d'Alboqúerque man- 
dou tirar hum eftromento , que enviou a EI- 
Rey D. Manuel ; e tanto animou aquelle 
final a todolos nonos , que lhes fez perder 
O nojo de quão enfadados andavam, efpan- 

can- 



Década II. Liv. VIII. Cap. II. 285- 

cando aquelle mar fem fazer viagem , pa- 
recendo-ihes fer N. Senhor fervido daquel- 
les trabalhos que levavam , e que lhes dava 
tal moftra pêra os confolar. E porque nefca 
paragem eftivcram tantos dias , que fe paf- 
iou o mez de Maio 5 em que os Pilotos fe 
determinaram ferem os levantes paífados , 
tornou-fe AfFonfo d'Alboquerque a Gama- 
ram com fundamento de invernar ahi 5 e 
efpedio a João Gomes , que foíTe á outra 
banda da terra do Abafij , com regimento 
que trabalhafle por tomar os portos das 
Ilhas Maçuá , e Dalaca , e lhas defcubriíTe 
com toda a informação que delias pudeíle 
haver , e ifto fem fazer damno ; e quando 
tornafle , fe pudeííe haver á mão alguma ge- 
lua das que navegam per aquelle mar , que 
a tomaííe , pêra dos Mouros delia faber al- 
guma nova , e pêra efta ida lhe deo hum 
dos Pilotos Mouros que trazia comíigo , o 
qual negocio João Gomes fez , trazendo as 
Ilhas arrumadas como jaziam fem rnais ou- 
tra coufa. 



CAt 



286 ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO III. 

Do que Affonfo cV Áíboqucrque pajjbu em 
quanto invernou na Ilha Gamaram : e 
depois que fe par tio delia té che- 
gar á Cidade Adem. 

AEftc tempo , que Affonfo cPAlboquer- 
que eítcve invernando neíta Ilha Ca- 
maram, de alguns Mouros que acudiam á 
terra firme iòube como o Xeque de Adem 
eítava junto de huma Villa chamada Ze- 
bit , que he do fcu fenhorio , ao qual quiz 
mandar huma carta. E pêra fer certo de 
lha darem ? e haver refpofta , mandou-a per 
hum Mouro mercador , que já em outro 
tempo fora feu cativo , e a rogo de Me- 
lique Az Senhor de Dio lhe dera liberda- 
de juntamente com outros que foram to- 
mados em huma náo ; e chegando áquclla 
Ilha , o tornou outra vez tomar , e a fua 
mulher , e filhos ; e pelo conhecimento que 
delle tinha 5 e eiíes lhe ficarem em poder > 
o mandou , promettendo-lhe liberdade íe 
foífe , e vieífe com recado. Na qual carta 
elleAífonfo d'Alboquerque efcrevia ao Xe- 
que como tinha fabido que em feu poder 
eílavam cativos certos Portuguezes , que vie- 
ram ter ao feu porto , que lhe pedia hou- 
veífe por bem de os relgatar, ou a troco 
•. j de 



Década II. Liv.VIIL Cap.IIL 287 

de Mouros cie muitos que elle trazia ca- 
tivos daquella Ilha , e outros que houvera 
de algumas náos que tomou naquelle mar, 
ou per qualquer outro modo de refgate. Ef- 
tes cativos lòbre que AíFonfo d'Alboquer- 
que efcreveo eíta carta , eram aquelles cin- 
co Portuguezes do bargantim de Gregório 
da Quadra , que eígarrou da Armada de 
Duarte de Lemos 5 ( como atrás fica ? ) na 
liberdade dos quaes o Mouro que levou a 
carta, não fezcouía alguma. Ante quando 
tornou á terra firme defronte da Ilha Ga- 
maram , mandou dizer a AíFonfo d'Albo- 
querque , que não podia vir a elle , porque 
o Xeque o mandava vir alli em poder de 
certos homens , que o traziam prezo , não 
pêra lhe trazer recado , fomente pêra ver 
fe com elle podia refgatar fua mulher , e 
-filhos. Sobre o qual refgate de huma par- 
te , e d 5 outra foram , e vieram recados , fètn 
o Mouro tomar conclusão alguma no que 
promettia , fomente mandou de prefente a 
AíFonfo d 5 Alboquerque algum refrefco de 
carnes 3 e fruta da terra ; e dos Mouros que 
fe alli tomaram , fabendo eiles a caufa por 
que AíFonfo d'Alboquerque mandara efte 
ao Xeque , veio elle íaber novas deíles ho- 
mens. As quaes foram , que havendo todos 
hum barco á mão , fe mettéram no mar 
caminho da índia , e ao fegundo dia foram 

to- 



2,88 ASTA de João de Barros 

tomados , e circumcidados com todalas ce~ 
remonias de Mouros per mandado do Xe- 
que : e cite auto lhe fora feito , citando el- 
]es quafi lem lentimento do que lhes faziam 
com huma certa feinente , que moida cm 
agua JJie deram a beber. E aífi foube mais 
delieSj depois que os veio a coinmunicar, 
que em Suez , em quanto Mir Hocem an- 
dou na índia proípero com a morte de Dom 
Lourenço d 5 Almeida , o Soldão por favo- 
recer aquelia fua empreza , mandara come- 
çar quinze navios de remo, os qur.es cita- 
vam meios feitos , e eram guardados per 
té cincoenra Mamelucos , por os não quei- 
marem os Alarves , e que cada dia lhe agua- 
vam os coitados por não efvaecerem , fem 
haver hi mais outro final de Armada pêra 
a índia fenao aquelles caícos por acabar , 
fem haver official pêra iíTo. A qual coula 
fe cauiára de duas , a huma fora por fer 
tomada huma fomma de madeira , que lhe 
vinha pêra fazer mais navios , que haviam 
de ir em companhia deites, e(íegundo di- 
ziam ) eíta tomada fizera huma Armada dos 
Cavalleiros de Rodes ; e a outra fora fer 
Mir Hocem desbaratado , com que tudo 
fe esfriou , e que elle Mir Hocem eítava 
recolhido emjudá. E que nefta Cidade hou- 
ve tanto temor , como fe foube da entra- 
da delle AíFonfo d'Aiboqucrque , que os 

mer- 



Década II. Liv.VIIL Cap.IIL 289 

mercadores puzeram toda fua fazenda fora , 
e Mir Hocem não entendia em mais que 
fcitalecella : e também do dia que elle com- 
bateo a Cidade Adem a quinze dias per 

-dromedários fe íoube a nova no Cairo 3 per 
os quaes o Xeque fenhor delia elcreveo ao 
Soldao, pedindo-ihe ajuda contra os Por- 
tuguezcs ; ao que elle refpondeo J que gu ar- 
daífe bem fua Cidade 5 porque elle teria 
cuidado de mandar guardar feus portos. E 
que no Cairo havia grande revolta , e o 
Soldao eílava mui receofo ; porque fobre 

•efte recado do Xeque foubera como elle 
Affòníb d'Alboquerque entrara no .eftreito , 
e tinha por nova que da Chriítandade par- 
tia huma grande Armada pêra vir tomar 
Alexandria ; e aíli tinha nova que o Xe- 
que Ifrnael Rey da Perfia hia fobre Alep- 
po. E por elle Soldao nefte tempo ter mor- 
to três grandes Capitães daquelies , que per 
ordenança do Reyno o podiam fueceder 
nelle , e hum que tinha por Governador 
da Cidade Damafco , com temor de lhe fa- 
zer outro tanto i não quiz ir a feu chama- 
do , e eílava levantado com favor do Xe- 
que Ifrnael , eram para elle todas eftas cou- 
fas huma grande confusão , porque em ne- 

- nhuma confiava ; c diziam que efta oppref- 
sáo das Armadas da Chriftandade procede- 
ra do movimento que elle Soldao teve com 
.T0m.ll P.iL T o ia- 



lyo ÁSIA de João de Barros 

o recado que per Fr. Mauros mandou aa 
Papa lbbre a deftruiçao do Templo de Je- 
ruíalem , e Relíquias fantas da terra de feu 
eílado , fegundo atrás eícrevemos. AfFonfo 
d'Alboquerque com eílas , e outras novas 
já no 'fim do inverno efpedio dalli hum 
homem , que fabia bem o Arábigo , a El- 
Rey D. Manuel ; e por fimulaçao o mef- 
mo homem em hum batel com huma bra- 
ga de ferro , como cativo , fe paíTou á ter- 
ra firme, o qual veio a efte Reyno , e per 
elle foube EIRey do que Affoníb d'Albo- 
querque tinha paíTado naquelle eílreito té 
fua partida , e o que lhe parecia acerca de 
fazer fortaleza naquellas partes 5 e a parti- 
da pêra efte Reyno. Se todolos da Arma- 
da fouberam Arábigo , menos temeram o 
trabalho do caminho , que os que alli paf- 
favam ; porque o tempo que alli eftiveram , 
padeceram grandes neceífídades , além dos 
trabalhos de repairar navios , e todos hou- 
veram fer aquelle lugar hum purgatório : 
cá acerca da fome na Ilha não ficou cou- 
fa viva de gado , camelos , afnos , que fe 
não comeífe , té hum palmar que AfFonfo 
d'Alboquerque logo no princípio quiz guar- 
dar , parecendo-lhe que podia fazer alli 
fortaleza , não ficou delle raiz alguma. E 
aíll deite mantimento ; como de huma for- 
te de peixe á maneira de cações y oftras, 

cen- 



Década II. Liv-VIIL Cap.IIL 291 

ccntolas , e cangrejos mais azues , e verdes ^ 
que da cor que ha neftas partes , fe caufou 
em toda a frota hum género de enfermida- 
de, que eítando hum homem rindo, e jo- 
gando ás cartas , ou enxadrez , cahia da 
outra parte morto , que fez hum grande 
efpanto , e terror em todos , por fe have- 
rem por defuntos per morte fubitania. No 
qual tempo aconteceo hum cafo , que tam- 
bém aílbmbrou a gente , e foi , que fale- 
cido deita morte hum homem d 5 armas , ian- 
çáram-o no mar , fepultura dos que nelle 
morrem ; e eftando de noite os que vigia- 
vam feus quartos em vigia de huma náo , 
ouviram grandes pancadas nelía j e parecen- 
do-ihe que fundiava em alguma cabeça de 
arêa , acudiram per fora com hum batei 
ver o lugar onde fentíram as pancadas , e 
acharam o defunto pegado com as mãos 
na quilha junto do leme. Tirado daquelle 
lugar , foi enterrado cm terra ; e quando 
veio ao dia feguinte , foi achado fobre a 
cova. Ao qual mifterio acudindo Fr. Fran- 
cifeo Pregador , e parecendo-lhe eílar aquel- 
le defunto em alguma excommunhão , o 
abfolveo ; e tornado a enterrar , ficou pêra 
fempre. Com eíias , e outras coufas , de que 
a gente andava quebrantada no efpirito , e no 
corpo, tinha Aífonfo d'Aiboquerque gran- 
des requerimentos que fe falúíTe daquelle pur- 
T ii ga- 



292 ÁSIA de JoÃo de Barros 

gatorio ; porque ainda que ao tempo que 
alli fe detinham chamavam invernar , não 
era por razão de haver chuva , cá muitas 
vezes naquellas partes paflam três , e qua- 
tro annos que não chove , e quando vem 
alguma agua , he ao modo de trovoada, 
que vem do mar, e paíía Jogo : fomente 
chamam invernar , quando não podem na- 
vegar pêra fora do eítreito com os Levan- 
tes , que curfam per algum tempo , e lhes 
dam por davante. Peró vindo os Ponentes , 
que começaram a quinze de Julho , fahio 
AfFoníò d'Alboqucrque com toda a frota, 
leixando aquella Ilha Camaram fem herva 
verde, nem coufa viva, e aííolado quanto 
nella havia fem ficar pedra fobre pedra; 
porque quantos edifícios dos antigos efta- 
vam em pé , todos per mandado de Affòn- 
fo d'Alboquerque foram arrazados per ter- 
ra , por não dar cauta a que os Mouros 
dejudá alli fizeífem alguma força, pêra que 
tornando alguma Armada nofía , lhe foífe 
impedida a fahida em terra. AfFonfo d'Al- 
boquerque chegado ás portas do eftreito , 
porque á entrada não tinha notado o íitio 
da terra , principalmente a Ilha Mehum, 
onde EIRey D. Manuel era informado que 
fe podia fazer huma fortaleza , foi-fe a el- 
la ; e a primeira coufa que fez , foi mudar- 
Ihe o nome bárbaro que tinha com outro 

mais 



Década II. Liv. VIII. Cap. III. 293 

mais digno de memoria , chamando-lhe Ilha 
da Vera Cruz i o qual nome procedeo def- 
ta obra. Mandou arvorar huma Cruz fei- 
ta em hum mafto , o qual final era tão no- 
tável por ília altura fobre o canal da par- 
te da Arábia , que fe via de huma légua ; 
e ao tempo que fe arvorou , tirou toda ar- 
tilheria , e a gente trás ella foi poíla em 
hum clamor com os olhos no Ceo , dando 
cada hum louvor , e gloria a Deos , pois 
lhe aprouvera naquelías partes çafaras per 
gentilidade, e infiéis per crença daquelle Di- 
vino final , ferem elles os primeiros que o 
levantaram em gloria , e exalçamenío de 
fua Fé , e per elle tomavam poíTe de to- 
do o que fe continha dentro daquelle efirei- 
to. Notadas as coufas , de que atrás já ef- 
crevemos , partio-fe Affoníb d'Alboqucrque 
via de Adem , efpedindo dalli Ruy Gal- 
vão em o íèu navio , e com elle João Go- 
mes na fua caravella a defeubrir a Cidade 
Zeila , que eftá na outra cofia de Africa. 
E neíla ida , porque a gente delia não quiz 
fomente dar-lhe falia , e fobre ifib fahio 
muita á praia a cavallo , e a pé , toda ar- 
mada , moítrando eftarem preftes pêra de- 
fender a terra , fe nella quizeííem íahir, 
conformando-fe Ruy Galvão com o Regi- 
mento que lhe AíFonfo dWlboquerque de- 
ra y depois que notou o íitio da Cidade , e 

o por- 



^94 ÁSIA de JoÃo de Barros 

porto , qucimou-lhe as náos que citavam 
nelle , no qual tempo fe lançou com elle 
hum Abexij , com que AfFoníb d'Alboquer- 
que, quando lho aprefentáram , muito fol- 
gou , por dizer fer eferavo de hum Feitor 
que alli eítava do Soldão do Cairo ; e das 
coufas que era perguntado aífi da terra da 
Abaua , e do feu Rey Prefte João , dava 
mui boa razão. 

CAPITULO IV. 

Como chegado Affonfo â* Alboquerque d Ci- 
dade Adem , ejieve alguns dias fobre ella 
fazendo-lbe o damno que pode : e do 
mais que alli fez té fe partir. 

AFfonlb d'Alboquerque ao tempo que 
Ruy Galvão chegou a elle , eílava já 
fobre Adem , a qual achou muito mais for- 
te , que quando a combateo ; porque os 
Mouros em quanto elle andou no eílreito , 
não trabalharam em outra coufa 5 e não íò- 
niente no repairar o damno que lhe a nof- 
fa artilheria fez , mas ainda a que elles hou- 
veram pêra fe defender de nós > que era 
tão groíla 5 que com os pelouros de caroel- 
los , com que AíFonfo d 5 Alboquerque lhe 
mandava tirar , refpondiam por retorno , 
como que tinham artilheria daquelle cano. 
Com a qual 5 e aííi com hum trabuco , que 

yi- 



Década II. Liv. VIII. Cap. IV. 29^ 

vinha lançar a pedra entre as noíTas náos, 
fizeram damno em ellas , peró o trabuco 
não durava muito : ca duas vezes lho que- 
brou hum João Luiz bombardeiro , e fun- 
didor de artilheria. E porque o natural tem- 
po da partida daqueile porto pêra a índia , 
(fegundo a navegação dos Mouros pêra to- 
mar os ventos geraes , ) fae quatro dias de- 
pois da Lua de Agofto , foi neceííario de- 
ter-fe alli AfFonfo cTAlboquerque dez dias. 
No qual tempo elle quizcra commetter a 
Cidade , ou ao menos queimar certas náos , 
que os' Mouros tinham em eftaleiro pega- 
das ao muro , o qual caio pofto em confe- 
lho reprovaram os mais dos Capitães , ven- 
do quanto menos forças de gente , e de 
munições tinham , que quando a primeira 
vez a commettêram , e nella havia muito 
mais ao prefente. E que quanto a comine t- 
ter queimar as náos , niífo fe aventurava 
morrer alguma gente , e hum fó homem 
que foííe , importava mais que todalas náos , 
a qual contradição não aprouve muito a 
AfFonfo d'AIboquerque ; e como quem que- 
ria moftrar aos Capitães que não foram no 
feu parecer, quanto menos era queimar as 
náos do que elles cuidavam , ordenou cem 
homens do mar, o governo dos quaes de- 
pendia de Fernando AfFonfo Meílre da fua 
náo, e Domingos Fernandes Piloto delia , 

e Bar- 



296 ÁSIA de João de Barros 

e Bartholomeu Gonçalves também Meftre de 
outra. Os quaes em bateis partiram de noi- 
te , e elle AíFonfo d' Albuquerque nas fuás 
cortas chegou té onde elles defembarcáram , 
por os favorecer no calo , o qual não houve 
cffeito como elle defejava 5 por as náos eí- 
tarem cheias de arêa , e molhadas per to- 
dalas partes de maneira , que nunca o fogo 
fe pode atear nellas. Ao qual rebate aíli a 
gente que as guardava , como outra que 
iahio per hum poíligo da porta da Cida- 
de , oufadamente fe envolveram com os ma- 
reantes y em que houve de ambalas partes 
bem de fangue , onde foi morto o Condes- 
tabre 5 e hum bombardeiro da náo de Af- 
fonfo d'Alboquerque , por ferem os que le- 
vavam os artifícios pêra pôr fogo. E por- 
que elle Affònfo d'Alboquerque tinha de- 
fezo per todalas náos que nenhum homem 
de armas foífe em companhia dos marean- 
tes 5 nem acudiífe a efte negocio 5 paflaram 
elles muito mal , e todavia alguns homens 
de armas efcondidamente , como aventurei- 
ros embuçados 5 que queriam ir ver o que 
faziam os mareantes , chegaram té elles def- 
em barca rem , e leixaram-fe eftar , por ver 
em que parava o feito. Peró quando viram 
que haviam miíler ajuda , ainda que lhe era 
defezo fahirem em terra , defembainhando 
leu ferro contra os imigos^ entre os quaes 

foi 



Década II. Liv. VIII. Cap. IV. 297 

foi hum moço da Camará d'EIRey natural 
de Beja ? cujo nome não veio á noíTa noti- 
cia , e metteo-fe tão animofamente com os 
Mouros , que em duas , ou três voltas que 
fez 5 os fez deípejar o lugar da embarca- 
ção 5 que queriam tomar aos mareantes ? com 
que fe recolheram. Do qual feito elíe ficou 
bem ferido , e pela cura que fe nelle fez , 
veio Aífonfo d 5 Albequerque faber quem era y 
o que elle muito fentio i pofto que foube 
fer pêra feu louvor ? dizendo elle que mais 
fe devia hum homem gloriar de obedecer 
a feu Capitão , que de qualquer honrado 
feito que fizeíFe contra lua defeza. E pofto 
que eíla fahida euftou a vida daquelles dous 
bombardeiros , e muito fangue de outros 
que o acompanharam , dos Mouros ficou o 
terreiro acompanhado de mortos , no qual 
tempo por fer de noite , cuidando na Cida- 
de que os noííòs a efcaíavam , foi tamanha 
a revolta de todos fe quererem falvar na 
ferra, que em as nofias náosfe fentia o ru- 
mor de gente. Affonfo d' Alboquerque paf- 
fado efte cafo , em quanto o tempo lhe não 
dava lugar pêra fe partir , por lhe não ficar 
coufa alguma por fazer , pêra mais affirma- 
damente poder eferever a EIRey D. Ma- 
nuel o lugar onde pedia fazer a fortaleza 5 
que defejava haquellas partes , ordenou de 
mandar defeubrir o porto Uguf , que eíla- 

va 



298 ÁSIA de JoÃo de Barros 

va nas coitas de Adem > por ter informação 
pelos cativos que alli tomou , fer melhor 
que aquelle em que eftava. Ao qual nego- 
cio mandou eftes Capitães : Manuel de ia 
Cerda , Simão d'Andrade , Pêro d'AfFonfe- 
ca de Caítro , e Simão Velho , todos em 
bateis com gente , e apercebimento pêra 
qualquer coula que íòbrcvieíle , os quaes 
deícubríram a terra , e notaram o que ncl- 
la havia , que eram as coulas que atrás na 
defcripçao deita Cidade eferevemos , c acha- 
ram no porto cinco navios , a que ell.es 
chamam marruazes , com mantimentos que 
traziam das Cidades Barbora , e Zeila. To- 
mando delles os mantimentos que puderam 
recolher , puzeram fogo aos cafeos , e aífi 
deram em numa Aldeã de pefeadores , nas 
quaes couías , e aííi cm esbombardear os 
caminhos per onde a gente da Cidade fe 
fervia na paíTagem da ponte pêra a terra fir- 
me , fe andaram detendo três , ou quatro 
dias , té que per recados de Affonfo d'AI- 
boquerque , que os mandou chamar, fe par- 
tiram. Simão d 5 Andrade , ou porque ouvio 
primeiro o recado , que os outros Capitães , 
ou porque o feu batel fe remava melhor j- 
partio diante de todos. E quando fahio da- 
quella enfeada 5 onde andavam abrigados 
do mar da coita , andava clle tão empolla- 
do com o vento que era por davante, que 

fen- 



Década II. Liv. VIII. Cap. IV- 299 

íèndo do porto de Uguf aonde Affonfo 
d'Alboquerque eítava , caminho de três lé- 
guas com as torturas , e ancos que fazia 
aquella enfeada ? o qual fe pode com bom 
tempo andar em três horas , detiveram-fe 
nelle três dias fem comer , nem beber , on- 
de todos houveram de perecer. Porque che- 
gou a fede a tanto , que com ella chegou 
de todo hum Luiz Machado filho do Dou- 
tor Lopo d' Arca , e a lhe Deos fazer mui- 
ta mercê 5 vieram dar em huma furna onde 
fe mettêram , por fe abrigar da mareíía , e 
bufcar algum marifco , onde acharam can- 
grejos , e lapas , que por razão da húmida* 
de que ao comer lhe achavam , por matar 
a fede , mettêram-fe tanto nelles 5 que hou- 
veram de morrer , como o eftomago come- 
çou entrar no refcaldo do fal . que levava 
aquella humidade. Finalmente elles houve- 
ram todos de efpirar , fenao íòbre vieram 
os outros Capitães , que lhes deram a vida 
com o mantimento que traziam , e ainda 
com aífás trabalho chegaram aonde Affonfo 
d'Alboquerque eftava. O qual pela informa- 
ção que teve delles fobre o lítio do porto 
Uguf , acabou de fe determinar em confe- 
Iho que fobre iíío teve com os' Capitães, 
que em nenhuma deitas três partes , Adem , 
Ilha da Vera-Cruz das portas do eftreito , 
e Ilha Gamaram EIRey podia ter fortaleza ] 

por 



300 ÁSIA de JoÃo de Barros 

por muitas caufas qucalli foram apontadas. 
Somente fegundo a informação que ellcAf- 
fonío d'AIboqucrque tinha da Ilha Maçuá 
tão pegada na terra do Preíte João , nefta 
lhe ficava efperança de poder fer, por terem 
efte Príncipe Chriíláo nas cofias com ajuda 
de gente , e mantimentos , como elle man- 
dava prornetter per o feu Embaixador Mat- 
theus , que Affònlb d'Alboquerque tinha 
mandado a efte Rcyno , pofto que EIRey 
D. Manuel a eleição do lugar pêra fe fa- 
zer fortaleza naquella entrada do eftreito 
leixava a elle AíFonfo d'Alboqucrque , elle 
a não quiz tomar íbbre fi té lhe fazer faber 
eftas coufas , de que cfperava haver refpof- 
ta 5 ora fofle pola chegada de Mattheus Em- 
baixador do Preíte a efte Reyno , ora pelo 
homem que efpedio de Camaram : cá fe 
lhe bem íòfle , podia dar feu recado ante 
que as náos partiílem pêra a índia. Quanto 
mais que pêra haver effeito o fazer da for- 
taleza , e elle dar huma vifta á Cidade Ju- 
dá , como lhe EIRey D. Manuel encom- 
mendava , era neceíTario partir elle da ín- 
dia muito mais cedo , por não chegar ao 
eftreito no cabo da monção dos ventos , 
com que o havia de navegar. E pêra mais 
confirmação defte feu fundamento de fazer 
a fortaleza na Ilha Maçuá , vieram lançar 
na frota três Abexijs da terra do Prelíe, 

que 



Dec* II. Liv. VIII. Cap. IV. e V. 301 

que os tinham os Mouros cativos > os quaes 
deram grande efperança a Affonfo d ? Albo- 
querque , de quão proveitofa coufa feria aíH 
pêra ÊiRey D. Manuel , como pêra o Pres- 
te , fazer fortaleza em Maçuá. Affonfo dWI- 
boquerque a derradeira coufa que quiz fa- 
zer , ante que fe partiífe daquelle porto , foi 
queimar as náos de mercadores que eftavam 
nelle , efperando com eíías fazer efte nego- 
cio , que era dálias poios cinco cativos, que 
elle de Gamaram mandou pedir ao Xeque ; 
e quando vio que tão mal lhe refpondêram 
efta fegunda vez , como a primeira , man- 
dou fazer feu officio de fogo ás náos , com 
que foram queimadas. 

CAPITULO V. 

Como Affonfo cV Alboquerque partio dç 
Adem , e chegou ao porto da Cidade Dio , 
onde fe vio com Melique Az fenhor delle : 
e dahi fe partio pêra Chaul , onde chegou ? 
e achou Triftao de Gd , que elle tinha man- 
dado a LIRey de Cambaya. 

Vindo o tempo da Lua , que Affonfo 
d ? Alboquerque efperava , fegundo a 
pilotagem dos Mouros daquellas partes, 
partio- fe a quatro de x\goílo com toda fua 
frota via da índia. E como os tempos eram 
ainda hum pouco verdes , naquella paflagem 

foi 



302 ÁSIA de JoÃo de Barros 

foi com tanta força delles , que abrio a náo 
de Pêro d'Affonfeca , por fer velha , e já 
de Camaram vir arrochada ; e aprouve a 
Deos que le falvou toda a gente , e parte 
da fazenda, por lhe Jogo acudirem D. João 
de Lima , e Manuel de la Cerda. Seguindo 
fua viagem , quando veio aos dezeibis dias 
de Agoíto houveram viíta da coita , onde 
o rio Indo entra no mar , e como mais adian- 
te fe faz huma cnfeada mui penetrante cha- 
mada de Jaquete , por razão de hum fole- 
mne templo de Gentios 5 que eftá na ponta 
de hum cabo , onde a enleada começa , a 
qual tem muita femelhança com a outra 
mais adiante de Cambaia; com a cerração 
do tempo , cuidando o Piloto de Affonfo 
d'Alboquerque que dobrava o cabo de Ja- 
quete , achou-fe a ré delle. E as outras ve- 
las da Armada , por irem mais a la mar , 
paliaram avante , e alguns delles foram fur- 
gir diante do porto da Cidade Dio , que 
Affonfo d'Alboquerque muito fentio , por- 
que a foram efpertar de fua vinda , e por 
iffo fufpendeo os Capitães das capitanias 
por algum tempo. Melique Az fenhor de 
Dio quando vio Aíroníò d'Alboquerque com 
tamanha frota ante léus olhos , coufa que 
elle muito temia , como era homem fagaz , 
com grande diligencia mandou encher mui- 
tos barcos de refrefco ., de carnes 7 pão * 

ar- 



Década II. Liv. VIII. Cap. V. 303 

arroz , fruta , e verdura , e juntamente com 
eíías coufas o mandou viíitar , dizendo , que 
os homens que andavam no mar com ne- 
nhuma coufa mais folgavam . que com ver- 
dura , e refrefco da terra , que lhe mandava 
aquella como feu fervidor que era. Ao que 
ÁíFonfo d^Alboquerque refpondeo com do- 
ces palavras do contentamento que tinha de 
chegar áquelle porto , por ie ver com elle 
Melique Az , e lhe dar muitos abraços , 
como ao maior amigo que tinha naquellas 
partes , fem o ter vifio , fomente per cartas. 
E poíkr que AíFonfo d'Aíboquerque vinha 
armado contra a prudência , e fagacidade 
de Melique Az , em quanto alli efteve nun- 
ca pode acabar com elle que feviíTem am- 
bos , fazendo-lhe crer que cada hora eílava 
pêra o ir ver , e enchia eítas ílmulações com 
mandar refrefco em abaílança , e muitas pe- 
ças, não fomente pêra a peííoa de AíFonfo 
d 5 Alboquerque , mas pêra todolos Capitães ; 
e aos que lhe eram mais acceitos 5 dobrava 
no prefente , tratando cada hum íegundo a 
qualidade de fua peíToa. E ainda pêra os 
mais contentar em particular houve licença 
que poucos , e poucos foíTem á Cidade , o 
que AíFonfo d ? Aiboquerque permittia , por- 
que; per olho delles poderia ter melhor in- 
formação delia ; e elle Melique Az de ma- 
nhofo nenhuma outra coufa lhe moftrava , 

fe- 



304 ÁSIA de João de Barros 

fenão os feus armazéns cheios de armas , 
munições , e artilheria. Finalmente por as 
grandes offertas que Melique Az fazia de 
iua peílba , e da Cidade pêra negocio !de 
commercio , leixou Affonío d'Aiboquerque 
nella por Feitor com alguma fazenda a Fer- 
não Martins Evangelho , e por feu Eícri- 
vao Jorge Corrêa , e a náo Enxobregas pê- 
ra a elles carregarem de bifcoito , e outros 
mantimentos , e coufas que fe haviam mif- 
ter pêra as feitorias d'ElRey. Fazendo Af- 
fonío d 5 Alboquerque fundamento que per 
meio deftc commercio viria tomar hum pé 
de entrada naquella Cidade , e depois com 
o favor d'ElRey de Cambaya , fegundo as 
efperanças que Melique Gupi lhe dava, po- 
dia alli -fazer huma fortaleza com titulo de 
Feitoria, fobre o qual negocio Melique Az 
trabalhava em contrario com EIRey de Cam- 
baya , como logo veremos , mandou dizer 
a Affonfo d'Alboquerque , e depois lho dif- 
fe per íi, que nenhuma coufa mais defeja- 
va, que ter alli huma Feitoria d'E!Rey de 
Portugal , e que de boa vontade daria lu- 
gar pêra fe fazer , mas que temia não a que- 
rer EIRey de Cambaya conceder. AfFcníò 
cPAlboquerque depois que vio que em três 
dias que fe alli deteve , Melique Az não 
fe confiava delíe pêra o ir ver , partic-fe 
huma manhã; peró o Mouro erataofagaz, 

e gran- 



Década II. Liv. VIII. Ca?. V. 30? 

e grandioíb em II , que guardou ver-fe com 
elie pêra aquella hora, enãoquiz quefofíe 
eftando elle furto no porto , porque não pu- 
dera dte moftrar-fe em mais que chegar 
com hum par de fuílas a bordo da náo, e 
por eíle modo moítrou a grandeza de feu 
eílado. Sahio com huma frota de té cem 
navios de remo , todos tão apercebidos de 
louçainha , que parecia irem a vodas , e tão 
providos de artilheria , e munições de ar- 
mas , como fe houveflem de pelejar. Affon- 
fo d'Alboquerque quando foube por huma 
fuíta que elle mandou diante como o hia 
ver , voltou fobre elle com toda a frota ao 
receber , e os abraços que houve de hu- 
ma, e de outra parte, foram de quanta ar- 
tilheria cada hum trazia , porque os das 
Íroprias peífoas aííi demaliciofo, como de 
onrado , não quiz Melique Az que foíTerrt 
de mais perto , que eftar AfFoníò d'Albo~ 
querque encoftado no bordo de fua náo , e 
elle em baixo em huma fufta. E dalli diíTe 
tanta difcriçao a Affonfo d 5 Alboquerque fe- 
bre o não vir ver em quanto eíleve em o 
porto de Dio , que diííe AíFonfo d'Albo- 
querque depois por elle , que nunca vira 
melhor homem de paço , nem mais pêra 
enganar hum homem difcreto , e per der- 
radeiro ficar contente delle. E quanto ás ou- 
tras coufas do negocio fobre que trataram 
TgnuILP.iL V pét 



306 ÁSIA de JoÁo de Barros 

per recados , aífi o achou cautelofo , que 
diffe por elle aquelle dito Portuguez , que 
fe diz poios homens maliciofos : Eu te en- 
tendo , que me entendes , que te entendo 5 que 
me enganas. Finalmente elles fe defpedíram 
os maiores amigos do Mundo no exterior , 
e na vontade cada hum fe vigiava do ou- 
tro , e por efpedida Affonfo d'Alboquerque 
lhe deo quatro Mouros homens nobres , 
além de lhe já leixar cm Dio duas náos , 
que tomaram de preza naquella travelía com 
roda a gente , e fazenda , por fer da terra , 
o que elle muito eftimou. E muito mais e in- 
timara elle AíFonfo d'Alboquerque faber , an- 
te que fe delle efpedíra , o que foube em 
Chaul , onde chegou , porque foi a tempo 
que havia poucos dias que alli era vindo 
Triílão de Gá , que alli tinha mandado a 
EIRey de Cambava, em companhia do qual 
vinha hum feu Embaixador. E per elle Trif- 
tão de Gá foube que Melique Az trazia 
grandes requerimentos com EIRey , que em 
nenhuma maneira concedeíTe aos aponta- 
mentos que elle levava delle AíFonfo d'Al- 
boquerque , fobre a fortaleza que pedia em 
Dio , reprefentando-lhe mil inconvenientes 
por parte de feu ferviço , e pêra eíFeito def- 
te negocio peitava muito aos privados d 5 El- 
Rey ; mas parece que neíle cafo prevaleceo 
maís a valia de Melique Gupi competidor 

dei- 



Década II. Liv. VIII. Cap. V. 307 

dellc Meiique Az. Porque EIRey de Cam- 
bava eícreveo a elle AíFonfo d'Alboquerque $ 
que por deíejar a paz , e amizade cPElRey 
de Portugal , e por amor delle feu Capitão 
mor } peffoa tão illuílre , e vitoriofa , con- 
cedia as mais das couías que lhe mandara 
pedir por aqueile feu menfageiro ; pêra con- 
firmação das quaes , e afli de outras que 
elle eíperava delle , mandou aqueile feu Em- 
baixador , ao qual podia dar credito ao que 
lhe de fua parte requereffe. E quanto ao 
que elle AíFonfo d' Alboquerque mandava 
pedir , principalmente acerca da fortaleza y 
que EIRey de Portugal defejava ter nas fuás 
terras para alTentar aili feitoria , e fe trata- 
rem entre elles as coufas do coinmercio , 
elle fe reportava ao que Meiique Gupi lhe 
efcrevia , a quem elle dera a refoluçao de 
feus requerimentos. E com efta refpofta lhe 
mandou algumas peças ricas pêra EIRey, 
e pêra elle , e hum cavallo acubertado de 
laminas de aço , que era de fua peífoa ; e 
ao tempo que efpedio Triftão de Gá , fica- 
va em campo nos confins do Reyno Man- 
do , com hum grande exercito de muita , e 
limpa gente , pêra fazer guerra a efie Rey- 
no y no qual exercito Triftão de Gá norou 
grandezas , e potencia d'ElRey , porque vio , 
que com difficuldade hum Príncipe deitas 
partes da Europa poderia ajuntar tanta gen-* 

V ii te 



^308 ÁSIA de João de Barros 

te de cavallo. E como homem poderofo , 
c confiado , que a fortaleza que Affoníb d'Al- 
boquerque pedia , lhe não podia damnifí- 
car, efcreveo Melique Gupi a elle AfFonfo 
d' Alboquerque , que dizia EIRey , que era 
contente de lhe dar lugar pêra em Dio fa- 
zer fortaleza, pois não era contente da Ilha 
junto de Góga , nem de Maim polas razoes 
<]ue feu menfageiro apontara ; e quanto a 
não ferem Rumes recolhidos em fuás terras , 
elle proveria como o não foífem. Com ef- 
ta refpofta vinham os feus requerimentos , 
eeram, que elle AfFonfo d'Alboquerque lhe 
havia demandar também dar lugar em Ma- 
laca , onde os Mouros Guzarates de feu 
Reyno tiveífem huma cafa forte pêra guar- 
da de fuás mercadorias quando lá foííem, 
e aífí que lhe mandafle dar a náo Merij y 
que lhe fora tomada. E poílo que AfFonfo 
cPAlboquerque, quanto ao que tocava aten- 
ção d'ElRey , entendia fer aífí iílo que lhe 
EIRey mandava dizer , o que entendia por 
parte de Melique Gupi acerca de dar for- 
taleza em Dio , e pedir cafa em Malaca, 
tudo procedia de feu particular intereíFe. 
Porque como elle era imigo capital de Me- 
lique Az , defejava haver em Dio huma 
fortaleza noíFa , polo ver mettido em algu- 
ma revolta comnofco : cá fegundo elle tra- 
balhava com EIRey que a não houveíTe , e 

mo 



Década II. Liv. VIII. Cap. V. 309 

modos que tinha comnofco , e havia de ter , 
como alli a fortaleza eftiveffe, eftava certo 
que lhe haviam de cuítar fuás cautelas al- 
guma coufa ; e quanto á feitoria > e cafa de 
Malaca , como elle Melique Gupi era o 
principal que lá tratava , tudo era a fim de 
leu proveito , e não do bem commum dos 
Guzarates de Cambava. E poílo queAffon- 
fo d'Alboquerque fentio eílas coufas , leve- 
mente as concedeo , com o mais que o Em- 
baixador requereo , e logo dalli o quizera 
efpedir , mas elle não fe quiz ir , dizendo 
que EIRey feu Senhor lhe mandava que fe 
não fofle fem levar a náo Merij ; e que ha- 
vendo delle Affonfo d'Alboquerque ante da 
entrega delia qualquer outro defpacho , que 
lho mandaífe per homens que comfigo tra- 
zia pêra iífo. AíFonfo d'Alboquerque vendo 
fua determinação , confentio nella , e logo 
dalli por a pefíba que o Embaixador man- 
dou com recado do que tinha feito , elle 
efcreveo a EIRey , e a Melique Gupi , fi- 
cando o mefmo Embaixador pêra lhe ler 
entregue a náo que pedia , que eílava em 
Cochij , onde Aífonfo d'Alboquerque a man- 
dou metter no rio , efperando que com eila 
havia de fazer alguma boa troca. E parece 
que o efpirito lhe dizia que havia de fer 
cedo , porque em partindo de Dio , efpedio 
três Capitães , Ruy Galvão 3 Jeronymo dç 

Sou- 



310 ÁSIA de João de Bakkos 

Soufa , e António Rapofo , hum a Goa, 
outro a Cananor, e o outro a Cochij co- 
mo elle hia : cá pola experiência que tinha 
de fua ida a Malaca de quanta má nova 
davam , também nefla do cítreito haviam os 
Mouros de ter femeado outras taes j e en- 
tre outras coufas que mandou encommen- 
dar ao Capitão de Cochij , foi mandar-lhe 
que logo repairafle efe;* náo Merij , porque 
além do que o efpirito moveo pêra ter eíla 
lembrança , parte fe caufou da prática que 
teve com Melique Az. 

CAPITULO VI. 

Como djfonfo tf Alboquerque houve cer- 
tas 7tdos de Mouros , que com hum tempo- 
ral carregadas de efpeciaria arribaram d 
cojia da índia , indo pêra o ejireito do mar 
Roxo ; e partindo de Cbaul , chegou a Goa , 
onde achou novas ferem vindas ndos defie 
Reyno , de que era Capitão mor João de 
Soufa de Lima : e o mais que fez té o def 
f achar com carga de ejpeciaria. 

EM quanto Affoníb d'AJboquerque eíle- 
ve em Chaul , entre muitas coufas que 
foube do eftado da índia ? foi , que aquelle 
anno fe perderam muitas náos carregadas 
de efpeciaria ; e outras com o temporal y 
que fez perder cilas , eram arribadas per 

ef- 



Década II. Liv. VIII. Cap. VL 311 

efles portos de toda a coita da índia. E a 
caufa deite damno foi , que fabendo os Mou- 
ros que navegavam o mar Roxo , pêra on- 
de ellas hiam carregadas , como elle Affon- 
fo d'Alboquerque era dentro , temendo de 
o encontrar, partiram dos portos da índia , 
onde tomaram carga quaíi no fim da mon- 
ção do tempo ', parecendo-lhes que a cite 
feria elle fahido do eítreito ; e por fugirem 
do caminho que elle podia trazer , que ha- 
via de fer ao longo da coita da Arábia y 
navegaram pelo mar largo , lançando-fe con- 
tra a Ilha Çocotorá , onde lhes deo o tem- 
poral. E as que arribaram foram ter a eí- 
tes portos , onde ainda eitavam , por fer já 
paífado o tempo de fua navegação, Dan- 
da , Dabul , Zanguiçar 5 Cintacora , Bati- 
cala , Mangalor , Calecut. Affonfo d'Albo- 
querque como foube eítes lugares onde ef- 
tavam , determinou que de caminho , indo 
correndo a coita , as levaria comíigo ; e par- 
tido de Chaul, lhe foi entregue em Dan- 
da huma carregada de pimenta. Porém em 
Dabul duas , que ahi achou o Capitão da 
Cidade , não quiz fazer entrega delias , fem 
primeiro o fazer faber ao Hidalcão , cuja 
a terra era ; e porque na ida , e vinda ha- 
via de haver detença , e Affonfo d'Albo- 
querque andava em trato de pazes com el- 
le Hldalção > panio-fe ; leixando alli em 

guar- 



312 ÁSIA de João de Barros 

guarda delias Lopo Vaz de Sampayo com 
mais três navios , e recado, que fe o Hi- 
dalcao lhas mandaíTe entregar , que fe foíTe 
com ellas , e quando não , que fe leixaífe 
eftar té feu recado. Finalmente aífi eftas 
náos de Dabul , como todalas outras , que 
eftavam nos portos deHidalcao, pofto que 
entre elle , e Affonfo d'Alboquerque , de- 
pois que elle foi em Goa , houve recados 
íobre a entrega delias , todavia vieram a 
noíTò poder , ao menos a maior parte da 
fazenda que tinham , por em alguma ma- 
neira Affonfo d'Alboquerque querer com- 
prazer ao Hidalcão. E pelo mefmo modo 
houve as outras per eíles Capitães que a 
iífo mandou, Fernão Gomes de Lemos, e 
António Rapofo : fomente duas , que deo 
a EIRey de Calecut , por lhe mandar di- 
zer ferem fuás , ao qual elle queria também 
comprazer por caufa da paz que com el- 
le queria aífentar, como logo veremos. E 
também por razão da carga da efpeciaria , 
que havia de dar ás náos , que eram idas 
defte Reyno aquelle anno de treze ; das quaes 
ao tempo que elle Affonfo d\Alboquerque 
eftava em Dio , chegaram á índia duas , e 
eftavam em Cochij , partindo deite Reyno 
três fomente. Das quaes era Capitão mor 
João de Soufa de Lima filho de Fernão 
de Soufa , e com elle hiam por Capitães 

das 



Década II. Liv. VIII. Cap. VI. 313 

das outras Henrique Nunes de Leão filho 
de Nuno Gonçalves de Leão, e Francifco 
Corrêa filho de Braz Affonfo Corrêa Cor- 
regedor de Lisboa , o qual fe foi perder 
nas Ilhas de S. Lazaro em hum baixo , on- 
de fe falvou com toda a gente , e daqui 
em jangadas foram ter a Melinde , onde 
acharam João de Soufa , e Henrique Nu- 
nes. E ainda aqui a fortuna não leixou a 
Francifco Corrêa ; porque indo de terra pê- 
ra a náo em hum efquife com Henrique 
Nunes , andava o mar tão alevantado , que 
foçobrou o efquife , e todos fe falváram , 
fenão elie. Affonfo cPAlboquerque , porque 
o tempo era breve , e elle havia de mandar 
aquelle anno com carga cinco velas de ef- 
peciaria , eílas nãos de João de Soufa , e 
três , cm que haviam de vir por Capitães 
D. João de Lima , e Manuel de la Cerda , 
que foram com elle aoeílreito, emaisBal- 
thazar da Silva em hum navio ; logo como 
chegou a Goa, (a fora os recados , que 
fobre iífo mandou ao Feitor , e mais ter 
boa parte da carga em as náos , que hou- 
ve dcs Mouros , ) defpachou feu fobrinho 
D. Garcia de Noronha pêra Cochij dar 
aviamento a eílas coufas. E além de ir a 
efte defpacho ? também lhe mandou Affon- 
fo d'Alboquerque que trabalhaffe com El- 
Rej de Calecut fobre o fazer da fortaleza y 

on- 



314 ÁSIA de J0Ã0 de Bakros 

onde leixára ordenado quando fe partio 
pêra o eítreito , pêra a qual obra mandara 
Francifco Nogueira , e Gonçalo Mendes , 
e por então náo houve efFeito. Porque co- 
mo o Çamorij vio elle AfFonfo d'Alboquer- 
que partido , por temor de quem a elle con- 
cedia , e também por outros induzimentos , 
delles da parte d"ElRcy de Cananor , del- 
Ies per meios d'E!Rey de Cochij , ( ainda 
que não fc defcubriífe niífo , ) aos quaes 
pezava deita fortaleza fer alli feita , polas 
razões que atrás apontámos , poz o Çamo- 
rij tantos inconvenientes , que morreo elle 
fem niílb coníentir. Ao qual poíto que fuc- 
cedeíTe feu irmão Naubeadarij , que andara 
nifíb , moftrando não defejar outra coufa , 
e elle mefmo com D. Garcia alTentára efte 
negocio com elle em Cranganor , (como 
atrás fica , ) quando D, Garcia cliegou ao 
porto de Calecut , que lhe mandou dizer 
ao que vinha , fem o querer vir ver y fe 
efpedio delle publicamente per recados , ef- 
cufando-íè de dar lugar a que a fortaleza 
fe fizeífe , fomente que folgaria de eftar em 
paz , e amizade com EÍRey de Portugal , 
e que eíla aílentaria com elle. Porém per 
peílba , de que elle Naubeadarij fe confiava , 
lhe mandou dizer que o feu animo com a 
dignidade que tinha de Çamorij não era 
mudado pêra o que elies tinham aíTentado 

em 



Década II. Liv. VIII. Cap. VI. 31? 

em vida de feu irmão ; mas como elle an- 
dava occupado em aíTocegar muitas coufas 
daqueile Reyno , que fe moveram com a 
morte de feu irmão , e mais achava o ani- 
mo de muitas peííbas principaes contra dar 
elle alli fortaleza , e pêra efte negocio ha- 
via miíler remover elle todos eíles incon- 
venientes , lhe pedia não houvefle por eftra- 
Jiho o que lhe mandara dizer em público , 
e no mais elle cumpriria todo o que am- 
bos aífentáram. A qual palavra elle ante 
da partida das náos pêra efte Reyno cum- 
prio ; e nellas pêra retificação do que aflen- 
tava com AfFonfo d 5 Alboquerque , mandou 
feu Embaixador a EiRey D, Manuel com 
mui grandes prefentes 5 pedindo confirmação 
delias. Porém primeiro que efte negocio hou- 
vefle eíFeito 3 fe teve niíFo muito trabalho , 
não com o novo Rey de Calecut 5 fenão 
com o de Cochij , e Cananor , que traba-* 
lhavam por não fe aílentar efta paz com 
elle , nem haver fortaleza ? moftrando-fe por 
iíTo mui aggravados a AfFonfo d 5 Aiboquer- 
que 5 reprefentando quantas perdas 3 e dam- 
nos nas guerras paliadas , e em todo tem- 
do tinham recebido do Çamorij paíTado, 
tudo por a lealdade que fempre guardaram 
a EIRey de Portugal.' Mas AfFonfo d'Al- 
boquerque donde eftava , e D. Garcia em 
Çochij trabalharam tanto ? principalmente 

com 



316 ÁSIA de JoXo de Barros 

com EIRey de Cochij , que niílo mais in- 
ííítia , que o de Cananor por as razões de 
feu proveito , que já apontámos , houveram 
por bem todos efta paz , a qual durou mui- 
tos annos ; e na fortaleza que fe fez por o 
trabalho que nella levaram , Francifco No- 
gueira por Capitão , e Gonçalo Mendes Fei- 
tor , e leu Efcrivão João Serrão ; e affi lhe 
ordenou AíFonfo d'Alboquerque mais os of- 
ficiaes 5 e gente de armas , como a cada 
hum a das outras fortalezas. E porque Nam- 
bear guazil , que fora do Çamorij paífado > 
por cauía noíía era lançado do Reyno , c 
depois em Cananor , onde também fervia 
a EIRey deite cargo , clle o efpedio , tudo 
por noflb refpeito ; quando Aífonfo d 5 Al- 
boquerque affentou eftas coufas da paz com 
o novo Çamorij , trabalhou com elle que 
tornaíTe a reíiituir em leu officio a Nam- 
bear 5 o que elle fez. E não fomente em as 
náos , que Affonfo d'Alboquerque defpachou 
com carga pêra eíle Reyno , veio o Em- 
baixador do Çamorij com grandes prefen- 
tes pêra EIRey D. Manuel ; mas ainda el- 
le lhe mandou outros , que todolos Prínci- 
pes daquelias partes lhe tinham enviado. E 
também lhe mandou alguns cativos 5 e ca- 
tivas que houvera de diverías partes , prin- 
cipalmente no eílreito , pêra per elles ter 
informação daquelias terras ; e com elks 

en- 



Década II. Liv. VIII. Cap. VI. 317 

enviou os Abexijs , que em Adem fe lan- 
çaram na Armada pêra confirmação do que 
lhe tinha efcrito das coufas do Preítejoao, 
e abonação do feu Embaixador Mattheus, 
que elle cuidava eílar já neíle Reyno , e a 
náo de Bernaldim Freire em que elle vi- 
nha, com outra de Franco Pereira Peftana 
eftavam em Moçambique , por invernarem 
alli , e vieram em companhia das deite an- 
no. Per as quaes, além das coufas que lhe 
mandava , também lhe efcreveo as coufas 
do eílado da índia , e dos Príncipes delia 5 
como do Soldao do Cairo , entre as quaes 
não fomente lhe efcreveo as que foube d el- 
le noeftreito do mar P. oxo , (fegundo atrás 
vai relatado , ) mas como tinha cartas de 
Fernão Martins Evangelho , que elle lei- 
xára por Feitor em Dio , que per Cambaya 
eram paífados Embaixadores pêra os Reys , 
e Príncipes daquellas partes, principalmen- 
te pêra o Rey de Cambaya , e odo De- 
can. Os quaes Embaixadores vinham em 
nome do Çadij do Cairo , que naquelle 
tempo reprefentava em dignidade do pon- 
tificado dos Mouros o que eram os Cali- 
fas de Arábia , que já não havia ; e fegun- 
do a opinião dos Mouros , eíte vinha do 
real fangue dos antigos Reys do Cairo, E 
peró que a fuccefsão do eftado real andava 
per modo de eleição , fegundo feu ufo , aos 

def» 



318 ÁSIA de João de Barros 

deita linhagem ficou o facerdocio da Íu2 
feita ; e efte era o que aflentava o Rey elei- 
to na cadeira Real , e o confirmava naquel- 
le eítado per huma certa ceremonia de ben- 
ção. E o negocio , a que eftes Embaixa- 
dores eram vindos , procedera cia entrada 
delle AlFonfo dWiboquerque no eílreito , c 
commetter ir a Judá ; e a lubftancia de ília 
embaixada era reprefentar quanto damno 
todolos Mouros daquelías partes tinham re- 
cebido de noífa entrada na índia , e como 
os mares eram cheios de nollas Armadas ; 
e não nos contentando com navegar os da 
índia , novamente entrara huma mui groíla 
no eííreito do mar Roxo , e commettêra 
querer ir ao porto de Judá. Mas fora im- 
pedida com ventos contrários , o que Deos 
permittíra por méritos do feu profeta Ma- 
hamed , por fura fanta cafa de Meca não 
receber alguma ofíenía ; e que eílas coufas 
da oufadia noífa tudo eram defeuidos de 
tanto Rey , e Príncipe , como havia naquel- 
las partes. Porque não era coufa pêra fe 
crer , nem eílava em razão , tão poucos ho- 
mens , como lhe diziam , andarem naquella 
Armada , poderem efeapar o poder de hum 
fó Príncipe daquelías partes , quanto mais 
tantos, e tão poderofos, cuja potencia era 
per conquiííar o Mundo ; e que bem fe via 
na chegada que fizeram em Adem 7 o pe- 
que- 



Década II. Liv. VIII. Cap. VI. 319 

queno poder que tinham , pois não eílan- 
do apercebida , mas mui defcuidada , e o 
fenhor delia fora , fomente hum feu Capi- 
tão os lançara dalli. Finalmente per eííes 
termos fuás exhortaçoes eram lançar-nos fora 
da índia , e pêra iflb traziam grandes in- 
dulgências a todos que niífo foífem ; e a 
peílbas notáveis huma veftidura , a qual di- 
ziam vir benta per elle Çadij com palavras 
do Alcorão 5 promettendo-lhe , que veíiin- 
do-as contra nós , além de ferem vencedo- 
res 5 falvariam fuás almas. K neíle mefmo 
tempo também chegou humjudeo do Cai- 
ro 5 que dizia fer Portuguez de nação , e 
viver em Jerufalem , e aprefentou a Affon- 
fo cTAlboquerque humas contas , e huma 
campainha com huma carta da parte do 
Guardião de S. Francifco , debaixo da cuf- 
todia dos quaes eílá o templo de Jerufa- 
lem , o qual era vindo ao Cairo ao cha- 
mado do Sol dão pêra lhe fazer faber ou- 
tro tal aífombramento que queria deftruir 
aquella cafa , como fez ao Padre Fr. Mau- 
ros , que veio a Roma , como efcrevemos. 
As quaes contas dizia ferem tocadas emto- 
dalas relíquias daquella Cidade de Jerufa- 
lem , e a campainha fora de huma Capella 
de N. Senhora , com a qual fe tangia ao 
alevaniar a Deos á Miffa quotidiana, que 
fe naquella Capella dizia, e com feu tini- 
do 



320 ÁSIA de João de Barros 

do denunciara alguns milagres, que acon- 
teceram naqueile ad:o do alevantar a Deos , 
e por fer mui antiga no ferviço daquelle 
íanto a&o , e tida em grande veneração , 
lha enviava ; as quaes peças com as mais 
novas que lhe mandava do eílado daquel- 
las partes , e movimentos do Soldão , Af- 
fonfo d'Alboquerque enviou também a El- 
Rey D. Manuel. E o Judeo , que as apre- 
fentou a elle AfFonfo cTAlboquerque , fen- 
do tão imigo da caufa porque aquellas pe- 
ças eram eítimadas , as trouxe em guarda 
té as entregar, porque com ellas eíperava 
de fazer feus negócios ante elle AfFonfo 
d'Alboquerque , por cuja caufa fora ter á 
índia. Tanto he o amor que os homens 
tem aos bens deita vida , que aborrecendo 
eíle Judeo eítas peças polo que reprefenta- 
vam , as eílimou em muito , porque po- 
diam fer meio de acquirir bens temporaes , 
que levam trás íi a maior parte dos homens y 
eílimando o que não crem por haver o que 
defejam , como fez efte Judeo. 



DE- 



DÉCADA SEGUNDA, 
LIVRO IX. 

Dos Feitos , que os Portiiguezes fize- 
ram no defcubrimento , e conquiíta 
dos mares, e terras do Oriente: em 
que fe contém o que fe fez em Ma- 
laca depois que Affonfo d'Alboquer- 
que fe veio delia : e o que elle fez 
na índia o anno de quatorze té fe 
partir pêra Ormuz. 

CAPITULO I. 

Como o Jão Patê Ouetir , que vivia na 
povoação Upi , depois que Affonfo d? Albuquer- 
que par tio da Cidade Malaca , continuan- 
do a guerra , mandou tomar certa artilhe- 
ria , onde mataram Affonfo Peffoa , que ef 
tava em guarda da tranqueira , donde fe 
caufou ir Fernão Peres d Andrade f obre el- 
le , e lhe queimou a povoação. 

SEgundo atrás efcrevemos 5 ao tempo 
que Affonfo d 5 Aíboquerque fe partio 
da Cidade Malaca , Patê Quetir cafado 
com huma filha de Utimutiraja ficava ale- 
yantado contra a noffa fortaleza, commet- 
tendo algumas vezes, depois que paífou o 
Tom. II. P.iL X pri- 



322 ÁSIA de João de Bakros 

primeiro iníulto de queimar a Cidade da 
parte da habitação delia , de a querer ou- 
tra vez commetter a fogo , e fangue , com 
que obrigou a Affonfo d'Alboquerque , em 
quanto lá eítava, mandar fazer huma tran- 
queira no cabo da Cidade té cnteftar em 
hum efteiro , que a vinha cercando pela 
parte do fertão. Em guarda da qual tran- 
queira leixou Affonfo Peífoa com té fetenta 
homens ; e onde fe fazia hum cunhal que 
tinha duas faces, huma ao longo do mar, 
em que começava a povoação da Cidade , 
e outra que fazia a mefma tranqueira ; nef- 
te canto , por fer lugar de fufpeita, e vi- 
zinho a Affonfo Peífoa , mandou pôr huma 
barcaça com hum camello , e outras féis pe- 
ças pequenas de metal , que tiravam ao lon- 
go deitas duas faces , da qual era Capitão 
Affonfo Chainho. Patê Quetir porque quan- 
do afua gente vinha commetter a tranquei- 
ra recebia mais damno do camelo , e pe- 
ças deita barcaça , por varejarem ao longo 
delia , que dos efpingardeiros de Affonfo 
Peífoa , huma ante manhã ao tempo que a 
gente eítava mais quebrantada da vigia de 
toda a noite, per mar de que os noífos fe 
não temiam por té então não terem com- 
mettido per alli , mandou dous calaluzes, 
a gente dos quaes aííi veio calada , e fubi- 
ta , que mataram Affonfo Chainho , e os 

que ; 



Década II. Liv. IX, Ca?, I. 313 

que com elle eftavam , iõmente ficou hum 
bombardeiro que tirava com o camelo que 
levaram pêra íe fervir delle neíle miííer. O 
qual cafo aconteceo a tempo que Fernão 
Peres d' Andrade Capitão do mar era ido 
ao rio de Muar , cinco léguas além de Ma- 
laca em bufca de Lacfamana Capitão mor 
da Armada do Rey que fora de Malaca y 
o qual íe mettia alli pêra com rebates da- 
quella parte ajudar a PateQuetir: peró da- 
quella ida Fernão Peres não pelejou com 
clk , por lhe efcapar como Capitão aítucio- 
fo que era. Chegado Fernão Peres a Mafaca 
efta manhã que Affonfo Chainho foi mor- 
to , achou a Cidade pofta em grande tris- 
teza poreíle defaftre , e muito mais quando 
fouberam como Lacfamana queria guerrear 
a Cidade , e não pelejar com elle Fernão 
Peres* Finalmente logo aquella manhã pof- 
to elle em confelho com os Capitães que 
trazia , e com Ruy de Brito Capitão da for- 
taleza , aflentáram que elle Fernão Peres 
com fua Armada , em que levaria té duzenf* 
tos e cincoenta homens , e Affonfo Peflbà 
per terra com os feus íètenta efpingardeiros 
deflem juntamente na povoação de Upi , on- 
de Patê Quetir eftava recolhido em huma 
fortaleza de madeira. Partido Fernão Peres 
per mar , foi Affonfo Peííoa ao longo da 
praia igual delle com os feus fetenta efpin- 

X ii gar~ 



324 ÁSIA de JoÃo de Barros 

gardeiros , e em fua companhia mais de 
quinhentos homens da terra dos de Nina 
Chetu , c das outras pelToas principaes , a 
que Affonfb d'AIboquerque tinha dado os 
mais honrados cargos da Cidade. E porque 
ante de chegar ao Jugar Upi fe fazia hum 
eíleiro, que de maré vazia le paliava a pé, 
era tão má cila paflagem por caufa da va- 
ia , que fe deteve Affoníò Peflba tanto , que 
primeiro que elle chegafle , tomou Fernão 
Peres terra , e porém com afias perigo. Por- 
que Patê Quetir tinha feito huma cerca de 
madeira mui forte com entulho de terra 
per dentro , e cava per fora , e ficava efta 
parte de dentro tão foberba fobre a cava 
com o entulho que fobia té o meio da ma- 
deira y que lhe fervia em lugar de hum for- 
te muro com muita artilheria aíleftada onde 
convinha. Ealém deita cerca que era gran- 
de, tinha dentro outra pequena feita á ma- 
neira de fortaleza , onde fe elle recolhia y 
a qual era tão apartada do mar, e mettida 
na terra , quanto fe eftendia o circuito da 
grande , e per derredor era a terra retalha- 
da em efteiros feitos á mão. De maneira 
que efta fortaleza per lítio era brigofa de 
commetter , e per repairos muito forte pêra 
entrar: cá a madeira da primeira cerca era 
desferro, porque os noííòs páo ferro cha- 
mam áquelle género de madeira por razão 

da 



Década II. Liv. IX. Cap. I. 325- 

da fua fortaleza , e fer tão durável , que 
Sol , nem agua lhe faz damno , a qual com- 
mummente chamam barbufano. Somente a 
fegunda cerca , onde eílava o apofento de 
Patê Quetir , era de fandaio branco , e ver- 
melho 3 e : páos tão groííos , como fe elles 
nafcêram pêra aquelle miíler , e não pêra fe 
moer em hum almofariz de boticairo pêra 
as mezinhas em que ufamos delle : tão grof- 
fo era o cabedal daquelle Jáo Utimutirája 
fogro defte Patê Quetir 5 que as coufas de 
mercadoria affi as tinha em quantidade , que 
podia fazer huma cerca de fandalos , como 
de madeira do mato , que elle tinha por 
vizinho. E com eíta confiança das forças 
que tinha feito , eílava Patê Quetir tão fe- 
guro ? que lhe parecia coufa impoíllvel po- 
derem os noíTos entrar dentro ; c por iíío 
quando lhe diííeram que Fernão Peres to- 
mara a terra , polo muito que havia de fa- 
zer na entrada da primeira cerca , e depois 
de enxotar o grande número de gente que 
comíigo tinha , que poderia fer té féis mil 
almas 5 não fez muita conta delle , e leixou- 
fe eílar , mandando feus Capitães que acu- 
dilTem á praia , os quaes com a grande mul- 
tidão da gente que traziam , em chegando 
ao lugar onde Fernão Peres commetteo que- 
rer entrar , deram-lhe^anto que fazer , que 
per hum grande efpago o detiveram de fo- 
ra 



326 ÁSIA de J0Ã0 de Babros 

ra da primeira cerca , no qual tempo cada 
hum dos nofíbs Capitães trabalhava por fa- 
zer alguma entrada torneando a cerca , por 
os Mouros acudirem todos ao lugar onde 
Fernão Peres commettia querelíos entrar* 
Jorge Botelho , a quem elle tinha aííinado 
hum lugar per onde mandou que foíTe dian- 
te 5 correndo ao longo da cerca da parte 
do eílreito que AíFonlò PeíToa paffava , foi 
dar junto da outra íègunda cerca ; e como 
era lugar fora da fronteria da ribeira , acer- 
tou de achar alli os páos não mui firmes , 
e tanto eftevc aloindo neJIes, que fez entra- 
da. O qual cuidando que hia bem aviado , 
foi-fe metter em lugar com que fe houvera 
de perder , e vinte e tantos homens que le- 
vava : ca a eíle tempo Fernão Peres tinha 
entrada a primeira cerca , e ás lançadas hia 
encurralando pêra a fegunda hum grande 
número de Mouros , ao encontro dos quaes 
poios entreter Patê Quetir fahia donde ef- 
tava. Peró quando elle fentio nas coitas a 
revolta de outros , com que Jorge Botelho 
pelejava dentro , por fe melhor fegurar, 
não curou de ir de roílo onde elle andava , 
e foi-fe efcoando pêra aquella parte , onde 
tinha huma pequena porta pegada no ma- 
to , que vinha dar na tranqueira per que 
fe elle efperava recolher quando fe viííe 
nacpella neceífídade, No qual tempo veio 

dar 



Década II. Liv. IX. Cap. I. 327 

dar com Jorge Botelho , que andava efgar- 
rado dos outros Capitães , hum golpe de 
gente de refrefco per huma ilharga , em que 
yinham dous Elefantes grandes armados á 
lua guifa , e huma Elefanta pequena , que 
ao modo de genete vinha diante mui ligei- 
ra no commetter. Com a qual chegada Jor- 
ge Botelho, eos feus fe houveram por per- 
didos , porque tinham Mouros de rofto com 
que pelejavam , e eítes tomavam-lhes huma 
ilharga , de maneira que tomaram por re- 
médio encoílar-fe a huma parte da cerca , 
por fegurar as coftas 5 e lhes ficarem todc- 
los imigos diante. E quiz lua boa fortu- 
na , que no revolver que fizeram ficou a Ele- 
fanta dianteira a geito que hum Francifco 
Machado Chriftão novo alfaiate natural de 
Torres novas encarou nella com huma es- 
pingarda , e deo-lhe em parte, que deo a 
Elefanta dous urros , e duas voltas em re- 
dondo , ficando morta em terra, e os ou- 
tros poítos em fugida , e parte da gente que 
os feguia. E poítb que entre elles houve e£- 
ta revolta , nem por iffo ficou Jorge Bote- 
lho tão defabafado , que não houvefle mif- 
ter foccorro , por andarem todolos de fua 
companhia bem fangrados , principalmente 
Francifco Cardofo , que depois foi Almo- 
xarife dos mantimentos do armazém de Lis- 
boa , Ba rtholomeu Soares do Algarve Mef- 

tre 



328 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

tre do feu navio , e o Condeílabre dclle , e 
Pedralvares do Cartaxo , que fora moço de 
efporas d'ElRey D. Manuel , hum dos va- 
lentes homens que andaram naquellas par- 
tes. Os quaes ficariam alli mortos com os 
mais que andavam naquelle trabalho , fe lhes 
não acudira Fernão Peres , que vinha já com 
a vitoria da primeira cerca • e como entrou 
na fegunda , não fomente livrou a elles 5 
mas acabou de enxotar toda a gente que ha- 
via nas cercas , que a fio fe recolhia no ma- 
to , onde Patê Quetir fe falvou. Fernão Pe- 
res como fe vio fenhor da fortaleza , não 
quiz mais feguir os imigos , porque fe re- 
colheram elles em parte naelpcfíura do ma- 
to , onde lhe podiam frechar toda a gente , 
fem lhe elle poder fazer damno. Somente 
áquella parte per que elles podiam tornar á 
fortaleza , mandou pôr nella fogo pêra fi- 
car por defensão entre elle , e os imigos , 
em quanto os noíTos a esbulhavam , temen- 
do que andando nefte fervor de esbulhar 
torna flem fobre elles; mas como todos le- 
vavam mais cuidado em falvar as vidas , 
qua na fazenda que lhes ficava 5 tiveram os 
noíTos largo tempo de prear á lua vonta- 
de. E quando foram dar com o camelo , 
que elles tomaram aquella manhã , o qual 
tinham poílo no lugar per onde Fernão Pe- 
res entrou, acharam ocepodelle todo cheio 

de 



Década II. Liv. IX, Cap. I. 329 

de fangue , e fegundo fe foube , era por 
cortarem alli a cabeça ao noííb bombardei- 
ro. E a caufa foi , porque apparecendo Fer- 
não Peres a tiro delle , mandáram-lhe os 
Mouros que tiraíTe ; e porque o não quiz 
fazer , poíto que o ameaçavam com o que 
lhe fizeram , quiz ante falvar a alma que 
a vida. Além da artilheria , e munições , 
foi tanta a outra fazenda que havia , aííi 
de movei do ferviço de Patê Quetir , como 
de toda forte de mercadoria , que não fo- 
mente fe carregou a noífa gente , e os Mou- 
ros , e Gentios , que foram em companhia 
de AíFonfo PeíToa a mas ainda outros da Ci- 
dade que concorreram áquelle esbulho. Fo- 
ram os Capitães que fe acharam com Fer- 
não Peres nefte feito , Pêro de Faria 3 Lo- 
po d 5 Azevedo , Vafco Fernandes Coutinho , 
João Lopes d' Alvim , Jorge Botelho cie 
Pombal , e AíFonfo PeíToa , que já nomeá- 
mos 5 e tanto o numero dos Mouros mor- 
tos que fe não contaram , e fe dos noííos 
não houve algum , de feridos foram aífás , 
porque o feito foi mui bem commettido 5 
e pelejado , e hum dos honrados que era 
Malaca fe fez, com que Patê Quetir- ficou ■ 
mui quebrado. 



CA- 



330 ÁSIA de JoÁo de Barros 

CAPITULO II. 

Como Fernão Peres d* Andrade Capitão 
viór do mar foi commetter a fortaleza de 
Patê Ouetir , e depois de ter vitoria del- 
le , ao embarcar lhe mataram gente no- 
bre : e do que pajjbu com Lacfamana Ca- 
pitão mor do mar d"Elliey Mahamud. 

PAte Quetir como era homem muito in- 
duítriofo , e fabia que os noffos mui 
poucas couías commettiam á borda da agua 3 
que não levaffem na mão , polo que lhe vi- 
ra fazer na tomada de Malaca , tinha den- 
tro daquelles matos nos lugares , a que el- 
les chamam duções á maneira de noflas quin- 
tas , recolhido luas mulheres , e o mais prin- 
cipal de ília fazenda , e aííi as peíToas no- 
bres , que eftavam com elle. Porque a eíles 
duções eítava elle mui confiado que os nof- 
fos não podiam ir : cá não tinham mais 
largo caminho , do que he huma vereda , 
indo hum homem ante outro , por tudo o 
mais fer mui efpeífo de afpero arvoredo. 
E tanto que houve efta quebra , por fe ti- 
rar da vizinhança de Malaca , por a íua 
povoação (como eferevemos ) fer arrebal- 
de deíía , onde os noiTos podiam ir per ter- 
ra pelejar com elle , e mais os juncos que 
efperava da Jauha com mantimentos , ha- 
viam 



Década II. Liv. IX. Cap. II. 331 

viam logo de fer tomados da noíTa Arma- 
da ; e íòbre tudo geralmente os Mouros 
tem por grande agouro tornar a povoar o 
íítio onde huma vez foram desbaratados : 
foi-fe mais abaixo obra de huma légua con- 
tra o cabo Rachado fazer de novo outra 
fortaleza de madeira dentro em huma en- 
feada , onde havia melhor difpoíiçao , aíH 
pêra fe defender , como pêra recolhimento 
dos juncos, que lhe vieíTem com provimen- 
to. E como ifto determinou , eícreveo a Ei- 
Rey Mahamud , que fora de Malaca , dan- 
do-lhe conta da fortuna que tivera naquel- 
la entrada , que os noííos fizeram na fua 
povoação , e a caufa donde procedera irem 
a elle , e a mudança que fazia de fua vi- 
venda , e as razoes porque : pedindo-lhe , 
pois eíles trabalhos que padecia eram po- 
lo íèrvir , e íuftentar fua opinião , mandaf- 
fe a Lacfamana feu Capitão mor do mar, 
que não fahiííe dos dous eílreitos , o de Sa- 
bam , e o de Cingápura , e ás vezes déííe 
huma viíla no rio de Muar. Porque com 
andar per eíles lugares, fazia duas coufas: 
a huma não vir junco per cada hum daquel- 
les dous eílreitos , que não foíTe tomado 
per elle > pois que traziam a Malaca man- 
timentos , e mercadoria a feus irnigos ; e 
mais os juncos , que elle Patê Quetir efpe- 
rava dajauha, viriam mais feguros deno£* 

fas 



33- ÁSIA de JoXo de Barros 

fas Armadas ; e a outra daria caufa a que 
ellas acudiííem áquella parte , e entretanto 
teria elle tempo pêra fazer íua fortaleza fem 
eftar fempre com a lança na mão , e tam- 
bém podia dar hum falto em Malaca , co- 
mo fe fez na tomada da barcaça com a ar- 
tilheria , fendo a noíTa Armada no rio de 
Muar. Ruy de Brito Patalim Capitão da 
fortaleza de Malaca , porque huma das cou- 
fas em que mais trabalhava era em trazer 
entre eíles imigos peííoas , que foubeííem 
parte de qualquer movimento delles 3 e nef- 
tas intelligencias , e aviíbs gaitava muito , 
veio faber parte defta carta de Patê Quetir ; 
e porém foi a tempo , que tinha elle já fei- 
to a fua fortaleza de madeira no lugar que 
elegeo , que foi acabada em poucos dias 
com a muita gente que tinha. E também 
alguns dos juncos de mantimento que efpe- 
rava da Jauha eram já vindos ; os quaes 
tantos que chegaram , e foram defpejados , 
em quanto lhe não fazia tempo pêra fe tor- 
nar, ordenáram-íe logo pêra fe defender, 
temendo nofía Armada. E porque o lugar 
per onde os noiTos podiam commetter en- 
trar na fortaleza era de vafa , e a tefla do 
lècco da terra foberba a modo de alcanti- 
lada, puzeram os juncos com as popas em 
lècco hum junto do outro de maneira, que 
ficavam hum baluarte com muita artilhem 

que 



Década IL.Liv. IX. Cap. II. 333 

que tinham. Sabendo Ruy de Brito, e Fer- 
não Peres como Patê Quetir já eftava for- 
talecido , e provido de mantimento , e que 
iílo refpondia ao que tinham fabido da car- 
ta que diziam elle ter mandado a EiRey 
Mahamud , houveram que todo o mais del- 
ia era verdade 3 e que fe urdia hum a tea 
trabalhofa pêra desfazer , ou cortar fe fof- 
fe mais avante. Finalmente havido confe- 
lho com todolos Capitães 9 afientáram que 
Fernão Peres foífe commetter aquella for- 
taleza , e trabalhafle por a desfazer : e praze- 
ria a Deos que lhe feria mais leve de to- 
mar , do que foi a outra que lhe queimou , 
com que acabariam de deílruir eíle Jáo 9 
que os inquietava. Partido Fernão Peres com 
todolos Capitães a efte feito , quando vio 
o íltio , e modo como os juncos eftavam 9 
e que commettellos de rofto era couía mui 
perigoíà , afaftou-fe hum pedaço da fron- 
teria delles , e fahio mais a baixo com to- 
da fua gente em hum corpo. Ao encontro 
do qual / depois que foi em terra , (porque 
de induftria ao defembarcar não o quize- 
ram impedir , ) fahíram huns poucos de Jáos 
ao modo de cilada de dentro de hum pal- 
mar 5 os quaes tanto que os noíTos começa- 
ram ferir , foram-fe recolhendo pêra o pal- 
mar , moftrando temor. E como os tiveram 
bem afaílados da ribeira 3 e engodados na 

vi- 



334 ÁSIA de João de Barros 

vitoria, fahio do palmar hum corpo de gen- 
te grofla , e afli apertou com os nolTos 7 
que os fizeram vir recolhendo té que paf- 
íado aquelle primeiro fubito , tornaram a 
ellcs já em modo de vingança , com que 
os fizeram lego recolher delles ao palmar , 
e outros á fortaleza. A qual per o circui- 
to de fóra , além de fer terra alagadiça , e 
retalhada em efteiros á mão , per dentro 
também era feita hum labyrintho com le- 
vadas , cavas , e paliçadas de madeira , per 
onde os Mouros andavam tão leves, coma 
per hum campo mui defpejado , e os nof- 
íòs carregados de armas , fe queriam dar 
hum falto , cahiam no meio da vaia. Fer- 
não Peres , depois que á ponta do ferro 
defpejou hum terreiro da primeira cerca , 
quando entrou na fegunda , onde havia ef- 
tes impedimentos , não quiz metter a gen- 
te naquelle labyrintho, e mandou pôr fo- 
go a hum lanço da fortaleza , e que fe re- 
colheífem , por não vir o fogo , e lhes fa- 
zer algum damno. E andando já o fogo 
ateado nella , e afli em humas lancharas met- 
tidas em hum eíleiro , acertou de fe embar- 
car com Ruy d\Araujo em hum paráo tan- 
ta gente , que não pode nadar, e como a 
maré vafava , ficou envafado na vafa. Os 
Mouros como vinham ladrando trás osnof- 
fos 3 ( por eíle lugar fer alcantilado > ) ven- 
do 



Década II. Liv. IX. Cap. II. 33? 

do de cima como os do paráo eftavam pre- 
zos , começaram de frechar , e alancear nel- 
les , fem perder lança , nem frecha. Fernão 
Peres que eftava mais em baixo já embar- 
cado pêra vir do mar pôr fogo aos juncos 3 
quando vio o que padeciam eftes do paráo , 
mandou remar contra elles 5 bradando aos 
outros paráos , que eftavam pouco carrega- 
dos ? que acudifíem áquelle : chegando os 
quaes , foi tamanha a revolta dos que efta- 
vam no paráo pêra fe paílár a elles , que 
fe mettiam bem pela agua. Ruy d 5 Araújo y 
cujo era o paráo , querendo-le também paf- 
far aos outros , travou-lhe da faia de ma- 
lha que trazia hum tolete do remo , com 
que foi retido pêra fempre : cá nefte defem- 
pecar veio huma lança de arremedo , que 
o matou , e foi caufa de morrerem outros ; 
porque cobraram os Mouros tanto animo 
nefte embaraçar dos noífos , que defcêram 
abaixo , niettendo-fe na agua ás lançadas 
com elles ; na qual revolta morreram eftes 
Capitães , Chriftovão Mafcarenhas , Antó- 
nio d 5 Azevedo , Jorge Garces filho do Se- 
cretario Lourenço Garces , e aflí mataram 
Chriftovão Pacheco , e outros té número 
de doze peíToas. O qual defaftre favoreceo 
tanto a Patê Qiietir , que dahi em diante 
começou de querer per terra commetter a 
tranqueira da Cidade 7 onde eftava Aíronfo 

Pef- 



336 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

Pcflba , ao qual Ruy de Brito per morto 
cie Ruy d' Araújo proveo de Feitor ? por 
os trabalhos que ncíte lugar tinha levado. 
EIRey Mahamud como foube dePateQue- 
tir efta vitoria que houvera ? começou de 
pôr em obra o que lhe elle per fua carta 
mandara pedir, acerca de o favorecer com 
a Armada de Lacfamana per os lugares que 
lhe apontara , o que té então não fizera , 
parecendo-lhe que ficara daquelía feita , que 
Fernão Peres lhe queimou a povoação Upi, 
tão quebrado , que não levantaria mais ca- 
beça. E não pairaram muitos dias depois 
da morte deites noflbs , que Lacfamana não 
veio ao rio de Muar , onde Fernão Pere9 
determinou de o ir bufear : cá pelo que ti- 
nha fabido dos avifos que mandavam a Ruy 
de Brito , fabia fer elle vindo alli pêra fa- 
vorecer a Patê Quetir. Porém Lacfamana 
como era fabedor na guerra , e não queria 
haver rompimento com Fernão Peres de 
batalha de peíTòa a peílba , fomente andar 
ladrando derredor daquelía Cidade , e pol- 
ia em cerco de lhe não virem mantimentos > 
tanto que teve avifo que elle partia de Ma- 
laca , fahio-fe do rio de Muar pêra fe met- 
ter per o eítreito de Cingápura , cá por não 
fer fabido inda dos nofibs ifto lhe faria não 
oufarem de entrar per elle. Mas não fe po- 
de tão preítes acolher ; que Fernão Peres o 

não 



Década II. Liv. IX. Cap. II. 337 

não alcançaífe junto de hum efteiro largo , 
e que entrava muito pola terra , onde fe 
elle Laclamana recolheo , pêra ter favor de 
alguma gente , que havia em terra. E tan-j 
to que foi dentro no lugar melhor difpof- 
to pêra fe defender , varou quaíi em fecco 
todas fuás lancharas , e calaluzes , que fe- 
riam mais de cincoenta peças , todos navios 
fubtis , que demandão pouco fundo á ma- 
neira defuftas, ebargantis, parte dos quaes 
citavam com as proas em terra , e o mais 
na agua , afli juntos em baítida , que pare- 
ciam hum folhado de madeira, que fe po- 
dia andar por cima , todos com fua arti- 
lheria pofta em ordem. E arredados deites, 
mandou pôr algumas lancharas das maiores 
atreveífadas , que emparaílem as outras , e 
dar-lhes furos % com que fe encheram de 
agua , pêra que quando os noífos o vieífem 
demandar , não pudeífem chegar com efta 
defensão. Fernão Peres quando o achou po£* 
to neíla ordem , vendo que lhe não podia 
chegar com as lancharas alagadas , as quaes 
ficaram á maneira de recife de pedras com 
çanaes. retrocidos , pêra os noflbs bateis fe 
atravelfarem , poz-fe com hum navio , e 
huma galé , de que eram Capitães Jorge 
Botelho , e Pêro de Faria , hum pouco de 
largo , temendo que lhe ficaífem em fecco , 
por começar a maré a defcer , e com a mais 
Tom.ILP.iL J Ar- 



338 ÁSIA de J0Á0 de Barros 

Armada , que tudo eram bateis , e outros 
navios de remo dos da terra , chegou-fe ás 
lancharas , que eílavam alagadas. E poílo 
que logo em chegando não as pode paíTar , 
tanto que a maré as começou deícubrir , e 
os noflbs viram per onde podiam andar de 
humas em outras , foram dar com as que 
eílavam por fortaleza ; na chegada dos quaes 
houve tanto tiro de huma , e da outra par- 
te 5 que andava o ar , e o mar coalhado de 
fettas , e frechas. Porque além de Lacfama- 
na trazer comfigo muita gente , a maior 
parte delia Jáos , homens mui atrevidos em 
commetter , e animofos em efperar , da ter- 
ra concorreo alli muita gente ; e poílo que 
fe não metteíTe nas lancharas de Lacfama- 
na , por não poderem caber nelias , era tão 
perto delles aos noílbs, que com as frechas 
hiam frechar a gente dos navios , que eíla- 
vam afaílados. A artilheria dos quaes não 
tirava de fora , temendo que poderiam fa- 
zer damno aos noílbs dos bateis , que an- 
davam envoltos com os imigos , e tão tra- 
vados , que não havia entre elles mais ef- 
paço , que o comprimento de arma , com 
que fe feriam. Peró como a maré era já 
tanta, parte delia vaíla , queeíles noífos que 
pelejavam , temeram que podiam ficar em 
fecco entre as lancharas alagadas, e as da 
terra com que contendiam ; alargáram-fe 

dei- 



Década II. Liv. IX. Cap. II. 339 

delias pêra o mar, trazendo alguns calalu- 
zes dos imigos , que puderam tomar , aos 
quaes puzeram fogo entre as lancharas ala- 
gadas y por íe atear nellas ; mas os Mou- 
ros o apagaram logo , e com efte defpejo 
a noíía artilheria começou a jogar. A qual 
lhe fez tanto damno , que fenão íòbrevie- 
ra a noite 5 muito mais houvera de lavrar 
nelles do que lavrou o ferro dos noílbs 
em efpaço de três horas , que mão por mão 
pelejaram com elles ; poíío que a peleja foi 
tao crua , que houve dos noíTos muitos fe- 
ridos. Laciamana , poíío que também teve 
feridos , e mortos , todo feu cuidado daqueí- 
la noite foi ordenar-fe como poderia efca- 
par de não pelejar outra vez ; porque nas 
três horas da peleja daquelle dia paflado 
experimentou que vinda a manhã , tornan- 
do Fernão Peres a commettello , não lhe 
ficaria homem vivo , vendo que tanto dam- 
no lhe fazia o animo dos noíTos em com- 
metter , como dos feus Jáos em efperar , 
ofFerecendo-fe á morte como falvagens por 
fe vingar. Finalmente com a muita gente 
que tinha , aqueíla noite aííl os navios ala- 
gados 5 como por alagar, elle os varou to- 
dos em terra ; e diante delles com madei- 
ra , e terra fez hum repairo tão forte, 
como o pudera fazer muito de vagar em 
três ,, ou quatro dias. Fernão Peres per fua 
X ii par- 



34o ÁSIA de João de Barros 

parte também curados os feridos , á manei- 
ra de pefcador que atravefla o rio com íua 
rede , por não perder o peixe que corre , 
com todolos navios que tinha de terra a 
terra atraveíTou todo o rio , temendo que 
Lacfamana aquella noite não fe lhe foííe 
pêra fora. Porém quando amanheceo , que 
elle vio a maneira da força que elle Lacfa- 
mana tinha feita , ficou eípantado , e teve-o 
por homem de grande efpirito , e induftrià : 
cá não fomente fez coufa que havia miíler 
muita gente , c munições pêra a commet- 
ter ; mas ainda foi tão caladamente, que 
de o não fentirem cuidava elle Fernão Pe- 
res que fugira pelo rio ailima com parte 
da frota. E o que ainda lhe deo prefum- 
ção deíla ida foi , porque ante manhã aca- 
bada a obra , como quem repicava em fal- 
vo , mandou Lacfamana tanger todolos feus 
íinos , que são de metal ao modo de ba- 
cias grandes, e delias taes, que o feu tom 
quando são muitas em huma frota , fe ou- 
vem no mar huma légua. A qual alvorada 
Fernão Peres cuidou que dava a gente da 
terra áquelle tempo per induftrià delle mef- 
mo Lacfamana , porque cuidaífem os nof- 
fos eftar elle alli , e que de feguros diffo 
não o iriam commetter fenão manhã clara , 
e elle com ifto teria mais tempo pêra remar 
pelo rio acima* Vendo Fernão Peres o mo- 
do 



Década II. Liv. IX. Cap. II. 341 

do que efte Capitão teve no recolher-fe na- 
quelle rio , furtando a volta a Jorge Bote- 
lho , que cuidava que quando entrou pri- 
meiro nelle , lhe tomava adiante > pêra fe 
não poder acolher per elle affima , e aíli a 
induftria tão incontinente que teve no alar- 
gar das fuás lancharas por lhe não chega- 
rem , e o que fez aquella noite , teve con- 
felho com os Capitães , e aíTentáram não 
fer a força que elle tinha feito coufa pêra 
commetter., por não terem gente, nem mu- 
nições pêra iiTo , e que aventuravam per- 
derem-íe todos a e mais quantos ficavam em 
Malaca , pois a vida dos que lá eftavam 
pendia da defensão delles , fazendo conta 
de o tornar a bufcar apercebidos de outra 
maneira , pêra o commetterem em qualquer 
parte que fe recolhefle : com a qual deter- 
minação por efpedida mandou Fernão Pe- 
res esbombardear-lhe os navios per todo 
aquelle dia , e de noite partio-fe pêra Ma- 
laca onde chegou. 



CA. 



342 ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO III. 

De algumas coufas que Fernão Veres 
fez , e pajjòu : e da grande fome que hou- 
ve em toda a terra : e como com o foccor- 
ro que Àjfonfo d? Alboquerque mandou da 
Índia , Fernão Feres deftruio Patê Que* 
tir y o qual fugi o pêra a Jau ha. 

PEra os nofibs não ficarem magoados , 
e meio injuriados de leixarem aquelle 
imigo fem maior caftigo , e mais gloriofo 
polo não commetterem naquella força que 
fez , permittio Deos que achaiTem em Ma- 
laca três navios , que eram vindos da índia 
com toda a munição , e provimento necef- 
fario áquella fortaleza , e com cento e cin- 
coenta homens , dos quaes navios eram Ca- 
pitães Francifco de Mello , Jorge de Bri- 
to , e Martim Guedes. O qual foccorro que 
AíFonfo d 5 Alboquerque mandava , animou 
tanto a todos, que fe pudera ferlogo aquel- 
le dia , os que vinham com Fernão Peres 
quizeram tornar , pêra cumprir o que aiTen- 
táram com elle de tornarem mais providos 
do que hiam pêra caftigar aquelle Mouro 
que ficava foberbo. Porém como Patê Qiie- 
tir naquelle tempo o andava mais poios nof- 
fos Capitães , que morreram na fua povoa- 
ção j e tanto que Fernão Peres partio em 

buA 



Década II. Liv. IX. Cap. IIL 343 

bufca de Lacfamana 5 não fomente mandou 
per terra dar rebate de noite na tranqueira 
de Affonfo Peflba , mas ainda com baiões, 
que são barcos fubtis , mandava entrar os 
eíteiros , que cercam a povoação da Cidade 
daquella parte , a pôr fogo , e prear qualquer 
peííoa que podiam haver á mão : quiz Ruy 
de Brito Patalim , primeiro que Fernão Pe- 
res tornar-fe em bufca de Lacfamana , ter ge- 
ral confeiho i que coufa convinha mais fa- 
zer-fe por então , conformando-fe também 
com as cartas que Affonfo d'Alboquerque 
efcrevia da índia, A fubftancia das quaes 
era j que em nenhuma outra coufa entendef- 
fem , fenão em fegurar a fortaleza daquella 
Cidade ; e que em quanto podia correr pe- 
rigo de per alguma maneira poder fer to- 
mada , ou a povoação da Cidade de a quei- 
marem , ou deftruirem de maneira , que os 
moradores a defpovoaífem , e fe foífem vi- 
ver a outra parte , per nenhuma neceífidade 
o Capitão mor do mar Fernão Peres fe apar- 
taífe delia. E que pêra ir aos eftreitos de 
Sabam , e Cingapura em favor das ndos , 
que coftumavam vir á Cidade com merca- 
dorias , e alíi contra Lacfamana Capitão mor 
d'ElRey Mahamud 5 ou a outra qualquer 
neceífidade ? elle mandava aquelles três Ca- 
pitães , e gente , e mais OfEciaes pêra cor- 
rigerem quaefquer navios ., e fazerem féis 

ga- 



344 ÁSIA de JoÃo de Barros 

galés , a qual Armada fe podia repartir em 
duas partes , huma pêra ficar em guarda da 
Cidade , e a outra parte pêra acudir ao de 
fora. Aíli que havendo refpeito a eílas cou- 
fas , por alguns dias não fe entendeo em ou- 
tra íenão em repairar os navios que tinham 
neceílidade de corrigimento , e concertarem- 
íh alguns navios da terra que fuppríram em 
quanto não havia galés. No meio do qual 
tempo alTi por caufa da gente que veio da 
índia , como por não virem os juncos da 
Jauha , que fó hiam trazer mantimentos á 
Cidade , os quaes Lacfamana tomava no 
caminho ? começou ella de fe ver em tama- 
nha neceílidade delles , que vieram os nof- 
fos a não comer mais que huma vez no 
dia , e ifto muito pouca quantidade de ar- 
roz cozido em agua , fem mais outra coufa. 
E entre os Mouros , e gente da terra era 
tamanha , que a gente pobre fe achava mor- 
ta pelas ruas , e os mais delles fenão mor- 
riam a fome , eram mortos per as tigres do 
mato , onde efta pobre gente hia buícar al- 
guma fruta agrefte , e tallos de hervas pêra 
comer , a qual neceílidade também Patê Qiie- 
tir padecia em íua povoação. Finalmente em 
todos era tão grande fome , que ella veio 
fazer trégua ante dle \ e os noflbs de ma- 
neira , que cada hum andava mais oceupa- 
do em bufear de comer ; que pelejar $ e o 

que 



Década II. Liv. IX. Cap. III. 345* 

quecaufou também efta neceílídade foi por 
não ferem os mezes de monção , e tempo 
pêra os irem bufcar á Jauha 5 porque toda 
a terra vizinha de Malaca, e ella de lá fe 
mantém. Vindo efte tempo que podiam fa- 
hir , aífentou Ruy de Briro com Fernão Pe- 
res que repartiífe a Armada que tinha em 
duas partes , a dos maiores navios ficafle 
em guarda da Cidade 5 fegundo AfFonfo 
d'Alboquerque efcrevia , e a outra de na- 
vios de remo levaíle eIJe , e foífe fora do 
eftreito de Cingapura em bufca de alguns 
juncos de mantimentos , por fer o tempo 
que fe elles navegam da Jauha. Aífentada 
efta ida , partio Fernão Peres com dez , ou 
doze navios dos redondos , Capitães Jorge 
Botelho, eMartim Guedes, e Pêro de Fa- 
ria na fua galé , e os outros eram navios 
de remo da terra , levando comfigo o Ta- 
mungo da Cidade , que era hum Mouro 
principal , homem fiel , e que por tal lhe 
dera Affonfo d'Alboquerque aqueile officio 
de Tamungo , que he quaíi como patrão 
da ribeira. Porque como era homem que fa- 
bia bem a navegação daquelia parte , e Fer- 
não Peres havia de entrar pelo eftreito de 
Cingapura , que não era mui. navegado , 
convinha-dhe quem o ievafle per lugar fem 
perigo : ca efte eftreito o he tanto , que em 
parte as entenas da náo vam dando pelas ra- 
mas 



346 ÁSIA de JoÃo de Barros 

mas do arvoredo , que eílá ao longo da 
agua. E em verdade efte lugar a que elles 
chamam eílreito he mais efteiro , que corta 
huma ponta de terra daquella parte de Ma- 
laca , que algum eílreito notável ; e o ou- 
tro deSabam, que vai ao longo da Ilha Ça- 
matra , he muito maior , e por iflb mais 
navegado. E ante que Fernão Peres chcgaf- 
fe a outro , indo per hum canal , que vai 
dar no de Sabam , como Pêro de Faria hia 
diante na íiia galé , foi dar com hum junco 
grande que eítava furto > o qual entreteve 
ás bombardadas té chegar toda a frota , com 
que fe elle rendeo. Entrado eíle junco , fou- 
be Fernão Peres do Capitão delle que hia 
pêra Patê Qiietir carregado de mantimen- 
to , armas , e munições ; e porém não fou- 
be então como vinha alli hum filho de Pa- 
tê Quetir 5 e que elle fizera que fe rendef- 
fe ; e a caufa foi , porque efperava de fe 
falvar per manha , vendo que o não podia 
fazer per armas. Fernão Peres como tinha 
a preza que defejava , que eram mantimen- 
tos, e mais tomados a feu imigo , quiz lo- 
go feguraílos ; porque como fabia que os 
Jáos tem por coftume , quando fe vem to- 
mados, alagam parte danáo, pornaocahir 
neíle perigo , veio a cahir em outro maior , 
com que houvera de perder a vida. E foi 
que baldeados os mantimentos em o navio 

de 



Década II. Liv. IX- Cap. III. 347 

de Martim Guedes , em que elle eítava , e 
no de Jorge Botelho , recolheo comfigo o 
Capitão , e principaes peííbas que andavam 
no junco , a que mandou tomar armas 5 e 
permittio que andaíTem foltos pelo navio. 
Os Jáos como he gente defefperada , e que 
não temem que os matem , depois que com- 
mettem o crime , queelles deíejam commet- 
ter 5 com crifes pequenos , armas á maneira 
de noffas adagas , que lhes ficarem fecretas , 
determinaram de matar quantos pudeíTem 
em o navio , e primeiro que todos o Ca- 
pitão. Hum dos quaes a que era commet- 
tido efte feito em começar nelle, não efpe- 
rou mais que velío apartado da gente ; e 
eftando Fernão Peres encoílado ao propáo 
do navio , per detrás deo-lhe com o cris 
pelas coitas : peró quando veio a fegunda , 
que Fernão Peres teve tempo de fe re (guar- 
dar delle , acudio gente não fomente febre 
efte , mas fobre os outros que começavam 
per o navio de fazer fua obra. Finalmente 
íem fazerem mais damno foram prezos huns 
delles , e os outros fe lançaram a nado , e 
íalváram-íe em terra , por fer perto delia. 
Acabado efte alvoroço , e Fernão Peres cu- 
rado , mandou metter a tormento o Capi- 
tão do junco, que ficou tomado com os ou- 
tros , que fenao puderam falvar a nado, e 
fez-lhe perguntas com que fundamento com- 

met- 



348 ÁSIA de J0X0 de Barros 

mettiam aquelle feito , e fe eram da Jauha 
partidos mais juncos em favor dePateQiie- 
tir 3 e outras coufas que convinham pêra 
iiia informação. O qual refpondeo , que íeu 
fundamento era a natureza dos Jáos matar 
quem os cativa , ou a peííoa de que rece- 
bem mal ; e quanto a fe eram partidos jun- 
cos da Jauha 3 em fua companhia vieram 
três , os quaes ficavam no efíreito de Cin- 
gapura, donde não haviam de partir té ve- 
rem recado feu , porque elle vinha diante 
em maneira de deícubridor , temendo po- 
dello topar , e que entre aquelies tomados 
eftava hum filho de Patê Quetir. Fernão Pe- 
res tanto que teve efta informação , man- 
dou arrecadar eíles cativos , e partio-fe com 
aquella preza pêra Malaca , e dahi mandou 
Jorge Botelho , e Lopo d'Azevedo em feus 
navios bufear os juncos onde lhe diífera o 
Capitão Jáo , os quaes elles tomaram leve- 
mente , e trouxeram á Cidade. E nefte mef- 
mo tempo chegou de Pegu outro junco de 
mantimentos , no qual vinha Gomes da Cu- 
nha , que Aífbnfo d'Alboquerque lá enviou 
aíTentar paz com o Rev da terra , notifican- 
do-lhe a tomada de Malaca , e que fegura- 
mente podia mandar feus juncos , e vaflal- 
los a ella pêra o negocio do commercio, 
como fempre fizeram. E porque com a to- 
mada deltas juncos , que vinham pêra Patê 

Que- 



Década II. Liv. IX. Cap. III. 349 

Quetir ella ficou mui quebrado , e com mui- 
ta dor por caufa do filho que lhe cativa- 
ram 5 (pofto que dahi a poucos dias o man- 
cebo fugio da prizao , e fe foi pêra eíle , ) 
e os noífos ficaram com as forças reftitui- 
das da fome paíTada, aíTentou-íe em confe- 
lho entre todolos Capitães , que ante de Pa- 
tê Quetir fe prover 5 deííem lbbre elle , por- 
que com elle deftruido perderia EIRey Ma- 
hamud a efperança que tinha de cobrar Ma- 
laca com fua ajuda , e Lacfamana não vi- 
ria dar os rebates que dava. Partido Fer- 
não Peres com toda a fua frota , e a mais 
gente que pode levar , e outra per terra pe- 
la maneira que Affoníò PeíToa foi duas ve- 
zes , deo-lhe Deos tal vitoria que mataram 
muita gente a Patê Quetir , e queimáram- 
lhe aquella força , e olle acolheo-fe ao ma- 
to com mui poucos , e defta feita ficou tão 
deftruido , e quebrado no animo , que não 
oufando efperar alli mais , em dous juncos 
que alli eftavam da Jauha , fe partio pêra 
lá com determinação de nãò tornar mais a 
Malaca , e no modo de fua partida teve tan- 
to fegredo , e aftucia , que havia três dias que 
era partido fem fe faber em Malaca. E pa- 
recendo-lhe a Fernão Peres que o podia al- 
cançar 5 foi trás elle té vazar fora do eftreito 
de Sabam , per onde elle havia de fazer feu 
caminho P e em lugar delle topou com Lacfa- 

ma- 



3^0 ÁSIA de JoÁo de Barros 

mana , que andava alli efperando os juncos , 
que vinham per Malaca : peró não houve 
entre elles peleja , pofto que Fernão Peres 
o íeguio huma tarde toda , peró que com 
a vinda da noite Lacfamana eícapulio per 
entre aquellas Ilhas íem mais delle haverem 
viíla. Vendo Fernão Peres que andar lá 
mais dias era tempo perdido , e mais go- 
vernando pela pilotagem dos Mouros da 
terra , porque ainda os no fios Pilotos não 
tinham navegado daquellc eítreito por dian- 
te , tornou-íe pêra Malaca 5 onde achou 
quem lhe contou daquella navegação, que 
foi António d 5 Abreu , que Affoníò d'Albo- 
querque tinha mandado ás Ilhas de Maluco, 
(como eferevemos.) Da viagem do qual , e 
do que clíe , e Francifco Serrão , que hia 
em lua companhia paliaram , adiante fare- 
mos relação , quando começarmos a tratar 
em o deicubrimento das Ilhas de Maluco , 
onde elles eram enviados. E fegundo o 
tempo cm que eíle António d' Abreu veio , 
que foi andando Lacfamana atraveífando os 
mares per fora das bocas daquelles dous 
eftreitos , Cingapura , e Sabam , e afli fer 
partido Patê Quetir pêra a Jauha , pelo 
qual caminho elle António d' Abreu vinha , 
foi grão dita não o toparem , e muito 
maior partir-fe naquelle mefmo tempo Patê 
Quetir; porque fe dilatara fua partida vinte 

dias > 



Dec. II. Liv. IX. Cap. III. e IV. 35-J. 

dias , fe Deos milagrofamente não defende- 
ra Malaca 3 houvera- fe de perder , polo que 
íuccedeo com huma groiTa Armada que veio 
da Jauha, como fe verá no feguinte Capi- 
tulo. 

CAPITULO IV. 

Em que fe defcreve a Ilha Jauha : e como 

hum Príncipe delia chamado Patê Unuz 

fez huma mui grojfa Armada pêra vir 

fobre Malaca : e o que os nojfos 

fobre iffo fizeram. 

A Terra Jauha he huma Ilha , que eftá 
ao Oriente de Çamatra , tão vizinha 
a ella que entre ambas fica hum eftreito , 
que fera de largura té quinze léguas. O lan- 
çamento defta Ilha Jauha he quafi pelo ru- 
mo de Levante , e Ponente ; tem a primeira 
ponta Occidental em altura de féis gráos 
do pólo do Sul, e em fete e meio a outra 
Oriental, eaqui faz outro boqueirão, por- 
que fe vam continuando a eíla primeira hu- 
ma corda delias grandes , e per grande ef- 
paço contra o Oriente. Terá de compri- 
mento efta Ilha Jauha cento e noventa lé- 
guas , e da largura não temos certa noti- 
cia , por aquella face do Sul não fer ainda 
por nós navegada; eíègundo fama dos na- 
turaes , toda a cofta daquella parte por ra- 
zão do grande golfão do mar do Sul , he 

de 



35*2 ÁSIA de JoÁo de Barros 

de poucos portos , e eítes que habitam a 
parte do Norte , não fe communicam com 
o Gentio daquella cofta : cá per meio da 
Ilha 20 comprimento delia corre huma cor- 
da de ferránia que os impede , e todavia 
dizem que a largura deita Ilha fera o terço 
de feu comprimento. Geralmente he povoa- 
da de povo idólatra , a que chamam Jáos 
do nome da terra , gente da mais policia 
daqucllas partes , a que fegundo elles di- 
zem veio alli povoar da China ; e parece 
dizerem verdade , porque no parecer , e no 
modo de fua policia imitam muito aosChijs, 



c 



aííi tem Cidades cercadas, e andam a ca- 



vallo , e tratam o governo da terra como 
elles. Porém depois que Mouros de Mala- 
ca navegaram a elía , de mercadores pou- 
co , e pouco fe fizeram conquiftadores , to- 
mando poífe das Cidades portos de mar, 
com o que o Gentio ficou fem navegação ; 
e por caufa da guerra que lhe os Mouros 
faziam, começaram de fe recolher pêra den- 
tro da terra ao pé da ferra , que diflemos. 
E entre alguns Mouros da mefma linha- 
gem dos Jáos , ( porque per doutrina dos 
Malayos fe converteram muitos Jáos,) ao 
tempo que nós tomámos Malaca , era o 
principal Senhor da Cidade Japára hum per 
nome Patê Unuz , o qual depois fe fez Rey 
da Çunda , como veremos adiante. Efte co- 
mo 



Década II. Liv. IX. Cap. IV. 35-3 

mo era homem poderoío , e aparentado , 
e que per modo de coíTairo fe tinha feito 
fenhor da terra , tomou penfamento de vir 
fobre a Cidade Malaca , vendo que a maior 
parte dos moradores delia eram Jáos , em 
os quaes elle havia de ter muito favor. Fi- 
nalmente com efte penfamento começou de 
mandar fazer hum junco , que feria em car- 
ga do tamanho de huma das noífas náos 
de quinhentos toneis , ao qual mandou lan- 
çar outro cofiado , e fobre efte outros té 
número de fete , com hum certo betume de 
cal , e azeite entre coitado , e cortado , a 
que elles chamam lapes , com que o junco 
ficou de três palmos de groíTura de manei- 
ra , que em qualquer parte que o puzeíferri 
podia fervir de hum forte baluarte. Fazen- 
do elle Patê Unuz fundamento , que quando 
na primeira chegada , com a muita gente que 
efperava levar , não pudeííe tomar a Cida- 
de , com efte junco em modo de fortaleza 
fe leixaria eílar fobre ella defendendo não 
entrar , nem fahir coufa alguma , com que 
a tomaria á fome ; e além defte junco fez 
outros navios , na qual obra fe deteve fete 
annos. E quando foube que Affonfo d'Al- 
boquerque com menos Armada ? e gente 
do que elle efperava levar , tomara a Cida- 
de , cobrou maior animo , concebendo e£ 
perança de nos lançar fora ? porque osmef- 
Tom. II. P.iL Z mos 



35*4 ÁSIA de JoXo de Barros 

mos Malayos cm ódio noflb feriam em fua 
ajuda. E porque já com efta cor de nos 
lançar de Malaca , podia encubrir feu prin- 
cipal intento , começou de ter algumas in- 
telligencias com os principaes Jáos que vi- 
viam em Malaca , principalmente com Uti- 
mutirája em quanto viveo , e depois com 
Patê Quetir , e Çuria Deva , que eram os 
mais poderoíbs , os quaes liberalmente lhe 
fizeram offerta de fuás pefíbas , c o feito 
mui leve de acabar , apreífando-o muito 
que vieflb/a elle. Finalmente elle fe fez pref- 
tes com noventa velas , de que a maior par- 
te eram navios pequenos de remo de toda 
forte, e os mais juncos, em que entravam 
além deite notável que diííemos , outros mui 
grandes, affi como hum cm que vinha hum 
Jáo mui poderofo Senhor da Cidade Polim- 
bam , que era a fegunda peííoa deita Ar- 
mada , ao qual chamavam Timungam. E 
em outro junco vinha hum feu fobrinho 5 
que por ler homem de fua peífoa era temi- 
do naquellas partes, e aííi outros Jáos prin- 
cipaes , trazendo todos voz que nos vinham 
lançar da terra , fem algum delles faber a 
tenção de Patê Unuz , fendo elles convoca- 
dos per elle com a voz que todos traziam , 
na qual Armada, (íegundo fama ,) viriam 
doze mil homens , com muita artilheria fei- 
ta najauha, por ferem grandes homens de 

fua- 



Década IL Lxy. IX. Caf. IV. 357 

fundição , e de todo lavramento de ferro i 
e outra que houveram da índia. A nova 
da vinda deite Patê Unuz , poíto que fe 
encubrio muito tempo aos noflòs , foi fabi- 
da em Malaca na entrada de Janeiro do 
anno de quinhentos e treze , a tempo que 
Fernão Peres eftava de todo preítes pêra fe 
partir pêra a índia com as três náos carre- 
gadas da Armada de Diogo Mendes de 
Vafconcellos , que por ferem de armadores, 
per ordenança de Affonfo d'Alboquerque , 
( como atrás fica , ) haviam de vir a efte 
Reyno com carga de eípeeiaria. Sobre o 
qual cafo , fem ter mais noticia do número , 
e poder das náos , fomente por lhe certifi- 
carem alguns mercadores que tinham nova 
da vinda deite Jáo em ajuda de Patê Que- 
tir , Ruy de Brito , e Fernão Peres com 
todolos Capitães emconfelho aíTentáram fer 
ferviço d'ElRey ir Fernão Peres com toda 
a Armada efperallo ao eítreito de Sabam , 
onde fe podia melhor ajudar delle. Partido 
Fernão Peres a efte cafo , não achou em 
todo o eítreito nova ? nem noticia de tal 
Armada ; e porque os noffos fempre anda- 
vam fufpeitos com as novas que davam os 
Mouros , por as mais vezes ferem falfas , 
tornou-fe Fernão Peres a Malaca acabar de 
fe aperceber pêra a índia. E havendo cin- 
co } ou feis dias que elle era vindo daquelle 

Z ii ef~ 



35^ ÁSIA de João de Barros 

eftreito , tendo já fora toda a artilheria que 
levava da fortaleza , e eftando quafi de to- 
do carregado , e de verga d'alto peia fa- 
zer íua viagem , eis-aqui apparece contra o 
Cabo Rachado , que he de Malaca obra 
de três léguas contra a índia , todo o mar 
coalhado de velas da Armada dePateUnuz. 
O qual de induftria por dar de fubito fobre 
n Cidade , tanto que paflbu o eílrcito de 
Sabam , foi-fe cozendo com a terra de Ca- 
ri , que efti defronte de Malaca, met- 
tendo- fe per entre as Ilhas por fe encubrir, 
té que veio fahir por o rio chamado Cya- 
ca , e dal li atra vedou a terra de Malaca 3 
edefeahindo com as aguas, vinha demandar 
a Cidade per aquella parte por fegurar os 
roíTos : cá fe folie vifto cuidariam que eram 
velas da índia , q r ie ficava daquella parte 
do Ponente , onde elle apparecia , e não da 
Jauha , que jaz ao Levante de Malaca. Vif- 
ta tão grande frota, entenderam os nolíos 
fer Patê Unuz , e logo em continente tive- 
ram os Capitães confelho , rio qual entre 
Ruy de Brito Capitão da fortaleza , e Fer- 
não Peres houve algumas palavras , dizendo 
Fernão Peres a Ruy de Brito , que fe que- 
ria metter na noífa Armada como peífoa 
principal, que elle fe foífe a fua fortaleza, 
de que tinha dado menage , e leixaífe a elle 
ufar de feu officio de Capitão mor do mar. 

To- 



Década II. Liv. IX. Cap, IV. 357 

Todavia naquelle primeiro confelho , como 
quem acode a hum fogo geral , porque o 
tempo não dava lugar a mais , rodos fe ar- 
maram , e mettêram em os navios , Ruy 
de Brito em a galé de Pêro de Faria , e 
Fernão Peres n-a ília náo , leixando em guar- 
da da fortaleza Aires Pereira Alcaide mor 
delia, Pêro Peííba Feitor, e António d'A- 
breu por- doente , que havia poucos dias 
que viera de defcubrir Maluco , e com cl- 
les té vinte homens. Seriam as veias que fe 
aperceberam contra Patê Unuz dezeíete , de 
que eram Capitães Fernão Peres , João Lo- 
pes d'Alvim , Lopo d' Azevedo , Franciíco 
de Mello , Jorge de Briro , Joannes Impo- 
la fenhorio da náo em que hia , Jorge Bo- 
telho , Manim Guedes , Vaíco Fernandes 
Coutinho , Chriíiovâo Mafcarenhas , e< Pê- 
ro de Faria , com quem fe metteo Ruy de 
Brito , e Tuam Mahamed Tamungo de Ma- 
laca , homem fiei ., e cayalleiro em hum 
junco da China feu , na quaá frota iricim té 
trezentos e cincoenta Portuguezes , e alguns 
naturaes da terra homens havidos por fieis. 
Partida eíla frota contra onde vinha Patê 
Unuz , metteo-íb hum pouco ao mar por 
lhe darem a elle a parte da terra , por ve- 
rem que fe cozia com eila , corno quem 
não queria perder aquella poífe , levando 
ante fi abrigados da noífa frota todolcs na- 
vios 



^S ÁSIA de João de Barkos 

vios miúdos. Porém como vio o navio de 
Jorge Botelho , que por íer pequeno , e ve- 
leiro fe adiantou das outras velas , eípedio 
de íi obra de vinte navios de remo , que 
lho vieíTem tomar ; mas ellcs acharam tal 
falva nelle , que fe tornaram a recolher , com 
o qual temor Jorge Botelho cobrou mais 
animo de fe chegar a elles té vir a tiro dos 
juncos mais principaes. Na eíteira do qual 
por fe remar bem , foi a galé de Pêro cie 
Faria , e aífi fervíram ambos com artilheria 
ao junco de Patê Unuz , que começou elle 
de fe abrigar com os juncos que levava jun- 
to de fi , té que chegou o corpo da noífa 
Armada, que fez maravilhas nelles , não fo- 
mente com os pelouros , mas ainda com as 
rachas da madeira que faziam nos juncos , 
que- matou muita gente ; fem em todo cfte 
tempo Patê Unuz tirar , fomente levar fua 
Armada como hum efquadrão cerrado ao 
longo da terra , té que cm fe cerrando a 
noite tomou o poufo defronte da povoação 
Upi , e parte ao longo da Cidade , como 
quem queria ter communicação com ella , 
e os noíTos foram tomar o feu defronte da 
fortaleza* 



CA^ 



Década II. Livro IX. 35*9 

CAPITULO V. 

Como PateUnuz não oufanão commetter a 

nojja Armada , nem menos fahir em ter-* 

ra y por confelho que teve , fe par tio : 

e Fernão Peres foi trás elle > 

e o desbaratou. 

Ainda que a noite , aos que per armas 
contendem de dia , he hum grande 
remédio pêra tomar fôlego do trabalho pai- 
fado , cada huma deitas frotas teve aquella 
noite tanto que fazer em fe aconfelhar, e 
prover, que não houve algum homem de 
armas que a dormiífe , quanto mais os Ca- 
pitães , e peííoas notáveis , de quem depen- 
dia a conclusão do que fe havia de fazer. 
E entre os noíTos houve ainda maior tra- 
balho , que acerca dos imigos : cá eftcs tra- 
tavam como fe haveriam naquelle cafo , e 
elles tinham contenda de paixões de jurdi- 
çao 5 donde foram as palavras de Fernão 
Peres com Ruy de Brito Patalim , o qual 
aquella noite com todolos Capitães em a 
galé de Pêro de Faria teve confelho , fem 
Fernão Peres querer ir a elle. No qual con- 
felho , podo que houve muitos , e dirFeren- 
tes pareceres, todavia fe refumíram neíle: 
que Fernão Peres devia mandar pêra a ín- 
dia as náos de armadores > que eíiavam car- 
ro- 



360 ÁSIA de J0X0 de Barros 

regadas de efpeciaria a pedir íòccorro , c 
que neíte tempo podiam fofter-fe em cerco ; 
porque ainda que aqnelle jáo nao fizeíTe 
mais que tellos cercados , mais rifco cor- 
riam por cauía dos mantimentos haver na 
fortaleza muita gente , que pouca. E que 
com navios pequenos que ficaflem , Fernão 
Peres fe devia pôr na boca do rio pegado 
na ponte ; por as lancharas dos imigos nao 
foliem pelo rio acima a poiar gente cm ter- 
ra , pêra vir cercar a fortaleza , e a com- 
baterem : e que elle com o abrigo da pon- 
te , onde íe faria huma tranqueira , ficava 
lèguro , fe o vieflem commetter ; e quando 
não pudefle fullentar a força dos imigos, 
ficava-lhe lugar pêra fe acolher á fortaleza. 
Da qual determinação fe fez hum Auto a£ 
finado per todos em modo de requerimen- 
to , que Ruy de Brito per hum Efcrivao 
mandou a Fernão Peres : a tanto chegam 
as paixões de competência emcafos de hon- 
ra entre Portuguezes , que quando os ou- 
tros fe eftam armando , eftam elles em re- 
querimentos , e .proteftos de papel 5 e tinta, 
Fernão Peres a efte de Ruy de Brito re- 
fpondeo , que elle tinha dito o dia d 5 antes 
fobre aqnelle cafo o que efperava fazer com 
aqucila Armada, de que era Capitão mor, 
que era pelejar com aquellejáo : e elle Ruy 
de Brito devia eítar em a fortaleza, de que 

de- 



Década II. Liv. IX. Cap. V. 361 

dera menage , e defender-fe com a gente , 
que pêra eíía Jhe fora ordenada, fe osjáos 
a quizeíTem combater. E que deíle feu vo- 
to fer o principal , que convinha a eftado 
d'ElRcy, e honra de quantos alli eílavam 
em feu ferviço , elie tomara já experiência 
a tarde paliada no modo da vinda da Ar- 
mada dos imigos , em que entendeo que 
Patê Unuz mais conta fazia de tomar a ter- 
ra, e de fe ajudar do favor dos da Cida- 
de , que de pelejar no mar , por iífo elíe 
efperava em Deos de o lançar dálli , e fua 
determinação era dar nelle em rompendo 
a Lua. Ruy de Brito quando vio efta re- 
fpoíta de Fernão Peres , em que também fe 
aílináram alguns Capitães da fuá Armada, 
que com elle eílavam , confirmando o oue 
elle dizia , ordenou em terra ^aquella noite 
quanto fe pode fazer. Huma das quaes cou-, 
fas foi , mandar derribar da ponte do rio , 
per que fe paliava da povoação dos Mou- 
ros a fortaleza , a maior parte dos páos que 
puderam , e alguns ficaram dependurados , 
pêra as lancharas dos imigos , ainda que 
quizeíTem ir pelo rio affima , o não pudeC- 
fem fazer : e affi fez huma tranqueira no 
fim da ponte da parte da fortaleza , porque 
os Mouros não pudeíTem vir a ella , temen- 
do que fe Patê Unuz tomaíTe a Cidade, 
todos fe haviam de ajuntar com elle. Fer- 
não 



*6z ÁSIA de João de Barros 

não Peres também não pêra fe defender f 
mas commetter os imigos , toda a noite gai- 
tou em ordenar artifícios de fogo , e dar 
ordem aos Capitães como fe haviam de 
haver no commettimento daquelie feito. To- 
mando por conclusão , que tanto que rom- 
pefle alva , dar fobre os navios pequenos , 
que Ikz ficavam mais vizinhos , e lançaram- 
lhe dentro huma chuva de panellas de pól- 
vora , bombas , e rocas de fogo pêra os 
queimar ; porque como eftavam apinhoa- 
dos , primeiro que fe apartaíTcm huns dos 
outros haviam de arder muitos. E leixan- 
do efies em poder do fogo > e em favor 
delie 03 feus navios pequenos , que com a 
artiíheria defatinaíTem os Jáos , pêra o não 
poderem apagar, com as outras velas gran- 
des iria elle demandar os principaes juncos 5 
onde defpenderiam quanta pólvora tiveííem , 
k e per derradeiro os iriam abalroar , e o 
mais o tempo daria confelho , e Deos teria 
cuidado deiles , pois confeíTavam o feu no- 
me. E porque temeo que os imigos de noi- 
te os vieflem commetter, além da vigia que 
cilt Fernão Peres encommendou aos Capi- 
tães , mandou-lhes que eftiveflem todos com 
as ancoras a pique a volta de cabreftante , 
porque não os tomaííem prezos nellas. Pa- 
tê Unufc também onde eílava teve feu con- 
felho não fomente com os Capitães que 

tra- 



Década II. Liv. IX. Cap. V. 363 

trazia , mas com alguns Jáos da Cidade , 
de^mie logo foi vifitado, que eram,aquel- 
]es , com que tinha prática fobre fiia vin- 
da , o principal dos quaes era Çuria Deva. 
E pofto que eíles o animaram muito pêra 
aquelle feito a que vinha , quando foube 
delles como Patê Querir era partido pêra 
a Jauha , e o modo como foi desbaratado , 
ficou mui trifte, econfufo, porque no con- 
felho delle tinha pofto grande parte de fua 
cíperança , e como homem novo na terra 
achou-íe manco de todo. E- tinha elle nif- 
to razão , porque Patê Quetir era cavallei- 
ro , e homem aftuciofo , coftumado a foífrer 
noíías armas ; e fem dúvida fe elle não fo- 
ra ido , ou Patê Unuz o topara no cami- 
nho , tornando com elle , muito mal nos hou- 
vera de fazer. Mas permittio Deos fua ida , 
e que fe não encontrafíe com elle , por li- 
vrar os noílbs de tanto perigo , e mais fer 
caufa delle Patê Unuz fazer o que fez , com 
que Fernão Peres houve delle vitoria per 
modo não cuidado. E o que também cau- 
fou a Patê Uunz temor foi o grande dam- 
no que recebeo no feu junco , que elle cui- 
dava fer huma rocha , e que não havia ar- 
tilheria contra elle, porque alguns tiros de 
efperas o tomaram per parre que lhe entrou 
dentro o pelouro , que lhe l matou muita 
gente. E além deíle damno que recebeo , 

vio 



364 ÁSIA de João de Barros 

vio a fortaleza das noflas náos , e o anima 
daquellcs que hiam nellas 5 que tão oufada- 
ínente , fendo tão poucos , commettêram a 
grandeza da lua frota ; de maneira , que 
com a experiência teve maior opinião de 
nós , e menos efperança do que trazia , e 
não tanta facilidade , como Çuria Deva , 
e os outros Jaós lhe promettiam per cartas. 
Finalmente havido confelho fobre o modo 
que teriam em commetter a noífa Armada , 
e mais a fortaleza , paifadas muitas dúvi- 
das , e debates , o mefmo Çuria Deva ven- 
do algum receio nos principaes Jáos , que 
vinham com Patê Unuz , lhe reprefentou a 
refolução do que devia fazer , por alguns 
inconvenientes que elles apontaram , e prin- 
cipalmente porelle íègurar fua fazenda , te- 
mendo a natureza dos Jáos , que fahindo 
em terra , o poderiam faquear por efpedi- 
da 3 ora lhe fuccedeííe bem , ou mal no ca- 
io. A qual refolução foi , que a elle Patê 
Unuz lhe não convinha fahir em terra a 
tomar a fortaleza ; porque ainda que tivek 
fe certo poder-fe fazer , corria a fua Ar- 
mada rifço de os noííbs a queimarem , e 
fendo aífi , elle ficava o cercado , e desba- 
ratado , e nós os vencedores ; porque como 
a vida daquella Cidade era os mantimen- 
tos que lhe vinham pelo mar , tanto que lhe 
puzeífeoi a mão na garganta da entrada d el- 
les 



Década II. Liv. IX. Cap. V. 365- 

les não tinha mais fôlego. Também pelejar 
com as noffas náos a elle não parecia bem , 
por íèrmos a mais oufada gente que elle 
tinha viílo , fem ter conta com muitas , ou 
poucas velas , nem íè eram grandes , ou pe- 
quenas , porque qualquer das noffas náos 
commetteria abalroar com o íeu junco. E 
pois qualquer deites modos que elle com- 
metteffe , porcaufa do grande apparato que 
trazia , defefperava os noffos , com que lho 
dava dobrado animo do que tinham ; de- 
via elle Patê Unuz commetter efte negocio 
não tanto á força de braço , mas com par- 
te de prudência , e de vagar , e não tão 
apreffado como vinha. E pêra não cahir 
neílas coufas que apontava , lhe parecia que 
elle Patê Unuz fe devia tornar ao rio de 
Muar com toda fua frota , e na entrada 
delle leixar todolos juncos grandes, porfer 
lugar eílreito , onde os noffos não fe ha- 
viam de metter, e efta Armada eftava alli 
fegura , e os noffos com temor de a terem 
nas coitas , não haviam defamparar a fua 
por acudir á fortaleza. E com as outras 
velas mais pequenas podia vir de noite , 
e fahir em terra na parte de Ilher , onde 
tínhamos a fortaleza , e elle Çuria Deva 
com todolos que alli eílavam , e outros mui- 
tos de fua valia, que havia na Cidade, pe- 
lo rio aífíma , onde não foffem viftos em 

jan- 



%66 ÁSIA de João de Barros 

jangadas fe paliariam a ella pcra junta- 
mente comrnetterem a fortaleza. E quando 
a fortuna lhe foffe tão contraria , que per 
combate , ou per fome a não pudefle to- 
mar, evendo-fe elle em alguma grande ne- 
ceflidade per terra, lugar que os noííos não 
haviam de commetter , fe recolheria na fua 
principal frota , que leixava em o rio Muar ; 
e os navios pequenos , por ferem leves com 
fe acharem deípejados , a força de remo em 
huma apertada dos n oitos navios levemente 
fe podiam recolher a elle. Praticado efte 
confelho de Guria Deva , achou Patê Unuz 
que era o melhor que podia ter, fegundo 
via a diípofição das couías , e niffo aíTen- 
táram todolos feus Capitães. E porque os 
noííos não fentiflem fua partida , toda aquel- 
la noite houve na frota delles tanto tanger 
dos feus finos , e inftrumentos de guerra , 
e grande vozaria decantares, queeftrugiam 
as orelhas dos noffos ; e quando veio ante 
manhã , que lhe a maré começou a fervir , 
que elle leixava opoufo porfer menos (kn- 
tidos , foi tamanha a grita delles , que cui- 
dou Fernão Peres que parte da Armada ti- 
nha tomado terra , e a grita era final que 
a outra o vieífe commetter. E de Fernão 
Peres , e toda a fua Armada eílarem com 
o tento em terra por caufa delias gritas , e 
cm íi mefmo pêra o que fobre vieífe teve 

Pa- 



Década. II. Liv. IX. Cap. V. 367 

Pare Unuz tempo pêra fe alargar ao mar , 
enfiando-fe no caminho que havia de levar. 
Porém como iílo era ante manha, e a luz 
d' Alva moftrou a fua Armada que ainda 
hia á vifta dos nofíos , entendeo Fernão Pe- 
res que os tangeres de toda a noite, e gri- 
ta d'ante manhã fora artificio , por não fe- 
rem fentidos que fe queriam partir ; e por 
íinal que levavam temor , vio muitas anco- 
ras ficar no poufo , que não puderam levar. 
E porque quem dá coitas , dá animo a íòu 
imigo , foi tanto alvoroço em os noffos , 
que juntamente aííl na fortaleza , como na 
Armada , começaram bradar : Vitoria , w- 
toria , fogem \ e "desferindo Fernão Peres 
a fua vela , dizendo : Sant-Iago , a elles , 
foi coufa maravilhofa o que niffb cada hum 
fez ; e feria a nós mui difficultofa eferever 
a oufadia , animo , diligencia , e aftucia , 
que cada hum teve naquelle feito. Baile íã- 
ber em fumma , que aífi fe haviam os noííos 
poucos navios entre aquelle grande núme- 
ro de velas , como fe hão os lobos em hum 
pegulhar de ovelhas ; porque os noífos não 
faziam mais que chegar aos navios peque- 
nos , e lançar-lhes dentro fogo com os ar- 
tifícios que tinham feito , e paliar avante, 
e os imigos fem modo de defensão , íèm 
fazerem caminho do rio de Muar com olho 
no junco de Patê Unuz , que poz a proa 

P e ~ 



368 ÁSIA de J0Â0 de Barros 

}?era o eftreito de Sabam caminho da Jau- 
1a , todos o feguíram. E ainda por fegu- 
rar íua peílba , quando vio que da fua fro- 
ta parte ardia em fogo , e outra era metti- 
da no fundo , mandou aos principaes jun- 
cos que- levava, que fe achegalíem a elle , 
temendo íèr abalroado , ou ao menos met- 
tido no fundo com a artilheria , por mais 
lapes que o coitado. do feu junco tinha. 
Fernão Peres quando vio o modo que Pa- 
tê Unuz tinha em fe fechar entre os juncos , 
e que fegundo-a grandeza do feu, não lhe 
podia fazer damno fenão com a artilheria , 
poz a proa no fegundo junco da frota , que 
era do Timungao Senhor da Cidade Po- 
limbam , e em chegando a elle , o enveítio 
per hum cofiado ; e como a iiharga delle 
hia feu fobrinho , que diífemos por fua ca- 
valleria ter grande nome entre os Jáos , 
tanto que vio Fernão Peres afferrado com 
o tio , aíferrou-o elle pelo outro coitado 
de maneira, que ficou Fernão Peres com a 
fua naveta entalado entre ambos. Peró el- 
le não fentio a entrada que eíte Jáo fez nel- 
la , por andar já na popa do junco do tio 
ás lançadas , no qual tempo pela proa do 
mefmo junco entrou Francifco de Mello. 
O Jáo mancebo como era cavalleiro , ven- 
do que eítes dous Capitães cada hum per 
fua parte entraram o tio ^ e andavam pe- 



Década II. Liv. IX* Ca?. V. 365? 

lejando com elle , íem fazer conta da náo 
de Fernão Peres , fenão como que lhe fer- 
via de ponte 5 com alguns que o feguírarn 
per ella , paflòu-fe ao junco do tio , onde 
entre todos andava a peleja tão travada , que 
não fe íábia determinar quem era fenhor 
dos juncos , nem os fenhores das navetas 
dos noffos , por todos andarem já mifíura- 
dos. No qual tempo Jorge Botelho acertou 
de vir em a fua caravelia ; e vendo a náo 
de Fernão Peres entalada entre os juncos , 
entrou per bordo do íbbrinho do Tirnun- 
gam , e veio-fe encontrar com Fernão Pe- 
res , que acudia á fua náo , que lhe entra- 
vam muitos Jáos nells. Finalmente todas eí- 
tas cinco velas bordo com bordo , e os Ca- 
pitães mão por mão andaram huns den- 
tro , e outros fora tão travados entre fi per 
hum grande efpaço , té que não podendo 
os Jáos foíFrer mais o ferro dos noíTòs , 
começaram de fe baldear em lancharas , e 
pangajoas que traziam derredor de fi ; e os 
que não puderam haver ámão vaíilha, lan- 
çáram-fe ao mar, com que os juncos fica- 
ram vazios deíles , e cheios de muitos man- 
timentos , que os noffos levaram pêra Ma- 
laca , depois que os juncos foram queima- 
dos naquelle lugar. Fernão Peres tanto que 
houve a vitoria deftes dous juhcos í que eram 
os principaes , feguio" a Patê Unuz , com 
tonulL P.iL Aa fua- 



yjO ÁSIA DE JOÃO DE BARK OS 

fundamento de ás bombardadas o metterem 
no fundo, ou ao menos dcftruir-lhe a ma- 
reagem , com que ficaria decepado pêra o 
tomarem ás mãos, Peró não houve eífeito 
fua tenção , porque veio fobre a tarde hu- 
ma trovoada tão íiiriola , que ante clles qui- 
zeram contender huns com os outros como 
andavam , que com cila • porque como veio 
fubita ? e tomou a todos delcuidados , e 
mais mettidos cm pelejar , que no temor 
delia, fe os nolTos tiveram algum falvamen- 
to foi por não trazerem as mãos cortadas 
do temor , e do ferro , como as traziam os 
Jáos , e por iífo foram mais leites em ma- 
rear fuás velas. Finalmente Fernão Peres com 
ella correo pêra Malaca com a maior par- 
te de fua frota , e outros per eífas abriga- 
das de rios; fomente Jorge Botelho , e Tu- 
am Mahamud Tamungo de Malaca , que 
fe acharam ambos contra aquella parte pê- 
ra onde correo Patê Unuz , ao qual não 
puderam fazer mais damno , que queimar- 
lhes cinco , ou féis pangajoas que o feguiam , 
porque tinham já defpeza toda a pólvora > 
com que o podiam oífender. Jorge Bote- 
lho vendo quão desbaratado efte Jáo fica- 
va, e que tornando fobre elle com pólvo- 
ra o podia metter no fundo , veio-fe lo- 
go a Malaca dar conta diífo a Ruy de Bri- 
to, por Fernão Peres não fer ainda Já ; e 

pof- 



Década II. Liy. IX. Cap. V. 371 

poíío que Ruy de Brito o não queria pro- 
ver de pólvora , e coufas que elle pedia, 
havendo que íua tornada aproveitaria já 
pouco , porque o Jáo nefta íua demora de 
ir , e vir feria pofto em falvo , todavia lhe 
mandou dar o neceííario , e iílo a requeri- 
mento do Gentio Nina Chetu , que diíTe 
quedaria polo junco de Patê Unuz dez mil 
cruzados. Peró com quanta diligencia Jor- 
ge Botelho niíTo fez , correndo mais de qua- 
renta léguas 5 já não achou Patê Unuz , o 
qual fe poz em laivo najauha em a Cida- 
de Japára , e alli mandou varar o junco por 
memoria de fua peflba , dizendo que bai- 
lava pêra a ter por muitos tempos verem 
como aquelle junco ficara da peleja que te- 
ve com os Portuguezes. Os quaes ainda 
que tiveram efta tão illuílre vitoria delle, 
não foi íèm cufta de muito fangue , que 
todos naquelle alcanço derramaram : cá não 
houve Capitão que não abalroaíTe junco , e 
fizeífe aíTás de fua pefiba 5 onde morreram 
alguns dos noífos , principalmente com João 
Lopes d 5 Alvim , e Martim Guedes , que fe 
viram em grão perigo com os juncos que 
abalroaram. E muito maior Fernão Peres , 
que foi derribado , e ferido , eftando hum 
bom pedaço meio atordoado de hum arre- 
meífo 5 que lhe fizeram de cima dos caftel- 
los do junco j e polo ajudar ? morreo Si* 
Aa ii mão 



372 ÁSIA de João de Barros 

mão Affonfo , que foi a pcflba mais prin- 
cipal que naquelle feito pereceo. Finalmen- 
te elle foi táo notável , que aílbmbrou to- 
do aquelle Oriente , e nelle acabou a guer- 
ra que tínhamos com os Jáos , dos quaes 
Malaca ficou defaíTombrada , porque como 
he gente mui vizinha a cila , e são fenho- 
res de todolos mantimentos , de que fe ci- 
la mantém , c mais são liomcns cavalleiros , 
e poderoibs , todolos outros- rebates que ti- 
veram d^ElRey Mahamud pelo tempo cm 
diante , tiveram em pouco cm refocilo do 
perigo que paliaram por caufa deites dous 
Jáos Patê Quetir , c Patê Unuz. Fernão Pe- 
res como eítava meio carregado pêra fe par- 
tir pêra a índia , ( fegundo diíTemos , ) em 
poucos dias fe tornou a perceber de todo , 
e entregue a capitania mor do mar a João 
Lopes d' Alvim , a quem Affonfo d 5 Albo- 
querque proveo delia , partio de Malaca 
com três velas carregadas de efpeciaria , el- 
le em huma , e nas duas Lopo d'Azevedo 3 
e António d' Abreu , que vinha de defeu- 
brir Maluco. E pêra dar maior contenta- 
mento a Affonfo cPAlboquerque com fua 
chegada ? além de ir carregado das vitorias 
que houve naquellas partes , c de efpecia- 
ria , fendo tanto avante como os baixos de 
Capacia , topou António de Miranda d'Aze- 
vedo;, que vinha do Reyno de Sião, com 

que 



Década II. Liv. IX. Cap. V. 373 

que levou também outra carga de todalas 
novas que elle AíFoníò d ? Alboqucrque es- 
perava daquelias partes , onde mandara feus 
menfageiros , e defcubridores ante que fe 
partiíie de Malaca. Aífi como António d 5 A- 
breu com Francifco Serrão deScubrir Ma- 
luco , e Gomes da Cunha a EIRey de Pe- 
gu , que era já vindo em o navio que trouxe 
mantimentos a Malaca , (como fica atrás , ) 
o qual hia com elle Fernão Peres , e An- 
tónio de Miranda com Duarte Coelho a 
Sião ; o qual António de Miranda , poílo 
que não vieíTe em companhia delle Fernão 
Peres , e fízeílè feu caminho pêra Malaca , 
mandou-lhe cartas per elle , o qual chegou 
a Salvamento á índia. E porque em outro 
lugar , ( Segundo já apontámos , ) Se ha de 
fazer relação do caminho , e couSas que 
António d' Abreu Sez naquelle deScubrimen- 
to de Maluco , leixamos de a fazer aqui , 
e também o que fizeram eftoutrcs em Pe- 
gu , e Sião , porque a diSpofição das cou- 
Sas dahiíloria tem lugar próprio, por guar- 
dar a qual ordem leixamos o que ora oc- 
correo na chegada de António de Miran- 
da , e procederemos ainda hum pouco nas 
couSas de Malaca té quaSi todo o tempo 
que AfíbnSo d'Alboquerque governou. 

CA~ 



374 ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO VI. 

Como a fortaleza de Malaca per aftu* 
cia de hum criado tPFJRey Mahamud ejle- 
ve em termo de fer tomada : e do que Jè 
mais pajfou té chegada de Jorge d^Albo* 
quer que ^ que foi fer vir de Capitão delia. 

ELRey Mahamud , que foi de Malaca, 
fabida a vitoria que os noílbs houve- 
ram de Patê Unuz , pofto que em alguma 
maneira o defefperou de fe tornar reítituir 
em leu eítado , vendo Patê Qiietir deftruido , 
em que elle tinha tanta confiança , e aífi fer 
deftruida tamanha potencia como efte Patê 
Unuz trazia , era a elle argumento que to- 
do o poder daquelle Oriente não poderia 
]ançar-nos de Malaca. Per outra parte teve 
grande contentamento da deftruiçao de Pa- 
tê Unuz , porque entendeo que a fua vinda 
tão poderofamente a Malaca , não era pêra 
elle Patê Unuz lha entregar, fenão pêra fe 
fazer fenhor delia, porque entre elles ante 
deite feito não precederam recados , nem 
obras pêra delle efperar tamanha amiza- 
de , que por caufa delle Mahamud fzeíTe 
tão grande defpeza. ConfeíTando publica- 
mente querer ante que eftiveíTe Malaca em 
jioíTo poder , que dos Jáos : cá por ferem 
tão vizinhos tinham as forças mui perto 



Década II. Liv. IX. Cap. VI. 375* 

f>era fuftentar aquella Cidade ; e nós ainda 
que tiveíTemos mais poder nas armas , o 
adjutorio das outras coufas pêra continuar 
guerra per muitos annos hia deite Reyno 
de Portugal , que he no fim da terra tantas 
mil léguas de Malaca , a qual coufa lhe 
dava efperança que em hum tempo , ou em 
outro fe havia de reílituir. Com o qual 
fundamento fempre andou derredor da Ci- 
dade avexando-a , ora com rebates de fuás 
Armadas , ora com lhe tolher os manti- 
mentos , e mudando o aíTento de fua pet- 
foa , té que per derradeiro fe foi aííentar 
de vivenda em humallha defronte de Cin- 
gapura chamada Bitam , nome que os Ma- 
layos chamam á Lua , por a mefma Ilha 
ter a feição da Lua quando he meia. E 
porque á força de armas tinha per muitas 
vezes tentado comnofco fua ventura , quiz 
experimentar que tal a teria per modo de 
ardi] , em que o metteo humTuamMaxe-*- 
liz Mouro Bengala de nação , e homem 
mui fagaz > e aftueioíb , muito acceito a el- 
le , como hum dos mais principaes que lhe 
governava fua cafa. O qual ardil foi , que 
elle Tuam Maxeliz havia de fugir delle 
Rey Mahamud com titulo de aggravos , e 
fe havia de ir a Malaca , moftrando que 
<jueria aili viver entre nós , em companhia 
dos quaes elle fe podia vingar dos aggravos 

que 



37^ ÁSIA de João r>E Barros 

que tinha recebidos ; e depois que foffe ao 
cepto na terra , e tiveííe entrada com o Ca- 
pitão mor , trabalhaíle per qualquer modo 
que pudeííe de fe metter na fortaleza ; e 
pêra o ajudar naquelie cafo , da íua parte 
déffe conta a Tuam Colafcar , que era o 
principal Jáo Senhor da povoação Ilher na 
parte da fortaleza. Aflentado eíle ardil en- 
tre ambos, fem peíToa alguma ofaber, por- 
que não houveíTe fufpeita da partida delle 
Maxeliz , começou EIRey publicamente de 
lhe fazer alguns aggravos perefpaço dedous 
mezes , moftrando ter fabido que o rouba- 
va , e andava em tratos comnofco. Final- 
mente como os aggravos foram tão públi- 
cos que fe haviam por mui certos em Ma- 
laca , veio elle ter a ejla em huma lancha 1 
ia , íimulando que vinha fugindo da ira 
íi'ElR.ey por más informações que delle ti- 
nha , e foi-fe apofentar per licença de Ruy 
de Brito na povoação de Ilher, moftrando 
ter antiga amizade com Tuam Colafcar. 
E por náo perder tempo , como vinha pro- 
vido de jóias , e brincos , que dam entrada 
em toda parte , ora com élles , ora com dar 
ard ; js a Ruy de Brito contra EIRey Ma- 
hamud , começou lego lavrar fua peçonha 
de maneira ? que entrava , e fahia na fortale- 
za mui familiarmente com Ruy de Brito. 
E tomou logo por cautela de não fer fen- 



ti- 



Década II. Liv. IX, Cap. VI. 377 

íido ir a fua cafa pela féfta , quando a mais 
da gente fe recolhe a repoulo , e mais an- 
dar fempre mui acompanhado , moftrando 
que fe temia de EIRey Mahamud dentro 
em Malaca o mandar matar , por elle Ter 
homem que fabia parte de feus fegredos. 
Tanto que efte Maxeliz teve fegura efta 
entrada com Ruy de Brito , deo logo diífo 
conta per fuás cartas a EIRey , o qual lhe 
refpondeo, que a tantos dias da Lua com- 
metteííe o cafo , porque pêra efte tempo 
lhe mandaria foccorro com fua Armada , e 
que entretanto bailava o favor de Tuam 
Colafcar. Vindo efte dia, como Maxeliz ti- 
nha aquella fácil entrada na fortaleza , pela 
féfta foi-fe a elia levando feus homens , que 
coftumava trazer em guarda de fua peífoa , 
e chegando á porta , que lha o porteiro abrio 
como a pefíba familiar , entreteve-fe hum 
pouco , moftrando que efpedia os feus , e 
queria metter três , ou quatro , hum dos 
quaes era mancebo de bom parecer , e vi- 
nha veftido como mulher, dizendo quelei- 
xafle entrar aquelles que levavam aquella 
moça pêra o Capitão. No qual entreter de 
porta aberta remettêrain os criados de Ma- 
xeliz , e entraram dentro , mettendo-fe ás cri- 
fadas com o porteiro ; e três , ou quatro 
homens que citavam no pateo da fortale- 
za, e elie fubio com alguns delies pela et 

ca- 



378 AS1A de J0Ã0 de Barros 

cada acima caminho da torre da menagem, 
-onde poufava o Capitão ; e por acharem a 
porta fechada , por Ruy de Brito a fechar 
fobre íi , quando fentio a revolta debaixo , 
difeorrendo elies pelas cafas dos Officiaes, 
foram dar na do Alcaide mor Aires Perei- 
ra, que não teve outra falvação fenao lan- 
çar-fe per huma janella por ir foccorrer a 
Ruy de Brito , e neíta cafa mataram a Mef- 
tre Jorge Fyfico , e dous homens de fer vi- 
ço que eftavam com elle. E os que ficaram 
em baixo no pateo , mataram quatro ho- 
mens , e Pêro Pefiba , que foi o primeiro 
que acudio á porta , o qual eílava com o 
ferrolho na mão pêra a fechar aos Jáos , 
que Maxeliz trazia nas coitas em fua ajuda. 
Ruy de Brito a eíle tempo , ainda que em 
pé , andava bem doente , e logo naquelle 
primeiro rebuliço cuidou fer mais , peró 
quando vio que fomente dez, ou doze ho- 
mens o faziam , aífi como pode acudio com 
alguns que acordaram , e jaziam per eíTas 
cafas dormindo per fer pela féíla , os quacs 
fizeram fugir Maxeliz , e os feus , vendo 
que não puderam tomar a torre da mena- 
gem , que era feu principal intento. Tuam 
Colafcar que eílava efperando com fua gen- 
te junta eíla hora , tanto que ouvio repicar 
o fino da fortaleza , acudio logo , parecen- 
do-lhe que Maxeliz eílava em poder da tor- 
re: 



Década II. Liv. IX. Cap. VI. 379 

re : peró quando chegou á porta da forta- 
leza , e foube elle fer acolhido , diílirnulou 
a vinda , dizendo de fora a Ruy de Brito > 
que coufa era aquella que vinha alli por 
ouvir repicar, que mandava fua mercê que 
fizeíTe com aquella gente que trazia. Ruy 
de Brito peró que entendeo fer elle fabedor 
do cafo , agradeceo-lhe fua tão breve dili- 
gencia , e aífocegou todo o alvoroço da Ci- 
dade; porém depois quizera elle perjuítíça 
ao modo de Utimutirája matar efte Tuam 
Colaícar , e ante delle Çuria Deva polo que 
fez com Patê Unuz ; mas os Capitães , e 
Fidalgos i com quem elle febre cite cafo te- 
ve confelho , não lho confentíram ; dizendo , 
que por ferem as principaes cabeceiras da 
Cidade , cem fua morte fe defpovoaria , que 
naquelle tempo fe havia de diífimular com 
elles té as coufas da Cidade tomarem mais 
aíTento do que tinham. Eram nefte tempo 
idos a Bintam com duas caravellas , e três 
lancharas com té cincoenta homens de pe- 
leja , Jorge Botelho , e Vafco da Silveira 
pêra ver fe podiam fazer algum damno ás 
Armadas que EIRey rrazia naquella para- 
gem , impedindo não virem velas a Mala- 
ca , e fazellas arribar a Bintam , onde elle 
efperava fazer todo o trato que fazia nel- 
la ; o qual quando vio eftas noíías velas fo- 
bre feu porto 5 por fer no tempo em que 

el- 



380 ÁSIA de J0X0 de Bakros 

cllc eítava efperando recado do fcu Tuam 
Maxeliz , crco verdadeiramente que o caio 
era deícuberto ao Capitão Ruy de Brito , 
e que por eíTe refpeito mandava aquelles 
navios fobre fcu porto pêra offenderem a 
Armada que elle havia de mandar em fa- 
vor do cafo , a qual elle tinha de todo pref- 
tes ; c náo oufou de a mandar fahir de den- 
tro, temendo que a no (Ta Armada era toda 
ida áquelle feito, e que lhe lançavam aquel- 
las cinco velas diante pêra elle lançar a íua 
fora. Jorge Botelho , e Vafco da Silveira 
vendo o lítio ondeElRey tinha feito huma 
fortaleza , e que a fua Armada eílava den- 
tro de huma eftacada , que de maré vazia 
os navios ficavam mettidos na vafa , e as 
eftacas de maneira que parecia hum laby- 
rintho o canal que ficava entre ellas per on- 
de entravam , e fahiam os navios , não lhe 
pareceo coula que pudeílem commetter por 
a pouca poílb que levavam , e tornáram-fe 
a Malaca. Ruy de Brito quando per elles 
íòube a força que EIRey tinha feita , e 
quão brigofa , e defenfavel era , aílí polo 
lítio , como pela induílria , e trabalho dos 
homens, e que fegundo lhe. algUns Mouros 
diziam , eftava aquella Ilha Bintam em pa- 
ragem que le podia fazer outra Malaca , 
com EIRey trazer alli Armada , que fizeífe 
arribar as náos a elia > dobrou a Armada 

que . 



Década II. Liv. IX. Cap. VI. 381 

que João Lopes d 7 Alvim trazia pêra ás ve- 
zes a repartir em partes , porque não hou- 
veffe algum daquelies dons canaes Cinga- 
pura , e Sabam , onde fe não achaíTem nof- 
ibs navios contra a Armada d'ElRey de 
Bintam , pêra lhe defender aquelle arribar 
de velas que fazia. Com o qual modo ator- 
mentou tanto a EIRey , que como homem 
defefperado pola muita fome que padecia 
com lhe tolhermos prover-fe de mantimen- 
tos 3 mandou pedir a Ruy de Brito concei- 
to de paz. E como elíe attribuia a caufa 
de íua deftruição a leu filho , e genros , em 
não confentirem que elle aíTentaífe paz com 
AíFonfo d'Alboquerque quando chegou a 
Malaca , houve entre elles tanta diíFerença 
fempre , que neíle tempo da paz que man- 
dou pedir 3 dizem que afogou o filho com 
huma touca. EIRey de Campar , pofto que 
foíTe feu fobrinho , e genro , poios modos 
que lhe via ter , e principalmente acerca 
do ódio que tinha a feu próprio filho o 
Príncipe Aiodim , não quiz ieguir fuás cou- 
fas , ante por fegurar as próprias , e não 
viver aífombrado de nós como genro feu , 
(fegundo eferevemos , ) eftando Affonfo d'Al- 
boquerque em Malaca , com hum preíènte 
que lhe enviou , fe ofFerecco querer viver 
em Malaca como vaíTallo d'E!Rey de Por- 
tugal , a vinda do qual por então não hou- 
ve 



382 ÁSIA de JoÃo de Barros 

ve effeito, Peró fabendo elle o que fe dizia 
como afogara feu filho , determinou de fe 
vir logo pêra Malaca , temendo a maldade 
do fogro , e pêra iífo não fez mais que co- 
mo homem feguro fem cautela alguma met- 
ter-fe com Pêro de Faria , que com huma 
Armada andava no eftreito de Sabam. O 
qual chegou a Malaca na entrada de Julho 
do anno de quinhentos e quatorze , a tem- 
po que era vindo da índia Jorge d'Albo- 
querque filho de Joáo d'Aiboquerque pêra 
Capitão da Cidade , e eítava já em pofie 
delia 5 e Ruy de Brito efperando tempo pê- 
ra fe vir pêra a índia. E porque Jorge d'Al- 
boquerque levava recado de AfFonlò d'Al- 
boquerque do modo que havia de ter com 
efte Rey de Campar , fe lhe mandafle com- 
metter que fe queria vir viver a Malaca, 
polo que já tinha paflado com elle , quan- 
do fe mandou offerecer pêra iífo ? em fim 
chegada fez-lhe muita honra , peró não fi- 
cou EIRey de Campar daquella vez em 
Malaca , ante fe tornou logo como prati- 
cou algumas coufas com Jorge d'Alboquer- 
que do modo que fe havia de ter com el- 
le vindo aíTentar fua cafa em Malaca. Em 
quanto efte recado foi á índia , e tornou 
refpofta deAffònfo d 5 Alboquerque , elle el- 
teve em Campar, a qual refpofta foi man- 
dar elle a Jorge d'Alboquerque que défle a 



Década II. Liv. IX. Cap. VI. 383 

efle Rey o officio que Nina Chetu Gentio 
rinha. E a caufa por que lho mandava ti- 
rar, tendo tanto beneficio feito aRuy d'A- 
raujo , por cujo refpeito o elle houve , foi 
porque agente nobre de Malaca foíFria mal 
ferem governados per elle , que era homem 
de pouca forte ; e fe em algumas coufas 
lhe queriam ir á mão , ás taes peflbas man- 
dava-lhes dar hum certo género de peço- 
nha, com que engafecia , e em mui pouco 
tempo morria , o que fe foube ter feito a 
três , ou quatro mercadores principaes , e 
polo muito ferviço que tinha feito na falva- 
ção de Ruy d 5 Araújo , e dos outros cati- 
vos , e aífi na tomada da Cidade , diífimu- 
lavam com elle té vir eíle recado de ÀíFon- 
fo d 5 Alboquerque. Nina Chetu como por 
fuás culpas andava vigiado de o tirarem do 
cargo , tinha fuás intelligencias , tanto que 
chegava algum navio da índia pêra faber 
fe mandava Affonfo d'Alboquerque bulir 
com elle ; e como foi certificado do reca- 
do que vinha, teve maneira que por efpa- 
ço de oito dias fe não denunciaííe que o 
mandavam tirar do officio. No qual tempo 
em hum terreiro grande mandou fazer hum 
cadafalfo de madeira cuberto , e toldado 
de muitos pannos de feda , e ouro , e delle 
té fua cafa foi a rua toldada da mefma for- 
te y e a huma parte do cadafalfo no chão 

iiian- 



384 ÁSIA de João de Barros 

mandou pôr huma mui grande quantidade 
de fandalos brancos , vermelhos , e lenho 
alóes , pêra arder tudo quando fofle tempo 
de lhe porem fogo. Acabado todo eite ap- 
parato pêra o derradeiro dia que íe lhe aca- 
bava o termo que pedia , convidou todolos 
feus amigos, e ajuntou ília família, que era 
grande , toda vertida d.e feita , e ellc dos 
mais ricos pannos de ouro que pode haver, 
e partio de fua cafa , indo por aquella rua 
toldada , a qual aquella hora citava cuber- 
to o chão de todalas flores , e cheiros do 
campo. Chegado com eíta pompa ao ca- 
dafalíò, onde era quafi toda a Cidade ver 
aqtielle aíto , de que ainda não entendiam 
o fim , fubio-fe a elle , c começou em mui 
alta voz dizer as coufas que per nós fize- 
ra , e os perigos que por iíTo elle paliara y 
por méritos das cuaes coufas Affonlb d'Al- 
boquerque lhe dera o officio que tinha de 
Bendára , que ellc té aquella hora fervíra , 
o qual , (fegundo lhe era dito , ) elle man- 
dava que elle nunca o ferviífe mais , e fof- 
le dado o officio a outra peíToa. E porque 
elle não queria ver aquella injuria executa- 
da em a lua , era alli vindo pêra moítrar 
que o fogo que todos viam accendido na- 
quelle fandalo , era mais poderofo que to- 
dolos Príncipes do Mundo , porque elies 
podiam tirar oíEcios ; e vida ) e o fogo fe 

quei- 



Dec. II. Ltv. IX, Cap. VI. e VIL 38? 

queimava o corpo , recebia em íi a alma j 
e como era efpirito , e creatura de Deos , 
elle a liia aprefentar a feu Creador , on- 
de tinha perpétua gloria ; e quanto mais af- 
fligida neíla vida , maior a tinha lá , e efta 
lhe não podia tirar o grão Capitão AfFon- 
fo d'Alboquerque por mais poderofo que 
fofle na índia , e com ifto fe leixou cahir 
no fogo , onde fe fez cinza. 

CAPITULO VIL 

Como Jorge d ) Alboquerque Capitão de 
Malaca mandou per Abedelá Rey de Cam- 
par perafervir officio de Bendára : e quan- 
to EIRey de Bintam trabalhou polo elle 
não fer , té que foi caufa de fua morte. 

A Gabado efte aíto da gentilidade , que 
fez grande admiração a todos ver a 
conftancia com que aquelle Gentio morreo 
por honra , foi logo fabido per toda a ter- 
ra como EIRey de Campar havia de fer 
Bendára de Malaca 3 que entre os Malayos 
fe tinha por tanta dignidade no tempo que 
profperava Mahamud Rey delia , que ha- 
viam fer maior coufa que Rey de Campar, 
cujo eftado não era mais que fer fenhor de 
hum a povoação , a que elles chamam Ci- 
dade , a qual era mettida per hum rio gran- 
de , que entra por a terra da Ilha Çamatra 
T0m.ILP.1L Bb edif. 



38o ÁSIA de J0X0 de Barros 

e diftará de Malaca contra o Oriente pou- 
co mais de trinta léguas na entrada do ef- 
treito Sabam. EIRey de Bintam leu fogro 
tanto que íòube que elle era eleito pêra Ben- 
dára , e que eíte era o fim pêra que elle fe 
dera á noíla amizade , e a caufa do prefen- 
te que mandara a Affoníb d'Alboquerque y 
e depois ir em peflba a Malaca ver-fe com 
o Capitão delia ; ordenou logo de lhe im- 
pedir que não foiTe , e pêra iílb convocou 
outro leu genro , e vaífallo , que era Rey 
de Linga , liuma Ilha vizinha á de Bintam , 
onde elle Mahamud aflentára ília vivenda , 
( como diflemos.) Os quaes fogro , e gen- 
ro fizeram huma Armada de té íetenta ve- 
las de remo , em que iriam dous mil e qui- 
nhentos homens , na qual Armada o pró- 
prio Rey de Linga foi ; e entrado pelo rio 
de Campar , acharam Abedelá Rey da Ci- 
dade já provido de tranqueiras , e forças , 
com que refiílio como homem animofo a 
feu imigo , poílo que EIRey de Linga na- 
quellas partes era havido por muito cavai- 
leiro. O qual vendo que per algumas ve- 
zes que deo combate a Abedelá não o po- 
dia entrar, ordenou- íe em modo de o ter 
cercado , e tomar a fome : no meio do qual 
tempo elle foi foccorrido de nós fem o elle 
rfperar, per efta maneira. Pelo recado que 
AíFonfo d'Alboquèrque mandou > e morte 

de 



Década II. Liv. IX. Cap. VIL 387 

de Nina Chetu , ordenou Jorge d 5 Alboquer- 
que de mandar por eíte Rey de Campar 
pêra vir fervir o officio de Bendára , de 
que elle já era fabedor , e pêra iíTo fe fa- 
zia preítes , quando EIRey de Linga deo 
fobre elle ; e polo mais honrar , mandou 
Jorge Botelho que o trouxeííe em o feu na- 
vio 2 e com elle três navios de remo , Ca- 
pitães Jurdão de Figueiredo , Álvaro Vaz , 
e Diogo Dias. O qual Jorge Botelho en- 
trando no eftreito de Sabam , achou alli 
nova em hum Mouro leu amigo chamado 
Meana, que EIRey de Linga eítava dentro 
no rio de Campar , e tinha cercado a EI- 
Rey Abedelá com huma Armada de feten- 
ta velas com muita gente 5 e munições de 
guerra , por ifíò olhaíTe onde fe hia metten 
Jorge Botelho por eíte Mouro fer homem 
certo , e feu amigo , efpedio logo dalJi hum 
dos Capitães , que vieífe a Malaca dar eíta 
nova a Jorge d\AIboquerque , o qual a grão 
preífa efpedio eítes Capitães em foccorro de 
Abedelá 3 Triítão de Miranda 5 António de 
Miranda d ? Azevedo , Aires Pereira de Ber- 
redo , e Francifco de Mello , todos em na- 
vios redondos , e mais algumas lancharas 
de remo Capitães moradores da Cidade. E 
porque nenhum levava a capitania mor de 
toda a frota , quando fe ajuntaram com Jor- 
ge Botelho, que fe haviam de ordenar pe- 

Bb ii ra 



388 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

ra commetter a Armada dos imigos , co- 
meçou entre elles haver differença , a qual 
apagaram com elegerem por Capitão a An- 
tónio de Miranda d 5 Azevedo , per ordenan- 
ça do qual entraram pelo rio acima té on- 
de fe fazia hum eíleiro , dentro do qual 
obra de meia légua eftava a Cidade, Cam- 
par. O qual eíleiro como era eftreito pro- 
fundo , e com ribas tão altas que ficava em 
partes a terra fobrc agua perto de duas lan- 
ças , tornáram-fe os noflbs abaixo ao rio 
largo ; porque como não fabiam a terra , 
temeram que vieflem os imigos , e de cima 
ás terroadas , quando não tiveíTem outra 
coufa , os metteriam no fundo , fazendo 
fundamento de os ter alli encerrados , e em 
tão eftreito cerco como elles tinham EIRey 
Abedelá. Poílos neíle lugar largo , como 
entre alguns Capitães havia huma frieza do 
cafo , por cada hum não fer o eleito em 
Capitão mor , e também alli não faziam 
mais que ter fechada aquella entrada ? por 
onde os imigos fe ferviam , eftavam hum 
pouco defcuidados , como quem não tinha 
que temer , gaitando o dia em lançar a bar- 
ra , e lança , e outros paífatempos em ter- 
ra. EIRey de Linga por efcuitas que tra- 
2Ía ao longo do rio 5 foi avilado deite def- 
cuido; e como homem cavalleiro que era, 
determinou dar nelles, e caladamente veio- 

fe 



Década II. Liv. IX. Cap. VIL 3S9 

íè com toda fua frota pelo Ho a baixo , e 
elle diante todos , por ter huma forte , e 
formofa lanchara do comprimento de hu- 
ma galé , mui armada , e guerreira com té 
duzentos e tantos homens , com tenção de 
abalroar com o Gapitão mor da noífa fro- 
ta. E fendo onde a terra fazia hum coto- 
velo , ao longo do qual com a maré que 
defcia , a agua corria mais teza, deo deíu- 
bito com Jorge Botelho, queeítava alli am- 
parado do tesão da agua em huma lancha- 
ra das de lua companhia com té vinte ho- 
mens ; o qual apartando-fe do corpo da 
Armada , onde tinha o feu navio , determi- 
nou naquelle de remo por fer leve faber o 
que hia dentro. E quando vio a ponta da 
lanchara delRey que começava apparecer 
detrás do cotovelo , de improvifo íem fa- 
ber o que vinha detrás , deo huma grita com 
os feus , e mandou defparar a artilheria que 
trazia , a qual ainda que era miúda , ella y 
e as elpingardas dos feus derribaram logo 
alguns dos remeiros da lanchara d'ElRey. 
Na qual por o cafo fer fubito , e mais cui- 
dando que alli eílava toda noífa frota , por 
ainda não defcubrirem o anco que fazia a 
terra , houve entre todos tanto temor , que 
do remoinhar dos remadores não fabendo 
o que haviam de fazer 5 ficou a lanchara 
d 5 ElRey fem goyerno , e com o tesão da 



agua 



gpo ÁSIA de João de Barros 

agua ficou a galé atraveffada noeíleiro, que 
como era cílreito ., e ella comprida , não po- 
de ir diante , nem atrás , e todolos que vi- 
nham apôs ella encalhavam de maneira 5 que 
ficou o rio cuberto , e travancado fem dar 
palTagem. Os noflbs que eítavam em bai- 
xo da maneira que diífemos , quando ou- 
viram os tiros que Jorge Botelho tirou , 
remetteram todos aos bateis , e lancharas 
que tinham , e remo em punho a quem che- 
garia primeiro , em mui breve efpaço fo- 
ram com elle , principalmente Triftão de 
Miranda , João Pereira , e Francifco de 
Mello , por eítarem mais dentro pelo rio 
acima que os outros , e foram a tempo que 
acharam já Jorge Botelho dentro da lancha- 
ra d'ElRey , donde tinha defpejado boa par- 
te da gente ; mas com a chegada delles to- 
da fe lançou ao mar , e per derradeiro o 
feuRey, aos bralos do qual elles não obe- 
deciam. Finalmente chegados todolos ou- 
tros Capitães , puzeram os imigos em def- 
barato , muitos dos quaes fe falváram , met- 
tendo-fe per elTes efteiros , com que a terra 
he retalhada; porque em quanto os noíTos 
não puderam paliar com a lanchara d'El- 
Rey atraveííada , tiveram elles tempo de o 
fazer. Com a qual vitoria chegaram onde 
EIRey de Campar eílava , fem efperança 
daquelle remédio - 7 e recolhido elle com fua 

fa- 



Década II. Liv. IX, Cap. VIL 391 

família , leixando a terra entregue a feus 
Governadores , foi trazido com aquelía hon- 
ra a Malaca , e entregue do officio de Ben- 
dára, pêra que era vindo. Da chegada do 
qual a féis dias Jorge d'Alboquerque man- 
dou aquella Armada aííí como viera, con- 
tra EIRey deBintam, parecendo-lhe que o 
podiam deftruir , como fizera a feu genro 
EIRey de Linga, e mais naquella conjun- 
ção em que elle perdera lancharas , e gen- 
te com munições de guerra \ a capitania moí- 
da qual Armada , em que iriam duzentos ho- 
mens Portuguezes , levou João Lopes d 5 Al- 
vim , que fervia de Capitão mor do mar ; 
mas não fizeram coufa alguma, por EIRey 
eftar de maneira fortalecido , que havia mií- 
ter maior poder de gente. Havendo quatro 
mezes que eílas coufas eram paíTadas , e EI- 
Rey de Campar fervia feu officio , não com 
nome de Bendára , mas de Macobume , que 
acerca delies hè como entre nós Vifò-Rey 9 
e ifto por honra da dignidade real que ti- 
nha 3 a olho começou Malaca de fe nobre- 
cer, tornando-fe muitos homens nobres vi- 
ver a ella , que , por caufa de não quere- 
rem fer Governados per Nina Chetu , eram 
idos a viver á Jauha , e a outras partes , 
com a vinda dos quaes começaram de vir 
mercadores , e a terra fe reformar. EIRey 
de Biritam quando vio que em tão breve 

tem- 



392 ÁSIA de João de Barros 

tempo com a ida de feu genro Malaca fe 
tornava povoar, eque muitos Malayos ho- 
mens de eftima , que com elle eftavam em 
Bintam , o leixáram , e fe vinham pêra ella , 
ordenou , como homem fagaz que era , hu- 
ma aftucia pêra ifto não ir mais avante , e 
feu genro perder a vida , ou ao menos o 
credito , e officio , que tinha , vendo que fe 
nelle muito eftava , quantos homens o fe- 
guiam , todos o haviam de leixar, de ma- 
neira que fem os Capitães de Malaca lhe 
fazerem guerra , efta bailava pêra o deftruir. 
A qual aftucia foi mandar a todolos feus 
Capitães , que trazia per eftes portos da ter- 
ra de Malaca , que qualquer barco que to- 
maíTem dos moradores Malayos de Mala- 
ca , que lhe ievaíTem todolos cativos , aos 
quaes como eram ante elle , fazia gazalha- 
do , e mercê , bradando com os Capitães , 
porque lhe levavam cativos os Teus naturaes 
vaílallos , que outra hora não fizeíTem tal 
coufa , fenao que os caítigaria ; ante lhes 
mandava que como achaíTem Malayo mo- 
rador em Malaca , que o trataflem como 
aos de Bintam , pois todos eram vaífallos 5 
e filhos , e os de Malaca mais , pois era 
fua própria natureza ; e que bem abaftava 
aos coitados as perrarias , que foffriam da- 
queUa cruel , e perverla £ente Portugucz. 
Porém elle eíperava em Deos ante de pou- 
co 



Década II. Liv. IX. Cap. VII. 393 

co tempo de os remir daquelle trifte cati- 
veiro per meio de fea filho Abedelá Rey 
de Campar , o qual elle tinha pofto em Ma- 
laca diííimuladamente , pêra que como viiTe 
tempo , lhe dar a Cidade ; e que pêra aju- 
da de o poder melhor fazer , lhe manda- 
va algumas peiToas principaes de Bintam com 
titulo que fe tornavam a viver a Malaca : 
por iííb lhe rogava que quando leu filho 
EIRey de Campar íe levantaíTe com a for- 
taleza , que foíTem todos em ília ajuda , e 
aíli o pediíTem a feus parentes , e amigos 
da fua parte , e todos tiveíTem efte negocio 
em fegredo. Com eftas , e outras palavras 
enchia as orelhas daquella gente innocente , 
a qual como era em Malaca, de orelha em 
fegredo foi ter á praça , andando efte ru- 
mor entre os Mouros , té que per meio dos 
filhos de Nina Chetu foi ter a Bartholo- 
meu Pereftrello , o qual havia pouco que 
chegara a Malaca , e fervia de Feitor 5 que 
communicando efte negocio com feu irmão 
Rafael Pereftello deram conta a Jorge d'Al- 
boquerque. E pofto que houve contradic- 
çôcs no cafo , principalmente de Jorge Bo- 
telho , reprefentando ajorge d'Alboquerque 
as aftucias d'ElRey Mahamud, e bondade 
de Abedelá Rey de Campar 5 por a muita 
communicaçao que tinha com elle > toda- 
via baftou pêra fedar fentença que morrei- 



394 ÁSIA de JoXo de Barros 

fe, ferem trazidos alguns homens daquelles 
que ouviram a EIRey de Bintam o que atrás 
diííemos. Finalmente elle morreo degolla- 
do na praça com folemnidade de publica- 
ção de fentença , a innocencia do qual ain- 
da que Jorge Botelho a clamou , depois o 
tempo a deicubrio • e fe o povo tem licen- 
ça de julgar , porque Bartholomeu Pereftrel- 
ío foi grande accuiador defta condemnaçao 
a inítancia dos filhos de Nina Chetu , e el- 
Je não viveo mais depois que EIRey de 
Campar foi degollado , que dezefete dias , 
dizia o povo de Malaca , que a alma do 
morto chamara a do vivo. E ainda parece 
que cfte clamor da juftiça dos actos huma- 
nos chegou a mais ; porque fez a morte 
deite Rey tanto elcandalo no animo de to- 
dos , que poucos , e poucos começaram os 
principaes homens da Cidade fugir delia , 
e biam viver a outra parte com temor de 
alguma fentença ; e como elles eram os mi- 
niítros de virem á Cidade todalas mercado- 
rias , e mantimentos , foi poíta em tanta ne- 
ceíTidade de fome , qual té então não tinha 
paíTado , em que claramente fe vio de quan- 
to mal fora caufa a morte de Abedelá. E 
certo que na de Nina Chetu , e em a fua 
fe pode ver huma pintura dos aétos huma- 
nos quão diíferentes frutos dam de huma 
própria raiz > pois hum officio matou dous 

ho- 



Década II. Liv. IX. Cap. VIL 395* 

homens : hum Gentio homem de pouca for- 
te 5 que ufando mal de feu officio , defpo- 
voou a Cidade > e fem fer julgado , elíe 
fe condemna á morte; e outro Mouro com 
titulo de Rey , e que reíHtue as ruinas do 
outro , fem culpa vem a morrer per con- 
demnaçao de outrem. 



DE- 



DÉCADA SEGUNDA. 
LIVRO X. 

Dos Feitos , que os Portuguezes fizeram 
nodefcubrimento, e conquifta dos ma- 
res , e terras do Oriente : em que fe 
contem o que AíFonfo d'Alboquer- 
que fez na índia , c no Rey- 
no de Ormuz té o feu 
falecimento. 

CAPITULO I. 

Como Affonfo $ Alhoquerque por algu- 
mas coufas o anno de quatorze ejleve pro- 
vendo as fortalezas , no qual tempo man- 
dou Fero d^Alboquerque de Armada a Or- 
muz 9 e a Diogo Fernandes de Beja a El- 
Rey de Cambaya , e a João Gonçalves de 
Caflello-branco ao Hidalcao : e da Armada 
que dejle Reyno par tio , Capitão mórChri- 
Jlovão de Brito , que chegou a Goa em Se- 
tembro. 



E 



M quanto em Malaca paflaram as 
coufas , de que no Livro precedente 
** fizemos relação , as quaes vam con- 
tinuadas do Janeiro do anno de doze, que 
Aífonfo d 5 Alboquerque fe pardo delia té o 

fim 



Década II. Liv. X. Cap. L 397 

fim do anno de quatorze , fez elle algumas 
na índia , depois que veio do eftreito do mar 
Roxo j que convém enfiarmos na ordem de 
noíía hiftoria. As quaes coufas ainda que 
não íejam de conquifta 5 e milícia, foram 
do governo do eftado da índia 5 que não 
são de menos mérito , muitas das quaes de- 
ram maior cuidado , e paixão a AíFonfo 
d'Alboquerque , que as da guerra : cá os 
trabalhos delia acabam na gloria de vencer 
os imigos 5 e os do governo fenecem em 
ódio j fe quereis fazer juftiça nos erros dos 
fubditos. E peró que ifto feja regra univer- 
fal acerca daquelles , que querem ufar bem 
de feu officio , particularmente AíFonfo d'AI- 
boquerque o experimentou depois que veio 
do eftreito , querendo emendar alguns def* 
manchos que achou aífi entre os Capitães 
das fortalezas , como foíturas nos Officiaes 
da fazenda d ? E!Rey ; porque como tinha 
feito duas viagens mui compridas , que fo- 
ram a do mar Roxo , em que fe deteve 
muito tempo , aífi per novas falfas que os 
Mouros davam de fua morte , como por 
as licenças que os homens tomam em au- 
fencia de feu íuperior: partidas as náos da 
carga da efpeciaria pêra efte Reyno , Capi- 
tão mor João de Soufa de Lima, começou 
fazer correição per as fortalezas. E depois 
que acabou , em que fe deteve em Goa, 

par- 



398 ÁSIA de JoAo de Barros 

pardo- fc pêra Cananor, onde fe deteve na 
mefma obra alguns dias , e dahi paífou per 
Calecut a ver a obra que fe fazia na forta- 
leza , a qual achou já porta cm boa altura 
pola muita ajuda que o Çamorij pcra iíío 
mandou dar. O qual tanto que foube que 
Affonfo d'Alboauerquc era alli , fe veio ver 
com clie , c neíta vifta ambos acabaram de 
confirmar a paz , que tinham aífentado ; por- 
que depois que elle Çamorij deo licença 
pcra fe fazer a fortaleza , aílinando todalas 
capitulações da paz , algumas peífoas notá- 
veis do leu Reyno , e principalmente mo- 
dos que EIRey de Cochij niíío teve , o fa- 
ziam tornar atrás do que eftava aífentado. 
Aífi que neíta vifta , e na que Affonfo d'Al- 
boquerque teve com EIRey de Cochij de- 
pois que lá chegou , fe acabaram todalas 
coufas de Calecut ; e no que elle Affonfo 
d'Alboquerque levou mais trabalho foi cm 
contentar EIRey de Cochij , porque não 
havia remédio pêra confentir aífentar-fe paz 
com Calecut, tudo por.caufa de feu inte- 
reífe 5 dando-lhe entender os Mouros que 
com a fortaleza feita cm Calecut fe havia 
de pairar lá todo o negocio do noífo com- 
mercio , com que perderia grande rendi- 
mento. Mas elle não dava entender que 
contrariava a paz por elle fim , fomente por 
refpeito dos coftumes que o Gentio tem en- 
tre 



Década II. Liv. X. Cap. I. 399 

tre fi em modo de religião } que fóe não 
aííentar a parte oíFendida paz com feu con- 
trario , fenão depois que he fatisfeita de to- 
dos males , damnos , e perdas que recebeo ; 
e que oReyno de Cochij , além de perder 
os Príncipes que lhe mataram , e tanta gen- 
te nobre , tinha perdida muita fazenda. E 
repetio elle tantas vezes neíles males, e da- 
mnos , que foi neceffario a Affoníb d'Al- 
boquerque trazer-lhe a memoria a morte de 
Aires Corrêa , e do Marichal , té vir a lhe 
moftrar o braço efquerdo, que não manda- 
va bem , dizendo que quem havia de pa- 
gar a EIRey feu Senhor os males , e da- 
mnos daquelles mortos , e tanta fazenda 
quanta tinha gaitada , e a elle a aleijão de 
feu braço , tudo por vingar as couías que 
o Çamorij paliado tinha feito ao Reyno de 
Cochij. Com as quaes razões ficou EIRey 
contente da paz , ( fegundo já diíTeirsos , ) 
quanto ao que moítrava de fora , poílo que 
no peito lhe ficava outra coufa , como adian- 
te fe verá. Acabando AíFonfo d'Alboquer- 
que de fatisfazer a EIRey de Cochij per 
efta maneira , começou de entender em pro- 
ver no mais a que viera dar vifta áquella 
fortaleza , e principalmente a fe prover pêra 
tornar outra vez ao mar Roxo , pêra que 
lhe convinha repairar náos , e fazer alguns 
navios de remo , por andar minguado dei* 

les. 



400 ÁSIA de JoÃo de Barros 

les. Porque com ter mais duas fortalezas, 
que eram as de Malaca , e Calecut , e mais 
as que elle efperava ter no mar Roxo , e 
Ormuz , crefcia tanto a obrigação do pro- 
vimento delias , e de outras muitas coufas 
do governo daquelle eftado da índia , que 
affentou aquelle anno , que era de quatorzc , 
não entender cm outra couía , pêra o de 
quinze , ( querendo Dcos , ) citar preítes. Po- 
rém porque a gente além de andar canfa- 
da , também eftava pobre , e vindo o in- 
verno não fe poderia bem manter, fe a ti- 
veíTe toda junta em huma fortaleza , orde- 
nou de dar fahida a huma pouca , e a ou- 
tra repartir per eflas fortalezas. Com o qual 
fundamento ordenou deita maneira , que 
D. Garcia de Noronha invernaíTe em Co- 
chij com parte da gente , pêra com ella dar 
favor á nova fortaleza de Calecut, por as 
coufas delia citarem ainda mui frefeas , e 
convinha dar refguardo á pouca verdade 
que os Mouros tratam , e principalmente 
acerca daquella fortaleza feita a pezar de 
tantos ; e com outra parte de gente elle Af- 
fonfo d'Alboquerque iria invernar a Goa; 
e outra , a que queria dar fahida , era em 
huma Armada de quatro velas pêra andar 
na boca do mar Roxo entre o Cabo Guar- 
dafu , e o de Fartaque. A capitania mor da 
qual deo a Pêro d 5 Aiboquerque feu fobri- 

nho 



Década II. Liv. X. Cap. I. 401 

nho filho de Jorge d'Alboquerque 5 e os ou- 
tros Capitães eram Ruy Galvão de Mene- 
zes filho de Duarte Galvão , Jeronymo de 
Soufa filho de Ruy Mendes de Vaíconcel- 
los j e António Rapofo de Beja , ao qual 
Pêro d'Alboquerque deo regimento , que, 
paliados os mezes que pedia andar naquel- 
ia parage , fe folie a Ormuz arrecadar as 
páreas , que EIRey devia do anno paliado , 
e tratar com elle íbbre as coufas da forta- 
leza , que elle Affonfo d'Alboquerque tinha 
começado, e dahi foíTe defcubrií alihaBa- 
harem , que eftá no feio do mar da Períia 
pegada na coita da Arábia. E neíla viagem 
que Pêro d'Alboquerque fez , tomou dez 
náos de preza , na fazenda das quaes em 
Ormuz , onde a vendeo a fez muito dinhei- 
ro , e dahi commetteo ir defeubrir a Ilha 
Baharem , e por caufa dos tempos não po- 
de ir avante , e naquelle caminho houve cer- 
tas terradas d 5 EiRey de Ormuz , que lhe 
tinha tomado hum Capitão do Xeque If- 
mael per nome Mir Bubac , que trazia na- 
vios armados per aquelle eftreito , o qual 
eftava em Rexet , huma Villa porto de mar 
na cofta da Períia. E levemente concedeo 
efte requerimento de Pêro d\Alboquerque , 
por fer Capitão d'EiRey de Portugal , com 
o qual elle fabia que o Xeque Ifmael feu 
fenhor defejava ter amizade. E quando El- 
Tom.IL P.lL Cc Rey 



402 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

llcy de Ormuz houve as terradas , não cf- 
quecco a Pêro d'Alboquerque dizer-Ihe que 
per alli veria quanto tinha ganhado em fe 
fizer vaííallo d'ElRey feu Senhor, pois a 
feu rogo aquelle Capitão do Xeque lfmacl 
dera o que lhe tinha tomado , e mais af- 
fentára com clle de não fazer damno em 
coufa ília. E ifto dizia Pêro d'Alboquerque 
aElRey, e ao ícu Governador Raez Nor- 
dim , porque davam efculas a fe alli tornar 
fizer fortaleza , e que bem bailava fer elle 
vaííallo d'EIRey , e pagar-lhe cada anno 
tributo , e que a fortaleza era matéria de 
efcandalo , dando a ifto muitas razões. Fi- 
nalmente recebidas as parcas , Pêro d'Albo- 
querque , ( paliado o inverno , ) fe partio pê- 
ra a índia, onde chegou afalvamento. Nef- 
tc mefmo tempo que AfFonfo d'Alboquer- 
que efpedio Pêro d'Alboquerque com eíla 
Armada , mandou Diogo Fernandes de Beja 
a EIRey de Cambaya aífentar as coufas da 
fortaleza , que lhe tinha concedido em Dio , 
o qual Diogo Fernandes hia bem acompa- 
nhado com té vinte encavalgaduras , que 
havia de tomar na Cidade de Çurrate , de 
que era fenhor Melique Gupi noíío amigo. 
E apeííoa fegunda defta ida era Jemes Tei- 
xeira , que havia de fucceder , vindo cafo 
pêra iíTb , e Francifco Paez era Efcrivão da 
embaixada ; c hum Duarte Vaz língua com 

ou- 



Década II. Liv. X. Cap. L 403 

outros homens , todos gente limpa , e bem 
tratados, como quem hia ao mais poderofo 
Príncipe Mouro daquellas partes da índia. 
O qual 3 pofto que fez muita honra a Dio- 
go Fernandes , não lhe concedeo a fortale- 
za em Dio , dizendo , que fe Meíique Gupi 
e fere ver a a Axionfo dlAlboquerque que elle 
a dava , tal náo era , cafa de feitoria íi , e 
a fortaleza em Çurrate que o mefmo Me- 
íique Gupi tinha, ou em cada hum deftou- 
tros dous lugares, Maim, e Bombaim. E 
porque ao tempo que Diogo Fernandes an- 
dava na Corte d'ElRey de Cambaya , achou 
Melique Gupi fora da fua graça , e Meíi- 
que Az a força de peitas , e com muitas 
razões anteElRey impedia iílo , fegundo o 
mefmo Melique Gupi diííe a elle Diogo 
Fernandes quando com elle fe lá vio , não 
pode haver outro defpacho , c com efte veio 
pêra a índia. E em retorno de muitas pe- 
ças ricas , que elle Diogo Fernandes levou 
a EIRey , além de outras que mandou a 
AíTònfo d'Alboquerque , foi huma alimária , 
a maior que a natureza creou depois do 
Elefanta , grande fua ímiga , e fereo com 
hum corno , que tem direito fobre o nariz 
de comprimento de dous palmos , groífo na 
raiz , e agudo na ponta , á qual os naturaes 
da terra de Cambaya , donde aquella veio, 
chamam Ganda ^ e os Gregos , e Latinos 

Ce ii Rhi-* 






^404 ÁSIA de Joa o de Barros 

Rhinoceros , e Affonfo d'Alboquerque a 
mandou a EÍRey D. Manuel , e veio a efte 
Reyno , e perdeo-fe em huma náo caminho 
de Roma , mandando-a EÍRey de prcfente 
ao Papa. E quando Diogo Fernandes íe 
embarcou em Çurrate , foi Melique Az tão 
aftuciofo , que mandou Cide Alie com qua- 
tro atalaias , que são barcos de remo , e que 
foíTe trás elle manquejando , como que o 
não podia alcançar té Goa , e entregaíTe a 
Affonfo d 5 Alboquerque hum grande preícn- 
íe que lhe mandava , dizendo elie Cide Alie , 
que Melique Az lhe mandara que foííe dar 
eftas coufas a Diogo Fernandes pêra lhas 
trazer , e chegando a Çurrate achara fer já 
partido ; e não oufando tornar a Melique 
Az com tal recado , tomara licença de vir 
té onde achaíle Diogo Fernandes , e que 
lhe não pezava defte defaftre, por fer azo 
de ir ver fua Senhoria. E efte artificio de 
Melique Az era a dous fins , a ver Cide 
Alie per fi que Armada fazia Affonfo d'AI- 
boquerque ; e o outro , querer faber como 
elle tomava a nova 5 que lhe Diogo Fernan- 
des levava de lhe não fer concedida a for- 
taleza em Dio , ao qual elle logo efpedio , 
porque entendeo vir por efpia , e não a 
mais , dando-lhe retorno do prelènte. Tam- 
bém nefte tempo mandou ao Hidalcão João 
Gonçalves de Caítello-branco com dez en- 

ca- 



Década II. Liv. X. Cap. I. 40? 

cavalgaduras , e oitenta peaes da terra; e 
a caiifa de lua ida era fobre as terras fir- 
mes de Goa, que lhe Affònfo d'Alboquer- 
que pedia a troco d 5 outro requerimento da 
entrada dos cavailos da Perfia , que elle Hi- 
dalcao queria, temendo que EIRey de Bif- 
naga , com que elle tinha guerra 3 houvef- 
fe eíla entrada per Baticalá , que era fern 
porto , fobre o qual negocio commettêra já 
grandes partidos a elle Affonfo d'Alboquer- 
que , e elle trazia-os ambos fufpenfos neíle 
requerimento pêra o conceder a quem lhe 
fizeífe melhor partido. E havia poucos dias 
que a Goa viera hum Embaixador d'ElRey 
de Bifnaga com grande apparato , ao qual 
Affonfo d 5 Alboquerqne fez muita honra ; e 
poílo que moftrafle. vir viíltallo da fua vin- 
da do eftreito , e que fe fizeíTem ambos em 
hum corpo pêra lançarem os Mouros do 
Reyno Decan , e que ambos partiriam o 
ganhado , tudo per derradeiro vinha acabar 
neíles cavailos. Mas nenhum delles os hou- 
ve da maneira que requeriam , porque ne- 
nhum concedeo o que Affonfo d^Alboquer- 
que pedia ; e ifto caufou andar João Gon- 
çalves com o Hidalcao muito tempo fem 
trazer alguma conclusão , que aprouveíTe a 
elle Affonfo d'Alboquerque. 



CA- 



4o6 ÁSIA de Joio de Barros 

CAPITULO II. 

Corno o anuo de quatorze pai*tíram def- 
te Reyno cinco mos \ Capitão mor Chrifto- 
vão de Brito , das quaes defpachadas al- 
gumas j a que Affonfo d? Alboquerque man- 
dou dar carga , elle fe partio com hunm 
grojfa Armada pêra Ormuz , aonde chegou. 

P Aliados nove mezes do anno de qui- 
nhentos e quatorze , que Affòníb d'Al- 
boquerque dcfpendeo no governo das coti- 
fas da Índia , e nas que fez , e ordenou no 
precedente capitulo j quando veio em Setem- 
bro , chegou a Goa Chriftovão de Brito, fi- 
lho de João de Brito que deite Reyno partio 
por Capitão mor de cinco náos ; e os Capi- 
tães de fua bandeira eram Manuel de Mello 
filho de Janemendes dX)Iiveira , Franciíco 
Pereira Coutinho , Luiz d 5 Antas , e João Ser- 
rão. E porque Luiz d'A:itas chegou primei- 
ro , Afronto d'Alboquerque o mandou na 
mefma não aCambaya pêra trazer algumas 
fortes de mercadoria pêra a carga , e per- 
deo-íe nefta ida , íàlvando-fe a gente , a qual 
náo EIRey mandava que fe entregaiTe a 
Chriftovão de Brito , que havia de ficar na 
índia , e elle déííe a fua a Luiz d' Antas : 
peró com cila perdida , ficou Chriftovão de 
Brito na em que foi. Afli que das circo 

náos 



Década II. Liv. X. Cap. II. 407 

náos ficaram lá duas 5 e as outras foi Dom 
Garcia de Noronha carregar a Cochij com 
mais huma das que andavam Já 5 em que 
veio por Capitão Pêro Mafcarenhas ; e nef- 
te anno veio também Fernão Peres d'An- 
drade com as fuás , que trouxe de Mala- 
ca , (como diíFemos.) Partidas eíias náos, 
defpejou-fe AíFonfo d'Aiboquerque de todo- 
los outros negócios , e entendeo em os de 
fua partida pêra hum deíles lugares , aon- 
de EIRey D. Manuel lhe mandou que fof- 
fe ao eílreito do mar Roxo , ou a Ormuz. 
E como com Chriftovão de Brito fora hum 
Embaixador d'ElRey de Ormuz , o qual 
elle enviara a efte Reyno com alguns re- 
querimentos acerca do fazer a fortaleza , e 
pagamento dos quinze mil xarafins de tribu- 
to , que lhe AíFonfo d' Alboquerque poz , e 
EIRey neítes requerimentos o remettia a 
elle AíFonfo d' Alboquerque ; e nas cartas , 
que efcrevia particulares fobre iíío ? mof- 
trava ter mais defejo de fe acabar efte ne- 
gocio de Ormuz , poílo que quando falla- 
va nas do eílreito , per derradeiro leixava 
tudo em feu peito , fegundo viííe a difpo- 
liçao do tempo ; quiz AíFonfo d' Alboquer- 
que , ettando já embarcado na Armada em 
a burra de Goa a vinte de Fevereiro do 
anno de quinhentos e quinze , ter confelho 
fobre iíFo com todolos Capitães ^ os quaes 

eram 



4o8 ÁSIA de João de Barros 

eram eítes : D. Garcia de Noronha , Aires da 
Silva , Vafco Fernandes Coutinho , Jorge 
de Brito, Lopo Vaz deSampayo, Perod'Al- 
boquerque , Vicente d'Alboquerque , Simão 
d' Andrade, Ruy Galvão de Menezes, Pê- 
ro Ferreira , António Ferreira , Francifco 
Pereira , Diogo Fernandes de Beja , Fer- 
não Gomes de Lemos , Duarte de Mello , 
Nuno Martins Rapofo, António Rapofo > 
João de Meira , João Gomes , Manuel da 
Coita , Jeronymo de Soufa , João Pereira , 
Fernão de Rezende , Diniz Fernandes . de 
Mello , Silveftre Corço , Pêro Corço feu 
irmão , e Ruy Gonçalves , e João Fidalgo 
ambos Capitães da Ordenança. E além dei- 
tes Capitães , que haviam de ir nefta frota , 
eram também neíle confelho D. João d'Eça 
Capitão da Cidade Goa , e D. Sancho de 
Noronha Alcaide mor. E porque o Embai- 
xador , que EIRcy de Ormuz mandou a 
eíle Reyno , era natural da Ilha de Sicília , 
e fendo moço fora cativo de Turcos , e 
levado áqueJlas partes de Ormuz-, onde o 
fizeram Mouro , e com tal nome entrou 
nefte Reyno , e vendo o error em que an- 
dava , tornou-fe reconciliar com a Igreja , 
e foi de cá com nome de Nicoláo Ferrei- 
ra : quiz AíFonfo d'Alboquerque per os mé- 
ritos , que já tinha de fiel Chriftão , que ef- 
tiveífe naqueíle confelho j e mais pola prá- 

ti- 



Década II. Lxv. X. Cap. II. 409 

tica , que por muitos dias tivera com eííe , 
fabia fer neceflario eílar elle prefente. Àfli 
que juntas eílas principaes peffoas , e o Se- 
cretario Pêro cPAlpoem , propoz-lhe Affòn- 
fo d 5 Alboquerque o que lhe EIRey man- 
dava acerca de ir fazer huma fortaleza no 
mar Roxo, e também da poíTe da fortale- 
za de Ormuz ; e que quanto a ida do mar 
Roxo , alli eram prefentes muitos , que ex- 
perimentaram os trabalhos , que oannopaf- 
fado acharam naquella viagem, O que ti- 
nha íabido daquellas partes , depois que 
de lá vieram , era o que geralmente anda- 
va toclolos annos per boca de Mouros , que 
vinham Rumes , o que elle havia por fa- 
bula ; pelo que fouberam ,; quando eftavam 
no eftreito , não haver em Suez mais que 
Luns poucos de calcos começados , que , 
(fegundo havia tempo que alli eftavam , ) 
eram mais pêra o fogo , que navegar , e 
mais o Soldao não eftava pêra fazer a Ar- 
mada pêra a índia , tendo tanto que enten- 
der em defender ília peíToa 5 e teu eftado. 
Quanto ás couías de Ormuz , alli eftavá 
Nicoiáo Ferreira , o qual depois que che- 
gara , nunca outra coufa fizera íenão per- 
guntar polo eftado delias ; e o que tinha ía- 
bido per muitos Mouros Parfeps ', que alli 
andavam ? era 3 que EIRey de Ormuz to- 
rnara a oração ' 7 e carapuça do Xeque I£ 

mael , 



410 ÁSIA de João de Barros 

tnacl ? como homem que fe queria entregar 
a elle com titulo de íubdito. O qual Xe- 
que Iíinael , fe huma vez metteíTc o pé em 
Ormuz , como vizinho diante a porta, e 
mais tão poderoíb , que era hum freio na- 
quelle tempo do Turco , havia de fer mui 
niáo de lançar fora ; e fegundo o que Pêro 
d'Alboquerque , que efhva prefente , con- 
tou do feu Capitão Mir Bubac , que eftava 
em Rexet, todo aquelle andar tomando as 
terradas de Ormuz , era quercllo aíTombrar , 
que fe fizcíTe feu vaífallo. Quanto o que 
tocava a elle AíFonfo d'Alboquerque , que 
era fazer Armada preftes pera cada hum 
deftes lugares, quelheElRey mandava que 
foíle , todos a viam , na qual eftavam em- 
barcados mil e quinhentos Portuguezes , e 
fetecentos Malabares , e Canarijs ; por tan- 
to pedia que cada hum déííe feu voto a 
qual deites dous lugares importava mais ao 
fer viço d'ElRey feu Senhor acudir. Propof- 
tas eftas ■ coufas deftes dous lugares, e exa- 
minada bem a neceífidade que havia de 
acudir a cada hum delles , per voto geral 
foi aflentado que primeiro íe devia de ir 
a Ormuz , que ao cftreito. Finalmente Af- 
fonío d 5 Alboquerque ao íèguinte dia , que 
era quarta feira de Cinza , fe partio , le- 
vando vinte e fete velas , de que as quator- 
ze eram náos'de alto bordo 3 fete caravel- 

las., 



Década II. Liv. X. Cap. II. 411 

Ias , e as outras navios de remo ; e deíte 
a vinte e hum houve vifta da terra entre 
Maceira , e o cabo Rofcalgare , onde lhe 
deo huma grão trovoada , e dahi a quatro 
dias vieram fobre a Villa Mafcate. No qual 
lugar eftava huma Armada de navios de 
remo d'E!Rey de Ormuz , que guardava 
a coita por cauía dos Nautaques 3 que da 
outra fe paflavam áquella a prear j e como 
houveram vifta da nofla Armada , fizeram- 
fe em outra volta com temor. Affonfo d'Al- 
boquerque , porque fabia que EIRey de Or- 
muz trazia alli aquellas velas por guarda dos 
ladroes , não quiz mandar trás elias , e cor- 
reo de longo á Villa Curiate , onde efteve 
dous dias tomando agua. E aqui foube co- 
mo Raez Hamet hum Mouro Parfeo de 
nação , e íbbrinho de Raez Nordim filho 
de hum feu irmão , o qual eiie por lhe fa- 
zer bem trouxera ao ierviço d'E!Rey de 
Ormuz , eftava feito hum tyranno 3 por o 
tio fer já homem de idade , com o mais 
que adiante diremos. Partido Affonfo d'Al- 
boquerque de Curiate mui cheio da tyran- 
nia defte Mouro , chegou ao porto de Or- 
muz a vinte efeis de Marco já tarde, vin- 
do logo a elíe Hacem Alie da parte d'El- 
Rey ao vifitar com prefente de refrefeb > 
em companhia do qual vinha Miguei Fer- 
reira , que eile tinha enviado ao Xeque If- 

niael. 



412 ÁSIA de JoXo de Barros 

mael. E a caufa que movco a elle AfFonfo 
d'Alboquerque mandar efte Miguel Ferrei- 
ra , tendo já por experiência que podia cor- 
rer rifco de o matarem em Ormuz , ou de 
o não leixarcm paffar, como fizeram aRuy 
Gomes de Carvalhofa , e ao companheiro 
que hia com elle , quando os mandava com 
outro tal recado , foi; porque chegando elle 
do mar Roxo em Goa , veio a elle hum 
Mouro Parfeo , o qual viera em companhia 
de hum Embaixador do Xeque Ifmael a 
todolos Capitães , e príncipes do Rcyno 
Decan , que quizeíTem tomar a oração , e 
carapuça da íua fedia de Alie. O qual Em- 
baixador achando toda a índia chea do nof- 
fo nome , e potencia de armas , e que nin- 
guém podia feguramente navegar aquelles 
mares fenão com hum falvo conduto do 
Capitão mor , ou dos Capitães das noífas 
fortalezas , e que elle havia de tornar per 
Chaul , onde defembarcára ; pêra eíla paffa- 
gem quiz aprazer a AfFonfo d'Alboquer- 
que , e mandou-o viíítar com hum prefen- 
te de coufas da Perfía , e ofFereci mentos da 
parte do Xeque Ifmael , moftrando defejar 
ter amizade , e preílança com EIRey de 
Portugal , e com elle Capitão mor , pois 
citava naquellas partes da índia em feu lu- 
gar. AfFonfo d'Alboquerque recebido o feu 
recado com muito contentamento, não quiz 

def- 



Década II. Liv. X. Ca?. II. 413 

defpachar eíle Mouro em Goa , e levou-o 
comfigo a Cananor 3 e dahi o mandou a 
Cochij 3 tudo a. fim que rifle noíías forta- 
lezas 3 e almazens cheios de artilheria , e 
munições de guerra ; e quando defpachou 
eíle Mouro, mandou ao Embaixador retor- 
no do feu prefente com grandes agradeci- 
mentos de íiia viíítação , pedindo-ihe que 
quando fe quizefíe tornar pêra a Perlía ? hou- 
veffe por bem de levar em fua companhia 
hum leu menfageiro > que queria enviar ao 
Xeque Iímaèl; fazendo elle ÀíFoníb d 5 Ál- 
boquerque conta que poderia ir mui lègu- 
ro com efte Embaixador 3 edeíla cauía aaí- 
ceo mandar elle eíle Miguel Ferreira. A 
íubítancia da qual ida eram offerecimentos 
geraes ; e que EiRey de Portugal feu Se- 
nhor era tão poderofo 3 e tão liado com 
os Reys , e Príncipes da Chriftandade vi- 
zinhos ao Turco , que querendo elle Xe- 
que Ifmael fazer-lhe per fua parte guerra , 
elle lha faria pela fua 5 e aíE outras coufas 
deíla qualidade acerca do que houvefle mif- 
ter da índia. E ao tempo que eíle Embai- 
xador partio 3 a feu requerimento Aífonfo 
d ? Alboquerque lhe mandou dar embarcação 
em Chaul 5 e quantos feguros 5 e provisões 
elle houve miíler : donde fuccedeo , quan- 
do Miguel Ferreira foi ante o Xeque If- 
mael, fazer-lhe muito gazalhado, e mui- 
tas 



414 ÁSIA de João de Barros 

tas vezes eíleve em prática com ellc , per- 
guntando-lhe mui miudamente por noflas 
coufas , afli do eílado da índia , como de 
Portugal , e de todolos Príncipes Chriítãos. 
E quando o quiz efpedir , ordenou de vir 
com elie o próprio Mouro , que o feu Em- 
baixador mandou a Affoniò d'Alboquerque , 
o qual também era chegado com ellc Mi- 
guel Ferreira a Ormuz , e trazia hum gran- 
de prefente a elle Affoniò d'Alboquerque. 
E como todas eílas coufas eram em acerei- 
centamento do eílado d\E!Rey D. Manuel , 
hum tão poderofo homem como era aquel- 
le Rey da Períia procurar fua amizade . e 
iílo era ordenado per elle Affoniò d'Albo- 
querque ; quando vio Miguel Ferreira, te- 
ve tanto contentamento diiíb , como fe ven- 
cera huma grande batalha ; e muito maior 
depois que lhe contou as coufas , que paf- 
fara com o Xeque Ifmael , em que vira 
nelle quanto eííimaria ter amizade, e preí- 
tança com ElPvey D. Manuel ; té dizer hum 
dia ao feu Fyfico mor , que lhe mandaria 
cortar a cabeça , fe não déíTe a elle Mi- 
guel Ferreira, que acertara de adoecer. 



CA- 



Década II. Livro X. 41^ 

CAPITULO III. 

De algumas coufas que entre EIRey de Or- 
muz , e Affbnfo tPAlboquerque pajjaram , 
ti elle fer entregue da fortaleza , que 
tinha começado da primeira 
vez que alli veio. 

PAÍTado aquelle dia , em que Affonfo 
d 5 Alboquerque foi vifítado d 5 ElRey per 
Hacem Alie $ que lhe trouxe o refrefco, 
ao feguinte mandou per Duarte Vaz língua 
dizer a EIRey , e a Raez Nordim como 
em fua companhia vinha o Embaixador , 
que EIRey Ceifadim feu irmão mandara a 
Portugal ; e por quanto elle era tornado á 
Fé de Chrifto em que naícêra 5 e achava o 
Rey que o mandara , e feu Governador 
Coge Atar mortos , e não oufava de ir an- 
te elle íem fua licença 3 lhe pedia que hou- 
veíTe porbèm de lhe mandar reféns , hum fi- 
lho y ou fobrinho de Raez Nordim , em quan- 
to lhe hia dar lua embaixada , porque aíTi lhe 
efcrevia EIRey feu Senhor que o fízeífe. E 
também lhe fazia faber que elle mandava 
vigiar toda a Ilha em torno pêra não en- 
trar na Cidade mais gente de fora , fomen- 
te -alguns mercadores , que trouxeífem man- 
timentos , e mercadoria ; e pêra a paíTagem 
da terra firme > e ferviço da agua , e outras 

cou- 



416 ÁSIA de João de Barros 

coufas 3 que cada dia vinham do Mogofíáo 
á Cidade, eile ordenaria certas peflbas com 
íerradas pêra iííb : por tanto que mandaíTe 
lançar pregão , que ninguém foíle , nem vieí- 
fe íenão neílas terradas : e mais lhe pedia 
que na Cidade houveífe todo aflbccgo fem 
alvoroço algum , por quanto elle era vin- 
do pêra bem de todo feu Reyno. Partido 
Duarte Vaz língua com eíle recado , nao 
tardou com Iiuma carta d'ElRey pêra Af- 
foniò d'Alboquerque , em que lhe efcrevia 
palavras brandas , e humildes , e que fe fa- 
ria quanto mandava ; e entregue hum rilho 
de Raez Nordim , que veio por refém , 
mandou AíFonfo d'Alboquerque o Embai- 
xador Nicoláo Ferreira , acompanhado de 
Pêro d'Alpoem Secretario , e de alguns cria- 
dos d'E!Rey , que o levaram honradamen- 
te. O qual levava d'ElRey D. Manuel duas 
cartas , em que refpondia aos requerimen- 
tos , que elle Embaixador trouxera , a re- 
foluçao dos quaes elle remettia a Affbnfo 
d 5 AÍboquerque 5 a quem elle efcrevia fobre 
iffo , do qual podia faber fua refpofta ; e 
a outra carta era fobre hum Mouro , que 
viera a Portugal em companhia delle Ni- 
coláo Ferreira , que era caçador de huma 
onça , que lhe elle enviara , o qual fe tor- 
nara Chriítão , e com ella o enviara ao Pa- 
pa a Roma. Chegado efte Nicoláo Ferrei- 
ra 



Década II. Liv. X. Cap. III. 417 

ra ante EIRey , elle o recebeo com gaza- 
lhado 5 moftrando ter grande contentamen- 
to de o ver ; e, todas eftas moftras de bom 
recebimento eram ordenadas per Raez Ha- 
med j que eftava á ilharga d'ElRey , per 
boca do qual elle dizia , e fazia tudo , fem 
oufar de accrefcentar , nem diminuir algu- 
ma coufa : tão aflbmbrado o tinha aquelle 
tyranno. Nicoláo Ferreira , como já não 
era da ília jurdição , dadas as cartas , tor- 
nou-fe pêra onde eílava AíFonfo d'Alboquer- 
que , ao qual deo conta do que paliara com 
EIRey , e o que fentia delle acerca da pou- 
ca liberdade que tinha , por eftar aflbmbra- 
do de Raez Hamed ; e que feu voto era , 
qualquer coufa que fe houveíle de fazer, 
fer logo, porque aquelle Mouro não tivef- 
fe efpaço de urdir alguma maldade. AíFon- 
fo d'Alboquerque , chamado todolos Capi- 
tães , fez diante delles que Nicoláo Ferrei- 
ra refumiíTe o que lhe diílera ; e praticado 
o modo , que teriam em começar efte ne- 
gocio da entrega daquella Cidade , afíentá- 
ram nifto que fe logo fez. Per Diogo Fer- 
nandes de Beja, e o Secretario Pêro d'Al- 
poem mandou Aífonfo d 5 Alboquerque pe- 
dir a EIRey , que lhe mandaiTe fazer entre- 
ga da fortaleza , que elle fizera ; e pêra if- 
fo fe abriífe a porta , que tinha pêra o mar y 
e foífe fechada outra 3 que eftava pêra a 
Xqm.1L P.iL Dá Q* 



41S ÁSIA de Joio de Barros 

Cidade ; e mais lhe mandaífe dar humas ca- 
las vizinhas á fortaleza , as quaes havia mif- 
ter pêra apoufento de alguns Capitães , por- 
que ellc vinha de vagar alguns mezes , e 
nao podiam eftar fempre no mar ; e aíli lhe 
mandafíe os léus Governadores com o con- 
trato da entrega , que clle fez daquclíe Rcy- 
no a EIRey Ceifadim , por ler mui necef- 
fario na prática , que havia de ter com el- 
lcs. Foi a refpofta defte recado, que EIRey 
deo , que elle praticaria íbbre iífo aquella 
noite com todolos feus Governadores , e 
pela manha refponderia a tudo ; e como 
homem que temia efeandalizar )é fe tardafíe , 
em amanhecendo mandou vifitar o Capitão 
mor per Hacem Alie com hum prefente de 
jarras de tâmaras , e outro refrefeo , dizendo 
que podia mandar as peíTòas , que lá foram y 
pêra lhe dar a refpofta do que elle Capi- 
tão mor mandara pedir , á qual elle man- 
dou o mefmo Secretario , e Manuel d'Acof- 
ta. E porque primeiro que vielíe a concluir 5 
houve entre elles muitos recados fobre a 
entrega da fortaleza, que EIRey nao que- 
ria dar naquelle lugar, porfer mui vizinha 
ás fuás cafas , nem menos os reféns , em 
quanto fe ella acabaífe , per fim de todolos 
recados veio Raez Nordim feu Governa- 
dor a tomar conclusão em tudo. Ao qual , 
por fer homem velho, egottofo, concedeo 

Áf- 



Década II. Liv. X. Cap. III. 419 

Affoníb d'Alboquerque que die não fubif- 
fe aífima á náo , e defceo a baixo a ou- 
vir o que queria a huma galé, onde Ma- 
nuel d'Acofta fora , de que era Capitão , 
em que vinham muitas peííoas nobres , que 
Affoníb d'Aíboquerque mandara pêra o tra- 
zerem honradamente. Em companhia do 
qual vinha Raez Hamin irmão de Raez 
Hamed por olheiro , e efcuita por parte do 
irmão , temendo que diíTeíTe elle Raez Nor- 
dim a Affoníb d'Alboquerque a força , que 
lhe tinha feito , e a fujeiçâo em que EIRey 
eílava , porque fabia que eíte Raez Nordim 
fempre lc inclinara a nolTas coufas. Affon- 
íb d'Alboquerque , porque foi logo avifado 
diffo por Duarte Vaz lingua , em Raez Nor- 
dim entrando na galé 1 o tomou pela mão , 
dizendo: Vós ^ e eu fomos velhos \ vojjò Jò- 
brinho , e meu fobrinho D. Garcia são man- 
cebos , vam faltar ambos em coufas de fua 
idade , e nós faltaremos em as da nojja \ 
e per efte modo ficou fó com Raez Nor- 
dim, E na prática que ambos tiveram , veio 
elle a conceder em tudo o que Affonfo d' Al- 
boquerque pedia , conformando-fe com os 
contratos , que elle affentára com EIRey 
Ceifadim 5 e Coge Atar já defuntos ; e no 
fim deíles concertos , fegundo o coílume da 
terra, Affonfo d'Alboquerque mandou vef- 
tir a Raez Nordim huma cabaia de broca« 
Dd 11 do* 



420 ÁSIA de João de Barros 

do , e lhe lançou hum ramal de contas grof- 
fas , que teriam cem cruzados , e ao fobri- 
nho outra cabaia de cetim cramefim, com 
botões de ouro per toda a dianteira , e ao 
Mouro Hacem dos recados cinco covados 
de eícarlata , e cincoenta cruzados. E pêra 
EIRey mandou-lhe entregar hum colar de 
ouro eímaltado rico , e huma bandeira das 
armas de Portugal pera a mandar arvorar 
em fuás caías , e íer notório a toda a. Ci- 
dade a paz , que tinham aíTentado ; e adi 
lhe deo huma Provisão pera que todolos 
barcos , e terradas pudeflem ir á terra fir- 
me trazer todalas mercadorias, e mantimen- 
tos , que quizeflem , com tanto que não 
vieíTe gente de armas em nome de merca- 
dores. Acabado eife aíto de paz , foi Raez 
Nordim tornado a Cidade com grande triun- 
fo de bateis , e feita de trombetas , e á par- 
tida da náo tirou toda a artilheria da fro- 
ta ? a que refpondeo a que EIRey tinha 
na Cidade ; e depois que a bandeira foi ar- 
vorada nas cafas d'ElRey , fe dobrou a 
feíla da artilheria. Aífonlb d'Alboquerque , 
como no rematar das coufas tinha hum ef- 
pirito apreiTado , e inquieto , vendo que ao 
outro dia , que era fabbado vefpera de Ra- 
mos , a porta da fortaleza não era aberta , 
quando veio ao Domingo, mandou Tho- 
maz Fernandes meftre das obras com cer- 
tos 



Década II. Liv. X. Cap. IIL 421 

tos pedreiros , e todo neceflario a feu of- 
ficio , pêra abrir efte portal , e 110 caminho 
acharam Hacem Alie , que vinha com re- 
cado a Affoníb d'Alboquerque , que man- 
dafle officiaes pêra iíTo , porque os íeus não 
fe atreviam ao fazer a fua vontade , ao qual 
refpondeo , que já os mandava. Em guarda 
dos quaes com gente mandou D. Álvaro 
de Caftro , e António d' Azevedo ; e quan- 
do veio á noite , que foube fer o portal aber- 
to , foi-fe lá com todolos Capitães , e che- 
gando á entrada delle , poz-fe em giolhos 
com as mãos levantadas , dizendo : Ajji co- 
mo tu , Senhor , em tal dia como hoje en- 
trafie em Jerufalem , e fofte recebido de 
todo o povo por verdadeiro Rey , e Mejjias , 
ajfi apraza a ti que nós teus fieis fejamos 
hoje recebidos em nome (PElRey D. Ma- 
nuel, cujas armas traz em memoria das 
tuas cinco Chagas , com toda paz , e obe- 
diência , pêra que o teu Nome feja aqui 
conhecido , e venerado em facrificio de lou- 
vor , pois te aprouve dar-nos ejla Cidade 
Jem fangue. Viíla a fortaleza, que já efta- 
va defpejada de todo , e tornado ás náos % 
ao outro dia começou- fe de pôr mãos á 
obra com tanta diligencia , que quando veio 
quarta feira de Trevas , eftava feita huma 
tranqueira, que os da Cidade não podiam 
entrar por aquella porta ? e os noífos fica- 
vam 



422 ÁSIA de JoXo de Barros 

vam com a ferventia do mar y fem pode- 
rem fer impedidos , porque a tranqueira era 
forte , e defenfavel com a artilheria, que 
tinha. Acabada de fegurar efta ferventia , 
mandou Affonío d'Alboquerque a Manuel 
d'Acoíta, que era Feitor de toda a Arma- 
da , que levaííe todalas mercadorias que ti- 
nha , e fe mettefle na fortaleza , porque vif- 
fem os Mouros que também havia de fer- 
vir de caía de commercio , como de forta- 
leza ; e elle Affonfo d ? Alboquerque apou- 
fentou-fe em humas grandes cafas , que lhe 
defpejáram , que ferviam de hofpital , a que 
elles chamam madraçal, as quaes eram jun- 
to da fortaleza. E os Capitães com toda 
a gente de armas fe apoufentáram em ou- 
tras cafas , e dentro da tranqueira nos lu- 
gares , qne lhe deram por eítancia , té fe 
acabar a obra da fortaleza > em que fe ha- 
viam de recolher. 



CA- 



Década II. Livro X. 423 

CAPITULO IV. 

Como Affbnfo d? Alboquerque receheo hum 

Embaixador do Xeque Ifmael com hum 

prefente que lhe trazia , e o defpacho 

que houve de fua Embaixada. 

AFfonfo cPAlboquercjue como em quan- 
to durou fegurar eíle lugar da forta- 
leza , foi mui occupado , e mais não que- 
ria que eíle recebimento foíTe no mar per 
honra da peííoa , cuja era a embaixada , 
entreteve o Embaixador do Xeque Ifmael , 
que viera com Miguel Ferreira ; e também 
de induílria , porque viiTem os- Mouros de 
Ormuz o prefente , que lhe mandava eíle 
Príncipe , que naquelle tempo era terror da 
Períia, e a todalas Províncias fuás vizinhas , 
como homem que defejava de nos ter por 
amigos, e contentes. Epera eíle dia de fua 
vinda a elle mandou á porta da fortale- 
za fazer hum cadafalfo com eflrado alto 
cuberto de alcatifas , e toldado de pannos 
de feda, e a parede, a que fe havia de en- 
corar , armada de tapeceria , e hum docel 
de brocado com huma cadeira rica per fua 
peífoa , e outra pêra o Embaixador , am- 
bas guarnecidas de veludo cramefim , e ou- 
ro , e pelas ilhargas muitas almofadas de 
brocado , com todo o mais que cumpria 

pe- 



414 ÁSIA de João de Ba&Rôs 

pêra aquelle adio. Ordenadas todalas coufas 
pêra efta liora da vinda do Embaixador , 
afíentou-fe AfFonfo d'Alboquerque em fua 
cadeira , vertido fegundo eftado com que o 
recebia , e derredor delle os Capitães , e 
Fidalgos principaes veílidos de feita , e obra 
de feiscentos homens armados poftos em 
ordenança , os quaes eftavam ao longo da 
praia em rua , per onde o Embaixador ha- 
via de paliar 5 e outra gente armada mais 
limpa em cerco do eftrado ; e a fora efta 
gente armada havia pela praia muita gen- 
te folta do povo da Cidade. EIRey de Or- 
muz a efte tempo com feus Governadores , 
e Mires , que são os nobres do Reyno , 
poz-fe ásjanellas de fuás cafas , queeahiam 
fobre a vifta defte lugar , per onde entra- 
va o Embaixador, o qual era acompanha- 
do de D. Garcia de Noronha , como pef- 
foa principal , e de muitos Fidalgos , e Ca- 
valleiros , trazendo o Embaixador o pre- 
fente ante íi nefta ordem. Vinham dous ho- 
mens a cavallo , e cada hum delles trazia 
huma onça , os quaes fabiam caçar mon- 
taria com cilas , e logo a eftes cavallos fe- 
guiam outros acubertados com faias de ma- 
lha de armas á fua ufança , e trás os ca- 
vallos vinha o prefente , que eram jóias de 
ouro , peças de brocado , e de feda , pedras 
Turquezas por lavrar, afli como fahem da 

mi- 



Década II. Liv. X. Cap. IV. 425 

mina , o que tudo podia valer té três mil 
cruzados , as quaes peças traziam homens 
em bacios de prata de agua ás mãos altos , 
todos hum ante outro , e de trás vinha o 
Embaixador com D. Garcia , que o acom- 
panhava. E peró que elle era fcftejado com 
as trombetas , e atabales de Affonfo d'Al- 
boquerque, que vinham diante delle, tan- 
to que foi na praia , deíparou toda nofía ar- 
tilheria , que apagou todolos inftru mentos , 
e rumor da gente , que era quanta havia 
na Cidade. Subido o Embaixador ao ca- 
dafalfo , onde Affonfo d'Alboquerque efía- 
va em feu eftrado , elle fe alevantou da ca- 
deira , e fe alargou delia hum efpaço ; e 
chegado ao Embaixador , fazendo-fe entre 
clles cortezia cada hum á fua ufança , fo- 
ram-fe aífentar nas cadeiras 5 e depois de o 
Embaixador eftar aflentado 3 metteo na mão 
a Affonfo d'Alboquerque duas cartas ? hu- 
ma pêra EIRey D. Manuel , e outra pêra 
elle ; a d'E!Rey guardou Affonfo d'Albo- ' 
querque , e a lua deo ao Secretario Pêro 
cPAlpoem, que tinha á ilharga. Dadas ef- 
tas cartas , aprefentou o Embaixador o pre- 
fente; e porque entre as peças vinha huma 
cinta de ouro 3 e huma efpada , por com- 
prazer ao Embaixador , que lho pedio , Af- 
fonfo d 5 Alboquerque cingio tudo , por en- 
tre elles fe haver em final de paz , e amor. 

Paf- 



426 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

PaíTado eíle aéto da entrega do prefente y 
AíFonfo d'Alboquerque começou de lhe per- 
guntar pela difpofiçao do Xeque Ifmael , e 
de lua mulher , e filhos , e aíli outras cou- 
fas geraes daquellas chegadas , e depois po- 
la delle Embaixador , e do trabalho do ca- 
minho. Na qual prática eftiveram pouco 
eípaço fem tratarem de outra coufa , remet- 
tendo AíFonfo d'Alboquerque o mais pêra 
le verem de vagar, depois que defcançaífe 
de tão comprido caminho como fizera , e 
com ifio o efpedio , fendo levado per Dom 
Garcia á íua poufada com a mefma pom- 
pa de companhia como o trouxe , ao qual 
AíFonfo d 5 Alboquerque mandou fazer toda 
a defpeza de fua peíToa , e cafa em quan- 
to alli eíteve. E quando veio a fegunda vif- 
ta , que começou tratar nas coufas a que era 
enviado, porque a carta que elle Embaixa- 
dor trazia pêra elle AíFonfo d'Alboquerque 
era fomente de crença , paífadas oíFertas ge- 
raes, que deo da parte do Xeque Ifmael, 
e quanto defejava ter amizade com EIRey; 
D. Manuel , e haver entre elle communi- 
caçao de obras , entre algumas coufas que 
apontou , foram duas importantes ás cou- 
fas de Ormuz : huma , que os direitos das 
mercadorias , que da Perfia entravam em 
Ormuz , foliem d elle Xeque Ifmael ; e a 
outra , que lhe déífe lugar acerta gente fua 

pe- 



Década II. Lxv. X. Cap. IV. 427 

pêra paflar per Batem , e Catifa á terra de 
Arábia. E porque polo que fe adiante dirá 
na morte de Raez Hamed , por fua caufa 
o Xeque Ifmael fe tinha por Senhor de Or- 
muz , e efte Embaixador , e prefente que 
mandava , era cuidando que elle AíFonfo 
dAiboquerque eftaria na índia , e não em 
poffe d elle , entendeo. AíFonfo cPAlboquer- 
que que eftas duas coufas , que o Embaixa- 
dor pedia , ferem movidas , e induftriadas 
per Raez Hamed , e per Abrahem Beque 
hum Capitão do Xeque Ifmael , que alli 
eftava com titulo devir comprar certos ca- 
vallos de Arábia, e que o Embaixador as 
não trazia, em fua inftrucção. E além deitas 
duas coufas lhe pedio que lhe déífe hum 
porto na índia , onde os feus naturaes vief- 
íem feguramente fazer feus negócios ; e afli 
ajuda per mar pêra tomar hum lugar, que 
eftá entre a terra de Jafque de Ormuz , e 
Diulcinde , ao qual chamam Guadel , don- 
de os Nautáques , que habitam aquella coi- 
ta , fahem com Armadas faltear as náos que 
per alli paífatn , por quanto aquelíe porto 
de Guadel era dofenhorio d'ElRey deMa- 
cram feu vaíTaílo , o qual ás vezes fe lhe 
rebelava com o favor que tinha do mar. A 
refpoíla das quaes coufas , poílo que mo 
foram logo naquelle dia , AíFonfo cPAlbo- 
querque lha deo per fim do íeu defpacho, 

di- 



428 ASIÀ de João be Barros 

dizendo , que quanto aos direitos das mer- 
cadorias da Períia , que entraífem em Or- 
muz , os gaftos das Armadas , que conti- 
nuadamente andavam contra os Nautáques , 
eram tão grandes , e affi a defpeza que fe 
fazia com a gente que eftava em guarda , 
e defensão das Villas , e Lugares da cofta da 
Arábia , que em nenhuma maneira fe po- 
diam alargar os taes direitos ; porque a prin- 
cipal renda que Ormuz tinha , com que fuf- 
tentava feu eftado , eram os direitos da en- 
trada , c fahida das mercadorias. Quanto 
a paífagem pêra a terra de Arábia , e aííl 
porto na índia , e ajuda pêra tomar o lu- 
gar de Guadel , era mui contente , com tan- 
to que as mercadorias que vieífem da ín- 
dia pêra Ormuz não lhe deífem per o por- 
to de Guadel nenhuma fahida , e leixaíTem 
vir as nãos fua via. E comeíta refpofta lhe 
fez offerccimcntos geraes , que não penho- 
ram muito , principalmente ajuda contra o 
Soldão do Cairo , e o grão Turco feus 
imigos. Defpachado efte Embaixador quan- 
to a feus requerimentos , difle-lhe que ao 
tempo de fua partida clle AíFonfo d 5 Albo- 
querque tinha aííentado de mandar em fua 
companhia hum Embaixador em nome de 
EIRey de Portugal feu Senhor ao Xeque 
Ifmael. E porque ante que efte Embaixador 
partiffe , o do Xeque Ifmael eíteve dous 

me- 



Dec. II. Liv. X. Ca?. IV. e V. 429 

mezes em Ormuz , primeiro que digamos 
a partida delles, entraremos nascoufas que 
Affonfo d'Alboquerque fez nefte tempo. 

CAPITULO V. 

Em que fe diz que homem era Raez 
Hamed , que tinha Jujeito a EIRey de Or- 
muz : e como Affonfo (VÂlboquerque fe vio 
com EIRey , nas quaes riflas foi morto 
Raez Hamed tyranno > e Ormuz defpejado 
de toãolos feus parentes ., e EIRey poflo em 
fua liberdade. 

AO tempo que Affonfo d'Alboqucrque 
tomou Ormuz , reinava nelle EIRey 
Ceifadim > e era feu Governador Coge Atar , 
com quem elle aífentou o contrato das pá- 
reas y que elle Ceifadim havia de pagar a 
EIRey D. Manuel , fegundo efcrevemos. 
Morto Coge Atar ficou Raez Nordim por 
Governador d'ElRey Ceifadim , ao qual 
per fua morte fuccedeo hum feu irmão ho- 
mem mancebo , ficando por feu Governa- 
dor o mefmo Raez Nordim. O qual como 
era homem já de idade , pofto que tiveífe 
filhos , por fer mais fenhor do officio , e 
fegurar fua peífoa , e mais por dizerem fer 
elle caufa da morte do Rey paífado , trou- 
xe da Perfia das Comarcas de Raxet , e Xi- 
láo } 4onde elle era > alguns parentes , entre 

os 



430 ÁSIA de João de Barros 

osquaes foi hum feu fobrinho filho de hum 
feu irmão homem de trinta annos , alvo , de 
boa prefença , cavaileiro íabedor nas coufas 
da guerra , c naturalmente foberbo , aítucio- 
fo , ao qual chamavam Raez Hamed , e era 
Capitão do Xeque Iíinael. Eíte , depois que 
vio o modo do Reyno , e EiRey ler man- 
cebo entregue a Raez Nordim , começou 
logo de íe ordenar pêra o que ao diante 
fez : metteo cm Ormuz três irmãos , e tan- 
tos primos , e parentes , que feriam té vin- 
te peílbas , e com ellas viriam quinhentos 
frecheiros , mettendo-os poucos , e poucos. 
Os quaes parentes pola razão que tinham 
com Raez Nordim. eram eítimados de to- 
da a Cidade , principalmente por caula de 
Raez Hamed , que já nefte tempo tinha mui- 
ta parte em cafa d'E!Rey. Efte Raez Ha- 
med como fe vio favorecido com tantos ir- 
mãos 5 e parentes , concebeo em fi dar aquel- 
le Reyno de Ormuz ao Xeque Ifmael, cu- 
jo Capitão elle fora , parecendo-lhe que 
com qualquer pensão que déíTe ao mefmo 
Xeque Ifmael ficaria elle por Rey , com 
o qual fundamento começou ordenar fuás 
coufas a eíte fim. E havendo hum anno que 
entrara em Ormuz , pedio a EIRey que lhe 
fizeífe mercê da governança que Coge Atar 
tivera , e aíli das fuás cafas , e outros re- 
querimentos , de que EIRey não ficou con- 



Década II. Liv. X. Cap. V- 431 

tente 5 e fe eícuíòu diifo por então ; e co- 
mo era moço , vendo-fe aíTombrado dellc 
pola poíTe que queria tomar de ília peífoa , 
e caia , praticou efte cafo com Raez Nor- 
dim , e aííentáram de o mandar por Capi- 
tão de huma Armada de terradas contra os 
Nautaques , a qual elle meíino fez á íua von- 
tade , e pagou á gente de foldo. Mas tanto 
que partio de Ormuz , como quem tinha 
mais olho em fe fazer fenhor do Reyno , 
que de fer Capitão , tornou logo de noite 
ás cafas d'ElRey ; e polo favor que tinha 
de dons irmãos que lá dormiam , e ficaram 
ordenados pêra iífo ? foram-lhes as portas 
abertas 5 e entrou com aquelle impeto de 
gente que levava té elle chegar onde EI- 
Rey jazia com fua mulher , pondo-lhe lm- 
má efpada nos peitos que o queria matar. 
Ao qual EIRey com muita piedade pedio 
que o não quizeíTe matar , .e que tomaíTe 
de feus thefouros, e do Reyno quanto qui- 
zeíTe ; ao que elle refpondeo que não que- 
ria mais delle lenão faber que lhe dava a 
vida. Finalmente per efte modo elle fe apo- 
derou da peíToa d'ElRey , e prendeo o tio 
Raez Nordim , e a feus filhos , e não quiz 
matar EIRey, porque não eítava ainda tão 
poderofo que pudeffe confeguir feu intento 
naquelle tempo , e contentou-fe com ficar 
abfoluto fenhor do Reyno ? fem EIRey ter 

mais 



432 ÁSIA de JoÁo de Barros 

mais liberdade que hum cativo , e de ília 
fazenda não lhe dava mais Que cem xara- 
fins de ouro cada anno pêra íeu folgar. Af- 
fonfo d' Alboquerque chegando a Curiate , 
(como diflemos , ) foube parte deftas coufas > 
e depois que foi em Ormuz , mais particu- 
larmente outras; cante deter poífe da for- 
taleza , não quiz fabcr de Raez Nordim fe 
era verdade o que lhe diziam defte tyran- 
110. Porém no dia que recebeo o prefente 
de Xeque Ifmael efteve com elle , do qual 
loube tudo , e ainda aqueixando-fe do máo 
tratamento que lhe tinha feito , tendo-o fem- 
pre prezo té a fua chegada. Dizendo mais 
que acaufa de algumas dúvidas queElRey 
tivera acerca do entregar a fortaleza , fora 
por parte delle Raez Hamed , e que El- 
Rey defejava muito de lé ver fóra delle , e 
pedia a elle Aííonfo d' Alboquerque como 
a pai que lhe déííe a iílb algum remédio. 
Affonfo d' Alboquerque aííi poreíles reque- 
rimentos d'E!Rey , como porque elle Raez 
Hamed té então não o tinha mandado vi- 
íitar , nem mandou recado algum , palian- 
do- fe tantas coufas de que elle era author, 
fem moítrar que entrevinha nellas , tomou 
fufpeita do que elle Raez Hamed trazia no 
penfamento, que era dar Ormuz ao Xeque 
Ifmael , porque vio elle Affonfo d'Albo- 
querque finaes pêra iílo fufpeitar delle. Os 

quaes 



Diícadà II. Liv* X. Cap. V. 433 

quaes eram, que por intercefsao fua tinha 
EIRey tomado a carapuça delle Xeque 41 £- 
mael , e mandado que na mefma mcíquita 
fe diffeíTe a ília oração , e fe a paga (Te toda 
a outra ceremonia ; e áífi achou Affonfo d'Al- 
boquerquc chegando a Ormuz Habrahem 
Beque Capitão do Xeque Ifmael y que tem 
luas terras mui vizinhas ás de Ormuz , ho- 
mem mui principal , e eílava alíi com fete , 
ou oito fervidores , e toda outra gente fua 
tinha na terra firme. E perguntando elle Af- 
fonfo cPAlboquerque que fazia alli Habra- 
hem Beque , hum homem tão notável , dif- 
feram-lhe , que era vindo a mandar, quinze > 
ou vinte cavallos a Cambaya , e a certas 
eoufas do Xeque Ifmael , o que lhe não pa~ 
receo coufa conveniente hum a tal pefiba vir 
a táo pequeno negocio. Aíli que eíguardan- 
do todas eílas eoufas , que eram mui claros 
indicios , diffimulou-os pêra feu tempo , e 
por tomar conclusão com elle Raez Ha- 
med , lhe mandou alguns recados , dizendo 
também entre outras palavras , que folgaria 
que fe viífem ambos ; ao que elle refpon- 
deo que feria quando fe elle AíFonfo d'Al- 
boquerque viífe com EIRey. O que Affon- 
fo d 5 Aiboquerque diíiimulou , e começou de 
tratar nefta viíla entre elle , e ElPvey , e hou- 
ve por refpofta , que EIRey era contente , e 
ifto feria á porta de fora das caías d'E!Rey % 
. Tgm. II. P. iL Ee ou- 



434 ÁSIA de João de Barros 

onde fe armaria huma tenda , em que am- 
bos eíliveflem. Ao que Affòníb d'Alboqucr- 
que refpondeo , que fendo elJe Capitão mor 
de quatro náos , EiRey Ceifadim feu irmão 
lhe viera fallar fora de fua cafa em hum 
Cerame , e que ao prefcnte era Governador 
da índia , que com feus poderes reprefen- 
tava a peíTòa d^ElRey de Portugal leu Se- 
nhor, cujo vaífallo, e tributário elle Rey 
era , por tanto lhe havia de vir fallar a fua 
cafa, enao elle á fua. O qual negocio che- 
gou a tanto por parte de Raez Hained , 
que quaíl fe poz cm rompimento de guer- 
ra , ante. que conceder ir EIRey a caía del- 
le Affonfo d'Alboquerque \ peró Affonfo 
d'Alboquerque levou tudo per pontos bran- 
dos , té que fe aíTentou que EIRey iria a 
fua cafa, e havia de fer com condição, que 
nella não eítiveíTe gente armada , fomente 
os Capitães fem armas , o que lhe Affonfo 
d'Alboquerque concedeo , com tanto que a 
outra gente de fora das cafas havia de citar 
armada , por quanto EIRey era coftumado 
por guarda de lua pelfoa , quando fahia fo- 
ra , levar feus frecheiros , e homens de ar- 
mas. E também pelo mefmo modo os que 
entraífem com EIRey na cafa onde elle Af- 
fonfo d'Alboquerque eftiveífe , não levaífem 
armas. Ordenado o dia em que fe haviam 
de ver per efte modo > mandou Affonfo d'Al- 

bo- 

/ 



Década II. Liv. X. Cap. V. 435* 

boquerque armar toda a gente de armas , 
a qual eftivefle á porta que fahia pêra a 
praia , e toda a outra gente de Ordenança 
eftivefle armada em íuas poufadas , e tão 
preftes, que em lhes fazendo hum certo fi- 
nal de hum eirado das caías delle AfFoníò 
d'Alboquerque , acudiflem á rua. E aífi 
mandou aos Capitães , que haviam de eílar 
com elle , que tiveflem punhaes , e as outras 
armas os pajés que os haviam de aguardar 
á porta. Ordenadas .eftas coufas , quando 
veio a hora da vinda d'E!Rey , porque tar- 
dava , mandou-lhe AíFonfo d'Alboquerque 
dizer per o Secretario Pêro d'Aípoem , e 
Alexandre d ? Ataíde língua , que eftava eípe- 
rando por elle, elevaram comfigo as trom- 
betas pêra virem com a peflòa d'ElRey. 
Aos quaes Raez Nordim , que os veio rece- 
ber á porta , diíle , pêra que era tanta gen- 
te de armas como o Capitão mor tinha 
comfigo ? Ao que Pêro d'Alpoem refpondeo , 
que elle não tinha comfigo fenão gente dei- 
armada , e que a outra de fora , pofto que 
armada eftivefle , elle o podia fazer , porque 
aífi fe aflentou , e que outro tanto podia 
EIRey fazer , fomente os que entraflem 
com elle. Acabadas eftas dúvidas , e re- 
ceios , fahio EIRey de fua cafa a ca vali o 
com trombetas , e atabales diante , e íèus 
frecheiros em ordenança ; e Raez Hamed 

Ee ii co- 



43^ ÁSIA de JoÂo de Barros 

como não lhe fegurava o animo aquella fa- 
hida , tomou obra de trezentos delles , e foi 
ter á porta de Affonfo d 5 Alboquerque , en- 
trando como homem alvoroçado , e quiz 
metter comíigo com hum prelente que le- 
vava , obra de cincoenta homens armados 
de armas fecretas , que lhe D. Garcia de 
Noronha que eftava á porta nao confentio , 
por eítar ordenado queentraíTe elle fó. An- 
te como quem o vinha receber , e que def- 
pejavam a gente pêra lhe dar entrada , che- 
gou D. Garcia , e o levou nos braços ; e 
porque elle vinha armado fecretamente , ic- 
gundo D. Garcia fcntio quando o abraçou > 
e de fora trazia hum terçado , adaga , ef- 
cudo , e maça de ferro , perguntou-lhe per 
meio de Alexandre d'Ataíde lingua , que 
como trazia armas , pois nenhum de quan- 
tos eílavam dentro as tinha ? o qual como 
homem de pouco aííbcego refpondeo : Ifto 
nao he nada , e virando-fe pcra a porta > 
difle contra EIRey que queria entrar: Ten- 
de-vos lá 5 que tem gente armada. Alexan- 
dre d 5 Ataíde lingua quando lhe ouvio ifto , 
o tomou pela mão , dizendo : Andai cd , 
eu vos moftrarei as cafas , que todas ejiam 
fem ifto que dizeis ; e entrando com elle , 
topou com Affonfo d'AIboquerque , que o 
vinha receber 3 e em o querendo apartar pe- 
xa numa parte da cafa per hum braço y ti- 
rou 



Década II. Lív< X. Cap. V. 437 

rou Raez Hamed per elle hum pouco te- 
zo , e lançou mão de huma beca de velu- 
do , que Affonfo d ? Alboquerque trazia. E 
vendo elle que fizera ifto com pouco aca- 
tamento , ante que mais foffe, difle contra 
os Capitães que eftavam arredados : Ma- 
tem-o ; e dizendo eftas palavras , foi tanto 
o punhal fobre elle , que alguns Capitães 
fe feriram nos dedos , por ferem huns fobre 
outros , vendo que debaixo trazia armas. 
No qual feito foi Pêro dlAlboqucrque , Lo- 
po Vaz de Sampaio , Ruy Galvão de Me- 
nezes , Jeronymo de Soufa , Diogo Fernan- 
des de Beja , Antão Nogueira , e outros 
Fidalgos. Feita efta obra , foi-fe AíFonfo 
d'Alboquerque per onde entrava EIRey, 
dizendo aos Capitães , e gente que eftava 
com D* Garcia : Já tudo he feito , e man- 
dou-lhe que rijamente entretiveíTe a gente 
de Raez Hamed , que vinha detrás cPEl- 
Rey , a qual vendo que lhe cerravam a por- 
ta , remettêram rijo a eiia , entendendo o 
que hia dentro. A gente de armas que Af- 
fonfo d'Alboquerque mandou eílar nã praia, 
porque ouviram o rumor d efta gente de 
Raez Hamed , entraram dentro rijo onde 
EIRey eftava com Affonfo d'Alboquerque , 
ao qual elle tomou nos braços , e fe apar- 
tou a huma parte com elle fora do ímpeto 
da gente da qual EIRey teve temor , té 
t qug 



438 ÁSIA de JoXo de Barros 

que elle Affonfo d'Alboquerque aíTocegou 
aquella fúria , com que a gente de armas 
entrou , e a fez tornar a feu lugar , e de íi 
mandou lançar o corpo de Raez Hamed 
na praia. A fua gente como vio que a por- 
ta per onde elles quizeram entrar, que era 
a porta da Cidade , lhe fora fechada , re- 
mettêram com machadinhas pêra a quebra- 
rem , ao que AfFonío d'Alboquerque acu- 
dio , mandando fazer o final no eirado , que 
todos clperavam. Ao qual acudio tão pref- 
tes a gente de Ordenança pela rua direita, 
per onde os mandaram vir , que atocharam 
toda a rua de maneira , que a gente d 5 El- 
Rey , e a de Raez Hamed , que citavam 
bradando aporta, cuidando fer feito algum 
mal a peííoa d'ElRey , ficou toda fechada 
naquclle lugar , fem terem per onde fahir. 
E porque já dentro na cafa onde EIRey 
eítava fe fenria a revolta de toda efta gente 
de fora , diffe EIRey ^ a Aífonfo <TAlbo- 
querque quemandalTe agente de armas que 
não travaíTem guerra com os feus , pois to- 
dos eftavam a lèrviço d'ElRey de Portugal, 
como vaíTallos feus que eram. O que cIIq 
logo fez , tendo já a efte tempo a gente da 
Ordenança tomado poíTe da porta ; e pêra 
ordenarem efta como elle queria que efti- 
veíTem , além dos Capitães da Ordenança que 
ella tinha, Affonfo cTAlboquerque mandou 

• eí- 



Década II. Liv. X. Cai». V. 439 

eftas pelToas : D. Álvaro da Silveira , Ruy 
Galvão de Menezes , e Diogo Fernandes de 
Beja ; e leixando elle os outros Capitães , que 
eítavam com elle na caía térrea , fubio-fe 
acima ao eirado com EiRey 5 e mandando 
lançar huma alcatifa , e pôr íbbre ella hu- 
rna cadeira , fez aíTentar EIRey que fe mof* 
traíTe aos feus. Os irmãos , e parentes de 
Raez Hamed quando viram EIRey ? e não 
a elle , começaram bradar que lho deíTem , 
ou moítraífem , aos quaes AíFonfo d'Albo- 
querque mandou dizer que a cabeça lhe 
mandaria fe quizeíTem. Quando elles ouvi- 
ram efta refpoíla , entendendo Raez Hamed 
fer morto , começaram de ameaçar EÍRey , 
dizendo que elles fe iriam pêra os feus pa- 
ços , e tomariam o thefouro 5 armas , e os 
filhos d 5 EÍRey Ceifadim , como logo fize- 
ram , pondo-fe em determinação de fe de- 
fender , e puzeram artilheria em lugares pê- 
ra iífo. AíFonfo d'Alboquerque , porque 
aquelle dia lhe convinha tomar conclusão f 
e remate deite negocio , mandou logo ás 
náos trazer efcadas , e todo o neceíTario pê- 
ra entrar as cafas d'ElRey per força. Ven- 
do EIRey , e Raez Nordim fua determina- 
ção , pedíram-lhe que fobreftiveíTe niíío , 
porque queriam levar eíte negocio per mo- 
do que não houvefle rompimento de guer- 
ra , o que lhe elle concedeo , os quaes man- 
da- 



44o ÁSIA de João de Barros 

dáram logo chamar todolos Cacizcs , e fo- 
ram , e vieram com recados de huma , e 
outra parte , e de fi Raez Nordim , e per 
derradeiro Habrahem Beque com recado de 
Affoníb d'Aiboquerque, que fe té Sol pof- 
to nao deípejaflem os paços d'ElRey pêra 
clle ir dormir em íua cama feguro 3 e aífo- 
cegado , e elles fe paflaflem a terra firme, 
promettia de não dar vida a algum. E co- 
mo Habrahem Beque era fecretamente cabe- 
ceira deita maça , acabou com elles que fe 
fahifleiri , e foílem , os quaes feriam per to- 
dos vinte e cinco caías, que levaram •com- 
íigo perto de fetecentas peífoas. Peró não 
os leixou AfFonlb d'Alboqucrque fahir fem 
primeiro hum filho de P.aez Nordim fe ir 
entregar de toda a fazenda d'ElRey com 
hum Efcrivão , e Thefoureiro , em cujo po- 
der eftava, a qual entrega fe fez dentro em 
quatro horas , e elles todo aquelle dia , e 
parte da noite embarcaram com fuás mu- 
lheres , filhos j família , e fazenda , fem lhes 
fer feita offenfa alguma , porque aíli o man- 
dou AfFonfo d'Alboquerque. Os quaes de- 
pois que foram na terra firme , mandaram 
pedir a AfFonfo d'Alboquerque o corpo de 
Raez Hamed pêra lhe darem fepultura em 
fua terrra ; e elJe refpondeo que os trédores > 
e mãos não haviam de ter fepultura, nem 
lugar conhecido onde jouveífem , por iíío 

lho 



Década II. Liv. X- Cap. V. 441 

lho não dava , e fem mais repetir fe parti"" 
ram. Acabado efte feito ; diíTe AíFonfo d 5 Al~ 
boqucrque a EIRey , que ainda citava na- 
queile eirado , onde comco publicamente ao 
jantar , que fe podia ir pêra as fuás cafas, 
que já tinha defpejadas daqueila má gente; 
ao queelíe refpondeo, que faria tudo o que 
elle mandaffe / pois o tinha por pai 3 e am- 
paro de fua vida, e eílado. AíFonfo d ? Al- 
boquerque porque neíías ceremonias de hon- 
rar a peífoa o feguraífe , e dar algum aílb- 
cego á Cidade 5 quando viífem como o tra- 
tava , mandou vir todolos cavallos acuber- 
tados que EIRey tinha , e cavalgou elle, 
e alguns Capitães , e D. Garcia com outros , 
e com a gente que havia de ficar em ter- 
ra , fahíram com EIRey todos a pé, e EI- 
Rey em hum cavalío veftido com humas 
couraças de cetim branco com fua cravação 
dourada , e huma fralda de malha , que elle 
quiz veftir, e pedio a Affonfo d'Alboquer- 
que , dizendo que defejava de veílir aquel- 
las armas por lhe parecerem bem no corpo 
de hum Capitão que as trazia tfeftidas. E 
fahindo peia rua , além da porta onde ca- 
valgou , foi ter com AíFonfo d'Aiboquer- 
que que o eílava efperando \ e porque o 
feu cavallo era hum pouco defafiocegado 
com as cubertas que levava , fazia tão gran- 
de terreiro entre a gente , que não pode 

Af- 



44^ ÁSIA de João de Barros 

Affoníb (TAlboquerque ir junto cTElRcy, 
e foi-fe diante com os de cavallo , que o 
acompanhavam. Seria o povo que fe ajun- 
tou , e poz per as janellas , e eirados da 
rua per onde EIRey hia , paílante de trinta 
mil almas; e quando o viram naquella pom- 
pa , e com maior eftado do que nunca ca- 
valgou , todos a huma voz em modo de 
louvor davam graças a Affoníb d'Albo- 
querque por lhes tirar o feu Rey do cativei- 
ro daquelle tyranno , e o poz em eftado de 
tanta honra. E certo que tinham elles nifto 
razão ; porque como todolos noíTos pêra 
aquelle aíto de acompanhar EIRey affi a 
pé fe armaram das melhores , e mais freícas 
armas que tinham , era coula muito pêra 
ver , e louvar. Chegado EIRey á porta das 
fuás calas , fahio ao receber Abrahem Bec 
o Capitão do Xeque Ifmael , e o feu Em- 
baixador , e deram também muitas graças 
a Affonfo d'Alboquerque do modo que ti- 
vera de libertar aquelle Príncipe , e da hon- 
ra que lhe fazia ; e muito mais o louvaram y 
vendo com que palavras á entrada da por- 
ta ante que defceiTc , elle entregou a Raez 
Nordim feu Governador, e a todolos feus 
Mires a pefíba , e eftado d'E!Rcy ; e fem 
querer entrar dentro fe tornou á fortaleza , 
ficando toda a Cidade aíTocegada , como fe 
nella não houvera alvoroço algum. E quan- 
do 



Década II. Liv. X, Cap. V. 443 

do veio ao feguinte dia , porque elle AfFon- 
ío d^Alboquerque foube que em huma for- 
taleza chamada Monejom das mais princi- 
paes que EIRey tinha na terra firme daPer- 
fia , onde chamam o Mogoílão 5 eííava hum 
irmão de Raez Hamed , o qual com a mor- 
te do irmão fe levantara com ella 5 mandou 
dizer a EIRey que queria mandar gente fo- 
bre ella. Ao que elle refpondeo com pala- 
vras de agradecimento , polo cuidado que 
tinha da defensão de feu Reyno ; porém que 
lhe parecia melhor commetter aquelle ho- 
mem per outro modo , e não per armas , 
que o leixaíTe fazer. O qual modo foi pôr- 
fe com o Mouro que déífe a fortaleza a 
partido de dinheiro , o que elle concedeo 
por vinte mil xarafins , mas EIRey os não 
quiz dar fem licença de Affonfo d'AIboquer- 
que y e peró que elle infiftia que fe não def- 
fem , todavia concedeo por EIRey lhe man- 
dar dizer que fe os déííe , que ante de pou- 
co tempo elle fe havia de entregar em hu- 
ma náo delle , e de feus parentes , que fe 
efperava da índia , e affi foi. E porque em 
as Armadas que EIRey trazia contra os 
Nautaques , andavam ainda alguns parentes , 
e familiares de Raez Hamed , mandou EI- 
Rey vir eftas Armadas 5 que eram de na- 
vios de remo per ordenança de Affonfo d 5 Aí- 
boquerque^ e foram defpejadas deíla gente, 

e met- 



444 ÁSIA de JoXo de Barros 

e mettida outra fiel , e obediente a EIRey, 
e eftoutra toda fe paíTou a Perfia ; e aos 
Guazis , e Capitães que eftavam da mão de 
Raez Hamed em as Villas , e fortalezas do 
Reyno de Ormuz , fez também AfFonfo 
cPAlboquerque tirar delias i e entregar a ho- 
mens fern fufpcita da Cidade , e ainda com 
fiança , e eferituras em modo de menagem. 
Per efta maneira todalas coufas que toca- 
vam á fegurança da peflba cTElRey , aíFo- 
cego , c proveito leu , trabalhava AfFonfo 
cPAIboquerque que ante de fua partida fi- 
ca ílem aflentadas , e mui correntes ; e aífí 
o fez tão em breve , que eftando elle alli 
polo que fe ouvia na Perfia , as cáfilas de 
mercadores ordinários concorriam a feus tra- 
tos mais confiadamente do que fe fazia em 
tempo de Coge Atar , e Raez Hamed , por- 
que como eram tyrannos , não tratavam ver- 
dade aos mercadores , com que fe partiram 
efcandaíizados. AfFonfo d'Alboquerque em 
quanto Abrahem Bec , e o Embaixador do 
Xeque Ifmael eíliveram na Cidade , e elle 
ordenou eftas , e outras coufas , por fegu- 
rança daquelíe Reyno de Ormuz , nunca os 
tomou por parte niífo , ante por medianeiros , 
como a homens nobres tão acceitos ao Xe- 
que Ifmael , efempre em todos aquclles ne- 
gócios qualquer caufa que lhe elles reque- 
riam > folgava de fazer, Abrahem Bec , pof- 

to 



Década II. Liv. X. Cap. V. 445* 

to que a íua vinda ai li foi a caufa da fui 1 
peita que AíFonío d'Alboqnerque deiie te- 
ve , depois que o vio tão fenhor daquelie 
Rcyno , voltou feu propoíito, e começou 
de o querer comprazer , porque como ti- 
nha terras vizinhas a Ormuz , e era fenhor 
de huma Cidade chamada Draguer , eípe- 
rava que a íua amizade lhe podia ao dian- 
te muito aproveitar. E vendo elle que o 
Embaixador do Xeque Ifmael fe queria par- 
tir 5 veio-fe eípedir de AíFonfo d 5 Alboquer- 
que , dizendo que havia já dias que tinha 
acabados feus negócios , e que fe detivera 
por ir em companhia de Bairim Bonari, 
( que alli havia nome o Embaixador , ) e 
por amor de poder fazer algum ferviço á 
peffoa , que elle queria mandar a feu fenhor 
o Xeque Ifmael : cá eJle não fe havia deter 
em fuás terras , fenao paífar feu caminho té 
Corte de feu Senhor. AíFonfo d'AIboquerque 
lho agradeceo muito , moítrando ter certo 
a peífoa que elle mandafle fer bem defpa- 
chada , e em toda parte fegura 5 pois hia 
em companhia de huma peiToa tão notável > 
e acceita ao Xeque Ifmael, como elle era. 
Finalmente como elle AíFonfo d'Alboquer- 
que tinha já ordenado que a peífoa que ha- 
via de mandar ao Xeque Ifmael era Fernão 
Gomes de Lemos filho de João Gomes de 
Lemos fenhor da Trofa , elle o defpachou 

lo- 



446 ÁSIA de JoÃo de Barros 

logo , e fe partio , e em fua companhia 
iriam té quinze peííoas , de que as notáveis 
eram João de Soufa , a fegunda depois del- 
le , e Gil Simóes moço da Camará d'ElRey 
Efcrivão da embaixada com hum prefente , 
que podia valer té féis mil cruzados , de 
muitas , e diverfas peças , delias deite Rey- 
no , e outras da índia. E a íubítancia de fua 
embaixada era refpofta ao Xeque Ifmael do 
que lhe o feu Embaixador da fua parte re- 
querera , e o lugar onde o achara , que era 
tomando poffe do Reyno de Ormuz , e que 
havia annos que elie tinha conquiftado , e 
aíli tirar EIRey daquelle tyranno que o ti- 
nha quaíí prezo. Por quanto além de pôr 
em liberdade hum vaílallo d'ElRey feu Se- 
nhor > como era ElP^ey de Ormuz , huma 
das coufas que lhe mandava em feu regi- 
mento era , que favoreceífe todolos Reys , 
e Príncipes daquellas partes , que fua ami- 
zade quizeífem ter , e não confentiífe que 
lhe foife feita traição pelos feus naturaes , 
nem aggravo dos vizinhos , e que pêra ifto 
quando cumpriífe fe oppuzeífe com toda fua 
gente em armas. E porque chegando elle a 
Ormuz EIRey fe queixou de hum Raez 
Hamed , elle Affonfo d'AIboquerque o caf- 
tigára da maneira que EIRey quiz ; porque 
os tyrannos que com fua foberba , e mal- 
dade fe querem fenhorear das peíToas Reaes ^ 

tal 



Década II. Liv. X. Cap. V. 447 

tal caftigo merecem. Aíli que ao tempo que 
clle eííava neíla obra chegou Bairim Bonari 
feu Embaixador, e folgou muito de o to- 
par alli ? por lhe não dar trabalho de pal- 
iar o mar 5 e ir bufcallo á índia , e affi fol- 
gava de eftar tão vizinho da Pedia , por 
cada dia ter novas de fua Real peífoa , e as 
mandar a EIRey feu Senhor. Finalmente 
per eítes termos , e com offertas geraes acer- 
ca da guerra que tinha com o, Turco , e 
Soldão do Cairo , fez huma grande inftruc- 
çao a Fernão Gomes de Lemos , o qual par- 
tio em companhia de Abrahem Bec , e do 
Embaixador a onze de Maio de quinhen- 
tos e quinze. Da viagem do qual nós não 
faremos relação , por fer grande , e miúda > 
e dia por dia , fegundo a efcreveo Gil Si- 
mões Efcrivão defla embaixada, fomente o 
que convém á noífa hiftoria , como Fernão 
Gomes de Lemos foi recebido honradamen- 
te , e defpachado com favor , o qual tor- 
nou á índia , fendo AíFonfo d\Alboquerque 
já fallecido, e governar Lopo' Soares. Peró 
porque efte Xeque Ifmael naquelle tempo 
em poder , e eftado era maior fenhor que 
o Turco , e havia pouco tempo que lhe de- 
ra huma batalha , e veio a grande poten- 
cia per armas , e religião de fedia , e del- 
le tem efcrito alguns authores , não com 
verdadeira informação , aqui trataremos huni 

pou- 



448 ÁSIA de J0Á0 de Barros 

pouco de fua origem, ícdta , e fortuna, fe- 
gundo o remos iàbido per eícritura dos 
mefmos Paríeos , e o mais de fua potencia , 
e eílado leixamos á noífa Geografia. E ante 
que venhamos a eIJe, pêra melhor entendi- 
mento , convém tratar do nafeimento , e fe- 
ita de Mahamed , e eíla relação fera té fua 
morte , fegundo alguns eferitores Latinos , 
e o mais lègundo o Tarigh dos Mouros > 
que he da vida dos Califas que o fuecedê- 
ram. 

CAPITULO VI. 

Em que fe efereve o fundamento da fe- 
tla de liame d ) e a differença que tem os 
Mouros da Perjia com os de Arábia acer- 
ca delia : e donde nafceo o principio das 
coufas do Xeque IJhiaeL 

APerfeguição de Mahamed , (fegundo o 
que fe delle efereve , ) concorreo no 
fim do império de Heraclio , anno do Naf- 
eimento de noííb Redemptor Chriílo Jeíus 
feiscentos e 'íeílenta e féis ; peró que em 
fua lenda os Mouros começam a lua era 
no anno de Chriílo de quinhentos e noven- 
ta e três na primeira Lua de Fevereiro. Naf- 
ceo em Itrarip lugar pequeno de Arábia , 
feu pai ( fegundo dizem os Mouros ) era 
de huma linhagem , a que elles chamam 
Corax . e vem de Ifmael , e havia nome 
* ■ Abe- 



Década II. Lív. X. Cap. VI. 449 

Abedelá Gentio , fua mái Enima , a qual 
era Hebrea , ambos peílbas do povo , da 
creaçao dos quaes recebeo duas doutrinas , 
Gentílica , e Hebrea ; e por morte delíes fi- 
cou de mui pequena idade encommendado a 
Sabutaleb feu tio , irmão do pai. Sendo já 
moço de boa idade , foi cativo pelos Sce- 
nitas, gente que naquella parte de Arábia 
vive de latrocinio , dos quaes o comprou 
Abdimoneples hum groíTo mercador , que 
vendo fua habilidade , o metteo em nego- 
cio do commercio , mandando-o de Pales- 
tina, onde elle vivia, a Egypto com mer- 
cadorias ; do qual commercio , porque foi 
per muitos annos , ficou Mahamed acredi- 
tado naqueílas partes entre Gentios , He- 
breos , e Chriílãos. No qual tempo acon- 
teceo , que fugindo Sérgio doutrinado em 
a hereíla Arriana , foi ter áquelías partes da 
Syria a cafa de Abdimoneples amo de Ma- 
hamed l por fer homem notável , e abaíta- 
do com o trato do commercio ; com a 
entrada do qual , além das doutrinas , que 
Mahamed tinha de fua creaçao , e depois 
com a variação das gentes que communi- 
cava , por razão das partes a que hia com 
fuás mercadorias , foi também inílruido na 
doutrina de Arrio por eíle Sérgio. Final- 
mente morto feu amo , ficando por cabeça 
do governo de toda fua fazenda , dle fe 
Tm.IlF.il Ff ca~ 



45TO ASIÀ de João de Barros 

cafou com ília ícnhora herdeira de toda. Ef- 
ta per nome Hadigia , poílo que mui con- 
tente foífe deite novo marido , depois que 
per algumas vc£cs o vio tomado da dor 
de epiiepcia , que lhe caufava todos aquel- 
lcs traípaílamentos , c actos que faz no pa- 
ciente , era mui defconfolada , e trlfte : á 
qual elle pêra confolar fez crer ler o An- 
jo Gabriel , que o rebatava naquelle trafpaf- 
famento , em quanto lhe declarava da par- 
te de Deos coufas , que havia por bem que 
elle Mahamed denunciaííe ás gentes no que 
deviam ter , e crer acerca da Lei de Moy- 
fés j e de Chriílo ; e como o Anjo era es- 
pirito , e elle homem mortal , não podia 
íbffrer o feu refplandor, e trafpaííava-fe da 
inaneira queella via. A velha como era na- 
morada delle por razão da idade juvenil 
que tinha , com eíla fabula já o não ama- 
va como a marido , mas reverenciava co- 
mo a profeta , e começou entre as vizinhas , 
c amigas cm grão fegredo denunciar efta 
fantidade do marido : donde quando ella 
morreo , não fomente o leixou rico com to- 
da fua fazenda ? de que o fez herdeiro , mas í 
ainda acreditado de fantidade entre aquelleí 
povo ruftico. Com o qual credito de fazen- 
da , e fantidade , Bubac homem principal; 
daquella parte de Arábia , lhe deo por mu-, 
lher fua filha Aixa , fendo Mahamed nefte 

tem- 



Década II. Liv. X. Cap. VI. 45*1 

tempo homem de quarenta annos ; com fa- 
vor do qual logro , e de Hómar , e Ot- 
thoman dous parentes de Bubac, elle Ma- 
hamed crefceo em tanta authoridade , e opi- 
nião , que ajuntou grande número de Ará- 
bios 5 e com voz de religião conquiílou mui- 
tas terras dos vizinhos , em ajuda do qual 
era Alie feu primo 3 filho de Sahutaleb ir- 
mão de feu pai. Ao qual por fer muito bom 
cavalleiro , e Capitão , elle Mahamed ca- 
iou com Fátema fua filha da fua primei- 
ra mulher Adagia. Morto Mahamed em 
idade de feíTenta e três annos , mandou em 
feu teftamento , que efte Alie feu primo ficaf- 
fe por facceílbr no eílado , e fuperior de 
todolos que receberam , e recebeíTem fua 
fe6la , e ifto com eííe nome de Califa, e 
aííi que efte feu genro , e fua filha amorta- 
lharem íeu corpo , porque nenhuma outra 
peíToa era digna diífo. Bubac fogro d elle 
Mahamed, porque elle lhe morreo em ca- 
fa, levantou-fe contra Alie acerca da fuc^ 
cefsão do eftado , e religião , dizendo que 
Mahamed tjado o que ganhou , e adquirio 
foi com feu favor. Ao qual Alie não pode 
refiftir , por não ter força pêra iífo , e elle 
Bubac fer mui poderofo ; e tinha por fa- 
vorecedores nefte cafo Hómar , e Ottho- 
man feus parentes , que por ferem com Ma- 
hamed na guerra, econquifta que teve em 

Ff ii fua 



4p ÁSIA de JoÁo de Barros 

fua vida , também efperavam fucceder no 
Califado , e ante queriam Bubac por Cali- 
fa , por fer parente , que Alie , que era de 
outra linhagem , e mais mancebo , e podia 
durar muito no Califado , e Bubac tão ve- 
lho , que mui. cedo vagaria nelle , como va- 
gou ; e não fem fufpeita que morrco aju- 
dado dos íucceíTores , principalmente de Hó- 
mar. O qual mais per força , que eleição 
também viveo no Califado dez annos e 
meio , e foi morto per hum feu efcravo , 
eftando elle na mefquita fazendo oração ; 
e houve fufpeita que fora per induftria de 
Alie , e que efte efcravo era Chriílão , e 
havia nome Abual Alvalá. Morto Hómar , 
também á força de poder ficou por Califa 
Otthoman , tomando elle por aução deíla 
fucceísão não fomente o favor que dera ás 
coufas de Mahamed , mas ainda fer feu 
genro duas vezes , por cafar com Home- 
culfuma , e Roquia ambas fuás filhas , de 
que não houve filhos , e morreram em vi- 
da do mefmo Mahamed. Efte também du- 
rou mui pouco , e foi morto em hum ajun- 
tamento de Mouros do Cairo , e outros de 
Cufa. Per morte do qual foi alevantado 
por Califa Alie per commum confentimen- 
to de todos, fomente Mauhya Capitão de 
Otthoman , o qual eílava nas partes de Je- 
nifalem fazendo guerra aos Gregos , não 

quiz 



Década II. Liv. X. Cap. VI. 45-3 

quiz obedecer a Alie , dizendo que primei- 
ro que lhe obedeceíTe , lhe havia de dar as 
cabeças de todos aquelles , que foram na 
morte de Otthoman feu Califa. E porque 
Alie feefcuíòu diífo, dizendo que não po- 
dia matar tanto número de gente como 
fe acharam na morte de Otthoman, Mau- 
hya começou de lhe fazer guerra com ti- 
tulo que elle Alie mandara matar Ottho- 
man , lbbre o qual ambos moveram hum 
contra o outro,. e onze mezes tiveram feus 
arraiaes em vifta pelejando per muitas ve- 
zes , em que morreo muita gente , té que 
fe mettêram os feus Xeques , e religiofcs 
da fecla , que os apartaram , e puzeram o 
caíb em juizo dos velhos mais principaes, 
O qual juizo fe havia de fazer em Meca y 
è Alie fe havia de ir pêra a Cidade Cufá , 
donde elle viera áquelle cafo , a qual he 
nas correntes do Eufrates abaixo de Baga- 
dad , e Mauhya ficafíe onde eftava , por to- 
dos eítarem apartados aíli os juizes-, como 
os contendores ; peró Mauhya atalhou a tu- 
do , mandando fecretamente matar Alie ci- 
tando em huma mefquita fóra de Cufá , e 
aqui nefteCufá foi trazido feu corpo, e por 
caufa de jazer alli , os Mouros chamam a 
efte lugar Maxadalle , que quer dizer cafa 
de Alie. Morto elle , os de Cufá levantaram 
por Califa Hacen feu filho mais velho, fi- 
lho 



45*4 ÁSIA de João de Barros 

lho de Fatema fua mulher , de que houve-» 
ra efte , e outro per nome Hocen , ambos 
gemios ; mas clle Hacen não durou no Ca- 
lifado mais que féis mezes , porque Mau- 
hya foi fobre clle que o fez defiftir da di- 
gnidade , e depois o mandou matar com 
peçonha. E a caufa diílb foi , porque efte 
Mauhya ficou por univerfal Califa dos Mou- 
ros , (no qual eftado efteve dezenove an- 
nos , e três mezes , ) e quiz em fua vida que 
juraíTem feu filho Yazit por Califa , e elle 
Hacen o não quiz jurar. Foi efte Mauhya , 
(fegundo fe efereve delle , ) o primeiro que 
entre os Mouros fez cadea , e fe fervio com 
eferavos, e que todos eftiveíTem em pé an- 
te elle , e fez íinete com que acreditava feus 
mandados , e cartas , e os Mouros o não 
contao no catalogo dos Califas , por fer 
má o homem , e vir áquelle eftado per mor- 
te de Alie. E do filho Yazit que o íuece- 
deo , dizem que não era Mouro , fenao 
Gentio ,- porque foi tão peílimo homem , 
que depois de fua morte , paliados alguns 
annos , os feus oífos foram publicamente 
queimados , como no principio eferevemos : 
cá efte matou muitos lenhores de toda Ará- 
bia , andou de amores com fua irmã , e por- 
que fe prezava de trovador , fazia muitas 
trovas por ella ; não fazia acerca dos pre- 
ceitos de Mahamed fenao o que queria , ma- 
tou 



Década II. Liv. X. Gap. VI. 457 

íou por eíla caufa a leu neto Hocen fegun- 
do filho de Alie. O qual Hocen ao tempo 
de fua morte hia com fua mulher, filhos, 
e fervidores , que feriam té íetenta peííòas 
chamados dos moradores de Cufá pêra o 
elegerem por Califa , por a maldade deite j 
e fendo em hum campo chamado Carbalá , 
alii o alcançou hum Capitão de Yazit , que 
o matou ; e porque ficou alli enterrado , de- 
pois por memoria de fua fepultura fe fun- 
dou huma Cidade chamada Carbalá , do no- 
me do campo. Defte Hocen ficaram eíles 
doze filhos , Zeinal Abadim, Zeinal Ma- 
hamed , Baguer Mahamed , Jafar Cadegueg , 
Jafar , Mufá Cazim , Mufá Hali , Mucer* 
ráza Alli , Mahamed Taguij , Mahamed Ha- 
li Naguij , Alli Hacem Afquerij , Hacen 
Mahamed Mahadij , os quaes eítam enter- 
rados em diverfas partes , huns com Ma- 
hamed íèu vifavô , outros com feu avô Al- 
ie , e outros nas Cidades Bagadad , e Herij 
no Reyno Horaçan. Somente Mahamed Ma- 
hadij dizem os Parfeos que ainda não he 
morto , e efperam por elle i dizendo que ha 
de vir moftrar-fe ás gentes pêra acabar de 
declarar a verdade de todalas leis , feitas . 3 
e opiniões , e converter a íi todo Mundo 
em cima de hum cavallo , e ha de começar 
eíla conversão de Maxadáíle , onde feu avô 
Alie jaz fepultado, epor eíla caufa alli eílá 

fea> 



456 ÁSIA de João de Barros 

fempre hum cavallo fellado efperando por 
efte feu Califa , o qual cavallo ao tempo que 
fe querem accender as candeas, he trazido 
á mefquita a offerecer. E em huma certa 
fefta do anno trazem efte cavallo com toda 
a folemnidade que pode fer a offèrtar na 
mefquita onde jaz Alie em modo de pre- 
cação , que mande aquelle feu neto que ef- 
peram ; e em hum dia deites de tal fefta fe 
achou alli hum Portuguez , o qual nos con- 
tou ver o mor ajuntamento de gente que 
elle tinha vifto a folemnizar efta fefta. Suc- 
cedeo por caufa das diíferenças que conta- 
mos que Alie teve com Bubac , Homar , 
Otthoman , e Mauhya , e mortes pelo mo- 
do que foram , que entre os Mouros fem- 
pre houve contendas , não fomente per ar- 
mas , mas per letras , qual deftes quatro Ca- 
lifas primeiros foi mais legitimamente fuc- 
ceífor no Califado. Os Arábios favorecem 
a Bubac , Homar, e Otthoman, os Parfeos 
a Alie , e tem que os outros o poíTuíram 
tyrannicamente , e que foram contra o tef- 
tamento de Mahamed , de maneira que em 
vida delles fempre houve cifma , e depois 
da morte , que as peíToas podiam fallar ou- 
fadamente , muito maior , e per derradeiro 
ficou efta cifma entre os Arábios , e os Par- 
feos. Eftes tomaram por appellido Xiá , que 
quer dizer união de hum corpo , e os Ará- 
bios 



Década II. Liv. X. Cap. VI. 457 

bios chamam-lhes por vitupério Raífadij , 
que quer dizer gente fora de caminho , e 
affi mefmo chamam Çunij , que he o con- 
trario. Das quaes cabeças , que são os prin- 
cipaes entre os Mouros , precederam outros 
membros , tomando cada hum fua feita , 
affi como entre os Paríeos eítas duas , Ca- 
marata , e Muhatazeli , os quaes não feguem 
muito o dito dos Profetas , e tudo querem 
provado per razão natural , e eítes são os 
Parfeos convertidos de Gentios a Mouros. 
Porque como a gente Parfea era politica , 
e que antigamente contendia , e competia 
per armas , e letras com os Gregos ao mo- 
do dos Filofofos , não recebem fenão as 
coufas que fe podem provar per filofofia , 
e não recebem ditos de Profetas , nem al- 
gumas coufas da lei de Moyfcs , que os 
Arábios acceitam, E acerca deites ha ahi 
liuma feita chamada Malahedá 5 a qual to- 
dalas coufas deite Mundo fomette a cafo , 
c eítrella 5 e não á providencia de Deos , 
quaíí que querem imitar a Leucipo Filofo- 
fo , primeiro inventor deita opinião 3 e ou- 
tros chamados Emozaidi não acceitam mui- 
tas coufas do Alcorão de Mahamed 5 os 
quaes feguem eíta doutrina de Zaidi , que 
foi neto de Hocen fegundo filho de Alie, 
e eítes Mouros são aquelles 5 que habitam 
toda a terra doPreíteJoão ? e coita de Me- 

lin- 



4^8 ÁSIA de João dê Barros 

linde. E peró que entre os Mouros ahi haja 
eílas , e outras opiniões , e feitas , em que 
fe contradizem , (como diíTemcs , ) as prin- 
cipaes cabeças são os Parfeos , e Arábios , 
e toda a difputa entre os íeus letrados he 
fobre dezefete conclusões que tem os Par- 
feos , as quaes não recebem os Arábios , 
de que diremos algumas , pois por razão 
deita contenda efcrevcmos tudo atrás. Di- 
zem os Parfeos , que Deos he cbrador de 
todo bem . e o mal vem do Diabo : refpon- 
dem os Arábios que per efta maneira ha- 
veria dous Deofes , hum do bem , e outro 
do mal. Dizem os Parfeos que Deos he eter- 
no , e a Lei com a creação dos homens te- 
ve principio : rcfpondem os Arábios 3 que as 
palavras da Lei são louvores dos effeitos 
de Deos , e que todalas fuás coufas são eter- 
nas , como elle he. Dizem os Parfeos , que 
as almas dos bemaventurados no outro Mun- 
do não poderam ver a eííencia de Deos , 
porque he efpirito de Divindade, fomente 
veram fua grandeza , mifericordia , pieda- 
de j e todolos outros bens que obra acerca 
das creaturas : refpondcm os Arábios , que 
com feus próprios olhos o hão de ver aífí 
como he. Dizem os Parfeos , que Mahamed 
quando recebeo a Lei de Deos pêra a de- 
nunciar ao povo , que a fua alma foi leva- 
da ante Deos pelo Anjo Gabriel : refpcn- 

dem 



Década II. Liv. X. Cap. VI. 45^ 

dem os Arábios , que não fomente alma , mas: 
o corpo. Dizem os Parfeos , que os filhos de 
Alie , e Fatema , e feus doze netos , tiran- 
do Mahamed , tem preminencia fobre to- 
dolos Profetas : refpondern os Arábios , que 
efta preminencia he fobre todolos homens , 
mas não fobre os Profetas. Dizem os Par- 
feos 5 que três vezes baila fazer oração a 
Deos , pela manhã em nafcendo o Sol cha- 
mada Sob , e a fegunda Dor ao meio dia , 
e a terceira Magareb ao Sol poílo , porque 
eílas contém em íi todalas partes do dia : 
refpondern os Arábios , que , fegundo os pre- 
ceitos da Lei, hão de fer cinco vezes, ef- 
tas três, e mais duas: a primeira chamada 
Hácer , que he ante do Sol poílo , e outra 
ante de lançar na cama , a que chamam 
Axá. Das quaes conclusões , e das outras 
que não recitamos , porque bailam eftas pê- 
ra exemplificar , fempre os Mouros letrados 
da Períia entre íi trouxeram eílas máximas 
de fua feita , não oufando fahir mui a cam- 
po com ellas ; porque como o mais do tem- 
po foram governados per Califas Arábios , 
que tem o contrario , eram havidos por* he- 
réticos 3 e caíligados por iífo. Finalmente 
andando eílas coufas aíli embuçadas entre os 
Parfeos , que fempre por eílas tiveram ódio 
aos Arábios , e principalmente porque fo- 
ram vencidos per elles > quafi nos annos de 

nof- 



460 ÁSIA de João de Barros 

nofla P.edempção de mil e trezentos e feflcn- 
ta houve na Perfia hum Mouro per nome 
Sophij homem nobre , e fenhor da Cidade 
Ardevel , o qual fe gloriava vir da linha- 
gem de Alie pela linha de feu neto Mufa 
Cazin j hum filho dos doze de Hocen , que 
acima nomeámos. Efle porque já em feu 
tempo os Mouros não tinham Califas , por 
acabarem no anno de mil duzentos cincoen- 
ta e oito annos em Muítáccm Mumbilá , ao 
qual matou aquelle grande Tártaro Halá- 
cu , a que Haithomo no tratado que fez 
dos Tártaros chama Haolono , com fua 
morte ficaram os Mouros Parícos da feque- 
la de Alie algum tanto defabafados pêra 
denunciar a opinião que tinham. E princi- 
palmente depois que viram que efte Halácu 
perfeguia a todolos da Arábia , Syria , e 
do Cairo , tendo com elles contínua guer- 
ra , e aíli feus fucceflbres , (fegundo conta 
o mefmo Haithomo.) E pêra denotação , e 
linal daquella fua feita , e nova religião em 
memoria dos doze filhos de Hocen , que 
nomeámos , de que elle vinha , do meio da 
touca , que os Mouros em modo de trufa 
de muitas voltas coílumam trazer na cabeça , 
lhe fahe huma maneira de capello agudo 
no cima á maneira de pyrame repartido em 
doze verdugos de alto a baixo , ao qual 
fuccedeo feu filho Juné. E cobrou eíte tanta 

au-* 



Década II. Liv. X. Cap. VI. 461 

authoridade de religiofo daquella feita 5 e 
tinha tanto nome naquellas partes da Per- 
íia , que quando aquelle Tamor Langue , a 
que commummente chamam Tamor Lao , 
hia com a vitoria que houve de Bayazit 
quarto Emperador dos Turcos , ao qual cl- 
le levava prezo , e trinta mil cativos 3 quiz 
elle Tamor ver a efte Juné , como a hum 
homem fanto. O qual entre algumas cou- 
laiç que tratou com Tamor , foi pedir-lhe 
liouvefle por bem não levar aquelles ho- 
mens cativos : cá defendia lua lei não fer 
cativo Mouro de outro Mouro , ainda que 
fofle Senhor do Mundo , e tão poderofo 
Príncipe como elle era, que lhe pedia que 
lhos défle pêra os converter ao verdadeiro 
caminho de fua falvaçao , que era a que elle 
confeíTava, e amoeftava a muitos acerca das 
coufas de Alie íèu Profeta. Finalmente per 
efte modo tanto amoedou Tamor , que lhe 
deo todolos cativos , os quaes ficaram alli 
debaixo da fua doutrina , que elles logo re- 
ceberam , e aflentarem na terra vivenda , os 
quaes depois foram mui proveitofos a feu 
filho Xeque Aidar. Porque morto elle Xe- 
que Juné , começou Xeque Aidar , que o 
fuccedeo em tudo, fazer algumas entradas 
nos povos Gorgijs Chriftãos que tinha por 
vizinhos , fendo nefte tempo Rey na Períla 
hum Mouro per nome Mirzá Geunxá , ao 

qual 



4Óz ÁSIA de JoÁo de Barros 

qual fazia guerra outro Mouro , que fe le- 
vantou nas partes da Suria naquella Co- 
marca a que elles chamam Diarbec. Ao 
qual Mouro per nome Hacern Bec a fortu- 
na favoreceo tanto , gue matou em campo a 
Mirzá Geunxá , e fe tez fenhor de todo feu 
eítado, E como efte Hacem Bec era homem 
novo fem parentefeo de nobreza , c eftran- 
geiro na terra , por melhor fegurar o que 
ganhara , e fe liar com os Príncipes do Rey- 
no 5 cafou huma filha fua com Xeque Ai- 
dar, que além de ler homem nobre em ían-. 
gue, por vir da linhagem de Alie, e fedia 
que novamente profeílava , com que tinha 
acquirido muita gente , houve Hacem Bec 
que a dava a huma das mais notáveis pei- 
loas da Perfia. Morto eíie Hacem Bec 5 her- 
dou o feu eílado Hiacob Bec feu filho , o 
qual vendo o crefeimento de feu cunhado 
Aidar, ou que temeíTc , por aelle fe ajuntar 
grande número de povo , aífi por caufa da 
religião nova , como por a rapina que fa- 
ziam em algumas entradas nas terras dos 
povos Gorgijs Chriftãos > cujo vizinho elle 
Aidar era , ou per qualquer outra via que 
foífe , Hiacob Bec o mandou matar neíla 
guerra , dando fecretamente ajuda pêra iílo 
aos mefmos povos Gorgijs. E além difto 
mandou tomar dous filhos que tinha , If- 
mael de idade de dez annos ; e Soleimão, 

e os 



Década II. Liv. X. Cap. VI. 463 

€ os entregou a hum homem de confiança 
que os levafle a hum feu Capitão per nome 
Manfor Bec Deporná , que eílava em a Ci- 
dade Xiraz , que he dalii perto de duzentas 
e feíTenta léguas , com recado , que aquelies 
dous moços metteífe em o caftello Çalgah , 
por fer coufa forte 3 mettido em huma fer- 
ra , té lhe elle mandar outra coufa. Manfor 
Bec quando lhe entregaram eíles dous mo- 
ços em ferros , como já fabia quem eram , 
e a morte de feu pai 5 diífe que não qui- 
zefle Deos que elle fizeífe tanta crueza no 
Real fangue de Alie feu fanto Califa ; e 
não fomente os não quiz mandar áquelle 
defterro , mas ainda os leixou andar em fua 
cafa com feus filhos , e mandou enfinar co- 
mo a cada hum delles. Paífado fere , ou oi- 
to annos , veio efte Manfor Bec adoecer, 
c doendo-íe que fe morreíTe eíles moços re- 
cebeflem algum damno , ficando em poder 
de Cacem Bec feu filho , o qual por fer 
mancebo quereria na entrega delles compra- 
zer a Rocem Bec , que já reinava, por feu 
pai Hiacob Bec fer fallecido , mandou vir 
os moços ante íi , e difle-lhes eftas palavras : 
Eu eftou , filhos , no eflado que vedes , te- 
wio que fe morrer vos feja feito algum mal\ 
e porque té ora vos criei com amor de fi- 
lhos 5 com efte amor vos quero falvar do 
perigo a que podeis vir , vindo ter d mão 

de 



464 ÁSIA de J0Á0 de Bakros 

de Rocem Bec vqffò primo. Vedes aqui du- 
zentos xarafins , dar-vos-hao cavallos , e 
companhia que vos leve a vojja madre , pa- 
rentes , e criados tendes , elles vos darão 
modo de vida , pois eu não fou poder ofo pê- 
ra mais : e huma fó couja vos peço polo 
amor com que vos falvei , e criei eftes dias 
que em minha cafa eftivejles , que vos lem- 
breis de meus filhos , porque filhos , netos , 
e bifnetos fois , e ambos pejjoa , e animo 
tendes pêra acquirir efiado. Os Moços , por- 
que o tinham em lugar de pai , vendo que 
òs efpedia de íi , começaram chorar não fa- 
bendo o que delles havia de fer. Finalmen- 
te partidos dalli com a companhia que \\\q 
Manfor Bec dco 3 chegaram aonde íua mãi 
eftava , com a vinda dos quaes concorreo 
logo a família do pai ; e como Iímael ti- 
nha grande efpirito , e mais idade pêra to- 
mar armas , aconfelhado do feu animo , e 
movido da fortuna que o chamava , diffc 
que queria ir vingar a morte de feu pai. 
E depois que fez algumas entradas nos po- 
vos Gorgijs , de que houve viétoria , e come- 
çou ter nome de cavalleiro , não fomente 
fe ajuntou a dle muito povo daquella gen- 
te que feu avô Xeque Juné pedio a Tamor 
Langue , ( como diffemos , ) mas ainda fe 
veio ajuntar com elle hum Capitão das Co- 
marcas chamadas Diarbec com té quatrocen- 
tos 



Década II. Liv. X. Cap. VI. $6$ 

tos de cavallo , o qual havia nome Abedi 
Bee. E no contrato deite adjutorio que vi- 
nha fazer a Ifmael foi , que elíe lhe daria 
huma irmã por mulher/ fe o ajudaííe a vin- 
gar a morte de íèu pai, que ainda não ti- 
nha vingada. Com eílas , e outras ajudas , 
que a fortuna andava trazendo a efte feu 
mimofo que queria fazer fenhor de tantos 
Reynos , como lhe deo , eile fe intitulou 
por Xeque Ifmael herdeiro, defenfor, e ze- 
lador das coufas de Alie , donde elle vi- 
nha y e pêra maior denotação defte feu pro- 
pofito , mandou fazer os verdugos do feu 
carapução muito mais altos. Finalmente dle 
rompeo guerra com Rocem Bec feu primo , 
que então fe intitulava por Rey da Períia, 
e por elle andar em differenças com feus ir- 
mãos a quem reinaria , teve Xeque Ifmael 
melhor maneira pêra , de doze que eram , ma- 
tar os mais delies , e per derradeiro lher fi- 
cou a requeíla com hum chamado Mara 
Bec. O qual vendo que não fe podia de- 
fender defte feu imigo , foi-fe pêra Turquia 
a pedir ajuda ao grão Turco ; e primeiro 
que a houveífe , houve o Xeque Ifmael mui- 
tas viftorias de outros Reys , e Príncipes 
da Períia , e matou em campo hum pode- 
rofo Rey de Tártaros , que veio fobre eile , 
as quaes viótorias fizeram ao Turco temer 
dar ajuda a Mara Bec. E peró que feja hum 
Tom.IL P.xL Gg pou« 



46Ó ÁSIA de João de Barros 

pouco tranfverfal a relação da caufa por- 
que elle teve guerra com efte grande Tár- 
taro, póde-íe íòffrcr, porque fe faiba o que 
a fortuna faz quando começa , e como he 
pródiga com aqueiles de que fe namora. 
Áo tempo que Xeque Ifmael começou efta 
empreza , havia em o Reyno Coraçan , ou 
Horaçon , (como lhe os Parfeos chamam , ) 
hum íley per nome Soltão Hocam Mirzá , 
que em quanto pode favoreceo ao Xeque If- 
mael de maneira , que pola amizade que lhe 
efte Hocen tinha, e obras que lhe fizera Xe- 
que Ifmael , lhe chamava pai. O qual viveo 
quatro annos , depois que elle Xeque Ifmael 
houve vitoria dos filhos deHiacobBec , lei- 
xando dez filhos , hum dos quaes per nome 
Bedeat Hizon Mirza ficou por herdeiro do 
Reyno , em que eíleve pouco tempo , por 
elle, e três irmãos morrerem em huma ba- 
talha , que lhe deo Xabá Han Rey dos Tár- 
taros , que reíídia em a grão Cidade Camar- 
cant. Havida efta vitoria , com que o Tár- 
taro ficou Senhor do Reyno Horaçon , e 
mui gloriofo delia , fabendo como Xeque 
Ifmael era novamente alevantado , e a opi- 
nião que tinha já de íi , efereveo-lhe que | 
leixaífe o Reyno que poíTuia por perten- 
cer a elle , cá fempre os Príncipes de Ca- 
marcant foram fenhores de toda a Periía. 
Dos quaes recados procedeo ? que o Xeque; 

li- 



Década II. Liv. X. Cap. VI. 467 

Ifmael matou eíle Tártaro em hum campo 
junto da Cidade Maró , e do cafco de fua 
cabeça mandou fazer hum vafo guarnecido 
de ouro per que bebia rias feitas : e do 
campo deita vitoria , querendo elle Xeque 
Ifmael ir a Camarcant conquiítar todo o 
eítado do Tártaro , hum Aftrologo , em quem 
elle tinha muito credito , lhe diííe , que em 
nenhuma maneira paffaíTe o rio Geum , que 
divide a Tartaria do Reyno Horaçon ; por- 
que dado que lhe achava alcançar muitas 
vitorias fe o paffaíTe , não achava tornada 
a fua peífoa. Por a qual amoeítaçao Xeque 
Ifmael veio ter os mezes do verão á Ci- 
dade Heric , ou Here Metropoli do Reyno 
Horaçon , a qual eítava aífentada em huma 
comarca mui graciofa , e fértil , por fer re- 
gada per efpaço de trinta léguas de hum 
rio , ao qual por não ter nome próprio , 
que á nofla noticia vieííe, per nome com- 
mum dizem o rio de Heric. E por a fer- 
tilidade delia os Perfas lhe chamam Xar 
Gulzar , que quer dizer Cidade de rofas ; 
porque na verdade por as muitas que nel- 
la ha quando he no tempo , coílumam an- 
darem pelas ruas cargas delias , e alugam 
quantas querem , pêra os mimofos , e vi- 
çofos as lançarem na cama-, e depois as 
tornam a feu dono ; o que também coftu- 
mam em Xiraz huma Cidade junto de Or* 
Gg ii muz, 



468 ÁSIA de JoÃo de Barros 

muz , onde ha muitas. Eftando Xeque If- 
mael nefta Cidade viçofa mais tempo do 
que convinha , foi chamado per Can Ma- 
hamed cunhado feu cafado com outra ília 
irmã , que ellc leixára em Tabriz por Go- 
vernador , fazendo-lhe fiber que alguns Ca- 
pitães do Turco com gente de guerra , com 
titulo de o virem fervir , eram entrados em 
Tabriz ? que fe temia não fer ifto alguma 
induftria do Turco pêra depois lhe vir fa- 
zer guerra, éter nelía alguma ajuda; e que 
legundo nova ellc não poderia' tardar , por- 
que Mara Bec feu imigo que lá andava ; o 
apreffava muito com a nova que tinha de 
elle querer paílar a Tartaria. Com as quaes 
amoellações tornado o Xeque Ifmael a Ta- 
briz , efpedio feu cunhado Can Mahamed 
que fe foífe pêra fuás terras , que eram na 
Comarca Diarbec , que confina com as do 
Turco. E como levava muita gente coftu- 
mada a roubos da guerra , começaram fa- 
zer algumas entradas nas terras do Turco 
Celim , caufa de elle vir com grande exer- 
cito contra Xeque Ifmael , o qual foi re- 
ceber comfelTenta mil de cavallo , em com- 
panhia do qual eram Can Mahamed feu 
cunhado, e Dormis Bec feu fobrinho filho 
do outro feu primeiro cunhado Abedi Bec* 
E como entre eftes dous havia competên- 
cia de privança de quem teria o primeiro 



Década TI. Liv. V. Cai. VI. 469 

lugar acerca do Xeque Ifmael , que he a 
mais perigofa coufa que os Príncipes tem 
derredor de íi , veio o Xeque Ifmael encor- 
rer nefte perigo , em que Jiouvera de per- 
der a vida , e eftado , per efta maneira. Ten- 
do novas que o Turco vinha já mui per- 
to delles , Can Mahamed como era caval- 
leiro , e experimentado no modo de pele- 
jar com os Turcos ? pola vizinhança que 
tinha com elles , diííe ao Xeque Ifmael : 
Senhor , eu conheço efta gente ; e pofto que 
a tua feja mui defira na guerra , e ani- 
mofa pêra commetter maiores exércitos , 
que o de teu imigo , falece-te artilheria , 
de que fe elle muito ajuda , coufa que po- 
de offender d tua gente ; e por ifto não me 
parece que te convém pôr em campo com 
elle , porque como lhe deres tempo pêra aj- 
fentar arraial , ficas mui obrigado a efte 
perigo. Se delle te queres em alguma ma-> 
neira aproveitar , cld-me dez mil de cavai- 
lo 5 e com eftes meus que o já conhecem , irei 
a hum pajjò , que he lugar mui eftreito , 
per onde elle ha de pajjar ; e fe o vencer , 
grão louvor Jer d teu Capitão desbaratar 
tão poderofo exercito \ e quando a fortuna 
me for contraria , não perdes nijjò honra , 
e tua pejjoa não fe põe a perigo de arti- 
lheria. O Xeque Ifmael, como Dormis Bec 
feu fobrinho lhe era mais acecito ? tomou 

aii* 



470 ÁSIA de João DE BaruoS 

ante o feu confelho , que o deite feu cu- 
nhado : o qual Dormis Bec era que défíe 
batalha campal, pois tantas vitorias lhe ti- 
nha dado Deos , e que não era menos po- 
dcrofo o Tártaro Xaba Ham , que o Tur- 
co , pêra a cfperar delle , dando ainda em 
fegredo entender ao Xeque Ifmael fer aquel- 
le confelho de Can Mahamed rodeado pê- 
ra honra fiia , por fe moílrar aos Turcos , 
de que era vizinho , fendo iílo em grão vi- 
tupério de fua peífoa vir de tão longe buk 
car feu imigo , e á hora de pelejar rctra- 
her-fe d iílo. O Xeque Ifmael aífentado neft 
te confelho , leixou vir o Turco té fe af- 
fentar ao pé de huma ferra diante de hum 
campo mui efpaçolb , e difpoílo pêra a gen- 
te de cavallo delle Xeque Ifmael pelejar a 
feu ufo ; e em torno do arraial mandou-fe 
valar, e na fronteria cercar de carretas de 
campo com artilheria , e além delia huma 
groífa cadea de ferro , de fora da qual ef- 
tavam quinze mil efpingardeiros , e diante 
delles huma batalha pêra os Parfeos virem 
travar efcaramuça. O Xeque Ifmael tinha 
aífentado * feu arraial obra de três léguas 
donde o Turco o efperava ; e quando íou^ 
be que eflava mui cercado , e tomara o pé 
da ferra pêra ter as cofias feguras , pareceo- 
lhe que com temor de dar batalha fe fi- 
zera alii forte. E como andava mimofo da 

for- 



Década II. Liv. X. Cap. VI. 471 

fortuna, com muito alvoroço fez fua gen- 
te em três batalhas ^ e tanto que chegou 
a elle com a primeira 5 desbaratou logo a 
que o Turco tinha fora da cadea; e vindo 
com afegunda, anteparou nella, e no am- 
paro das carretas , das quaes começou a ar- 
tilheria fazer tal obra , que ficaram alli a 
maior parte dos Parfeos. Sobre o qual es- 
trago fahio o Turco com o corpo de to- 
da a gente , e veio dar com aquelle ímpe- 
to na terceira batalha , onde eltava o Xe- 
que Ifmael, que vinha em foccorro da fe- 
gunda : e foram eílas batalhas tão pelejadas 
per hum grande efpaço do dia , té que não 
podendo os Parfeos foffrer o poder dos 
Turcos , foram poílos em fugida , e o Tur- 
co por confeguir maior vitoria , os foi fe- 
guindo perto de vinte e cinco léguas. Indo 
o Xeque Ifmael ao fegundo dia nefta cor- 
rida já com mui pouca gente , diíTe-lhe hum 
Alie Soltão homem mancebo , com que íe 
elle creára : Senhor , tu vds em grão peri- 
go \ fe te aprouver , quero-me leixar ficar 
com eftes meus familiares que levo, darei 
azo que me tomem , e direi fer tua pejjòa ; 
porque he certo , que como cuidarem que 
te tem em poder , leixar ao de te Jhguir , 
e afji podes efcapar fem muito trabalho. 
O qual confelho o Xeque Ifmael acceitou , 
e alli o fizeram os Turcos - y e tanto que 

Ai- 



47* ÁSIA de JoXo de Barros 

Alie Soltao foi tomado , moftrando fer Xe- 
que Ifmael , com alvoroço de tão grande 
preza todos paravam alli fem ir mais avan- 
te. O TurCo como Jhe foi nova que o Xe- 
que Ifmael era tomado , ordcnou-fe pêra o 
receber com grande apparato , mandando 
muitos Capitães feus que lho trouxeíTem 
em modo de triunfo. Alie Soltao como 
eíleve ante o Turco , vendo que lhe fazia 
acatamento como ao Xeque Ifmael , que 
elle cuidou que era , diífe-lhe : Quem cui- 
das tu , fenhor , que tens ante ti} Ao que 
o Turco refpondeo : Ao Xeque Ifmael , 
cujafoberba , e douclice efiã debaixo de meu 
poder. Ao que elle refpondeo : Enganado 
ejids comigo , porque Xeque Ifmael efiá tão 
livre , e tão fenhor , como fempre foi \ e 
eu fcu Alie Soltao Mirza o mais pequeno 
efcravo , que elle tem em fua cafa ; e fe 
os teus , que hiam em feu alcanço , fe en- 
ganaram comigo 5 por lhe eu dizer fer o 
Xeque Ifmael , que maior fervi ço lhe po- 
dia eu fazer , que oferecer minha vida 
por filhar a fua ? Quando o Turco fe vio 
aífi zombado, foi tamanha aindinaçao nel- 
le , que íèm mais coniideração o mandou 
logo alli matar , do qual feito lhe pezou 
depois , e affi a todolos Príncipes que cfta- 
vam com dle , e quizeram-o ter vivo não 
fomente pêra lhe dar liberdade, mas ainda 

lhe 



Década II. Liv. X. Cap. VI. 473 

lhe fazer mercê, pois tivera tanta lealdade 
com feu fenhor. Per efta maneira fe falvou 
o Xeque Ifmael , ao qual o Turco não 
leixou de feguir entrando per ília terra té 
Tabriz , a que muitos chamam Tauris , on- 
de foi mui bem recebido d'alguns princi- 
paes , a quem depois Xeque Ifmael man- 
dou cortar a cabeça por tal recebimento. 
E primeiro que o Turco entraífe na Cida- 
de , teve algumas differenças cem os Jani- 
ceros , a quem he concedido faço de qual- 
quer Cidade que tomarem , dizendo elle 
que não havia de confentir que Tabriz fof- 
fe faqueada , por nelía entrar pacificamente 
com folemnidade de recebimento , e mais 
que efperava fazer nella cabeça de todo o 
que conquiftafíe naquellas partes ; que quan- 
to ao que lhe era concedido do faço na en- 
trada das Cidades que tomaíTem , ifío fe 
entendia em as dos Chriftãos , e não dos 
Mouros. Finalmente o negocio chegou a 
concerto, que os moradores deram aosja- 
niceros trezentos mil xarafins , e per elles 
ficou a Cidade livre do roubo. Entrado o 
Turco «nella , não fe deteve mais que vinte 
dias , por fer chamado pelo Governador de 
Conftantinopla com nova que teve , que na 
Chriftandade fe fazia hnma groíTa Armada 
pêra vir fobre ella. Xeque Ifmael tornado 
q Turco , com muita gente veio fobre Ta- 
briz, 



474 ÁSIA de JoXo de Bakros 

briz , onde fez grande eílrago , aíli de Tur- 
cos que alli ficaram em guarnição , como 
nos Parfeos , por fe não defenderem ; e ha- 
via hum anno que ido paíTára , quando Af- 
fonfo d 5 Alboquerque lhe mandou Fernão 
Gomes de Lemos , por razão da qual em- 
baixada fizemos efta tão comprida digres- 
são , por termos menos que dizer nas ou- 
tras , que lhe depois os Governadores en- 
viaram, e alli nos Commentarios da nofla 
Geografia , quando viermos a fallar no cita- 
do que ora tem. 

CAPITULO VIL 

De algumas coufas que Affonfo cV Alboquer- 

que fez em Ormuz : e do rendimento , e 

efiado que tem ejle Reyno : e a def- 

peza que FJRey faz emfua 

pejjòa , e cafa. 

DEfpachado Fernão Gomes de Lemos 
com efta embaixada ao Xeque Ilmael , 
começou AfFonfo d'Alboquerque entender 
no governo da terra 3 e dar preíTa a fe aca- 
bar a fortaleza ; a capitania da qual deo a 
Pêro d'Alboquerque filho de Jorge d'Albo- 
querque , e a Alcaidaria mor a Vafco Fer- 
nandes Coutinho filho de Jorge de Mello , 
e a Feitoria a Manuel d* Acoita de Alcacere 
do Sal. E porque EIRey dos annos paífa- 

dos 



Década II. Liv. X. Cap. VIL 47? 

dos devia huma grande cópia de dinheiro , 
cá não pagava do tributo dos quinze mil xa- 
rafins , que lhe AíFonfo d 5 Aiboquerque poz , 
mais que dez 5 e aliegava que o Vifo-Rey 
D. Francifco d'Aimeida lhe tirara os ou- 
tros cinco 5 como moítrava per lua Provi- 
são feita no tempo que elle AíFonfo d'Al- 
boquerque eítivera em Cananor 5 e a efte 
negocio viera c feu Embaixador Nicoláo 
Ferreira : foi-lhe coufa mui dura pagar efta 
divida , e aílí dar toda artilheria que tinha. 
A qual Affòníb d'Alboquerque lhe houve 5 
"moftrando ter necefíidade delia pêra a pe^ 
na fortaleza , da qual dependia toda a de-* 
fensao da Cidade , por razão de huma no- 
va que viera per muitas vias de Mouros , 
dizendo que de Suez era partida huma grof- 
fa Armada do Soldão , a qual era faífa , lan- 
çada a feu propofito contra nós , e AíFonfo 
<r Alboquerque com ella teve encuberta pê- 
ra per bom modo lhe haver quanta artilhe- 
ria tinha. Raez Nordim Governador , e to- 
dolosOfficiaes da fazenda d'E!Rey ? por el- 
le não ter poder em coufa alguma , e el- 
les com Raez Hamed eram fenhores delia ; 
ante que AíFonfo d'Alboquerque metteíTe a 
mão nas coufas do governo do Reyno , pa- 
recia-lhe que ficavam mais abfolutos minií- 
tros 5 pêra confumirem tudo entre li com a 
morte de Raez Hamed. Porém depois que 

el- 



476 ÁSIA de João de Barros 

ellcs viram que na arrecadação do refto do 
tributo , que EIRcy devia dos annos paf- 
fados, AfFonfo d^Alboquerque pedia razão 
dos rendimentos do Reyno , a propofito de 
elies dizerem que não podia EIRey pagar 
por eíkr pobre , e mais que houvera toda 
a artilheria , e fobre tudo quiz-fe informar 
de todolos rendimentos do Reyno , e def- 
pezas que ElPvey tinha , foram eftas coufas 
para elles huma grave dor, porque lhe pa- 
recia que toda eíta diligencia de AfFonfo 
cTAlboquerque era querer paífar a arreca- 
dação das rendas do Reyno aos officiaes 
que leixava naqueila fortaleza , e pouco , e 
pouco os iriam tirando da poíTe , e ifto fa- 
ziam crer a EIRey , dando-lhe a entender , 
que por máo homem que hum feu Gover- 
nador foíTe , ainda debaixo do feu gover- 
no havia de fer mais fenhor do feu , que 
tendo alli aquella fortaleza, a qual per tem- 
po lhe havia de confumir todo feu eítado , 
e prouveíTe a Deos que não chegaífe a mais. 
E pofto que neftas palavras que diziam a 
EIRcy , moftravam zelar o bem de fua pef- 
foa , eftado , e Fazenda, a verdade era, por- 
que fendo aíli como elles diziam , ficavam 
fora do fenhorio abfoluto que tinham da- 
quelle Reyno , confumindo entre íi todolcs 
rendimentos delle de maneira, que renden- 
do elle paflante de duzentos mil xarafins , .os 

que 



Década II. Liv. X. Cap. VIL 477 

que vinham em arrecadação cios livros d'El- 
Rey 3 além de comerem outros tantos , que 
não vinham aos livros , deites duzentos El- 
Rey tinha a menor parte , e a eíla ainda 
davam fahida per defpezas do Reyno feitas 
á fua vontade. E pois Affonfo d'Alboquer- 
que não fomente tirou eftes Reys de Or- 
muz de cativeiro dos feus Governadores , 
mas ainda os fez fenhores do feu , ante que 
paliemos adiante, convém fazermos huma 
particular relação do eftado do Reyno de 
Ormuz , e feu rendimento ; porque vendo- 
fe a grandeza delle , e a tyrannia dantes, 
e quão pouco tributo Affonfo d 5 Alboquer~ 
que lhe poz , fe veja que EIRey de Ormuz 
em íer vaífallo delRey D. Manuel não re- 
cebeo fujeição , mas amparo , cá fegundo 
eram tratados peraquelles tyrannos de feus 
Governadores , fe elle Affonfo d 5 Alboquer- 
que tardara hum pouco em acudir ao que 
eílava ordenado, não houvera de ficar ne- 
nhum da eítirpe deGordunxá primeiro fun- 
dador daquelle Reyno de Ormuz. Segun- 
do vimos per hum quaderno do rendimen- 
to , e defpeza defte Reyno , a renda delle 
era per duas maneiras : huma per entra- 
da , e fahida das mercadorias da própria 
Cidade Ormuz , e per algumas coufas do 
maneio delia ; e outra renda era das novi- 
dades, tributos, ^impoíios das terras deite 

Rey- 



478 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

Reyno , afli na parte da Arábia , e Perfia , 
como de algumas Ilhas do feu mar dentro 
das portas doeftreito. As da entrada da Ci- 
dade eram da Alfandega , que regularmen- 
te naquelle tempo andava cm cem xarafins , 
que são da nofla moeda trinta contos , e 
as outras da Cidade andavam em quarenta 
e hum mil e trezentos xarafins. As rendas 
que tem nas terras da Arábia , e Perfia são 
deVillas, e Lugares nos portos de mar, e 
alguns dentro pola terra ; e os principaes 
são como cabeça de Almoxarifado , (faltan- 
do pelo noílb ufo , ) aos quaes acodem to- 
dolos outros da fua Comarca , (como diífe- 
mos das tanadarias de Goa , ) e aos Gover- 
nadores deitas principaes cabeças chamam 
elles Guazil , c ao officio Guazilado. O prin- 
cipal dos quaes na coita da Arábia he a 
Villa Calayate, que rende dezenove mil e 
duzentos xarafins , per efta maneira : o mef* 
mo Calayate onze , Mafcate quatro , Soar 
mil e quinhentos , Orfacam outro tanto , Da- 
ba quinhentos , Laços fetecentos , Julfar, 
que he outro Guazilado neíta parte da Ará- 
bia com toda fua Comarca , rende fètc mil 
e quinhentos xarafins : e aqui não entram 
certas barcas de pefearia de aljofre , que fe 
alli pefca , porque são obrigadas ir pagar 
a Ormuz por fer perto , e o que lá pagam 
vai mil e quinhentos xarafins , .e per efta ma- 
nei- 



Década II. Liv. X. Cap. VIL 479 

neira vai o rendimento de toda Arábia vin- 
te e oito mil e duzentos xarafins. E não 
dizemos aqui o rendimento da Villa Cati- 
fe , nem da Ilha Barem pegada com ella 
do interior do eftreito , porque nefte tempo 
andavam rebeladas a EIRcy de Ormuz ? e 
nao era efte rendimento coufa certa , fendo 
mui grofíb. (como adiante veremos em feu 
lugar ? quando fizermos a defcripçao deíle 
eftreito.) Na terra da Períia tem o guazil- 
zado de Minao , onde fe faz huma feira , 
que dura em quanto fe acolhe a tâmara do 
Mogoftão , que são os mezes de Maio té 
Agofto , que rende dous mil e quinhentos 
xarafins. Outro guazilado ha na Villa Mo- 
najam , que he dentro nefte Mogoftão , que 
rende três mil e duzentos xarafins. E o gua- 
zilado da Villa Bafturde , que eftá ao pé da 
ferra no eftremo do Reyno, rende mil xa- 
rafins. As aldeãs Rudore , Baraço , Bia- 
bem , Darduze , Dajayza , e Queringon ? 
que eftá no Mogoftão , quatro mil e duzen- 
tos , e os direitos dos camelos que fe aqui 
vendem , mil e quinhentos. Tem mais os 
portos Cuzte ? que rende trezentos , Chacoa 
fetecentos e cincoenta , e Brainy mil 5 Du- 
cat oitocentos , Agon mil e quinhentos , e 
a eftes dous derradeiros portos vem ter as 
cáfilas da Períia. Per efta maneira rendem 
as terras da Períia dezefeis mil e fetecentos 

xa- 



480 ÁSIA de J0Á0 de Barros 

xarafins , os quaes juntos ao rendimento da 
parte de Arábia, e corpo da Cidade, íbm- 
ma toda a renda deite Reyno cento noven- 
ta e oito mil fetenta e oito xarafins , íem 
aqui entrar o que rendiam as Ilhas que tem , 
porque quaíl tanto gaítão quanto rendem ; 
o qual rendimento era naquelle tempo do 
anno de quinze , c de outros annos atrás , 
que auaíi foram iguaes. A qual renda , por- 
que le íaiba o modo do íèrviço daquelles 
Principes , diremos como fedefpendia, ain- 
da que miúda , e particularmente vá , e ire- 
mos fazendo a conta deitas defpezas per le- 
ques , que he número da mefma terra , e 
xarafins , azar , candil , e dinar que he moe- 
da , por nao fahir dos termos da folha que 
houvemos deitas coufas , tiradas dos livros 
da Fazenda dos Reys de Ormuz. Hum le- 
que contém número de cincoenta xarafins , 
e hum xarafin vai da nofia moeda trezen- 
tos reaes , e dous azares vai hum xarafin , 
e dez candins meio xarafin , e cem dinares 
hum candil. E fazendo conta per eíte nú- 
mero , e moedas , defpendia EIRey cada 
anno emfua cozinha vinte e quatro leques; 
e em cardamomo , areca , e cravo , de que 
fe faziam certos bocados com alguns cor- 
diaes , que elles entre dia coítumam tomar 
pêra as humidades do eítomago , hum le- 
que e meio } e em melões de todo o an- 
no, 



Década II. Liv. X. Cap. VIL 481 

no , outro tanto. Em agua rofada , vinagre 
cie cheiro , e romans , dous leques ; e ao 
barbeiro que lhe fazia a barba cincoenta aza- 
res , e quarenta em pannos , onde vem a 
candea cuberta , quando íe traz pêra íe pôr 
ante EIRey. Em azeite , e cera pêra alu- 
miar , e ferviço da caía 5 leis leques , e qua- 
renta e dous azares ; e outros féis , e três 
azares em cinco tochas , que ardem no Pa- 
ço , e mantimento de outros tantos eícravos , 
que as tem na mão. E de perfumes , e ou- 
tros cheiros dous leques e meio , e oito 
cadins ; e hum leque , e oitenta azares pêra 
algodão , com que enchem os colchões , e 
almofadas ; e em certas ordinárias que xlá 
de açúcar hum leque , e vinte azares j e na 
agua , que fe defpende em fua cafa , e eílre- 
baria , a qual vem da terra firme em bar- 
cas , féis leques. Nos veílidos de fua peííba > 
e algumas cabaias , que dá a Fidalgos , e 
Embaixadores com íeus feitios , cento e dous 
leques ; e hum e meio em vivos das fotas 
que traz na cabeça; e cincoenta azares em 
feitio dos carapuções. E pêra veftido de fuás 
mulheres , mancebas , e efcravas , quinze le- 
ques. Em duas pafcoas que faz o Ritbadao , 
em que dá de comer a certas peíToas ? qua- 
tro leques ; e três em duas feitas na Lua de 
Maio , e Setembro , que fazem os feus Ca- 
cizes ; e vinte leques em certas vezes que 
Tm-ILP.iL Hh El*. 



4S2 ÁSIA de João de Barros 

EIRey vai á caça , onde chamam Turum- 
baque , que he huma ponta da Ilha , na qual 
caça EIRey dá de comer aos que vam com 
elle. Em falcões, açores, e caçadores, que 
tena no Mogoftão , nove leques ; e dous , 
e quatro azares em huma horta que tem , 
onde chamam Broco ; e quinze , que defpen- 
de em cavallos ; e trinta e féis leques em 
cevada para elles , e de alcácer no tempo 
do verde , e hum leque em ferragem ; e ou- 
tro em freios , cabeçadas , fellas commims 
pêra cavalgarem eferavos , que osenfinam; 
e quinze leques em cavallos , que ordinaria- 
mente dá a certos Fidalgos do Mogoftão; 
e dez em mercês a peíToas de cafa , e ou- 
tros dez a mulheres viuvas de feus officiaes , 
e outras pclfoas pobres que pedem á porta , 
cinco leques : e em outras efmolas mais grof- 
ias a Cacizes , e parentes de Mahamed , qua- 
renta e cinco leques \ e em outras efmolas 
pelas almas dos paliados , doze. E quaren- 
ta leques , oitenta e oito azares a quarenta 
c féis Cacizes da fua mefquita , que tem or- 
denado y e três leques , e feífenta azares a 
outros , que de contino eftam rezando por 
o pai defunto. Ao feu Guazil , e Governa- 
dor pêra cinco cavallos que tem , de orde- 
nado cada hum anno cincoenta leques ; e 
dous pêra agua , que o Guazil defpende em 
fua cafa \ e em compra de eferavos dez le- 
ques 5 



Década II. Liv. X. Caf. VIL 483 

quês ; e três que fe gaftam com os Embai- 
xadores , quando chegam ao porto de Ban- 
derAngonj e vinte, que fegaftam em mer- 
cês ordinárias ; e trinta e três em comedias 
de efcravos , eefcravas dos Reys paliados; 
e ás fuás bailadeiras , cinco ; e aos tange- 
dores , que vam diante delle quando caval- 
ga , hum leque , e doze azares ; e ao feu 
ourives hum leque e meio ; e aos ataba- 
leiros 3 que citam no Paço , outro tanto ; e 
a doze homens, que vigiam de noite a gy- 
ros , e ao Guardamór delles , féis leques , e 
fetenta edous azares; e aos tintureiros , cin- 
coenta azares ; e a quatro porteiros , hum le- 
que , e cincoenta e féis azares ; é em repai- 
ro de cafas de pedraria , e geííb , dez le- 
ques ; e á fua maí pêra veílidos , outros dez ; 
e pêra mantenca fua , e de féus parentes 5 
cento quarenta e quatro leques ; e dez a cin- 
co mancebas ; e a féis amas , e peífoas da 
creaçáo de íèus filhos , vinte e três leques ; e 
de ordenado a feus officiaes , e mires , du- 
zentos e cincoenta leques ; e de certas def- 
pezas miúdas , cinco ; e vinte e cinco de 
quitas a rendeiros* E tirada efta defpeza , 
o mais que fobejava fe mettia no thefouro 
delRey ; e fenão foram algumas liberdades , 
que antigamente eram concedidas aos vizi- 
nhos , tivera efte Reyno dobrada renda ; 
porque o Rey da Períia , que então era o 

Hh ii Xe-* 



484 ÁSIA de João de Bakros 

Xeque Ifinael , fua mulher, filhos, e Em- 
baixadores de tudo o que tiraflem , e met- 
teflení cm Ormuz não pagavam direito al- 
gum. E pela melma maneira EIRey de La- 
ra , o de Xiraz , o de Macram , p Xeque de 
Baiçora , o de Gualdel , o de Rexet , nem 
os Portuguezes , depois que alli tivemos for- 
taleza. 

CAPITULO VIII. 

Como AJfonfo cVAlboquerque defpachou 
D. Garcia de Noronha pêra fe vir pêra 
efe Reyno com a carga da efpeciaria : e 
depois de fua partida de Ormuz adoeceo 
Affonfo cVAlboquerque de enfermidade , que 
conveio partir fe pêra a índia : e do que 
fafjòu no caminho té o porto de Goa , on- 
de faleceo. 

AFfonfo d'Alboquerque como vio que 
fe chegava o tempo de ordenar a car- 
ga da efpeciaria , que havia de vir a eftc 
Reyno , e que feu fobrinho D. Garcia de 
Noronha fe queria vir aquelle anno , deo-lhe 
a capitania mór da Armada , e defpachou-o 
que fe foífe pêra Cochij dar aviamento 3 
porque quando as náos defte Reyno che- 
gaflem , eítiveíTe tudo preftes , ao qual deo 
todolos poderes que elle Affonfo d'Albo- 
querque tinha pêra melhor aviamento. E o 
dia que D. Garcia partio per vontade d'Ei- 

Rey 



Década IL Liv. X. Cap. VIII. 48? 

Rey de Ormuz , mandou-lhe metter em a 
fua náo Belém íodolos parentes que alli ti- 
nha cegos com fuás mulheres 5 filhos , e cria- 
dos , os quaes além de fazerem defpeza a 
EIRey , eram caufa de muita torvação na 
terra ; e efcreveo aos Officiaes de Goa 5 que 
lhes deífem cafas , e todo o neceflario á cuf- 
ta da fazenda d'ElRey. Eftes cegos coílu- 
mavam os Reys de Ormuz fazer naquelles 
de fua linhagem , aííi como irmãos , e pa- 
rentes , que podiam herdar o Reyno ; porque 
como todos eftavam naquella Ilha , era efte 
berço tão pequeno pêra crcação de tanto 
Príncipe, que por os ter quiçtos , e fora de 
alguns rebuliços \ de que muitos foram cau- 
fa , não achavam os Reys melhor ifiodo de 
osamanfar, que privallos da viíla com hu- 
ma bacia de arame accendida em fogo po£ 
ta ante os olhos. Partido D. Garcia já no 
fim de Agofto , ficou Aífonfo d' Alboquerque 
acabando de rematar algumas coufas pêra 
fegurança daquella fortaleza , cuidando dle 
que fe podia ainda alli deter mais dias do 
que fe deteve; mas quando veio a quinze de 
Setembro , adoeceo de camarás , as quaes elle 
já trazia do principio de Agofto ; mas como 
era fragueiro , e pouco mimofo de lua pefc 
foa , não fe lançava em cama fenao quando 
mais não podia. E porque a enfermidade 
não era pêra vifitaçoes^ eonze dias apertou 

mui- 



486 ÁSIA de João de Barros 

muito com elle , houve fufpeira que era fal* 
lecido de maneira, que lhe conveio dar hu- 
ma vifta de 11 a quantos o quizcram ir ver. 
E hum dia que fe achou bem , por fegurar 
as coufas daquella Cidade , que eftavam mui 
freícas , e fazendo Deos delle alguma cou- 
fa , podia haver entre os noflòs alguma dif- 
ferença lobre a fuccefsío , mandou chamar 
todolos Capitães , aos quaes propoz o efta- 
do em que eftava , e a enfermidade que ti- 
nha, quão perigofa era nos homens de fua 
idade ; e que olhando elle quanto cumpria 
a fua confeiencia , c ao ferviço d'ElRey feu 
Senhor, queria, cm quanto tinha tempo pê- 
ra iíTò , ordenar huina peífoa , pêra que fe 
o Deos levalfe , opudeíte fueceder naquelle 
cargo que tinha, téElRey feu Senhor nilío 
prover. Por tanto lhe pedia como leaes a 
Deos , e ao ferviço d^ElRey, eftarem por 
a nomeação que elle fizeííe , e confiaífem 
delle queíaberia fazer eíla eleição , pola ex- 
periência que tinha , e tempo em que eíla- 
va , em que os homens não devem mentir a 
Deos , e a feu Rey. E com eftas palavras 
diíle outras , que moveram todos a compai- 
xão , no fim das quaes todos prometteram 
eftar polo que elle fizeíTe , de que mandou fa- 
zer hum auto a Pêro d 5 Alpcem , em que to- 
dos aíhnáram , e em fegredo , (fegundo fe de- 
pois vio,) nomeou a Pêro d'Alboquerque 
s^ feu 



Década II. Liv. X. Cap. VIII. 487 

feu íòbrinho. E porque a enfermidade o tor- 
nou apertar, per confelho de Médicos de- 
terminou de fe partir pêra a índia , dizendo 
que no mar fe havia de achar bem : com a 
qual nova EIRey de Ormuz o veio ver, 
fentindo muito efta fua partida ; porque co- 
mo AíFonfo d ? Alboquerque o tratava como 
filho em amor , e como a Rey em reveren- 
cia , e nas coufas de feu eítado , e ordem de 
fua fazenda trabalhou muito ; quando fe vio 
ante elle começou de chorar , dizendo quão 
defamparado ficava fem fua prefença , e tão 
temerofo de fua vida , por as coufas de Raez 
Hamed , que lhe parecia não poder viver 
muito. Ao que AíFonfo d'Alboquerque re- 
fpondeo , que elíe lhe leixava alli feu fobri- 
nho Pêro d' Alboquerque , o qual o havia de 
guardar , e defender , e procurar por fuás 
coufas, como fe foflem d'EiRey de Portu- 
gal feu Senhor, e outras palavras com que 
o confolou. Efpedido EIRey , dahi a pou- 
cos dias o quizera tornar a ver ; mas AíFon- 
fo d' Alboquerque fe efcufou por fua enfer- 
midade não fer pêra viíí tacão de Príncipes , 
e como quem fe acolhia ao remédio do 
mar, por na terra o apertar muito a doen- 
ça , hum dia pela feita enroladamente fem 
rumor fe embarcou em a náo de Diogo Fer- 
nandes de Beja , por ir já tão aborrecido 
da converfaçao da gente , que entregou a 

fua 



488 ÁSIA de João de Barros 

fua náo Nazareth a feu fobrinho Vicente 
d'Alboqucrque , ao qual mandou que reco- 
lheíTe todolos Fidalgos 3 c criados d'ElRey , 
e lhe déífe a meza que elle coftumava dar. 
E mandou diante a náo Enxobregas , Ca- 
pitão Simão d ? Andrade que foíTe ao porto 
de Calayate tomar huns cavallos que ahi 
mandara comprar pcra guarda das tanadarias 
de Goa , e levou comfigo Aires da Silva ? 
que elle leixava por Capitão mor do mar 
em favor da fortaleza de Ormuz 5 com duas 
caravellas ; e duas galeotas pêra dar huma 
viíla áquella coita de Calayate > onde elle 
fazia fundamento de chegar. EIRey de Or- 
muz como foube fer elle partido polo mo- 
do que foi , houve rumor que o embarca- 
ram morto i e por fer certo diífo , mandou 
duas terradas trás elle cheas de refrefco , e 
nellas Hacem Alie , que o vifitaífe de fua 
parte, pêra fe deíbnganar fe era verdade o 
que fufpeitava ; o qual recado o foi tomar 
na paragem de Calayate em dia que a en- 
fermidade lhe deo algum repoufo. E quan- 
do vio Hacem , por fer muito feu familiar , 
e aíli a lembrança que EIRey tivera de fua 
vifitaçíío , ficou com o prazer diíTo muito 
melhor de maneira , que quando Hacem tor- 
nou a Ormuz , diíTe que hia já são. Peró 
quando paíTou per Calayate , tornou a en- 
fermidade outra vez apertar tanto , que ef- 

pe- 



Década II. Liv. X. Cap. VIII. 489 

pedio Aires da Silva , e não quiz efperar 
por Simão d' Andrade 3 pondo a proa na cof- 
ta da índia 5 na qual volta aquella tarde 
houve viíla de huma nao , a que mandou 
hum bargantim que levava pêra recados que 
lhe trouxeffe o Capitão , Meftre , e Piloto. 
Com os quaes depois que vieram , ficou fó ; 
e porque fentio em Alexandre d' Ataíde lín- 
gua , que tinha fabido deites Mouros algu- 
ma coufa , de que não eítava contente , e 
que podia dar a- elle paixão , deo-lhe jura- 
mento nos Evangelhos que não encubriíTe 
nenhuma coufa das que aquelles Mouros 
diíleífem : então começou de lhe perguntar 
donde vinham , e que novas havia da ín- 
dia. Os quaes refpondêram virem de Dio , 
e que á índia eram chegadas doze náos de 
Portugal 5 e nellas vinha por Capitão mór 
Lopo Soares ; e o que logo mais confirmou 
efta nova ; foram duas cartas que lhe eftes 
Mouros aprefentáram ) dizendo que nellas 
veria fua Senhoria mais certas novas do que 
elles podiam dar, porque huma era de Ci- 
de Alie de Dio leu fervidor , e outra do 
Embaixador do Xeque Ifmael , que citava 
em Cambaya. E na carta de Cide Alie não 
fomente nomeava Lopo Soares por Capitão 
mor , e Governador da Índia , mas ainda 
es Capitães das náos , e das fortalezas , e 
aíTi algumas peífoas notáveis que vinham 

com 



o 



490 ÁSIA de J0Â0 de Barros 

com officios. Affonfo cTAlboquerque lida a 
carta , temendo que eítas novas podiam fa- 
zer alguma mudança no que elle leixava 
ordenado cm Ormuz pêra onde a náo lua , 
tomou-lhe quantas cartas levavam de Dio , 
e pêra iíTo lhe mandou dar juramento , e 
ieo-lhe outras pêra feu fobrinho Pêro d'Al- 
boquerque , dando-lhe aviíb do que devia 
fazer. Eipedidos eíles Mouros com mercê 
que lhe fez , ficou fó com Diogo Fernan- 
des , e Pêro d'Alpocin ; e tornando ler a 
carta de Cide Alie , quando veio a dizer , 
que vinha Lopo Soares por Capitão mor , 
difíe : Lopo Soares por Capitão mór d ín- 
dia ! efte he , e não podia Jer outro ; e Dio- 
go Mendes , e Diogo Pereira , que eu man- 
dei prezos ao Reyno por culpas que tinham , 
EIRey N0JJ0 Senhor os toma cã mandar y 
hum por Capitão , e Feitor de Cochij , e ou- 
tro por Secretario ! tempo he de acolher d 
Igreja , e afjt fico eu mal com EIRey por 
amor dos homens , e mal com os homens 
por amor d^ElRey. E levantando as mãos 
a Deos , diffe que lhe dava muitas graças , 
pois em tal tempo EIRey mandava Capitão 
mór, porque, (fegiindo o eftado em que íe 
elle achava , ) fua vida feria mui breve. E 
com ifto começou tomar huma contínua de 
palavras , dizendo : Tempo he de acolher d 
Igreja \ e quanto goílo tinha de dizer ifto, 

tan- 



Década II. Liv. X. Cap. VIII. 491 

tanto lhe aborrecia comer, etodalas coufas 
de folgar , e prazer , que Diogo Fernan- 
des 5 e Pêro d'Alpoem lhe reprefentavam , 
por lhe verem enfraquecer muito os eípiri- 
tos , aili com a enfermidade , como com as 
novas que lhe deram, efperando elle outras 
coufas de feu galardão. E o que mais o en- 
fraqueceo , foi junto deDabul, onde achou 
huma náo que fora em companhia de Lo- 
po Soares , na qual hia por Capitão , e ar- 
mador hum Joannes Impole , o qual per 
mandado de Lopo Soares hia aDio a ven- 
der mercadoria , e fazer roupa pêra levar a 
Malaca , onde per feu contrato havia de ir 
carregar. O qual Joannes mui particularmen- 
te lhe contou coufas que pêra fua faude fb* 
ram veneno , e pêra a quietação do feu eí- 
pirito mui damnofas ; porque vendo elle as 
que EIRey cá ordenara pêra o governo 
da índia , tão contrárias ao que elle entendia 
que deviam íèr, e do que lhe tinha efcri- 
to , foram para elle huma abbreviação da 
morte. Efpedido Joannes 5 chegou íbbre a 
barra de Dabul já com íinaes delia , onde 
nao fez mais detença que em quanto lhe 
trouxeram huns poucos de figos , rabãos , 
e outras verduras , as quaes fizeram nelle 
pouco alvoroço . por lhe tudo aborrecer, 
e de nenhuma couía tinha mais fede , que 
de chegar a Goa. A qual elle chamava terra 

da 



49- ÁSIA de João de Barros 

da fua promifsao , por a grande efperança 
que femprc teve de lheElRey nella dar al- 
gum galardão de feus ferviços com accref- 
ccntainento de honra : cá em algumas cartas 
que lhe EIRey cfcrevia acerca do conten- 
tamento que tinha das vitorias que lhe Deos 
dava , iílo lhe dava entender. E pofto que 
as novas que elle houve de Lopo Soares 
lhe quebraram o animo defta efperança , ain- 
da confiado na grandeza de léus íèrviços , 
defejava cm extremo ver cartas d'ElRey, 
porque nellas podia ver couía que lhe def- 
lem mais vida , do que a enfermidade pro- 
niettia. Indo aíli com cila agonia do elpiri- 
to , e morte , que já com elle começava li- 
dar , porque Diogo Fernandes , e Pêro d'Al- 
poem viam que muita parte daquelle traba- 
lho cm que eftava , era por não ver em fua 
vida algum galardão de feus ferviços , polo 
aliviar daquella dor do animo ? fizeram com 
elle que efereveífe alguma carta pêra EI- 
Rey , quafi como que niiío em alguma ma- 
neira podia defabafar. O qual, importunado 
deiles , mandou eferever eílas regras , que 
já mal aíTinou : Senhor ; ejla he a derradei- 
ra que com foluços de morte eferevo a Vof- 
fa Alteza , de quantas com efpirito de vi- 
da lhe tenho eferito , pola ter livre da con- 
fusão de fia derradeira hora , e muito con- 
tente na oceupação de feu fervi ço. Nejle 

Rey- 



Década II. Liv. X. Cap. VIII. 493 

Reyno leixei hum filho per nome Braz cPAh 
hoquerque 3 ao qual peço a Vojja Alteza 
que faça grande , como lhe meus fervi ç os 
merecem. Quanto as coufas da índia , ella 
fa liará por Ji , e por mim. Chegado á barra 
de Goa , onde eram todos feus defejos , pa- 
rece que permittio Deos pêra fua falvação 
não fahir em terra : cá não houve mais ef- 
paço que em quanto o Padre Fr. Domingos 
Vigairo geral , que elle já diante per o bar- 
gantim tinha mandado bufear, eíteve com 
elle nas coufas de fua alma , a qual deo a 
Deos da chegada á barra a cinco horas' hum 
Domingo pela manha dezefeis de Dezem- 
bro de quinhentos e quinze , em idade de 
feífenta e três annos. E té aquella hora que 
efpirou , fempre em fuás palavras, e ace- 
nos moílrou eftar em perfeito juizo , e prom- 
pto em Deos , mandando que lhe rezaífem a 
Paixão de Chriflo , de que elle era mui de- 
voto ; e logo naquelle dia foi tirado da náo 
em hum catele cuberto de brocado , e al- 
mofadas pêra a cabeça \ veftido leu corpo 
em hum habito branco da Ordem de Sant- 
iago , de que elle era Commendador , com 
as mais infignias dos Cavalleiros delia. E 
derredor do pefcoço huma beca de veludo, 
e na cabeça fobre huma coifa de ouro , hu- 
ma carapuça de veludo , tendo os olhos 
meios abertos fem aquella fealdade que a 

mor- 



494 ÁSIA de João de Barros 

morre dá; de maneira, que affí morto todos 
lhe tinham aquelle acatamento , e reveren- 
cia que lhe em vida guardavam. Poílo em 
terra , onde já eftava o Capitão da Cidade 
D. Guterre de Monroy com todolos Fidal- 
gos, e gente delia, foi levado o leu corpo 
per elíes com hum pallio que o cubria 5 e 
era tamanho o choro em todos , que os Fra- 
des de S. Francifco , e os Clérigos o não 
puderam encommendar. E como os Gen- 
tios Canarijs da terra neftes calos da morte 
ufam de muitas gentiiidades por pranto , e 
dó , vendo o feu rofto delcuberto com aqucl- 
la honra , e gravidade de íua pelíoa , e al- 
vura da barba , que a idade, e trabalhos 
lhe tinham dado, faziam, e diziam coufas , 
que não havia peflba que fe tiveíle ao cho- 
ro , e principalmente movidos com o pran- 
to de quantas mulheres elle tinha calado. 
Com efte choro, eíentimento foi enterrado 
em huma Capella de N. Senhora , que elle 
mandara fazer na porta da Cidade , a que 
chamam de N. Senhora da Serra , por cau- 
fa da vocação da Cala que fez , poía razão 
que já diflemos , na qual tem MiíTa cotidia- 
na , que hoje fe diz por fua alma , com ren- 
da que pêra iflb lá ordenou. Foi AfFonfo 
d ? Alboquerque filho fegundo de Gonçalo 
d 5 Alboquerque Senhor de Villa-verde, e de 
D. Lianor de Menezes fua mulher, filha de 

D. 



Década II. Liv. X. Cap. VIII. 495- 

D. Álvaro Gonçalves d 5 Ataíde primeiro Con- 
de daAtouguia. Em vida d'ElRey D.Joáo 
o Segundo foi feu Eílribeiro mor : era ho- 
mem de compaflada eftatura , roílo alegre , 
e graciofo ; ao tempo que fe indignava, ti- 
nha hum acatamento trifte , trazia íèmpre a 
barba mui comprida , depois que começou 
mandar gente ; e como era alva , dava-lhe 
grande veneração. Era homem de muitas 
graças , e motes , e em algumas manenco- 
rias leves no tempo do mandar foltava mui- 
tos que davam prazer a quem efíava de fo- 
ra : fallava , e efcrevia muito bem ajudado 
de algumas letras Latinas que tinha. Era 
fagaz , e manhofo em feus negócios , e fa- 
bia enfiar as coulas a feu propofíto : trazia 
grandes anexins de ditos pêra comprazer á 
gente , fegundo os tempos , e qualidade da 
peííoa de cada hum. Era mui rragueiro , e 
rixofo , fe o não comprazia qualquer cou- 
fa: canfava muito os homens no que lhes 
mandava fazer , por ter hum efpirito apref- 
fado : foi de muita efmola, e devoto, no 
enterrar dos mortos elle era o primeiro. Nas 
execuções foi hum pouco apreífado , e não 
mui piedofo , fazia-íe temer muito aos Mou- 
ros , e tinha grandes cautelas pêra delles le- 
var o melhor. Não foi caiado , e porém te- 
ve hum filho natural, a que leixou lua he- 
rança > e nome ; ao qual EiRey D. Manuel 

fez 



496 ÁSIA de João de Barros 

fez mercê de trezentos mil reaes de juro , 
e o cafou com D. Maria filha de D. An- 
tónio de Noronha Efcrivão da Puridade 
cPEIRcy D. Manuel , e filho do Marquez 
de Villa Real D. Pedro -de Menezes , ao 
qual D. António EIRey D.João o Terceiro 
Noííb Senhor fez Conde de Linhares. 



Fim do Livro X. da Década II. 






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DS Barros, João de 

4.11 Da Ásia de João de Barros e 

.7 de Diogo de Couto 

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1778 
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